Tulipas, mosquitos, elefantes, tempestades, efemerópteros, joaninhas, margaridas, baleias, montanhas, tempestades aparecem, surgem, crescem, repetem bruscamente as suas formas, os seus corpos, as suas sortes, desaparecem. As flores erguem-se, ejaculam, caem. A morte das flores diz-se apoptose – literalmente, queda.
Tão orgulhosa é, distinta de tudo, única, embora capaz de causar profundo dano – a nostalgia. Nem mesmo as águas do Letes – aquela mitológica fonte capaz de apagar, do coração de quem dela bebesse, toda a memória, e de substituí-la pelo consolo e pelo oblívio – têm qualquer poder sobre a nostalgia, como diz Ovídio.
O desejo de voltar a casa, de regressar a uma pessoa, é talvez o sentimento mais violento que a alma humana poderá experimentar. A nostalgia é, acima de tudo, ausência, falta de plenitude, um aperto no estômago, uma constrição no coração. Incómodo físico e profunda tristeza. Eis o que significa a palavra que, parecendo originalmente grega, não o é: na verdade, o termo foi cunhado apenas em 1688 por um estudante de medicina que combinou os termos gregos νόστος (nóstos – regresso), e ἄλγος (álgos – dor).
Curiosamente, a nostalgia pode também ser uma veemente protectora do amor graças ao poder do pensamento, perpétua espera por um abraço ou por um beijo, a que consagramos todos os nossos dias, e para os quais preservamos intactas aquelas partes de nós que aguardam que realmente se consumem. Nunca está verdadeiramente só quem sente saudade de alguém.
Conta-se que, depois de morrer, foi concedido que Protesilau regressasse ao mundo dos vivos para passar um último dia junto da sua mulher. Embora loucamente amasse Laodamia, ele hesitou, pelo menos é o que diz Ovídio. Laevius diz que Protesilau amava de tal modo a vida que, por pudor, temia vivê-la um dia mais.
Catulo diz que Protesilau temia a emoção que o dominaria quando estendesse os braços para Laodamia. Temia que o seu corpo não soubesse já desejar. Temia que, uma vez crescido, o seu pénis não fosse já capaz de deslizar para dentro dela; que, assim que a tivesse penetrado, não fosse já capaz de permanecer erecto dentro dela; que fosse enfim incapaz de oferecer à sua mulher o prazer que ela tão brevemente conhecera nos seus braços. Na verdade, Protesilau partilhara com Laodamia o leito uma única vez apenas, pois na madrugada a seguir ao casamento de ambos, já ele embarcava nos navios gregos rumo a Troia.
Por fim, Protesilau acabou por aceitar a proposta que os deuses lhe faziam. Abandonou o Hades, regressou à terra. Encontrou Laodamia, que lhe abriu os braços. Protesilau segurou-os. A noite é breve. Por um brevíssimo instante, a força de Protesilau regressou até ele. Ela entregou-se na escuridão. Mas, no final da noite, as sombras levaram-no de regresso à trevas eternas. Duas vezes havia Laodamia dormido com Protesilau: uma vez antes de ele partir, outra antes que ele de novo partisse. Daquele homem ela não conheceu senão o adeus.
Durante anos, consentimo-nos a esperança de imaginar o que está ainda por acontecer. E quando acontece (porque, cedo ou tarde, acaba sempre por acontecer, razão pela qual a nostalgia é tão preciosa), há muito que cada instante daquele momento fez de nós feliz morada.
Nem em sonho se pode possuir o tempo que desapossa, escreve Filodemo de Herculano, e o filósofo napolitano prossegue de uma forma ainda mais estranha: não devemos desejar longa vida aos homens, pois a vida longa não é a ‘vida viva’.
O que os homens da Antiguidade e as encostas do Vesúvio chamavam ‘vida viva’ não é o que Rimbaud e as pluviosas florestas das Ardenas chamavam ‘vida verdadeira’. Desta frase grega devida a Filodemo é necessário recordar também que é a força de um vulcão e o poder da sua lava que o preservaram da usura do tempo e da violência religiosa e odiosa dos homens. A vida é uma intensidade, o tempo uma medida.
Pouco importa que uma vida seja longa ou curta, somente os instantes limite de uma presença plena contam. Tal como, no corpo de cada um, apenas conta o íntimo vazio, livre, alerta e trémulo, não o ego, nem a imagem, nem o poder da palavra ensinada por outros.
O outrora é o incrível – e o curso do tempo que o desenrola é desordenado e incerto. Antigamente, os epicuristas de Pompeia, Herculano, Paestum e Capri invocavam este argumento para não adiar uma alegria que fosse.
Carpe diem! Escrevia Horácio de maneira muito ousada enquanto Augusto impunha o seu poder tirânico e inventava o império. Trata-se de pegar numa pequena foice para poder colher um dia na seara do tempo como se fosse uma flor num canteiro da natureza. Corta o dia! Castra a hora! Atreve-te a cortar, por exemplo, este Sábado como se, por exemplo, um bouquet de tulipas. Cada amanhecer antigo lança uma nova luz no espaço. Não há dois amanheceres. Todas as manhãs do mundo são sem regresso. Não há duas noites. Toda a noite é o fundo do espaço em pessoa. Não há duas flores, duas orvalhadas, duas vidas. Em todos os momentos nos devemos dizer: tu! A tudo quanto se aproxima devemos dizer: vem! A vida é um instante único de re-citatio que surge em cada um dos seus pontos, que purifica a sua felicidade em cada ocasião que a renova. Alegria cada vez mais decantada de contrariedades, medos, se não inteiramente da angústia original. Podemos então concentrar a presença, o dia, a flor, o ponto, o corpo, o choro, a alegria.
Existimos à mercê de sensações violentas e intermitentes. A vida humana não é capaz de escapar a conflitos, rupturas ou inconsistências. Os momentos em que tudo se encaixa, os solenes instantes em que a ordem reina, são meros oásis efémeros destinados a ruir como castelos de areia na praia. Transformadas em problemas por nós mesmos, colocamo-nos questões a que nunca seremos capazes de responder, mas que de qualquer maneira não podemos deixar de nos colocar. Vivemos num mundo onde o mal, o sofrimento, a sobranceria e a indiferença estão obsessivamente presentes. A nossa vida não pode escapar à comédia ou à tragédia. A condição humana é vulnerável, porque inescapáveis são as faces da finitude.
Laevius deu à tragédia de Protesilau e Laodamia um título estranho, cuja inscrição é já um abraço – Protesilaodamia. Catulo adorava esta história e Ovídio citava-a sem cessar.
Quem de nós viveu já outra coisa diferente de Protesilau? Quem de nós sentiu já outra coisa diferente de Laodamia? Aquele único dia. Aquela única noite.