Tem-se tornado comum, no debate público português, explicar o crescimento eleitoral do Chega como resultado de falta de escolaridade ou ignorância dos seus eleitores. Essa explicação, contudo, assenta num pressuposto frágil: a ideia de que a escolaridade fornece, por si só, discernimento moral e político. À luz de uma análise mais rigorosa, essa tese revela-se inadequada para compreender o fenómeno em causa.
O voto é, antes de mais, um acto de discernimento, não um exame de conhecimentos técnicos. Votar implica hierarquizar bens, identificar males prioritários, escolher entre concepções concorrentes, que assumidamente ou não, contêm uma visão do bem. Ora, os factos não se ordenam sozinhos. Para haver relação e ordem, entre eles, é necessária uma medida do bem, isto é, um critério que permita distinguir o melhor do pior, o aceitável do inaceitável, o fim que merece ser perseguido daquele que deve ser rejeitado.
Importa, aliás, reconhecer que uma sociedade pode ser simultaneamente altamente escolarizada e profundamente imoral. A história recente mostra que o aumento do nível de instrução não elimina a possibilidade de injustiça, abuso ou desorientação moral; muitas vezes, apenas os torna mais sofisticados. A inteligência, desacompanhada de uma medida objectiva do bem, não governa o desejo — limita-se a servi-lo com maior eficiência. Assim, longe de impedir o mal, a educação puramente técnica pode ampliá-lo, fornecendo meios mais eficazes para fins que nunca foram moralmente interrogados. Onde falta uma hierarquia substantiva de bens, o saber não ordena a acção: apenas a executa com maior competência.
A escolaridade moderna, porém, não fornece essa medida. Quando muito, oferece limites negativos: não discriminar, não excluir, não causar dano. Trata-se de uma ética de contenção, não de orientação. Ela é eficaz a impedir certos excessos, mas é estruturalmente incapaz de ordenar a acção política segundo fins substantivos. Ensina-se o que não deve ser feito, mas evita-se dizer o que vale a pena defender ou sacrificar.
O problema é que a acção política — e o voto em particular — não se esgota na evitação do mal. Votar exige escolher entre bens concorrentes: ordem ou permissividade, segurança ou risco, concepções rivais do bem comum, autoridade ou proceduralismo. Essas escolhas não decorrem automaticamente do nível de escolaridade, porque dependem de uma concepção ontológica, moral e teleológica do bem. Dependem, em última instância, do reconhecimento de que há bens melhores e piores, e não apenas preferências diferentes.
Quando o discurso dominante recusa reconhecer hierarquias substantivas do bem, transforma inevitavelmente o desacordo político em patologia social. Se não há bens objetivos a disputar, então quem discorda só pode fazê-lo por ignorância, medo ou ressentimento. Assim, o eleitor do Chega deixa de ser um agente moral que julga diferentemente e passa a ser um problema a explicar — ou a corrigir — pedagogicamente.
Este movimento revela um erro categorial profundo: tratar um conflito da ordem dos valores como se fosse um erro factual. Muitos eleitores do Chega conhecem os factos básicos do debate público; simplesmente não aceitam a hierarquia de bens implícita no consenso liberal-progressista. Discordam não por desconhecimento, mas porque percepcionam uma ausência de ordem inteligível, uma injustiça não reconhecida ou um colapso do bem comum que as elites políticas e educativas se recusam a nomear.
Nesse sentido, o voto no Chega não decorre primariamente de ignorância, mas de um vazio normativo. Quando a educação e o discurso institucional:
recusam afirmar bens positivos,
se limitam a interdições abstractas,
e deslegitimam certas preocupações morais como “atrasadas”,
abrem espaço para forças políticas que prometem restabelecer distinção, hierarquia e ordem, ainda que o façam de modo imperfeito, retórico ou mesmo problemático — um modo que considero politicamente e moralmente problemático.
Reduzir esse voto à falta de escolaridade é, portanto, não apenas empiricamente frágil, mas filosoficamente incoerente. Revela a dificuldade das elites escolarizadas em reconhecer que a educação, desacompanhada de uma medida objectiva do bem, não forma o juízo político, apenas transmite competências. E quando essas elites perdem a capacidade de oferecer uma orientação moral convincente, perdem também o monopólio da definição do bem comum — e há sempre um, quer se assuma, ou não.
Em suma, uma sociedade pode ser altamente escolarizada e politicamente desorientada. O crescimento do voto no Chega deve ser compreendido menos como um falhanço cognitivo dos eleitores e mais como um sintoma de conflito profundo sobre os critérios do bem, conflito esse que a explicação da “ignorância” tenta evitar, mas não resolve.