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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Paulo, André Ventura é a melhor cola política que alguma vez tivemos?
Sem dúvida, é uma cola poderosíssima.
Que cola cientistas ao teto.
Não cola, exato, como em tempos. Essa cola famosa que colava cientistas ao teto. Não consegue essa proeza, mas consegue uma proeza se calhar melhor ainda, que é colar do mesmo lado da barricada políticos tão distantes como, por um lado, Paulo Portas e Cavaco Silva, e do outro, Catarina Martins e António Filipe. Imaginem, vão todos votar no mesmo. Há um mês ou dois, provavelmente ninguém adivinharia. A cola aqui não é tanto António José Seguro, mas é André Ventura, é o líder do Chega que, no fundo, empurra toda a gente para a outra candidatura e nesse sentido é o candidato mais agregador que temos neste momento. Toda a gente a dizer que ele divide o país. Não, ele junta o país, ele consegue juntar aqueles que nós não pensávamos alguma vez que pudessem ser juntos de alguma maneira. É por más razões, obviamente, mas o resultado acaba por ser esse.
Todos juntos numa sala a beber um coquetel. É uma bela imagem. E Bruno, vamos ter na segunda volta António José Seguro e André Ventura. Um debate ainda pode mudar a dinâmica das eleições?
Já vimos que sim, mesmo quem desconfia da importância dos debates, viu na primeira volta que há debates que podem mudar tudo. Nunca saberemos se foi o mau debate com Gouveia e Melo a explicar a queda de Marques Mendes, mas a perceção foi essa, que a partir dali tudo começou a correr mal ao candidato apoiado pelo PSD. Ventura sabe que num debate tem uma oportunidade de ouro para confrontar diretamente o seu adversário, uma oportunidade de ouro porque não há outra, será só mesmo esta. Mais do que a vitória no debate em si, chegarmos ao fim e dizermos: "quem ganhou foi este ou foi aquele", a forma como o debate decorrer pode determinar a dinâmica do que resta da campanha eleitoral, ou seja, como os candidatos partem para a rua, para o contacto com a população. Uma hesitação no debate ficará a ouvir-se no resto da campanha, uma acusação a que não se responda com firmeza pode ser uma pedra no sapato para o candidato. Isto numa altura em que os candidatos não precisam de pedras no sapato, porque ainda vão ter muito que andar. No debate entre os dois para a primeira volta, Ventura não esmagou e Seguro também não se acanhou. Veremos como se portam hoje.
Pipocas, não é?
Neste frente a frente mais logo. E Paulo, mudamos de tema. O assédio no local de trabalho é um problema com dimensão ou apenas residual?
João, pode ser as duas coisas, por incrível que pareça. Depende do indicador que escolhermos para avaliar, de facto, a dimensão desse problema. Os dados da ACT, a Autoridade para as Condições de Trabalho, estavam ontem no Público, na edição de ontem, e são estes: durante o ano passado foram recebidas quase 3500 queixas de assédio laboral ou sexual no local de trabalho e por este valor, 3500, parece um problema de elevada dimensão. No fundo, são 10 queixas por dia, contando todos os dias, incluindo fins de semana e feriados. Mas destas 3500, só 20 resultaram em multas aplicadas, portanto, tiveram uma consequência, um valor que podemos considerar marginal ou residual. Estes números mostram que há aqui várias coisas para corrigir. Ou é a lei que está mal, por ser demasiado rigorosa para se chegar a queixa, no fundo, a uma acusação. Ou porque desconsidera, de facto, práticas de assédio, ou então é a perceção das pessoas que está errada em relação àquilo que são práticas de assédio e elas pensarão que é assédio aquilo que provavelmente ou não é aos olhos da lei, e a forma como a ACT aplica. Ou então é preciso trabalhar nos meios de prova, porque também sabemos que estas questões muitas vezes são difícil de provar.
São muito difíceis.
Mas estes números dão-nos uma ideia de que parece que estamos em dois países diferentes conforme se olhe para um ou para outro. Há aqui qualquer coisa a rever, certamente.
Seguramente, e se calhar muito a debater sobre o assédio.
Exato.
O Benfica, Bruno, aproveitou o último balão antes da centralização?
Parece que sim, ainda muita água vai correr debaixo das pontes. Não sabemos se a centralização dos direitos televisivos, que já foi prometida e está prevista legalmente, avançará mesmo na época de 2028, 2029. Para já, e antes que essa eventual centralização traga uma realidade que pode fazer com que as fatias de bolo dos três grandes sejam mais pequenas, o Benfica vendeu os direitos de transmissão dos jogos em casa para as próximas duas épocas a nós, pelo valor mais alto de sempre em Portugal, um total de 114,2 milhões de euros para duas épocas, cerca de 57 milhões de euros, o que é uma gota d'água. É o maior contrato de sempre em Portugal para venda de direitos televisivos, mas que é uma gota d'água quando se compara, por exemplo, com o que recebem os clubes ingleses só dos direitos de transmissão doméstica, fora os direitos de transmissão internacional. Mas é aqui também uma preparação do terreno para essa negociação centralizada dos direitos. Um clube que se mostra capaz de obter uma receita de quase 60 milhões por ano, tem um bom argumento para não aceitar menos do que isso. Também eleva a fasquia para aquilo que os outros dois grandes vão pedir, e isso já aconteceu há cerca de 10 anos, quando houve negociação de contratos para 10 anos. O que terão os restantes clubes fora os três grandes a dizer é algo que vamos descobrir muito em breve.
Nos próximos capítulos. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.