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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o perigo escondido no primeiro jogo de Portugal. Então hoje é o grande dia. Depois de meses de antecipação, depois de dias seguidos a ver os jogos dos outros, hoje é o dia em que Portugal entra finalmente em campo no Mundial. É tempo de juntar amigos, vestir a camisola, pôr o cachecol e preparar a festa. Portugal estreia-se frente ao Congo e é disso que vamos falar hoje com o jornalista do Observador, Miguel Cordeiro, que tem estado nos Estados Unidos a acompanhar estes dias da Seleção Nacional. Vamos medir a temperatura ao clima e ao estado de espírito da seleção. Vamos falar das pequenas polémicas que já se criaram por causa das idas à praia e vamos perceber quem é este Congo e por que pode ser mais perigoso do que parece. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 17 de junho. Olá, Miguel.

Olá, Pedro.

Estamos a falar contigo a partir dos Estados Unidos da América, onde tens estado a acompanhar a Seleção Nacional. Como é que têm sido estes dias por aí?

Olha, primeiro em Palm Beach, Miami, muito calor. Os repórteres todos a suar de um lado para o outro. É clima tropical, temos que dizer isto, é clima tropical. É óbvio que faz as tempestades, como isso também afetou a Seleção Nacional, principalmente tempestades de trovoada e não tanto de chuva ou de vento. Agora, já no Texas, que é onde estamos para o jogo de Portugal frente à República Democrática do Congo, em Houston, muita chuva, cerca de 10°C, temos que falar em Celsius, do que em Miami, Palm Beach. Talvez não tanto, talvez 8°C e com muita chuva. Portanto, é esse o clima que Portugal vai ter para o dia de jogo frente à República Democrática do Congo. Mas para os jogadores tem sido, no que aconteceu em Palm Beach, diria uma adaptação fácil, porque o clima está muito semelhante ao que estava quando saíram de Portugal, mas com mais umidade.

E um pouquinho mais violento, porque houve ali a certa altura uma tempestade que obrigou a alterar alguns planos.

Sim.

Mas nada de preocupante.

Não, o treino teve que ser alterado, mas não é que estivesse em curso uma tempestade, é o protocolo a funcionar. Como é que funciona o protocolo? Se é registrada uma tempestade ou o início de uma tempestade, ou uma situação que possa levar uma tempestade a 13 km do local de um evento, esse evento tem que ser adiado 30 minutos. A seleção, como era um treino, não quis esperar e os jogadores fizeram uma ativação num pavilhão, que não é normal futebolistas num pavilhão.

E foi o que aconteceu. Sendo que houve várias imagens que nós fomos vendo, não só de treinos normais, digamos assim, que foram abertos a convidados, isso costuma acontecer. Depois houve também aqueles momentos em que há a preocupação de mostrar a seleção, os jogadores ao público. Isso não correu bem, que foi aquela tentativa de pôr os jogadores na praia e depois alguns, nomeadamente Cristiano Ronaldo, viram aquela gente toda ali à espera e decidiram não aparecer.

Sim, eu vou tentar explicar o que se passa em torno da praia. Portanto, a seleção chegou, não é? E no primeiro dia os jogadores foram à praia. Não se estava à espera. Quer dizer, os jornalistas não estavam à espera, não estavam informados sobre isso. Muito provavelmente, as pessoas que estavam na praia também não estavam à espera. Os jogadores estiveram na praia, foram ao banho, tiraram as fotografias, essas imagens saíram. Houve algumas televisões que conseguiram captar essas imagens e os próprios jogadores começaram a colocar imagens nas redes sociais, a própria federação também a aproveitar esse momento. E assim foi. Primeiro dia normal e não é estranho ver os jogadores de futebol aproveitar um pouco de praia ou de piscina. Isto é tudo normal. No dia seguinte, foi a própria Federação Portuguesa de Futebol que contactou a imprensa para dizer: "Atenção, amanhã a esta hora, os jogadores vão estar na praia a fazer exercício e vai haver um espaço em que podem estar para recolher imagens." Quando chegou esse momento, um pouco antes, a Federação Portuguesa disse que afinal não, afinal já não era possível recolher imagens, porque estavam muitas pessoas à volta, devido ao que aconteceu no dia anterior, estavam lá para ver outra vez os jogadores e, portanto, os jogadores não iriam sair. Só que isso não aconteceu, os jogadores saíram na mesma e voltámos a ter imagens da praia, das televisões que foram convidadas ali a estar, novamente os jogadores. É óbvio que já não foram os jogadores todos à água, uns ficaram mais recuados, mais na zona da piscina, outros já no areal, que as pessoas de fato tinham esse interesse. E o que começou a acontecer é que começou a haver aqui uma certa polêmica em torno da praia. Explicar. Os jogadores têm tempo livre e esse tempo livre pode ser aproveitado como bem quiserem. Além do tempo livre, há ativações que são feitas em ginásios, em hotéis, em jardins, na praia. Nós já vimos, por exemplo, a seleção a dar passeios em outros países em que não há praia. E, portanto, estamos a falar disso. É um período do dia em que os jogadores têm que estar concentrados a fazer uma ativação. Neste caso, seria na praia. Agora, é óbvio que as imagens que saem é dos jogadores em fato de banho, deitados, a apanhar sol, a ir ao banho, e isto pode dar a imagem errada, mas tudo isto faz parte da preparação. O Observador confrontou precisamente Matheus Nunes, um dos jogadores portugueses, com esta situação. Não é que existisse algo de errado, mas era sim se para os jogadores existe a percepção de que pode estar a passar a mensagem errada. Pode estar a passar a mensagem de que os jogadores estão a passar muito tempo Na praia. O Matheus Nunes explicou, e bem, que faz parte e que para ele, por exemplo, que vive no Reino Unido o ano todo, até é muito bom ter essa possibilidade de ter um pouco de tempo de praia durante o tempo livre e durante as ativações da seleção.

Sendo que o que interessa aqui é a preparação, é a forma como estão a encarar este primeiro jogo do mundial frente ao Congo, o que tu dirias em termos de otimismo e de realismo frente ao jogo que vai acontecer nesta quarta-feira?

Eu acho que, por um lado, é bom Portugal estar a jogar na última jornada, porque consegue perceber o que está a acontecer noutros grupos. No grupo da Espanha, por exemplo, Uruguai empatar com Arábia Saudita, Espanha empatar com Cabo Verde, os Países Baixos empatarem com o Japão é um resultado mais comum, mas estamos a ver dificuldades. Há muitos outros resultados destes, estou aqui a lembrar-me de uns de cabeça, mas há muitos resultados que apontam que os favoritos não estão a conseguir vencer. É óbvio que há o desgaste dessas grandes equipas favoritas, há o desgaste da temporada, são jogadores que fazem muitos jogos. Portugal também tem essa situação, mas não tanto como outras seleções e, portanto, Portugal chega ao jogo com o Congo com esse aviso na cabeça, com essa situação de que atenção, os underdogs estão a conseguir ter bons resultados. E se formos ver os resultados das seleções europeias e das seleções da América do Sul, que são as favoritas tendencialmente em todos os mundiais, não está a correr propriamente bem. Já vimos empates, já vimos derrotas e, na verdade, grande parte das vitórias até estão a ser contra equipas das Caraíbas.

Algumas delas que nunca tinham pisado mundiais.

Exato.

Que foi o que aconteceu no jogo de Cabo Verde. Mas parece que há esse espírito de análise, de realismo e de arrefecer um bocadinho as expectativas ou pelo menos prepararem-se para contrariar as expectativas em campo.

Daquilo que sai para o exterior, sim. Só que isso já é uma medida difícil de perceber. Já não conseguimos ter essa noção, porque os jogadores têm um treino de comunicação, um media training, tal que as conferências de imprensa muitas vezes acabam por ser redondas. Dizem sempre: "Sim, estamos preparados, o adversário é muito complicado, vai ser um jogo muito difícil". Mesmo quando no balneário os jogadores podem dizer o contrário e estar com uma ideia diferente. É óbvio que depois nas conferências de imprensa remetem mais sempre para as dificuldades do adversário e dificuldades do jogo. Mas sim, todos os jogadores o que têm dito é que estamos atentos ao Congo, o jogo com a Nigéria serviu para preparar e não vai ser um adversário difícil.

Deixa-me só perguntar-te antes de irmos olhar para o Congo com mais atenção, as dúvidas sobre o estado físico de Rúben Dias estão a preocupar ou está tudo a ser encarado com naturalidade?

Eu diria que Rúben Dias não vai a jogo frente à República Democrática do Congo. O Roberto Martínez certamente pode dar mais algumas luzes sobre isto. Nós estamos a falar ainda sem essa conferência de imprensa. O Roberto Martínez na hora de Portugal vai falar já perto da 01:00 a.m. E aqui também ainda faltam algumas horas para isso acontecer. Mas Rúben Dias, desde que está nos Estados Unidos da América, ainda não treinou com a equipa, apenas fez trabalho à parte. Nunca esteve com os restantes jogadores no mesmo relvado a fazer o mesmo treino. E, portanto, só essa indicação diz-nos que Rúben Dias não vai a jogo com o Congo. Sofrer um ligeiro toque no jogo com a Nigéria, está a fazer trabalho específico, é o que diz a federação. Nada de grave, diz a Federação Portuguesa de Futebol também, mas esse nada de grave pode significar que não está disponível para o Congo e poderá estar disponível a seguir. Mas para já, parece muito difícil jogar Rúben Dias e fica, naturalmente, uma dúvida: quem vai jogar na defesa, qual vai ser a dupla escolhida por Roberto Martínez?

Isso só vamos saber não agora a esta hora em que estamos a conversar, seguramente a gravar esta conversa. O jogo vai ser frente ao Congo. Em teoria, é uma equipa inferior a Portugal. O favoritismo está do lado de Portugal, sendo que isso já percebemos também que não quer dizer nada, sobretudo porque Portugal vai enfrentar uma equipa que não pisava o mundial desde 1974 e isso também mexe com o moral de uma equipa e o Congo está altamente motivado para este mundial.

Sim, estes jogadores não eram nascidos nessa altura, o treinador também com dificuldade, muitos membros da comitiva da República Democrática do Congo, a mesma coisa. 1974. E se formos olhar para esse mundial, se formos à procura, não encontramos lá a palavra Congo. O que encontramos lá é a palavra Zaire, era o nome do país nessa altura. Portanto, já passou tanto tempo que o país até já mudou de nome, para se perceber há quanto tempo foi. Não é um país estreante em mundiais, como, por exemplo, Curaçau ou Cabo Verde ou a Jordânia, mas teve uma participação em 74, longínquo 74, e agora está de regresso. Mas não se acha que é uma equipa fácil. Há jogadores com muita experiência europeia e isso nota-se principalmente nas equipas africanas que começam cada vez mais a ter esses jogadores com experiência europeia, principalmente estas seleções que se qualificam para o mundial. Há um velho conhecido, Chancel Mbemba joga na equipa da República Democrática do Congo e, portanto, há essa expectativa de perceber como é que a experiência de Portugal, mas também o desgaste de muitos jogadores da seleção portuguesa que tiveram uma temporada longa, como é que isso vai funcionar com esta equipa do Congo, que tem jogadores rapidíssimos. Sim, não é um clichê de equipas africanas, é mesmo uma seleção com jogadores rapidíssimos, com flechas apontadas à defesa, Portugal a jogar muito provavelmente sem Rúben Dias e com um eixo defensivo talvez menos rotinado e, portanto, há aqui alguma expectativa para perceber. Agora, certamente Portugal o que vai querer fazer é gerir o jogo, ter a posse de bola e controlar os tempos do jogo. Tem sido isso que tem acontecido às grandes equipas, principalmente na segunda parte, depois de serem surpreendidas na primeira parte de cada jogo.

Nós normalmente quando somos jornalistas não podemos tomar posição, mas acho que tudo se desculpa quando estamos a falar da seleção nacional e, portanto, vamos esperar que o jogo corra bastante melhor do que tem corrido a outros favoritos deste mundial e que Portugal entre a ganhar rapidamente, porque isso às vezes ajuda também a definir o jogo. Vamos esperar que isso aconteça.

Sim, é o que esperamos que Portugal entre com o pé direito neste mundial, até porque há um jogo complicado com a Colômbia e é importante, na terceira jornada é importante começar a conquistar pontos, principalmente três pontos já nesta fase. Depois ainda virá o Uzbequistão.

E não desperdiçar nenhum. Miguel, obrigado e bom trabalho por aí.

Obrigado.

Eu conversei com o jornalista Miguel Cordeiro, enviado especial d'O Observador aos Estados Unidos para acompanhar o mundial. A conversa foi gravada ao início da noite de terça-feira, ainda antes de Roberto Martínez divulgar a lista de convocados. Às 18h joga-se o Portugal-Congo. De um lado, uma das seleções mais talentosas do mundo, do outro, uma equipa que regressa ao mundial mais de 50 anos depois da última participação. Mas como não há jogos decididos antes de começarem, é manter o otimismo, mas estarmos preparados pelo sim, pelo não. A história dos mundiais está cheia de favoritos que entram para fazer história e tropeçam logo no primeiro dia. Que o diga a vizinha Espanha. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.