O iniciar um processo de paz na guerra da Ucrânia está na linha das promessas feitas pelo então candidato Donald Trump, passe o exagero de a terminar em 24 horas. Mas a proposta em cima da mesa para negociações diretas com Vladimir Putin não garantiam à partida a participação plena da Ucrânia, sequer da União Europeia. Os dados preliminares sugeriam mais “ofertas” a Putin e uma tentativa de reaproximação a Moscovo. Como a sugestão de que a Ucrânia abandone a ideia de recuperar as fronteiras pré-2014, a da sua exclusão da adesão à NATO, a pressão para que a Europa assuma sozinha o peso financeiro e militar da defesa ucraniana. Mais: com a Ucrânia a ter de permitir que as riquezas do seu subsolo sejam exploradas pela indústria extrativa norte-americana. Trump sugeriu ainda que a Rússia deveria regressar ao G7, o “clube” dos países mais industrializado do mundo, de onde foi excluída após a invasão da Crimeia, em 2014.

Este acomodar da Rússia, se bem que à custa da Ucrânia e da coesão do Ocidente, pode ser interpretado com o objectivo de “quebrar” a “amizade sem limites” entre Putin e Xi Jinping. Afinal, a grande prioridade norte-americana é há muito a de conter uma China cada vez mais poderosa. E tornada ainda mais após a reação Ocidental à invasão russa da Ucrânia, que empurrou Moscovo para os braços de Pequim.

A história da diplomacia norte-americana está repleta de momentos em que o pragmatismo superou a ideologia. Em 1972, Richard Nixon fez história ao desembarcar em Pequim e apertar a mão de Mao Zedong. Não foi apenas um momento simbólico, fez parte da estratégia para explorar a cisão entre as duas grandes potências comunistas, China e União Soviética, e enfraquecer Moscovo no contexto da Guerra Fria.

Se Nixon jogou para vencer, Trump pode estar a entregar demasiado, demasiado cedo. E sem garantias que a paz encontrada possa ser justa e duradoura. Uma paz justa implica não apenas o fim das hostilidades, é também a do respeito pelo direito internacional, da soberania dos Estados e da responsabilização dos agressores. No entanto, Trump parece estar disposto a abdicar desses princípios…

Estas mudanças criam incerteza na NATO, e reforça o risco de redesenhar uma ordem global onde a Rússia e a China saem fortalecidas.