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Seja bem-vindo ao "Aprender a Comer". Todas as semanas a Mariana Chaves tem conselhos de nutrição aqui na Rádio Observador. Olá, Mariana, bem-vinda.
Olá, Nelson. Obrigada.
Temos uma pergunta para o programa de hoje: por que não podemos deixar de pensar em comida? Não sei se foi pensar em mim que te lembraste desta questão, pareceu-me, mas já lá vamos. Vamos tentar perceber por que não podemos deixar de pensar em comida. Mas antes disso, Mariana, estou muito feliz, porque o "Aprender a Comer" da Rádio Observador é agora também um livro. Chama-se "Aprender a Comer", tem lançamento no próximo dia 10, está à venda no dia 16 de julho. Que livro é este? O que as pessoas vão encontrar no livro do "Aprender a Comer"?
Nelson, sabes que, exatamente porque neste tema que temos hoje enquadra-se muito bem, há um estudo da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, que chegaram à conclusão que nós tomamos mais de 226 decisões sobre a alimentação por dia.
Por dia?
Por dia. Por isso, este livro foi pensado e escrito para ser uma ferramenta prática, com sugestões para o dia a dia, de apoio a estas múltiplas decisões diárias que nós temos que fazer. Aqui a ideia foi trazer temas de nutrição que têm base científica, como nós também fazemos aqui no programa, de estudos e livros que vou lendo, e depois traduzidos para uma linguagem que todos compreendam e que seja acessível, com conselhos simples de implementar e a serem aplicados no dia a dia. Ou seja, a ideia aqui é cruzar a ciência com o pragmatismo que a alimentação deve ter.
Então deve estar lá sempre este livro, que é na nossa cozinha, numa prateleira.
Ou na mesa de cabeceira, para ser revisitado. É essa a ideia. Porque eu vou abordar vários temas, e por isso eu faço um índice detalhado onde as pessoas podem selecionar os temas que têm mais interesse, um bocadinho como temos aqui no programa, em que cada pessoa escolhe o tema que quer ouvir daquela vez. Ou quem quer uma abordagem mais estruturada aos truques, pode ler o livro de uma vez só. Mas da minha experiência, as pessoas têm temas que lhes interessam mais e dúvidas específicas que as preocupam na alimentação. Então torna-se mais fácil começarem por esclarecer essas dúvidas e depois ganhar entusiasmo para chegar aos outros temas. É realmente um livro que o objetivo é que seja para todos, ou seja, não só para aqueles que são da área da saúde ou que dão extremamente importância à questão do peso.
Então não é um livro de dietas, pois não?
Não, não é um livro de dietas, nem de receitas.
Até porque já há muitos.
É um livro que é sobre estratégias para melhorar a alimentação, em que falo de temas de literacia alimentar e também dos nossos comportamentos alimentares, que é realmente a base da nossa alimentação. Portanto, basicamente, é literalmente sobre aprender a comer, ou seja, desde o que escolher, o que comer, quando comer, como conjugar, o efeito que isso tem no nosso corpo. E, Nelson, foi escrito para todos. E foi escrito tendo em base duas experiências minhas, que é a experiência clínica, onde vários pacientes partilham as dificuldades diárias que têm e tentamos encontrar estratégias, mas também a experiência na área da comunicação da nutrição, que fazemos aqui juntos e já faço há 11 anos. E vários ouvintes vêm perguntando ao longo dos anos. E com base nessas perguntas e inspiração para responder a muitas delas, encontrei aqui no livro uma maneira de responder e dar soluções aos problemas que as pessoas tanto se deparam no dia a dia com a sua alimentação.
Vamos lá então tentar perceber por que não podemos deixar de pensar em comida, Mariana.
O tal estudo, o investigador principal chama-se Adam Burg e ele chegou à conclusão que nós temos em média 226 decisões só de alimentação, e por dia era uma barbaridade delas, mas que nestas de alimentação, a maioria delas é tomada de forma inconsciente. Então eu quando comecei a ler isto, pensei assim: "bom, então deixa lá avaliar eu quantas vezes é que eu já pensei em comida". Nelson, não sei se já pensaste.
Eu estou sempre a pensar, Mariana, é um problema que eu tenho. Eu penso demais em comida.
Eu contabilizei e hoje até à data, até esta hora, já tomei mais de 50 decisões e ainda não decidi o jantar e o meu almoço estava programado no dia anterior. Portanto, o que são estas decisões que estamos a falar?
É já deixar pré-preparado o que é que vamos almoçar, pequeno-almoço, almoço e jantar? É um bocadinho por aí?
É de tudo. É desde que horas começas a comer. Se vais beber o café, se é curto, se é longo, se é no café, se é em casa. Mesmo só com o tema do café, já tens muita coisa, que é muitas vezes já nem decides se pões açúcar ou não. Mas já tomei muitos, se calhar é melhor não tomar mais. Todas estas pequenas decisões à volta da comida, a nossa vida passa à volta da comida. Nós precisamos de comer para viver, mas na verdade também porque nos dá prazer. Então estas decisões vão implicar diretamente na nossa saúde. E a opinião que estes investigadores têm, e que eu corroboro completamente, é que nós podemos ou ser organizados e planear, ou ser reativos. Mas em ambos estamos a tomar decisões. Ou seja, o que é isto? Eu posso planear quantos cafés eu quero beber por dia, ou posso eu simplesmente ser reativo de agora estou cansada e apetece-me ir tomar mais um café e depois à noite se eu não conseguir dormir, logo se vê se eu tomei uma decisão correta. Nós aqui estamos sempre a tomar decisões, que tem muito a ver com a nossa personalidade. Mas há um ponto aqui importante, que é: nós também podemos criar a nossa personalidade. Mais uma vez, se não for o café, por exemplo, eu antigamente nem sempre saía de casa com a minha garrafa de água e com uma solução para comer qualquer coisa se tivesse fome. Hoje em dia é impensável não fazer isso. Não é porque eu seja essa pessoa, é porque eu me tornei nessa pessoa, porque isso me dá segurança, me dá tranquilidade, faz com que a fome não seja um tema para mim Isto são tudo coisas que, quando dizemos que não podemos deixar de pensar em comida, e realmente não devíamos deixar de pensar em comida. O planeamento e a tomada de decisão não têm que estar lado a lado, mas deveriam estar. Por quê? Porque senão também vem o arrependimento, que é: eu não planeei, não levei nada.
Quero comer uma coisa que me faz mal rapidamente.
E quando vais ver essa semana para trás é: eu planeei nessa semana comer salada todos os dias. Será que comi? Não. Por quê? Só porque não planeei, mas tomei uma decisão, que foi não preparar o meu almoço e decidi na hora. E na hora, se calhar, deparei-me com cinco ou seis decisões que não eram as que eu queria. Isto para as pessoas pensarem que não é só o planear, é também ao não estarem a organizar, também estão a tomar uma decisão aí nesse momento, que é: eu vou deixar para depois, para o que houver, para o que os outros decidirem por mim. Um bocadinho como esta chamada de atenção de que, assim como na política não devem decidir por nós, devemos ser ativos, na alimentação também não devem decidir por nós. Nós devemos ser ativos a tomar a nossa decisão.
E senão quem decide é a vending machine e aquele snack que nos vai fazer mal, porque não pensamos em acautelar um lanche saudável. É um bocadinho por aí, não é?
É isso mesmo.
E esta questão tem muito que ver também com a própria rotina das pessoas. É preciso percebermos, se calhar, onde é que vamos estar, quais são os nossos horários para planear de melhor forma uma alimentação. Quanto mais planeada, mais provável de ser saudável.
Exato. E estes investigadores dizem mesmo que a maioria das decisões estão influenciadas pelo ambiente. Portanto, se não planeamos, o que é que acontece? Se o nosso colega do lado trouxe um pacote de bolachas, se calhar vamos ceder. Se calhar, se formos entrar no café e ainda não lanchamos, se calhar vamos lanchar ali, em vez de lanchar o que tínhamos na nossa mochila. Fala-se muito que até o tamanho do prato influencia o que comemos, a forma como no supermercado as coisas estão iluminadas influencia a nossa compra, o posicionamento nas prateleiras. Umas custam mais dinheiro do que as outras. Para as marcas é por uma razão, é porque nós temos um comportamento mais compulsivo com umas do que com outras e depois vamos comê-las mais, ou o pacote é maior. São tantos os meandros à volta das nossas decisões diárias sobre alimentação, que eu acho que devíamos despender um pouquinho, investir um pouquinho mais em nós nessa tomada de decisão.
Muito bem, está feito o "Aprender a Comer" de hoje, com uma resposta a esta pergunta: por que não podemos deixar de pensar em comida? Mas também olhamos para "Aprender a Comer", o livro, que chega no próximo dia 16 de julho às livrarias. Vai ser apresentado no dia 10 e percebemos neste programa também o que a Mariana Chaves pretende com este novo livro, que tem o nome desta rubrica aqui na Rádio Observador, chama-se "Aprender a Comer". Para quem ouve no Spotify o "Aprender a Comer", sabe que a Mariana Chaves deixa por lá sempre uma questão. De hoje a uma semana voltamos a falar de nutrição com a Mariana Chaves. Até lá, Mariana.
Até lá, Nelson.