Na cabeça de um número crescente de pessoas, de cada vez que Donald Trump diz “bom dia”, faz um discurso, anuncia uma decisão, pondera a anexação de um território estrangeiro, ordena uma operação militar num país das Caraíbas ou bebe uma Coca-Cola Zero as reações dividem-se em dois campos firmemente opostos: a direita, com mais ou menos convicção, aplaude; a esquerda, com berros e esgares, critica. Dessa forma, a pouco e pouco, a avaliação da presidência de Trump foi-se adaptando à tradicional caixinha que opõe a esquerda à direita desde a Revolução Francesa.
Mas, de vez em quando, torna-se útil lembrar que Donald Trump não recolhe, de maneira nenhuma, a admiração unânime das muitas direitas americanas. Menos ainda quando decide começar a distribuir tropas, porta-aviões e mísseis por locais aleatórios do globo. Os opositores da nova política externa americana não são apenas hippies com muitas flores e pouco banho, consumidores woke de cappuccino sem lactose e sem glúten, ou cheerleaders de António Guterres.
A recente intervenção militar na Venezuela teve a oposição de três correntes da direita. Em primeiro lugar, o envio de forças especiais para um país estrangeiro deixou em choque os MAGA hardcore que interpretam a frase “America first” como se lá estivesse escrito “America only”. Não admitem nenhum cenário que justifique que algum militar norte-americano abandone as fronteiras do seu abençoado país, mesmo que algures lá fora esteja em curso uma guerra mundial.
Além dos MAGA, Trump desagradou aos neoconservadores. À direita, incrivelmente, também há idealistas — e os neocons acreditam que as Forças Armadas americanas devem ser usadas como uma força do Bem (sim, com maiúscula). Por isso, apoiaram as intervenções de mudança de regime no Iraque e no Afeganistão. Nos seus sonhos, os soldados ianques passeariam eternamente pelo mundo a derrubar ditaduras sombrias e a instalar democracias soalheiras, debaixo dos aplausos dos nativos. O facto de a crença deles ter provocado uma quantidade insuportável das chamadas “forever wars” não os demove. Quando souberam que Trump tinha decidido capturar Nicolás Maduro, primeiro entraram em delírio com a possibilidade de acabar com mais um regime tenebroso, mas depois caíram na depressão quando perceberam que Trump estava apenas a trocar um ditador por outro.
Por fim, Trump incomodou os conservadores clássicos. Eles defendem que os Estados Unidos são, acima de tudo, uma República. Acreditam que essa é a forma de organização política que consegue proteger o país de duas ameaças existenciais que poriam em causa a federação que lhes oferece liberdade e autonomia e evita que os cidadãos sejam oprimidos por um Estado central poderoso. A primeira ameaça existencial seria a transformação dos Estados Unidos numa democracia pura. A eleição do Presidente não segue o princípio “um homem, um voto” e, como se sabe, vários foram eleitos apesar de terem menos votos do que o adversário. Isto porque o sistema eleitoral olha não apenas para os interesses de cada um dos votantes mas também para os interesses de cada um dos estados da federação. Além disso, os conservadores clássicos sempre alertaram que a linha que divide a democracia pura da demagogia populista é ténue, frágil e nebulosa. A segunda ameaça existencial seria a transformação dos Estados Unidos num império. Um império, lembram os conservadores clássicos, exige uma enorme concentração de poder numa pessoa ou numa casta — e isso é o exato contrário do que está previsto e determinado na Constituição dos Estados Unidos. Em 1999, Patrick Buchanan, um dos mais influentes pensadores da direita americana na época, referiu no livro “Uma República, não um Império” a queda dos cinco grandes impérios europeus — o austro-húngaro, o francês, o britânico, o alemão e o russo — e concluiu: “Hoje, os líderes dos Estados Unidos estão a repetir todos os desvarios que levaram essas grandes potências à ruína — desde a arrogância e a soberba, às pretensões de hegemonia global, à sobre-extensão imperial, à proclamação de novas ‘cruzadas’, até à concessão de garantias de guerra a regiões e países onde os americanos nunca combateram antes”.
Hoje, passa-se o mesmo. Em apenas um ano de mandato, Trump já empenhou a força americana no Irão, no Iraque, na Somália, na Nigéria, na Síria, no Iémen e na Venezuela; e já ameaçou fazer o mesmo na Palestina, no Panamá, na Colômbia, em Cuba, no Irão outra vez e, claro, na Gronelândia. Poder-se-ia dizer que, para aumentar os receios dos conservadores clássicos de uma deriva para uma concentração de poder imperial, só falta ter o Presidente a repetir a frase de Luís XIV “L’État c’est moi”. Mas, na realidade, nem isso falta. Numa entrevista recente, os jornalistas do New York Times perguntaram a Trump que limites existem aos seus poderes globais como comandante supremo das mais poderosas forças armadas do mundo e a resposta foi: “A minha própria moral. A minha própria mente. É a única coisa que me pode travar.”
Um conservador clássico — não é um esquerdista, não é um progressista, não é um globalista; é um conservador clássico — ouve isto e fica sem qualquer dúvida de que já aconteceu aquilo que os fundadores dos Estados Unidos mais temiam. A República transformou-se num Império e o Presidente transformou-se num César.
Nota: este sábado é proibido escrever sobre política porque temos uma lei estúpida que coloca uma mordaça na comunicação social sem perceber que Deus já inventou as redes sociais há muito tempo.