Não adianta fingir que nada está a acontecer, como os meios de comunicação social e o circo político tentam fazer. Algo mudou, ou melhor, algo confirmou a dura realidade europeia para além das aparências e dos falsos media e representação política. Todos, por vergonha, cinismo e hipocrisia, preferem encobrir para não ter de admitir que, a União Europeia, transformou-se numa união de vassalos. Ou contam uma história, esquecendo a outra. Então, na semana passada, o que aconteceu foi que, Trump, desmascarou a narrativa do rearmamento europeu baseado na crença, já lançada na era de Biden, de uma iminente invasão russa. Ele também marginalizou a UE (e até mesmo a NATO, como veremos adiante) na questão do apoio à Ucrânia. E tudo isso foi possível graças às classes dominantes europeias que, ao invés de se concentrarem nos seus próprios interesses e criar uma força armada europeia, unindo as forças nacionais individuais em uma única organização de defesa ou, pelo menos, flanqueando os exércitos nacionais com uma força europeia, optaram por se entregar a Trump, que agora as tem penduradas pelo pescoço.

Comecemos pela Cimeira da NATO em Haia, na qual assistimos a cenas desconcertantes de servilismo: depois de um ano em que o establishment europeu se dedicou de corpo e alma a dizer-nos o quão mau era Trump, que com ele as Sete Pragas Bíblicas cairiam sobre a Europa e o mundo, agora está ajoelhado aos seus pés. E, Mark Rutte, o padrinho dos Frugal Four, os intransigentes guardiães do orçamento da UE, contra nós, os perdulários do Sul da Europa, tratados como mendigos, e obrigados a apertar os cintos, tanto que desenvolvemos as cinturas de vespa de Émilie Marie Bouchaud, transformou a nova meta de 5% do PIB para a defesa numa celebração, atribuindo o crédito a Trump e agradecendo-lhe por nos ter oferecido esta extraordinária oportunidade de nos empobrecermos.

Na verdade, a meta de 5% do PIB, não é a parte mais importante da declaração final da Cimeira. Os 5% são um compromisso político de cada Estado-membro que pretende adoptá-los; a NATO não obriga ninguém e, de facto, não há sanções ou limitações para aqueles que não podem ou não querem respeitá-los.

Na Cimeira da NATO no País de Gales, em 2014, os membros assumiram o compromisso de investir 2% do PIB em defesa. Dez anos depois, a maior parte dos membros não o atingiram, embora a situação de segurança europeia tenha piorado. Os 3,5% para gastos com armas e 1,5% para gastos relacionados são um objectivo que cada membro atinge de acordo com o seu próprio plano, com a única condição de que seja compatível com o da NATO. Acresce que, os 5% não são o teto máximo, mas uma base para ter, de acordo com os cálculos da NATO, a capacidade de defesa e dissuasão para impedir a Rússia de atacar ou resistir ao primeiro ataque e sustentar o conflito por um determinado período. Esta capacidade deve ser alcançada em 10 anos, até 2035. Até lá estamos nas mãos de nosso Senhor Jesus Cristo, uma vez que, segundo a NATO, a capacidade actual não permite dissuasão, resistência e resposta, excepto com armas nucleares. Por aqui já se percebe o quanto a suposta ameaça russa iminente parece mais adequada a um romance de ficção científica, dado que, perante uma ameaça directa e imediata, não há três ou dez anos para lidar com ela.

Mas é entre o que foi ficou dito e escrito e o que ficou por dizer que está a parte realmente “transformadora” e histórica” da Declaração final.  Na parte escrita, a Rússia é rebaixada a uma ameaça de “longo prazo” e os gastos com a Ucrânia são incluídos no cálculo dos gastos militares dos aliados. Um absurdo, se considerarmos que alocar 3,5% do PIB à Ucrânia, Portugal (e demais países-membros) cumpriria o seu compromisso sem qualquer melhoria na sua defesa, o que revela também uma aceitação implícita de que o apoio a Kiev se tornou uma questão de longo prazo, em vez do prelúdio de uma vitória rápida, como prometido inicialmente.  Já na parte não escrita, ficou praticamente tudo o que caracterizou a NATO até ontem: nada sobre as condenações e sanções contra a Rússia, sobre a “guerra de agressão russa”, sobre o Médio Oriente e as ameaças à segurança global, sobre as relações com a UE, China, países Bálticos, Indo-Pacífico e, acima de tudo, nada sobre a adesão da Ucrânia à NATO.

Esse silêncio é particularmente revelador quando comparado com as cimeiras anteriores, nas quais a adesão da Ucrânia foi apresentada como “irreversível”. E as consequências deste silêncio estão aí para todos verem: a Ucrânia travou uma guerra terrível para se juntar à NATO, mas não se juntará à NATO. Lutou para aderir à UE, mas não há nada que aponte nesse sentido, dada a oposição de Orbán. Lutou para preservar a sua integridade territorial, mas está em vias de ser desmembrada e de perder as suas regiões mais ricas e estratégicas. Lutou para defender a sua soberania e independência, mas está agora sujeita à punição daqueles que, tendo-lhe prometido acabar com a guerra, tentam, agora, lucrar com ela.

Não é paradoxal, portanto, que a UE e os seus Estados-membros continuem determinados a convencer-nos de que Putin inaugurará em breve em Lisboa uma estátua equestre de Alexandre I, mais alta do que a Torre Vasco da Gama?  Sim, porque a guerra já nem sequer está à nossa porta, como alertam Macron e Mark Rutte, mas na nossa própria casa, segundo o Dr. Montenegro, embora se tenha esquecido de nos avisar. E para combatê-la, o Dr. Montenegro conta com um novo aeroporto graças a Donald Trump, muito útil aos nossos soldados para deter os invasores russos entre Cila e Caríbdis.

Brinco para disfarçar o constrangimento, claro. A autoparódia destes autoproclamados mitómanos é tão cómica e trágica ao mesmo tempo que o sarcasmo surge naturalmente. Mas, em suma, o Dr. Montenegro e os outros bajuladores vão primeiro empobrecer-nos fazendo-nos retroceder 200 anos com o rearmamento e depois decidirão calmamente para que serve.

Entretanto, não satisfeitos com a transferência de 5% do PIB para a NATO para agradar a Trump, a UE, fez desaparecer, justamente por medo de Trump, a imposição de um imposto sobre as Big Tech, conhecido como “imposto digital”, que era uma forma de obrigar as grandes empresas de tecnologia, quase todas americanas, a pagar impostos.  Pior ainda: o imposto permanece, mas as empresas americanas estão isentas; caso contrário, Trump imporá tarifas. Em resultado, nenhuma Big Tech americana pagará o imposto (obrigada! De nada!) e as tarifas chegarão de qualquer maneira. É preciso genialidade.

E foi assim que de uma vassalagem a outra chegamos ao envio de novos sistemas militares altamente sofisticados americanos para a Ucrânia pagos na íntegra pela UE. Uma jogada de Trump que subverte a lógica da Aliança e transforma a emergência de guerra num contrato comercial. Além disso, marginaliza completamente a UE na questão do rearmamento e do apoio à Ucrânia. Tem, todavia, o mérito de tornar tudo cristalino: os EUA produzem, a Ucrânia luta, a UE paga. É um ovo de Colombo, todos felizes.

Trump está a defender os seus próprios interesses e os dos Estados Unidos. Assim como a UE está a defender os interesses de Trump e dos Estados Unidos.

Poderíamos muito bem mudar a sede da Comissão Europeia para Washington; pelo menos tudo seria mais honesto.