Para compreender as dinâmicas dos sistemas partidários europeus contemporâneos, é necessário compreender a assimetria estrutural que está na sua base. Incluo aqui o sistema português o qual, desde as últimas legislativas, se tornou um sistema tripolar. Num sistema tripolar, em vez da dicotomia tradicional entre esquerda e direita, três forças políticas de tamanho parecido competem entre si: a esquerda, a direita mainstream e a direita radical. Este tipo de sistema é, hoje, frequente em muitos países da Europa Ocidental, e baseia-se na existência de duas linhas de clivagem política: a económica e a cultural. Para que os três polos se mantenham como polos independentes estáveis, é necessário que os eleitores continuem a dar muita importância às duas dimensões. E é também necessário que os partidos de polos diferentes se distingam entre si em pelo menos uma dimensão. Caso contrário, um dos polos será progressivamente absorvido por outros e regressaremos a uma política bipolar.
O cientista político Noam Gidron documentou a assimetria estrutural que parece estar na base deste sistema tripolar. Com dados do European Values Survey, comparou a opinião pública de 1990 e de 2017 em dez países europeus. Ainda não há resultados até 2025, mas tudo aponta para que as tendências identificadas por Gidron não só persistam como se tenham reforçado.
Gidron começa por dividir o eleitorado em quatro grupos, de acordo com as suas posições nos assuntos económicos e nos assuntos socioculturais, as duas dimensões clássicas. Os primeiros dois grupos são conhecidos: os progressistas consistentes e os conservadores consistentes. Estes são os grupos que tipificamos mais facilmente na nossa cabeça: os eleitores que são de esquerda na economia e progressistas nos costumes, e os eleitores que são de direita na economia e conservadores nos costumes. Para estes grupos, o voto é uma decisão relativamente fácil, na medida em que as duas dimensões apontam na mesma direcção. Estes são também os eleitores menos maleáveis no seu sentido de voto.
Para além destes dois grupos, Gidron classifica também outros dois grupos: os nacionalistas redistributivos e os cosmopolitas de mercado. Os nacionalistas redistributivos combinam atitudes mais à esquerda na economia com atitudes mais conservadoras nos costumes e outros assuntos culturais, incluindo no tema mais quente, a imigração. Os cosmopolitas de mercado combinam atitudes progressistas e liberais nos costumes com uma posição de direita na economia. Muitos dos eleitores no primeiro grupo votam hoje em partidos de direita radical: em Portugal, uma fatia considerável dos eleitores no Chega veio do Partido Socialista e uma percentagem elevada deste eleitorado auto-identifica-se como sendo “de centro”. Muitos destes eleitores são a favor de políticas de imigração mais restritivas ou de políticas securitárias, ou talvez estejam apenas fartos do “sistema”, mas muitos deles combinam estas opiniões com posições mais intervencionistas e estatais em matérias de economia. O segundo grupo, os adeptos do mercado e da globalização nas suas várias facetas (incluindo o mercado internacional e a migração) engloba o tipo de eleitor que vota, por exemplo, num partido como o de Emmanuel Macron.
Estes dois grupos estão sob “pressões eleitorais cruzadas” (no termo em inglês: cross-pressured), na medida em que não se encaixam tão bem nos partidos clássicos de esquerda e de direita a que nos tínhamos habituado. As suas preferências ideológicas em assuntos económicos e em assuntos socioculturais não apontam necessariamente na mesma direcção.
A primeira observação interessante é que a percentagem de eleitores nestes dois últimos grupos – os nacionalistas redistributivos e os cosmopolitas de mercado – aumentou consideravelmente entre 1990 e 2017: a percentagem de eleitorado cross-pressured aumentou de 17% para 29%, enquanto a percentagem de eleitorado consistente nas duas dimensões reduziu de 48% para 36%. O aumento da saliência e politização dadas aos assuntos da imigração e da integração global, bem como o aumento real de ambas nas últimas décadas, contribuiu sem dúvida para esta alteração.
A segunda observação interessante prende-se com as escolhas eleitorais destes eleitores. Ambos os grupos cruzados tendem a votar em partidos de direita, em vez de se dividirem igualmente entre partidos de esquerda e de direita. Isto significa que, na formulação que dá nome ao título do artigo, há hoje formas muito diferentes de ser de direita, gerando uma assimetria nos sistemas partidários (“Many Ways to be Right”). Os nacionalistas redistributivos, que são mais conservadores nos costumes e na imigração, mas mais à esquerda e intervencionistas na economia, tendem a cair para partidos de direita, porque dão mais importância aos assuntos não-económicos, como a imigração, na hora de votar. Mas os eleitores cosmopolitas de mercado também caem desproporcionalmente para partidos de direita, porque ao contrário dos anteriores, privilegiam os assuntos económicos na hora de votar.
Esta assimetria estrutural reflecte-se na existência do tal espaço tripolar, onde há uma espécie de “divisão do trabalho” entre as diferentes famílias partidárias da direita: os partidos da direita mainstream (democratas-cristãos, liberais, conservadores) captam um certo tipo de eleitores, e os partidos de direita radical atraem um eleitorado diferente e com prioridades diferentes.
No entanto, não se pense que esta assimetria significa uma vitória definitiva e eterna dos partidos de direita. Como sempre em política, quem observa o seu momento histórico e aposta no fim da esquerda ou no fim da direita, como quem apostou no fim da ideologia, enganar-se-á. Os conflitos ideológicos e filosóficos subjacentes aos diferentes campos políticos não dão sinais de acabar ou sequer abrandar. A evolução dinâmica da competição partidária e dos conflitos sociais que constantemente emergem também não.
Os novos padrões levantam desafios e muitas questões interessantes, quer para partidos de esquerda quer para partidos de direita, que terão de lidar com eles. Os desafios estão directamente relacionados com a instabilidade associada a um espaço tripolar e a uma tendência para a re-bipolarização do conflito.
Os partidos de esquerda, para voltarem a ser uma força eleitoral com ambições maioritárias, precisam de expandir o seu eleitorado para além do grupo dos progressistas consistentes. Ou seja, precisam de atrair eleitores que não sejam, a seus olhos, puros – isto é, eleitores com as posições de esquerda em todas as dimensões culturais e económicas. Os partidos de esquerda precisam de diversificar e atrair diferentes tipos de eleitores.
Tal pode acontecer de várias maneiras, mas não será fácil, como mostram as tendências internacionais do momento. Uma possibilidade para os partidos de esquerda é tentar captar ou reconquistar eleitores dos grupos cross-pressured que descrevi, oferecendo novas propostas de políticas públicas, mas acima de tudo oferecendo novos discursos políticos, que enfatizem outras dimensões do conflito político, em vez de adoptar as narrativas actuais – em que a direita sai vencedora – como imutáveis ou inevitáveis. Poderão tentar fazê-lo utilizando uma espécie de especialização em diferentes famílias partidárias, como a direita faz actualmente. Outro modo de o fazer é tentar alterar a saliência dos vários assuntos em jogo na política contemporânea, chamando novos assuntos importantes para população e que actualmente não encontram voz. E, claro, os partidos de esquerda poderão tentar beneficiar de choques e crises inevitáveis, que acontecem recorrentemente, e dos custos de governar, que acabam sempre por erodir a popularidade dos partidos no poder. Ainda assim, creio que não é boa ideia esperar sentados na sombra, sob pena de se arriscarem a que sejam outros os beneficiários da impopularidade futura dos governos do dia.
Os partidos de direita, que por ora estão em cima, têm de prestar atenção a outros desafios. Não devem supor que tudo será fácil daqui para a frente. Durante quanto tempo será possível manter eleitores com preferências tão diferentes, provenientes de três dos quatros quadrantes da tabela, dentro da mesma coligação eleitoral? Será possível satisfazer todos em simultâneo? Se tomarem medidas demasiado liberais/pró-mercado na economia, poderão alienar parte dos eleitores que votaram em partidos de direita em 2025. Da mesma forma, se tomarem medidas demasiado conservadoras e securitárias na imigração, poderão alienar outros eleitores que também votaram em (outros) partidos de direita em 2025. Dito de outra forma, não há 70% de eleitores consistentemente conservadores em Portugal, em todas as dimensões políticas. No entanto, há actualmente 70% de deputados de partidos de direita (de várias famílias partidárias) na Assembleia da República. Durante quanto tempo será possível manter essa representação sem desiludir nem alienar ninguém?
Nos últimos tempos, observo que os vários partidos de direita em Portugal parecem empenhados em esbater as suas diferenças. A Iniciativa Liberal dá saliência à luta contra o wokismo. O PSD tentar domar o Chega, aprovando dossiês de imigração em conjunto. O risco é óbvio: se os três partidos ficarem iguais uns aos outros, deixam de ser todos necessários, e algum será a vítima eleitoral. Se os três partidos se quiserem aglutinar, re-bipolarizarão o novo espaço tripolar, arriscando-se a perder algum do seu novo eleitorado.