Acho que percebi o problema central da discussão que ocorreu ontem na Casa Branca entre Zelensky, Presidente do que infelizmente resta da Ucrânia, e Donald Trump, recém-empossado Presidente dos EUA. Esta troca acesa não foi apenas um episódio isolado, mas sim o estalar do verniz de uma estratégia geopolítica muito maior.
Em primeiro lugar está em foco o choque das pessoas em geral, devido à altercação entre duas figuras importantíssimas do panorama da geopolítica internacional. Claro que isto moveu os anti-trump a carimbar mais acentuadamente a sua inclinação ideológica, e os pro-trump (cerca de metade dos americanos) a compreenderem que os seus desejos estão realmente a ser atendidos. Trump foi eleito para executar este plano. Ou seja, deixar de gerir casas que não são suas, a menos que possa lucrar com isso.
Foi sempre esta atitude vampiresca que posicionou os Estados Unidos da América como o centro da Ordem Mundial. Porém, agora que a sua economia encontra-se mais fragilizada do que nunca, a estratégia tem de mudar, ou seja sair da apoteose moral do governo de Biden, no qual os Estados Unidos deveriam servir como o vizinho mais rico que tem de servir mais dinheiro para a festa da romaria, e voltar a ser o vizinho que ‘dispensa’ dinheiro se a sua família for posicionada lado a lado do busto de Nossa Senhora.
A intenção negocial era evidente: os Estados Unidos estavam dispostos a fornecer mais apoio militar e financeiro, desde que a Ucrânia aceitasse que a gestão dos seus recursos minerais ficasse sob controlo americano.
Nada de novo na verdade, lembrando Iraque e o contrato com a Halliburton, o negócio petrolífero e a instalação de um governo mais alinhado com os seus interesses. A guerra no Afeganistão que gerou orçamentos astronómicos para a indústria do armamento, porém com os devidos dividendos da exploração da riqueza de lítio e minerais raros do país. E tirando interesses geopolíticos e de controlo, como a guerra no Vietnam, não nos esqueçamos que a segunda guerra mundial serviu os Americanos com supremacia económica, substituindo a era da Grande Depressão por prosperidade e tornou o Dólar na moeda de Reserva mundial.
Este sempre foi o modus operandi dos vários governos americanos para se instituírem no vértice da Ordem Mundial. Porém, dada a iminência de uma terceira guerra mundial, a derrota menos pesada para os americanos seria a não contratualização deste pacto com a Ucrânia.
Já se percebeu que os americanos estão a adotar o modelo de retirada, através daquilo que é possível verificar nas últimas medidas que Donald Trump tem aplicado ao Canadá e à Europa para negociar subtilmente os seus limites. Contudo isto revela uma atitude pouco solidária dos Americanos. Eu vou explicar.
Toda a grande empresa, ou grandes organizações, sabem que existem despesas estruturais e despesas estratégicas que fazem parte do bom planeamento de uma organização. Normalmente essas despesas estruturais prendem-se com investimentos para manter a boa reputação. Isso torna-se ainda mais crítico para organizações com uma gestão financeira agressiva, que precisam de compensar com medidas solidárias.
Por isso o McDonalds, dada a sua estratégia agressiva no capitalismo e no fast food, criou a Ronald McDonalds House. Até no filme mais mafioso de Francis Coppola, nós observamos o vilão a ter actos de solidariedade com o povo e os seus vizinhos. Chamemos a isso “investimento de reputação”.
Quando os Estados Unidos optam por uma estratégia bélica para obter a posição de destaque na Ordem Mundial, a compensação inevitável é um “investimento de reputação”.
O que nos leva à questão mais importante. Por que os Americanos estão a adotar esta postura?
Creio que a possibilidade de uma terceira guerra mundial é cada vez mais real. Os Estados Unidos estão a tomar medidas para se precaverem, mas esquecem-se de que, ao fazê-lo, estão a abdicar da pole position na Ordem Mundial. Mais do que prestígio, arriscam-se a perder a base financeira que os sustenta: o apreço das pessoas e, sobretudo, os consumos europeus que mantêm a sua economia no topo.
Eu, por outro lado, espero que a Europa não se esqueça disso!