À medida que avançamos em 2025, o Tesouro dos EUA enfrenta a dantesca tarefa de refinanciar aproximadamente 9 mil milhões de dólares em 10-Year Treasury Bonds. Se atendermos à dimensão e importância que esta dívida tem no funcionamento dos Estados Unidos da América (EUA), torna-se incontornável que esta situação não lembre a crise da dívida soberana da zona euro de 2009 em diante. Resta agora saber se todos retiramos as valiosas lições sobre os riscos associados a altos níveis de dívida soberana que esta nos trouxe.

Não há quem não recorde o impacto que anos – se não décadas – de défices financeiros trouxeram ao sul da Europa. Montantes de dívida de grande dimensão foram, num período de grande dificuldade no financiamento dos Estados, o gatilho para a necessidade de assistência externa para vários países que, simplesmente, não encontravam quem os financiasse. Recordamos esse período negro para países como Portugal, Grécia, Espanha, entre outros, e guardamos, na política das “contas certas”, os perigos da dívida excessiva e a importância da confiança dos investidores.

Mas serão estas lições universais?

Ainda que consideradas com a distância que tempo, dimensão dos intervenientes e circunstâncias económicas mundiais exigem, podemos notar que os EUA se encontram agora numa situação um pouco semelhante. Com milhares de milhões de dólares em títulos do Tesouro a atingir a maturidade, os riscos são altos, sobretudo se consideradas as taxas de juro que o mercado agora exige para voltar a financiar o país.

No entanto, existem diferenças cruciais entre a situação atual dos EUA e a crise que a zona euro enfrentou a partir de 2009. A economia dos EUA é ainda a de uma potência global, com grande influência comercial, diplomática e, não menos importante, militar, proporcionando esta posição as ferramentas e flexibilidade necessárias para se gerir com eficiência um montante substancial de dívida. Mais, ao contrário daquilo que ocorreu com os países da zona euro, os EUA controlam a sua própria moeda, o que permite um uso mais eficaz da política monetária como arma.

Apesar dessas óbvias vantagens, os EUA terão ainda de navegar por águas perigosas. As taxas de juros encontram-se agora em valores muito superiores àqueles que se verificavam aquando da emissão das Obrigações que agora se refinanciam (estando ainda em ascensão) o que aumenta o custo de serviço da dívida, potencialmente levando à necessidade de ainda mais dívida para pagar a já existente. Em cima disto, deve notar-se que se os investidores perderem confiança na capacidade de gestão da administração americana, isso conduzirá necessariamente a taxas de juro mais altas, como forma de compensar o maior risco e menor apetite por tais ativos.

Para esta complexa situação económica não tem contribuído as recentes tarifas impostas pela administração Trump que tiveram como reação a venda em mercado de 50 mil milhões de dólares em Obrigações até aí detidas pela China (o principal visado na política de tarifas) o que fez despoletar a taxa de juro, que se encontrava em queda, para mais de 4% em horas.

Ora, num cenário que envolve milhares de milhões de dólares, mesmo pequenas mudanças nas taxas de juros podem ter implicações orçamentárias significativas, o que requer uma gestão cuidadosa da dívida por forma a garantir que as yields das Obrigações do Tesouro não disparam, como aconteceu. Veja-se que tal ponto é de tanta importância que podemos até questionar se não foi este um dos fatores que facilitou o esfriamento da política de tarifas por um período de 90 dias decidido recentemente.

Embora seja esta última uma mera hipótese, é conveniente não descurar que a situação não é para experimentalismos, e exige políticas pensadas e prudentes tanto para dentro como para fora.

Não esquecemos o cenário das crises da zona euro em países como Portugal ou Grécia e nem queremos imaginar o cenário que decorreria de uma situação semelhante num país com a importância dos EUA.