Faltam poucas semanas para as eleições legislativas, e o cenário está praticamente definido: só há duas candidaturas com reais possibilidades de vencer — a coligação AD (PSD/CDS) e o Partido Socialista. Tudo o resto são ruídos ou desejos. AD ou PS. Luís Montenegro ou Pedro Nuno Santos. Mas a pergunta relevante não é quem vai ganhar. É quem tem mais a perder. E, surpreendentemente, a resposta pode ser… o CHEGA.

Comecemos pelo cenário mais direto: vitória da AD. Pedro Nuno Santos, fragilizado por duas derrotas consecutivas, abandona a liderança do PS. O partido entra em modo de “reconstrução” e, com novos protagonistas (Sérgio Sousa Pinto, Fernando Medina e José Luís Carneiro já deram esse pontapé de saída), retoma um papel que sempre existiu antes da “geringonça”: viabilizar governos minoritários do partido mais votado, através da abstenção em orçamentos de Estado e moções de censura. Como fizeram, em tempos, Marcelo Rebelo de Sousa com Guterres e Pedro Passos Coelho com Sócrates.

Neste cenário, o CHEGA desaparece do mapa das decisões. Literalmente. Com o PS a garantir a estabilidade mínima de um governo minoritário da AD, o voto do CHEGA deixa de ser necessário. E quando um partido perde utilidade, perde palco, perde influência. A contestação gritada pode continuar, mas sem qualquer consequência prática, torna-se irrelevante… se o PS perder.

Agora vejamos o cenário alternativo. O PS ganha, mas não com maioria absoluta. E o Parlamento, esse, fica claramente à direita. Pedro Nuno Santos mantém-se, mas Luís Montenegro, coerente com a promessa de não liderar se não for o mais votado, demite-se. O PSD, confrontado com uma maioria parlamentar à direita, terá de agir. E para agir, terá de mudar de liderança e de linha política.

Nesse novo quadro, qualquer solução governativa de direita exigirá o apoio do CHEGA. Não há volta a dar. Um novo líder — seja Aguiar Branco, Paulo Rangel ou até Pedro Passos Coelho — terá de fazer o que Montenegro sempre recusou: negociar com Ventura. O “Não é Não” morre no dia seguinte à derrota. E o CHEGA entra no círculo do poder, transforma-se. Passa de outsider a kingmaker. De protesto a poder. De marginal a protagonista.

É esta a ironia central das próximas eleições: o CHEGA pode tornar-se um partido com influência real… se o PS ganhar.

André Ventura construiu a sua narrativa contra o “sistema”, mas é o sistema que agora decide o seu futuro. Não é o crescimento do CHEGA nas sondagens que determina o seu papel no Parlamento. É a capacidade de o PS se posicionar – ou não – como garante da estabilidade governativa em caso de vitória da AD.

Há, portanto, uma escolha estratégica para o eleitorado de direita tradicional: uma vitória da AD pode significar travar o CHEGA – não por decreto ou cordão sanitário, mas por irrelevância matemática. Uma vitória do PS, em contrapartida, pode forçar a direita a negociar com André Ventura e dar-lhe o papel de pilar de uma nova maioria.

O CHEGA está à beira do momento mais decisivo da sua curta existência. E depende menos de si próprio do que aquilo que gostaria de admitir. A política tem destas ironias. Às vezes, o teu futuro decide-se nas mãos de quem mais combates.

O paradoxo é gritante. O CHEGA só tem dois caminhos: irrelevância ou influência, e será o Partido Socialista a decidir.