Herberto Helder

Aprender a ler com Herberto Helder

Autor
261

No poema que começa “a minha cabeça estremece com todo o esquecimento”, há este verso: “eu quero dizer como tudo é outra coisa”. É isso que importa dizer e ouvir. É isso Herberto Helder.

Não o víamos nas feiras literárias, nem sabíamos o que pensava da guerra no Médio Oriente. Era apenas o maior escritor português em actividade. No fim, passou pelos jornais por causa de não deixar que os seus livros de poesia tivessem mais do que uma edição. Mas não é disso que importa falar. No ano passado, fechou A Morte sem Mestre com um poema sobre uma bilha de gás. Começa com o verso “a última bilha de gás durou dois meses e três dias”. É isto poesia? A seguir vem escrito: “com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado”. Só agora é que é poesia?

Não me perguntem sobre o que é o poema da bilha de gás. Sobretudo, não me façam falar de metáforas. A poesia, antigamente, queria dizer alguma coisa. Era circunstancial. Faziam-se versos para ocasiões. Em Inglaterra, ainda existem os poetas laureados. Isso implicava que os poemas tivessem sempre uma referência, uma explicação: o sentimento tinha sido sentido, o céu era azul porque era azul, tinha havido um problema com o gás. A crítica universitária, depois, descobriu outra maneira de falar de poesia: a intertextualidade. O que interessava agora era a rede de palavras, como o amor, o sangue, a morte, que liga um poema aos outros poemas. Como se a poesia fosse sobretudo citação de poesia, o que faria da bilha de gás de Herberto Helder uma reencarnação gasosa da prosaica galinha de Camões (“Sete galinhas e meia/prometeu o senhor de Cascais…”). Compreender Herberto Helder seria, deste ponto de vista, situá-lo no cânone, filiá-lo, compará-lo, contrapô-lo.

O resultado de todas estas tentativas de compreender a poesia foi uma certa maneira de fazer poesia, de modo que toda a poesia portuguesa de hoje, com duas ou três excepções (uma delas, para ter nome, é Adília Lopes), parece escrita pelo mesmo autor: escrever poesia é escrever à maneira de um poeta. Herberto Hélder não é isso. A prova é a bilha de gás. Há aqui uma desenvoltura a que nenhum poeta de doutoramento se atreveria.

No fundo, sempre quisemos que a poesia documentasse alguma coisa. O último poema de A Morte sem Mestre (e depois dos Poemas Completos, de Outubro de 2014) pode ser lido como um poema dos dias de hoje. Autor de 84 anos, num país envelhecido, em crise, a meditar sobre a morte e o preço da bilha de gás. Em suma, um documento. Ou pode ser lido como parte da obra de Herberto Helder, mais um capítulo da sua poética, ou seja, um outro tipo de documento – desta vez literário. Ou – e deixem-me sugerir isso — pode ainda ser lido como uma série de frases que, seja sobre o que forem, nos fazem pensar nelas próprias, e perguntar “o que é que isto quer dizer?”, ao contrário do que acontece com quase tudo o que ouvimos e lemos, e que partimos do princípio de que já sabemos. O que é isso da bilha de gás?

Deixo para outros a tarefa de recordar que ele um dia parece ter acreditado numa alquimia das palavras, e que isso terá tido que ver com uma época (anos 1960, descoberta da “linguagem”, etc.). Vou apenas dizer que, no fundo, a poesia, ao nível praticado por Herberto Helder, é aquilo que lemos devagar e ouvimos com atenção, e nunca em diagonal, como lemos o artigo do jornal, ou intermitentemente, como ouvimos o discurso ou o nosso amigo. O que é que distingue a poesia da artigo do jornal, do discurso, da piada de café? Noutros tempos, havia a estrutura, as regras, que convidavam à apreciação do engenho. Agora há ainda a página, a arrumação em versos. Mas é outra coisa: o valor desmedido que subitamente têm as palavras, a dicção, uma bilha de gás… Mas esta poesia abre-nos ainda outra hipótese: ler tudo como poesia. Porque é que o discurso ou o editorial não podem ser ouvidos e lidos como versos de Herberto Hélder? Isto é, com estranheza e infinita atenção. Devíamos talvez aprender novamente a ler com Herberto Helder.

Nesse grande poema que começa “a minha cabeça estremece com todo o esquecimento”, há este verso: “eu quero dizer como tudo é outra coisa”. É isso. É isso que importa dizer, é isso que importa ouvir. É isso a poesia, é isso Herberto Helder.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
PSD

Quando o Papa não é católico /premium

Rui Ramos
267

Para o PSD, a exclusão do PCP e do BE é a grande prioridade nacional. Mas para isso, é indiferente votar PSD ou PS. Como explicaram os quadros do BCP, uma maioria absoluta do PS também serve.

Rui Rio

Dr. Rio, deixe o PS em paz /premium

Rui Ramos
260

Rui Rio ainda quer fazer reformas estruturais com o PS. Mas porque é que o PS haveria de se comprometer em reformas com a direita? Para dar espaço a movimentos à sua esquerda? 

ADSE

As guerras da saúde fazem sentido? /premium

Rui Ramos
346

Na cínica “ideologia do SNS” não temos qualquer preocupação com a saúde pública, mas um projecto de domínio da sociedade pelo poder político e ainda um cálculo eleitoral partidário. 

Poesia

Herberto Helder, o poeta

Paulo Tunhas

A poesia não deixa as palavras intactas, ou quando as deixa é má poesia ou poesia nenhuma. E certamente que a poesia de Herberto Helder, sendo grande poesia, nada deixa intacto.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)