Venho coleccionando retratos de mulheres angolanas, fotografadas por soldados portugueses, durante a Guerra Colonial. Estas pequenas chapas encontram-se hoje à venda em feiras de antiguidades, alfarrabistas e leilões, a todos os preços. Procuram-nas coleccionadores, historiadores, pessoas que estiveram em África, e pessoas como eu, que não sabem bem por que as procuram e acumulam. Compro-as para as roubar ao comércio, na esperança de conseguir escutá-las e de lhes dar descanso. Impressiona-me pensar que as fotografias fixam estas mulheres ao longo de décadas, qualquer dia um século, sem que cheguemos a perceber o que nos têm a dizer. Prolongam o seu cativeiro, sem que tenham dado azo a uma defesa. Fazer estilo perante a sua mensagem indecifrável chega a parecer, como perante o anacronismo destes encontros, indecente. Procurar neles uma aparição da beleza também nos deixa embaraçados com os modos da história, e os nossos modos vergonhosos.
Eis uma parte de uma história que ninguém nos contou. Não uma história que vivemos, mas uma que não soubemos ter chegado a viver. E aí, o espírito das raparigas nuas, a quem alguém fez o retrato, ora posando pela primeira vez, ora apavoradas com o que parece um súbito roubo, nos faz olhar de frente o pouco que sabemos sobre a história de um país. Que saberemos sobre isso, enquanto não as soubermos escutar? E se, em vez de tentar ouvi-las, tentarmos, de propósito, coibir-nos de o fazer?
Gostaria de as ouvir, de saber delas, deixando de lado o novelo de ninharias a que chamo a minha voz. Perante elas, todavia, adquiro a noção imediata de como esse novelo e essa voz são um atestado do mais completo desamparo. Por mais que as observe e as indague — não falam. Ouço a chuva lá fora, cá dentro apenas eu de volta do novelo de farrapos que é estar comigo.
Lado a lado, uma fotografia da minha mãe aos quinze anos, no Lubango, e um dos retratos que trouxe da feira. Tenho idade para ser filha ou neta destas mulheres: uma delas podia ser minha mãe ou minha avó. Olho as raparigas nuas, como se fosse o meu espírito e não o seu que é roubado ao contemplá-las. Revelam-me viva. Percebo-me como um tropeção no seu caminho, análogo ao tropeção até chegar ao que eu gostaria de conseguir dizer por elas. O estilo é a mãe da mulher. Podendo ser outras, somos estas. Vejo que o nosso estilo remonta à nossa ocupação do mundo e que ser mulher depende de deixarmos que a nossa cabeça seja salva pelos outros.
O problema é eu continuar a ser esse novelo, por mais que me pareça com todas as retratadas. Hoje o novelo não apenas me atrapalha, como me separa irremediavelmente de as ouvir. Porém, ao fazê-lo, ensina-me alguma coisa: que, para as escutar, tenho de sair de mim, depois de em mim ter entrado, como se tivesse de dar lugar não a outra pessoa, mas a pessoa nenhuma. Tentando traçar a condição de uma entrada nesse gineceu, sou chamada a confrontar-me com a minha sorte e com a falta de sentido de tudo. Vejo que estou como o soldado com que posa uma delas, apertando-lhe a mama esquerda, que sou apenas mais uma carteirista no seu caminho.
A troco de dez euros, trago para casa uma rapariga sem nome, meio nua. Pergunto a mim mesma quem sou eu para falar-lhe, que me é ela. A dúvida não é saber como poderia ela salvar-me, mas saber como pode a cristalização do desejo ser o último estádio de um império caído, o último estádio da política. E então, diante do embaraço, guardo os retratos na caixa: em vez do egoísmo, lançar uma semente no projecto de salvar a Terra.