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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Esta é mesmo uma antecipação, é preciso explicar isto, Bruno. Afinal, a Iniciativa Liberal recebeu ou não recebeu queixas de assédio?
Carla, ontem, semanas depois do caso que marcou o final da campanha eleitoral da primeira volta, a Iniciativa Liberal veio esclarecer que, afinal, recebeu duas queixas de assédio. E esclareceu também que nenhuma das queixas envolve o antigo líder e candidato presidencial, antigo líder da Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo. A antiga assessora do grupo parlamentar da Iniciativa Liberal, Inês Bichão, tinha afirmado num comunicado de 15 de janeiro, que os factos em causa, o alegado assédio de Cotrim de Figueiredo, tinham sido reportados em sede interna em 2023. E agora, com este novo comunicado, a Iniciativa Liberal vem confirmar, pela primeira vez, a existência de duas denúncias, uma das quais, entretanto, por o observador da própria Inês Bichão, mas o partido, lá está, reafirma que a denúncia não visaria Cotrim de Figueiredo, mas existiu e terá sido obviamente a visar alguém dentro do partido. A Iniciativa Liberal também anunciou agora a contratação do advogado Paulo Sargossa da Mata, para agir judicialmente e fazer face às suspeitas infundadas e danosas de que se diz alvo. Aguardemos pelos próximos episódios, muito provavelmente num tribunal perto de nós. Tínhamos também tido essa informação por parte de Cotrim de Figueiredo, que queria avançar para os tribunais. Vamos ver.
Paulo, tudo está bem quando acaba mal?
É isso, é a velha máxima, reescrita de acordo com o que dizem agora os responsáveis da Autoridade Nacional de Proteção Civil. José Manuel Moura é o presidente da entidade e ontem disse várias coisas. Vamos olhar para elas. Disse, por exemplo, que as medidas de antecipação foram robustas, que o Plano Nacional de Proteção Civil foi ativado no momento adequado, que foi feito tudo o que era possível, que foram ativadas medidas de prevenção ao mais alto nível. E eu aqui levanto-me logo do sofá quando ouço essas coisas e ponho-me em sentido. Diz também que foi elevado o estado de prontidão ao nível quatro, o nível máximo. E depois também diz, obviamente, uma coisa lógica, que não se consegue chegar a todo lado ao mesmo tempo. Portanto, a Proteção Civil fez tudo bem, seguiu os seus cadernos e manuais, tudo certinho, mas depois acabou tudo mal. Só podemos concluir é que a culpa é inteirinha e apenas da tempestade Kristen. Não houvesse tempestade, não houvesse vento, não houvesse chuva e tudo tinha corrido às mil maravilhas, de acordo com os manuais da Proteção Civil.
A culpa é da natureza.
Sem dúvida.
E Ventura tem uma amiga secreta para o ajudar no domingo?
Tem sim, e o próprio candidato não esconde que anda numa relação intensa com a abstenção, é a amiga secreta. André Ventura não tem feito os habituais apelos ao voto, que todos os candidatos fazem, sem exceção, em qualquer eleição, valorizando desta forma e incentivando a participação cívica. E ontem Ventura admitiu o mesmo: "Bom, não vou passar o meu tempo útil e visibilidade política nacional para apelar ao voto quando posso resolver problemas das pessoas." Esta frase é todo um manual político. O que é resolver os problemas das pessoas? É levar aquelas duas paletes de garrafas d'água, como se viu. Ventura está mesmo apostado numa abstenção elevada, esta frase denuncia-o de alguma maneira, na tentativa de melhorar o seu resultado relativo. E a caso para dizer é que democratas desses já não se fabricam.
Bruno, a teia de Jeffrey Epstein chegava a todo lado?
Praticamente a todo lado. Era uma teia de poder e de dinheiro que tinha dentro ou chegava a membros das casas reais europeias, a magnatas da tecnologia, a embaixadores e até a cientistas renomados, como o caso do português António Damásio, já lá vamos. A teia não era totalmente criminosa ou necessariamente criminosa, e muitos dos contactos revelados nesta mais recente leva de documentos, o que mostram é essa teia de influência e de financiamentos que punham Epstein numa posição de privilégio.
E de poder.
De muito poder. Com tanta gente a pedir lhe favores, é natural que ele se sentisse intocável. E de cada vez que correspondia a esses favores, depois provavelmente esperaria que fossem retribuídos. Nos e-mails do cientista António Damásio, o que existe é um pedido de financiamento para investigação científica da sua área da neurociência, um financiamento que, segundo o cientista português, terá sido educadamente recusado pelo próprio Epstein, com o argumento de que deveria procurar financiadores locais, ou seja, na Califórnia, onde reside. Damásio afirma que não teve outros contactos com Epstein e que se soubesse dos crimes dele na altura, nunca o teria contactado, isto em 2013, apesar de já haver acusações em tribunal contra Epstein desde 2006, mas não tinham a magnitude que depois vieram a ter as outras acusações. Uma vez mais, nada disto faz das pessoas mencionadas ou que contactaram Epstein, mencionadas nesta leva de documentos, nem criminosas, nem cúmplices, nem sequer suspeitas de qualquer prática ilícita.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer