Há eleições em que não basta escolher um candidato. Há eleições em que é preciso escolher um lado da história. Esta é uma delas. O que está em causa a 8 de fevereiro não é apenas uma alternância política nem a eterna disputa entre esquerda e direita. O que está em causa é a decência democrática, o respeito pelos valores fundamentais da República e a defesa da matriz constitucional que sustenta o Portugal democrático.
É por isso que, arrumada a 1ª volta desta eleição, declaro, de forma inequívoca e sem tibiezas, o meu voto em António José Seguro.
Num tempo em que o espaço público é contaminado por gritaria, simplificação grosseira, mistificações e mentiras, e estratégias de polarização deliberada, torna-se imperativo afirmar que a democracia não é um circo nem um ringue. Não é compatível com o insulto permanente, com a normalização do ódio nem com a importação acrítica de modelos políticos que já demonstraram, noutros países, a sua capacidade destrutiva.
A Constituição da República Portuguesa não é um entrave a “mudanças” apressadas nem um texto ornamental. É o contrato democrático que garante direitos, protege minorias e impede abusos de poder. Atacar a sua matriz, relativizar os seus valores ou instrumentalizá-la em nome de agendas populistas é um ataque direto à democracia. E isso deve ser dito sem ambiguidades.
Jorge Sampaio lembrava que “a democracia dá trabalho, exige compromisso e responsabilidade”. O que hoje se apresenta como “coragem” política é, demasiadas vezes, apenas irresponsabilidade travestida de autenticidade. António José Seguro representa exatamente o oposto: uma cultura política de responsabilidade, de respeito institucional e de serviço à República, num momento em que isso se tornou, paradoxalmente, um ato de resistência.
O extremismo não é uma inevitabilidade histórica, é uma escolha. A política do medo, da divisão e do ressentimento não surge por acaso — é cultivada. Contra ela, é preciso afirmar a moderação democrática como força, não como fraqueza. Barack Obama foi claro quando afirmou que “a democracia não funciona se apenas nos ouvirmos a nós próprios”. Quem transforma o adversário em inimigo mina as bases do regime democrático, mesmo quando o faz em nome de uma suposta “vontade popular”.
Portugal não precisa de imitações baratas do trumpismo, nem de guerras culturais importadas, nem de líderes que confundem agressividade com autoridade. Precisa de sentido de Estado, de estabilidade democrática e de uma visão que inclua em vez de excluir.
O Papa Francisco, referência e inspiração moral recente muito para além das paredes da Igreja Católica, ao longo do seu pontificado, deixou um legado claro sobre os perigos da desumanização na vida pública, lembrando que “o ódio não resolve os problemas, apenas os aumenta”. A sua voz foi particularmente firme contra a lógica da exclusão, da polarização e do desprezo pelo outro, enfatizando sempre que “construir muros não resolve nada, o que resolve é construir pontes”. Combater o discurso de ódio, defender a dignidade humana e recusar a política do ressentimento não são gestos simbólicos nem concessões morais: são condições essenciais para proteger a democracia, preservar a coesão social e honrar os valores fundamentais em que assenta a República.
Votar em António José Seguro é, hoje, por isso, um ato político claro: é escolher a democracia contra o extremismo, a Constituição contra o oportunismo, os valores contra o ruído. É afirmar que a República não é um palco para aventuras pessoais, mas um património coletivo que exige ser defendido com firmeza.