Donald Trump anunciou uma guerra comercial com o Brasil, declarando a imposição de tarifas de 50% ao segundo maior país do hemisfério ocidental. Estas são tarifas bastante mais elevadas que quase todas as outras que também foram anunciadas, por exemplo para a Europa, México e Canadá, apesar dos Estados Unidos terem um excedente comercial com o Brasil. Porquê? O objectivo é simples: tentar salvar a face de Bolsonaro. Se é verdade que algumas empresas norte-americanas poderão beneficiar destas tarifas, outras tantas irão sair tão ou mais prejudicadas (por exemplo, importadores norte-americanos de café, carne, fruta, aço, petróleo e até aviões), pelo que a lógica económica não se coloca. A lógica é mesmo política. De acordo com o próprio, Trump vê as tarifas de 50% ao Brasil como retaliação contra as acções do Supremo Tribunal brasileiro, em particular o processo judicial em curso contra Jair Bolsonaro, bem como algumas das suas decisões contra redes sociais norte-americanas. Será que Trump acha que consegue negociar uma espécie de amnistia ou saída ligeira para Bolsonaro em troca de uma redução destas tarifas? Não sabemos. Até agora não parece estar a resultar. Também não sabemos se a guerra comercial parará por aqui ou se poderá extravasar para outros domínios muito sensíveis, como a atribuição de vistos, especialmente caso Lula da Silva decida não ceder.

No entanto, o estratagema de Donald Trump poderá virar-se contra si próprio e ter várias repercussões que vão contra os seus próprios interesses. Os eleitorados não gostam de se sentir atacados e ninguém gosta de ser um alvo especial de uma guerra comercial por parte de uma potência estrangeira: chamem-lhe nacionalismo, patriotismo, um simples instinto de nos defendermos contra inimigos externos, mas a verdade é que, tal como no Canadá no início do ano, estas guerras comerciais acabam por gerar um efeito de rally around the flag no público doméstico da nação visada. Neste caso, tal efeito acabaria por beneficiar o governo de Lula da Silva, que até agora permanecia com níveis relativamente elevados de impopularidade. Nas últimas semanas, a popularidade de Lula começou a recuperar ligeiramente, inclusive nas sondagens para as presidenciais de 2026. Esta jogada poderá salvar as perspectivas presidenciais de Lula da Silva, que declarou estar a defender os interesses do Brasil e dos brasileiros assim como a soberania das suas instituições. Mesmo que não concordemos com o desenho institucional de algumas instituições brasileiras, elas são perfeitamente legítimas e democráticas.

Por outro lado, as próprias tarifas prejudicam economicamente muitos sectores de produção agrícola e industrial brasileiros que exportam abundantemente para os Estados Unidos. O detalhe tragicómico é que grande parte dos empresários e das regiões brasileiras que sofrerão desproporcionalmente com esta decisão de Trump apoiaram e apoiam Jair Bolsonaro e constituem um elo fundamental da coligação que qualquer candidato de direita necessita para ganhar umas presidenciais no Brasil. No final das contas, e talvez na melhor das hipóteses, esta jogada de Trump poderá acabar por beneficiar a emergência de um candidato de direita alternativo que não Bolsonaro e uma fuga de muitos eleitores do centro e de direita em direcção a outras candidaturas.

Talvez Trump consiga extrair alguma coisa das negociações com o governo Brasileiro, embora os incentivos de Lula não parecem ir nessa direcção. Pelo contrário, os incentivos de Lula parecem ser uma confrontação explícita com Trump. Embora estas tarifas possam ser muito negativas para alguns sectores, a verdade é que a economia brasileira é menos dependente dos EUA do que a mexicana ou a canadiana (o Brasil exporta mais para a China do que para os EUA, por exemplo) e, como apontei em cima, os sectores mais afectados não são particularmente Lulistas. Acresce que todo o público brasileiro identifica as causas desta guerra comercial como vindas de uma aliança Trump-Bolsonaro e não como sendo responsabilidade do governo. Na perspectiva de Lula, um confronto com Donald Trump parece ser visto como um activo eleitoral e ideológico. De qualquer forma, esta guerra comercial e os seus contornos levantam duas questões interessantes.

A primeira prende-se com o papel dos interesses materiais e económicos na política contemporânea. Nos últimos tempos, é comum ouvirmos dizer que a política deixou de estar primordialmente assente em motivações económicas: os eleitores deixaram de votar com base na sua carteira e condições de vida reais e, portanto, os políticos também deixaram de se preocupar exclusiva ou maioritariamente com esse objectivo. Agora, dizem alguns, a política joga-se com base em guerras culturais e de narrativas discursivas, que podem inclusive estar totalmente divorciadas dos interesses económicos dos eleitores. Esta guerra comercial coloca de novo estas duas visões em choque: será que as elites e eleitores brasileiros de direita irão reagir politicamente tentando salvaguardar os seus interesses económicos ou será que basta uma oposição binária e ultra-simbólica em que todos aqueles que estão contra Lula da Silva têm de estar do lado de Donald Trump e de Jair Bolsonaro para esquecerem as consequências materiais destas tarifas?

A segunda interrogação prende-se com as motivações de Donald Trump em tomar estas decisões. A um nível mais básico, podemos simplesmente dizer que Donald Trump estará a agir em defesa dos seus amigos – sejam eles Jair Bolsonaro ou algumas empresas norte-americanas. Noutro nível, podemos ler esta decisão como uma troca geopolítica em que uma superpotência deseja influenciar o que se passa noutros países, em particular ajudar algumas forças políticas e tentar travar outras, como foi frequente durante a Guerra Fria, mesmo que, para tal, se tomem decisões que descartam a lógica do liberalismo da integração económica global. No entanto, talvez importe discutir um outro nível: mesmo beneficiando políticos que considera amigos, não é claro qual o ganho concreto de Donald Trump, para além do simbolismo. Mas podemos ler esta política internacional de Trump de outra forma: criar um movimento transnacional ideológico, não apenas por motivos simbólicos ou lúdicos, mas porque os actores desse movimento transnacional, uma vez no poder, poderão reciprocar e contribuir para avançar os interesses futuros de Trump, sejam eles pessoais, domésticos ou internacionais.