Só depois da guerra civil (1861-65) é que os EUA, unidos e focalizados nos mesmos objectivos, delinearam uma autêntica estratégia nacional. Pondo em prática os ensinamentos de, entre outros, Alfred T. Mahan, iniciaram uma política expansionista – nas Caraíbas e no Pacífico, na forma de possessão, protectorado ou influência política – que visava dois objectivos: poderio comercial e poderio militar.
É irrelevante qual dos dois foi atingido primeiro porque entre ambos há uma relação de causa-efeito. Os EUA sabiam que, mais cedo ou mais tarde, seriam uma potência comercial e uma potência militar. Paul Kennedy, no seu livro Ascensão e Queda das Grandes Potências, refere, adequadamente, que “(…) a riqueza é habitualmente necessária para apoiar o poder militar e o poder militar é habitualmente necessário para adquirir e proteger a riqueza”.
Foi durante as presidências de William McKinley (1897-1901) e de Theodore Roosevelt (1901-09) que as políticas de expansão norte-americanas receberam fortes impulsos. Mahan, receando que as restrições da Constituição dos EUA fossem um obstáculo para a expansão, defendeu que os poderes presidenciais não fossem limitados nesse domínio. Assim, no que respeita à estrutura político-organizacional norte-americana, o mais correcto é afirmar que, ao longo da sua história, o poder legislativo foi mais isolacionista do que o poder executivo.
Ora, tendo em conta o discurso – Monsters to Destroy – que John Quincy Adams, então Secretário de Estado, proferiu em 1821, afirmando que “(…) a América não ia ao estrangeiro à procura de destruir monstros (…) porque tal poderia torná-la na ditadora do mundo; e não mais poderia continuar a ser a senhora do seu espírito”, não é descabido dizer que 76 anos mais tarde, estas palavras já tinham sido completamente esquecidas.
Começo por fazer estas notas por causa das referências de Donald Trump às presidências de McKinley e de Roosevelt durante a campanha presidencial, e o que agora tem dito sobre a Gronelândia, o canal do Panamá e o Canadá.
Aqui chegados, é importante dizer duas coisas. Primeiro, quantos Estados soberanos existiam em 1909, quando ocorreram as políticas expansionistas territoriais dos EUA? Segundo, que regras vigoraram entre o século XV até ao fim da Segunda Guerra Mundial? No mundo contemporâneo, criado pelo direito internacional originado pela Carta da Nações Unidas, nem o colonialismo, nem o imperialismo são legais. Adicionalmente, a mesma Carta expressa os princípios fundamentais das relações internacionais, desde a igualdade soberana dos Estados até à proibição do uso da força nas relações internacionais. Aliás, um dos objetivos expressos em seu preâmbulo é precisamente “estabelecer as condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes dos tratados e outras fontes do direito internacional possam ser mantidos”, vinculando todos os membros da ONU. A Rússia de Putin e os EUA de Trump não são excepção.
Numa recente conferência de imprensa, Donald Trump, referindo-se aos EUA e o Canadá, disse que o que separava ambos os países era apenas uma linha artificial. Duas preocupações surgem daqui. Primeiro, Trump não respeita o conceito de soberania. Considera o Canadá um protectorado dos EUA. Como tal, o Canadá não tem direito à independência (isto não é um regresso à lei do mais forte?). Segundo, o mesmo argumento não é válido para Putin? Que fará Trump sobre a Ucrânia quando Putin lhe disser que o que separa a Rússia da Ucrânia é uma linha artificial?
A probabilidade de estarmos a entrar numa nova fase nas relações internacionais é alta, fase essa que terá como factor principal os interesses económicos dos Estados. E se tiverem de escolher, parece-me que os Estados fortes não hesitarão em sacrificar o direito internacional e/ou a soberania estatal.
Embora não me surpreendendo, tenho imensa pena em assistir a esta regressão de valores nos EUA. Porém, tal como já o disse e repito, a democracia na América corre o risco de se transformar numa corporatocracia. As pessoas que gravitam à volta de Donald Trump não acreditam na democracia e apoiam abertamente partidos extremistas com ideias anti-democráticas. Peter Thiel e Elon Musk são apenas dois exemplos. Infelizmente, há mais. Lamento que alguns dos novos monstros também estejam nos EUA. Mas, como já anteriormente afirmei, a democracia também pode acabar por acção dos eleitos para órgãos do Estado.
Independentemente das circunstâncias, a União Europeia não pode continuar a ser tão dependente dos EUA. Quanto mais depressa o fizer, melhor. Será algo positivo para a sua (re)afirmação internacional e estará mais preparada para um mundo com novos monstros.
Os dilemas poderão ser como continuar a defender a liberdade e a democracia e com quem?
Post-Scriptum: Em momento algum questiono a legitimidade da eleição de Donald Trump.