Em 2025, o país está, aproximadamente, à mesma distância temporal do 25 de Abril de 1974 da que tinha no ano da queda do Estado Novo para o 28 de Maio de 1926. Há 100 anos, o país vivia saturado da desordem, do caos, do fracasso político e social, da natureza sanguinária da 1.ª República, e viu no autoritarismo conservador, uma espécie de ditadura de sinal contrário, uma resposta. Há 50 anos, e apesar dos sucessos económicos, educativos e sociais da ditadura, o país, cansado de enviar filhos para uma guerra longa, incompreendida e contemporaneamente deslocada, aderiu rápida e facilmente à queda provocada de um regime caduco e amorfo. Por um triz não caímos novamente numa ditadura de sinal contrário, instaurando-se um regime que se virava para a Europa ocidental, para os direitos, liberdades e garantias, sem prisões políticas, sem torturas e sem censura. O consenso formou-se numa espécie de mecanismos de polarização negativa face ao comunismo, só extinto com as vitórias da AD em 1979, que centrou a polarização política pacífica entre um grande partido de centro-esquerda e uma grande força federadora de centro-direita, ou de natureza não socialista. Os primeiros vinte e cinco anos de democracia foram, apesar das dificuldades conhecidas, de sucesso assinalável – pese embora a hegemonia cultural que Novembro deu ao PCP, e a hegemonia política que deu ao PS. Até que se foi tornando, tal como aconteceu com o Estado Novo, num regime de puro situacionismo de instalados, crente na natureza apolítica ou despolitizada do seu povo, e absolutamente segura de que seria no reino da tecnocracia que esse mesmo situacionismo se manteria. A democracia está a cometer os mesmos erros da ditadura, e provocados pelos principais agentes da queda desta última.
A geração de Abril, que hoje se aproxima dos 80 anos de idade, continua a olhar para o passado e para o presente com a mesma arrogância que tinha na juventude: a de quem acredita que refundou o mundo ou, pelo menos, que criou um país absolutamente novo, à sua imagem. Em 1974, ninguém olhava para trás com receio da 1.ª República, como será expectável que hoje ninguém entre os 18 e os 40 anos olhe para trás com medo da ameaça real de uma ditadura, da ausência de liberdades que se tornaram tão consensuais como a República. A história, se não se repete, pelo menos rima. A geração mais jovem chegou à idade adulta sem referenciais positivos do regime em que vive, com excepção da polarização negativa face a uma ditadura que está a mais anos de distância do que a 2.ª Guerra Mundial estava da geração de Abril.
Trata-se de uma geração que chegou à idade adulta num país sistematicamente falido, endividado, a viver de crise em crise, de mão estendida à Europa, sitiado por uma clique que não se renovou ou que, quando se renova, parece fazê-lo por mimetismo e reprodução de siameses políticos, e por uma casta, a que se convencionou chamar elite, que se perpetua por inércia.
André Ventura tem 42 anos, mais dois do que eu. Viveu a tempo inteiro sob a democracia portuguesa. Toda a sua vida pública adulta foi vivida em ambiente de escândalo: do BES à Casa Pia, de Sócrates ao SIRESP, do Tutti Frutti (onde navegou) ao Influencer, do país da tanga ao país da troika, da bancarrota à política de enganos da geringonça. Não é difícil compreender o caldo de cultura em que a minha geração cresceu. A ele cada um reagirá como entender, mas não há alma neste país, para lá dos instalados do situacionismo ou de um ou outro ingénuo, que não possa compreender a frustração que 25-30 anos de decadência representam.
O que explica Ventura não é o fascismo; é a apatia. Não é o ódio; é o cansaço. Ele é um veículo de uma hostilidade difusa contra um regime que deixou de se dar ao trabalho de se justificar, de ter iniciativa política para lá da tecnocracia, convencido de que a legitimidade de quem derrubou uma ditadura é vitalícia e não requer manutenção e renovação. A situação está, desde o início do século XXI, em estado de letargia institucional, política, económica e social. Como o Estado Novo nos seus anos finais, paralisado pela guerra colonial, sem iniciativa política e com uma geração descontente e mobilizada na reacção ao status quo, também a democracia vive hoje esgotada por um outro tipo de guerra: a da sobrevivência das suas clientelas, do seu sistema mediático, da sua casta judicial, do seu consenso geracional. Os netos, por serem netos, estão-se nas tintas para o que dizem os avós nos almoços de domingo. Querem outra coisa; ou querem a mesma coisa por outros meios, sendo já eles os protagonistas. No mínimo, querem que alguém diga, com ou sem modos, que isto não basta. Ou que não “chega”. Nenhum regime sobrevive sem confiança, muito menos uma democracia. Sem ela, sobra o ressentimento.
Por outro lado, sempre se diga que Ventura não é apenas um produto da decadência de um regime que é, em si mesmo, um impasse. É também filho legítimo da era do mediatismo que o ajudou a parir, e ajuda a crescer. Não é preciso simpatizar com ele, basta observá-lo. Ventura é o resultado mais eficaz da transformação da política num género de entretenimento, do político como performer, do comentador como actor. Marcelo Rebelo de Sousa foi o primeiro a vislumbrar o ângulo de abordagem, e tentou ensaiar a estratégia num estilo folclórico. Ventura optou pela força bruta, e teve mais sucesso. Se Salazar escrevia discursos em silêncio, e num português mais do que perfeito, para serem lidos em auditório, Ventura improvisa soundbites para o TikTok. A culpa não é dele, como é evidente.
Durante anos, o jornalismo televisivo habituou o país à lógica do directo permanente, da opinião instantânea, do drama a cada hora. Nunca se deu tempo para pensar, para errar com correcção, para medir antes de responder. “Temos de acelerar”, dizem os pivôs. O importante passou a ser reagir, ser o primeiro, e não necessariamente o mais sensato, o mais informado, o mais reflectido. Ventura aprendeu depressa, como nenhum outro. Enquanto os situacionistas hesitam entre o silêncio e a resposta redonda, já Ventura irrompeu pela loja de louças. Já falou. Muito e sempre, sobre tudo, como um certo tipo de Marcelo que parece acreditar nalguma coisa, em esteróides. O país viciou-se na presença e no imediato; e confunde hoje ruído com resposta. E o pior é que o ruído basta quando o silêncio é cúmplice ou a resposta é vã.
É o produto de anos de reality shows disfarçados de informação, de debates cada vez mais curtos e mais focados na mensagem curta do que no sumo de um pensamento ou de uma ambição.
Nada disto serve para desculpar ou para atacar. Serve para compreender. Ventura não chegou de Marte, mas de Mem Martins – onde a maioria da elite da situação nunca vai fora da campanha eleitoral. Saiu de entre nós todos: das redacções que fizeram da política um circo permanente, dos partidos que fizeram da democracia o seu negócio, das pessoas que, cansadas de ser ignoradas, resolveram, compreensivelmente, agradecer o facto de alguém dizer qualquer coisa.
Ventura é, ainda, uma erupção, mais do que uma reacção, ao progressismo hegemónico, ao discurso woke, ao moralismo de vigilância, à cultura da correcção permanente que conduziu à auto-censura, à obsessão pelas identidades e pelas micro-causas, da cultura de culpa histórica ao relativismo moral e cultural. Também esse terreno foi fértil para a emergência de um discurso violento que é cada vez mais reconhecido eleitoralmente como linguagem aceitável como reacção à violência cultural dos neomarxismos. Ventura despertará o que de pior existe em cada um, de facto; mas é forçoso reconhecer que o pior não desaparece por decreto, e menos desaparecerá se a oferta do lado que se lhe opõe for o relativismo e o progressismo que lhe fornece todo o gás. Até porque esse progressismo, de braço dado com o pior do liberalismo individualista, não é mais do que um dogma de casta urbana e mediática, desconectado das preocupações materiais e culturais de grande parte da população. Este domínio do liberalismo sem povo, sem pátria, sem memória, sem deveres, já nem feito de indivíduos, mas de grupos e tribos, de braço dado entre a esquerda e a direita, como doutrina universal, reduziu a política a uma soma de direitos, esquecendo que as sociedades vivem do seu comunitarismo, das suas estruturas intermédias, das suas igrejas, da sua religião, dos seus bairros. Ventura não responde a nenhuma das angústias do povo com soluções. Mas oferece-lhes forma e barulho. Não traz nenhuma resposta, mas, por entre todos os disparates que diz, faz muitas perguntas certas.
Ao mesmo tempo, a direita tradicional, apatetada pela culpa e pela timidez, abandonou as suas causas (a autoridade, a exigência, o mérito, o valor da pertença, a continuidade cultural, a tradição) e a sua capacidade federadora. Calou-se por temor à esquerda. Adaptou-se a narrativas que lhe eram por natureza alheias para não ser acusada de atraso ou atavismo. Nesse vazio, de onde se envia um abraço ao dr. Rui Rio, Ventura ergueu-se como uma espécie de filho bastardo de uma direita que se esqueceu de pensar, de discutir, de resistir e de apontar caminhos. Não tem escola, não tem doutrina, não tem refinamento; mas tem instinto e, sobretudo, tem audiência. Não lhe era difícil ganhar.
Ventura não cria nenhuma espécie de mal-estar. É o mal-estar que o cria a ele. E se a política portuguesa continuar a fingir que isto se resolve com notas de repúdio, com editoriais indignados, com apoios políticos a candidatos que prolongam o situacionismo em vez dos que se lhe opõem pela via da coragem, e não do grotesco ou da fraqueza, não só não o vão deter como o amplificam. Ventura é o espelho de um regime cansado de um discurso dominante exausto, de uma elite sem povo e de um povo sem elites. Porque é, ele mesmo, da geração dos netos. Os avós não deixaram de querer sair de um regime desgraçado, a cair de podre. E os netos hão-de sentir o mesmo. O que me chateia mesmo é se acabarmos mesmo por ter de cair nas mãos de Ventura, um oportunista que não acredita em coisa nenhuma e que se limitou a ver mais depressa do que todos os outros os sítios por onde o sucesso lhe chegaria mais facilmente. É que houve, ao longo de vários anos, muitos tansos, onde me incluo, que pediram que o regime se soubesse transfigurar, que soubesse não cair em impasses e em situacionismos, antes que caísse de vez. Os netos ainda podem pôr os avós no lugar, sem que tenha de ser um neto qualquer a fazê-lo. Mas tansos como eu ainda acreditam que o regime é reformável, sem ter de se render a uma caricatura do próprio regime. Peço desculpa por isso.
P.S.: Reeditado pela Dom Quixote, Sá Carneiro – Solidão e Poder, de Maria João Avillez, é uma restituição de inteireza a uma figura desconcertante que o país preferiu transformar em mito. A autora, que conheceu de perto os protagonistas e os contextos, não escreveu apenas com rigor, mas com uma rara e inquieta sensibilidade. A política, neste livro, não é palco para declarações, mas um campo onde se joga o carácter, o preço da liberdade pessoal e a solidão dos que não aceitam dobrar a coluna à convenção. Maria João Avillez dá-nos não só o retrato do político, mas do homem inteiro: aquele que não hesitou quando o país hesitou, e que se manteve fiel a si mesmo quando isso podia custar tudo. A nova edição é oportuna, não por qualquer efeméride, mas porque escasseiam homens assim. Voltar a este livro é reencontrar não apenas Sá Carneiro, mas a medida que um dia tivemos para o que significava ter coragem. É recuperar o legado de um homem que, mais do que ideológico ou filosófico, é um legado de um carácter e de um propósito. Uma raridade, portanto.