Na segunda-feira passada, como outros aficionados, esperei o novo livro de Herberto Helder. A Morte Sem Mestre (Porto Editora), com uma capa a imitar papel de embrulho, trazia um CD onde o autor lê alguns dos seus poemas. Reconheci a voz de gravações antigas, agora carregada pela idade.

Eu queria dizer que este é o maior livro publicado em português em 2014. Mas tenho de falar de outra coisa, porque a pátria tem agora um problema com Herberto Helder. Explico: A Morte Sem Mestre, como todas ou quase todas as colecções de versos do autor, terá apenas uma única edição, com tiragem limitada. É essa a vontade de Herberto Helder. Por isso, o livro quase que já saiu esgotado.

Ora, a pátria, que durante anos ignorou o “poeta obscuro”, sentiu agora, mal soube que não o pode adquirir quando lhe apetecer, um direito quase constitucional a dispor de livros de Herberto Helder.

O jornalismo progressista deu logo o devido eco à indignação. Noutros tempos, poderíamos esperar alguma simpatia por um escritor que recusa “vender”, tal como recusa prémios ou entrevistas. Desta vez, porém, ninguém se comoveu. O progressismo nacional quer “comprar”, e portanto exige que Herberto Helder “venda”. E como não vende, ei-lo acusado de colaborar numa austeridade poética que prejudica o povo e só beneficia os colecionadores. Uma espécie de Alexandre Soares dos Santos da poesia.

Antes que Vasco Lourenço explique que não foi para isto que fez o 25 de Abril, gostaria de expor à nação um plano para tornar efectivo o direito de cada cidadão a um exemplar dos livros de Herberto Helder. E descansem, não passa pela instituição burguesa da encomenda, nem pela acção fascista de ir cedo à livraria.

A muita gente terá ocorrido a possibilidade de nacionalizar a obra de Herberto Helder. Depois desse 11 de Março poético, cada nova publicação sua passaria a ter as tiragens e as reedições decididas pelo Tribunal Constitucional. É boa ideia, mas tem um senão: Herberto Helder recusar-se-ia provavelmente a publicar mais livros. Seria então necessário passar a uma fase superior de controle, com inspeções periódicas da ASAE às gavetas do poeta, de modo a restituir à nação qualquer verso que ele nos procurasse sonegar. Ora bem, e se, nessas circunstâncias, Herberto Helder deixasse de escrever? Restava-nos a coacção. Acontece porém que, devido à traição do 25 de Novembro, ainda não estamos na Coreia do Norte.

Por isso, vale a pena considerar este plano alternativo, e que resumo desde já: a substituição de Herberto Helder por Manuel Alegre. Têm quase a mesma idade, e, a crer nas fotografias conhecidas de Herberto Helder, a mesma barba poética. Bastaria, portanto, decretar que, a partir de agora, Manuel Alegre passa a publicar com o nome de Herberto Helder. Os livros deste novo Herberto Helder teriam, claro, tantas reedições quantas as necessárias para satisfazer o legítimo direito de cada português de adquirir um livro de Herberto Helder. Este plano não só erradicaria o racionamento dos livros de Herberto Helder, mas daria à sua poesia o cunho apropriados para ser recitada em saraus ou manifestações progressistas. Dir-me-ão: e se Manuel Alegre não aceitar ser Herberto Helder? Bem, eu, se fosse Manuel Alegre, aceitaria.