Vamos a eleições! Muito se fala da abstenção dos eleitores, mas pouco se discute uma outra abstenção, talvez ainda mais preocupante: a abstenção participativa das elites académicas, profissionais e intelectuais. Estes grupos, que pela sua formação e experiência poderiam contribuir decisivamente para uma sociedade mais justa e um país mais dinâmico, têm progressivamente abandonado a arena política. E esta deserção contribui, por sua vez, para a abstenção dos eleitores, pois retira do debate político o rigor, a profundidade e a credibilidade necessários para mobilizar a sociedade civil.

A primeira forma de abstenção é a mais evidente: a daqueles que, por desinteresse, desalento ou descrença, optam por não exercer o seu direito de voto. Um direito conquistado com lutas e sacrifícios ao longo da história e que, paradoxalmente, muitos ignoram. Cada voto não depositado nas urnas é uma oportunidade perdida de influenciar o rumo do país, deixando que outros decidam por nós. Quando a maioria se abstém, os resultados deixam de refletir a vontade coletiva e passam a ser determinados por uma minoria ativa, que pode não representar verdadeiramente o interesse geral.

A segunda forma de abstenção é mais subtil, mas não menos prejudicial: a das elites académicas, profissionais e intelectuais que, apesar do seu conhecimento e experiência, evitam envolver-se ativamente no debate e na decisão política. No livro A República, Platão argumenta que “a punição maior para aqueles que se recusam a governar é serem governados por inferiores”. Esta advertência permanece atual: a deserção dos mais preparados do debate público permite que a política fique refém de interesses imediatistas e lógicas partidárias fechadas sobre si mesmas.

A falta de militância dos mais qualificados é um problema real. A maioria das elites intelectuais e profissionais só se envolve politicamente quando tem interesse direto num cargo, deixando o espaço aberto para aqueles que fazem da política um fim em si mesmo. Como resultado, os partidos transformam-se em máquinas de aniquilação para quem tenta participar sem fazer parte das suas estruturas. Oportunistas medíocres e caciques locais ocupam posições intermédias nos aparelhos partidários e no Estado, numa ânsia de poder que os leva a tornarem-se capatazes regionais dentro das estruturas partidárias. Estes indivíduos utilizam a sua posição para desincentivar a entrada de quem seja mais competente e inovador, perpetuando o ciclo vicioso de mediocridade e afastando da política aqueles que poderiam trazer valor ao debate e à governança do país.

Tem que haver um modelo de recrutamento mais inclusivo para as elites dentro dos partidos. Em vez de apenas disputarem cargos políticos de topo, estas elites deveriam ser incentivadas a envolver-se em militância de base, participando ativamente nas estruturas locais e nos debates internos dos partidos. Isto permitiria influenciar positivamente as decisões partidárias, servindo ao mesmo tempo como base de recrutamento para futuras lideranças. O envolvimento sustentado e estruturado dessas elites na militância de base ajudaria a trazer mais competência e conhecimento para a esfera política, garantindo que os partidos não se tornem meras plataformas para carreiristas.

Platão dizia que “uma cidade não será bem governada até que os reis se tornem filósofos, ou os filósofos se tornem reis”. Se queremos um Portugal mais dinâmico economicamente e mais justo socialmente, é urgente que ambas as formas de abstenção sejam combatidas. O voto é um dever cívico e um instrumento de mudança, mas a participação ativa na construção do debate público é igualmente indispensável.

As eleições legislativas de 2025 não são apenas um momento de escolha entre partidos e programas políticos. São uma oportunidade para reafirmarmos a importância do compromisso democrático e para garantirmos que o futuro de Portugal seja decidido por todos, e não apenas por aqueles que escolheram não se calar. A abstenção é um luxo que não podemos mais permitir-nos.