A unidade do corpo político está hoje ameaçada por uma divisão que se tornou quase irreconciliável. Mas essa divisão é apenas o sinal externo de uma doença mais profunda: não é a “polarização” que rompe o país; é a falência das instituições modernas enquanto formas de mediação do comum.

Quando a ordem política deixa de ser percebida como portadora de uma normatividade interna — isto é, como estrutura real de justiça e não como mero procedimento — aquilo que resta não é um pluralismo saudável, mas uma coexistência precária, mantida por equilíbrios técnicos e por dispositivos de contenção.

Uma sociedade pode viver com desacordo; o que não consegue sobreviver é à perda de um horizonte em que o desacordo permaneça inteligível. E é isso que se está a perder: não um consenso sobre políticas públicas, mas um mínimo de forma comum capaz de transformar conflito em deliberação, diferença em continuidade, oposição em adversidade legítima.

O ponto decisivo é este: as instituições modernas foram desenhadas para administrar divergências sem recorrer à unidade substantiva. Em vez de uma ideia positiva de bem comum, ofereceram um conjunto de garantias, direitos e mecanismos procedimentais. Em vez da educação do desejo, ofereceram a retórica da neutralidade — isto é, a tentativa de deslocar a disputa sobre fins para um terreno supostamente neutral, como se fosse possível governar uma comunidade sem formar o que ela ama, sem ordenar o que ela deseja. Em vez de uma hierarquia de bens, ofereceram tolerância regulada.

O problema é que uma comunidade política não se sustenta indefinidamente sobre o negativo — sobre a mera evitação do dano e a gestão do risco — porque chega sempre um momento em que se exige uma decisão sobre fins: sobre segurança e permissividade, pertença e indiferença, autoridade e decomposição, continuidade e ruptura. Quando esse momento chega, o liberalismo é confrontado com o seu próprio limite: ele sabe arbitrar conflitos apenas enquanto estes permanecem dentro do quadro que ele próprio define; mas quando o conflito é sobre o quadro, a neutralidade revela-se impossível, torna-se parte da guerra, e o procedimento passa a funcionar como instrumento de poder.

É por isso que o país se parte, não por excesso de política, mas por falta de instituição verdadeira. Quando a justiça é reduzida a formalidade e o poder já não consegue apresentar-se como legítimo senão por linguagem e ritual, o corpo político perde o seu centro. As instituições continuam a funcionar, mas deixam de persuadir; continuam a impor, mas deixam de comandar; continuam a garantir direitos, mas já não conseguem formar um sentido partilhável da ordem. E nesse vazio de normatividade substancial, aquilo que emerge não é meramente “desinformação” ou “populismo”: é uma luta pela definição do real, isto é, por quem tem o direito de dizer o que é justo, o que é legítimo, e quem pertence ao “povo” enquanto sujeito político.

A divisão que vemos — entre o regime e a sua negação, entre o centro e a ruptura, entre o discurso da responsabilidade e o da vingança — não é causa, é consequência: é o sintoma inevitável de um sistema que já não consegue produzir unidade porque já não consegue produzir crença.

O perigo, portanto, não é apenas eleitoral, nem se esgota na alternância entre nomes. O perigo é ontológico: uma comunidade política não se desfaz quando discorda, mas quando deixa de possuir um princípio comum capaz de transformar o desacordo em forma. E é isso que hoje vacila. A polarização não é a doença; é a febre. A febre revela que o corpo já não consegue integrar a diferença sem produzir hostilidade, porque já não confia nas mediações que deveriam dar inteligibilidade à convivência: partidos, tribunais, imprensa, parlamento — todas as instâncias que antes convertiam conflito em ordem.

Quando essas mediações perdem autoridade moral e se tornam meros dispositivos, o cidadão deixa de reconhecer nelas justiça e começa a ver nelas apenas poder; e quando só há poder, a política deixa de ser deliberação e passa a ser guerra. Nesse ponto, já não se vota para escolher uma direcção: vota-se para impedir que o inimigo exista. E uma democracia que chega aí pode manter rituais, pode manter formalidades, pode manter até a linguagem dos direitos; mas já não mantém o essencial — a possibilidade de um povo continuar a ser um povo. Porque quando as instituições deixam de mediar o bem, resta-lhes apenas gerir o conflito. E, mais cedo ou mais tarde, o conflito engole-as.