Há episódios políticos que dispensam interpretação. Limitam-se a gritar, por si só, a contradição que carregam. O caso da Reserva Natural da Foz do Almargem e do Trafal, em Quarteira, é um desses momentos de clareza trágica: cria-se uma área protegida para, três meses depois, permitir a construção de um aparthotel no seu interior. E tudo com a bênção da lei. Ou melhor: da versão da legalidade que os interesses imobiliários mais gostam de citar – os “direitos adquiridos”.

Depois da polémica ter começado com a construção de um apoio de praia junto à arriba, que a autarquia de Loulé apressou-se a garantir que estava devidamente legal, faltou contar que, na mesma Reserva, que tem 135 hectares, estava aprovada a construção de um aparthotel com 4 andares (o último recuado) e 377 lugares de estacionamento a 600m da praia, ocupando uma área bruta de construção de 21.500m2 num terreno de 40 hectares, cujo proprietário/promotor já garantiu ter acrescentado/adquirido mais 16 hectares e pretender comprar mais 8,8 hectares na Praia de Loulé Velho.

Mas podemos estar descansados, se o projeto do apoio de praia foi condicionado a medidas compensatórias, como a plantação de 133 sobreiros e 3 mil arbustos, este também deve ter algumas coisinhas para disfarçar. Um verniz verde para maquilhar o betão.

No entanto convém não confundir legalidade com legitimidade. Ainda mais quando este projeto teve aprovação, e é ainda um resquício, no período mais negro do desenvolvimento turístico desenfreado e sem regras no Algarve, os anos 70/80 que, depois do Plano Regional de Ordenamento Territorial do Algarve (PROTAL) e do Plano de Ordenamento da Orla Costeira – Vilamoura/Vila Real de Santo António (POOC), continuam a ter a proteção dos “direitos adquiridos” quando se sabe da sua completa desadequação, insustentabilidade e impunidade de quem os aprovou nessa altura.

Neste caso o que está em causa é mais do que um processo urbanístico. É uma escolha. Uma decisão consciente de permitir a destruição parcial de uma zona natural recém-protegida, numa das áreas mais frágeis do litoral algarvio. Uma escolha entre futuro e rendimentos rápidos. Entre coerência política e cedência ao imobiliário.

(Hoje nem sequer vou falar das “praias privadas” existentes no concelho de Loulé e que podem vir a acrescentar mais esta ao seu portefólio.)

Como é possível deixar passar esta aberração paisagística e ambiental. Um hotel numa área protegida, junto ao mar, colado à ribeira, aprovado três meses depois da criação da reserva?

Onde está o equilíbrio entre o turismo e a sustentabilidade? O que é mais importante, os metros quadrados do investimento ou os metros de costa que o mar já devorou?

É este o debate que Loulé precisa de fazer – já. Antes das eleições. Antes que reste pouco para proteger.

A proteção ambiental no concelho não pode continuar a ser apenas retórica institucional: um parágrafo bem escrito nos planos estratégicos, uma frase feita nos comunicados de imprensa, uma brochura colorida para distribuir em feiras internacionais. Quando a ação concreta contradiz todos esses discursos, não estamos perante uma falha – estamos perante um engano deliberado.

E não é só uma questão local. A Foz do Almargem é um símbolo do que se passa um pouco por todo o país: reservas que existem no papel mas que se rendem ao lucro, políticas ambientais que se proclamam no discurso mas não resistem a um investidor com pressa, áreas protegidas que servem para exibir nas redes sociais – até ao dia em que se tornam oportunidades de negócio.

A erosão da costa algarvia é real. As alterações climáticas não são uma abstração. A destruição de zonas húmidas tem consequências. E a ausência de coragem política tem sempre um preço – que não é pago pelos decisores, mas pelas gerações futuras.

É por isso que é preciso perguntar, com clareza e frontalidade: Em período pré-eleitoral autárquico, que modelo de desenvolvimento defendem os candidatos à autarquia de Loulé? Que prioridades vão colocar no centro da sua governação? A quem respondem: à natureza e aos cidadãos ou aos interesses que insistem em transformar o litoral num catálogo de empreendimentos com vista mar?

Reservas como a da Foz do Almargem não podem continuar a ser títulos de jornais “para inglês ver”. Se queremos ser levados a sério enquanto território que respeita o ambiente, então é tempo de parar com a farsa dos “direitos adquiridos” usados como desculpa para destruir o que foi, supostamente, declarado sagrado.

Preservar não é plantar árvores depois de destruir. Preservar é, sobretudo, não construir onde se prometeu proteger.