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Estávamos em 1982 quando foi chamada à seleção pela primeira vez. Jogava na União de Coimbra e tinha 21 anos. No total, vestiu a camisola da equipa das Quinas outras quatro vezes com cinco internacionalizações. Representou ainda a União de Coina, o Costa do Estoril, o 9 de Abril de Trajouce e esteve dois anos no Sporting. Hoje tem 64 anos, é treinadora adjunta do Futebol Benfica e fez parte da primeira geração de sempre da Seleção Nacional Feminina entre 1981 e 1983. É ela uma das primeiras. Chama-se Adelaide Almeida e está hoje conosco na Rádio Observador. Adelaide, bem-vinda, obrigado por ter aceitado o nosso convite. Sugeria que começássemos um bocadinho atrás. Vamos começar em 1982 e gostava de saber como é que soube que tinha sido convocada à Seleção Nacional e também o que é que sentiu na altura.

Começando só em 1982, eu gostaria de ir mais atrás, porque a primeira internacionalização, eu estou a jogar futebol em Coimbra há dois anos só, no União de Coimbra. E como é que eu soube a notícia? Foi por um senhor que era diretor do União na altura, o António Luís, e eu estava a trabalhar. Ele aparece lá e diz-me assim: "Estás convocada para a seleção". E eu ri-me, como sempre, e normalmente estou sempre com este sorriso, porque fui buscar o mundo cedo lá na aldeia, nas brincadeiras com os miúdos e disse-lhe: "António Luís, verdade?" E ele diz: "Verdade". E pensei assim: "Ou está a brincar". E ele disse: "Não, é verdade". Pronto, foi um diretor do União de Coimbra que na altura me disse que eu estava convocada.

E na altura já sabia sequer que havia uma Seleção Nacional Feminina ou foi surpreendida com isso?

Não, surpresa não, porque nós no clube, e sabe que na altura não havia a comunicação que há hoje, não havia rádio, não havia televisão, não havia jornais a ditar coisas, porque estamos a falar agora só da seleção, mas tínhamos que ir um pouquinho mais atrás a perceber que não havia comunicação quase nenhuma, a não ser os clubes entre os clubes. As jogadoras às vezes nem sabiam, a não ser quando chegavam ao treino, as convocatórias. E saber da seleção, sabíamos. Não sabíamos porque já tinha havido uma no ano anterior particular, que foi um jogo que houve em França. E esse jogo também tem uma história curiosa, que é: praticamente só foram jogadoras do Boavista na altura, porque exatamente por essa falta de comunicação não chegar aos clubes, chegou à União de Coimbra a convocatória já praticamente passado o tempo das jogadoras voltarem quando foram à França. Portanto, esta comunicação que se fazia era ou via correio, ou via telefone, mas telefone fixo, que se calhar a pessoa não atendia e depois aquilo já passava.

Não era como hoje.

Exatamente isso, não era como hoje. Mas sim, já sabia que ia haver uma seleção, porque no clube isso era uma coisa que já se falava há muito e que já se falava que o nosso grupo ia ser a França, a Itália e a Suíça. Agora, não sabíamos era quem iam ser as jogadoras convocadas, nem as datas. A preocupação não era tanta, nem seleção, nem os jogos. Nós queríamos era jogar, era estar. Nós já tínhamos feito torneios internacionais, nós já tínhamos feito em Coimbra também o Torneio Internacional Rainha Santa. Nós já tínhamos feito uma digressão à França. Ou seja, o futebol feminino, na altura, era uma coisa que estavam a fazer grandes coisas já, sem sabermos qual era a dimensão além-fronteiras. Achava-me sempre que nós estávamos a fazer as coisas muito bem feitas, a trabalhar bem, as pessoas interessadas. Não havia muita quantidade, mas quem estava, estava de corpo e alma. Portanto, o que se estava a fazer era o melhor que havia. Não havia aquela preocupação do que é que podia acontecer de mal. Não, nós estávamos a fazer as coisas muito interessadas, sempre muito comprometidas.

Mas nesse sentido, Maria Adelaide, o que é que na altura a Maria Adelaide fez no União de Coimbra que acha que tenha sido importante, que tenha justificado essa chamada à seleção? O que é que nessa época tinha feito que tivesse chamado a atenção dos responsáveis da seleção?

Sabe que eu nasci para o futebol numa aldeia do interior, como estava a dizer há bocado, por isso é que tínhamos que ir muito atrás, onde não havia futebol, praticamente nem masculino, quanto mais feminino. Só que eu tinha o privilégio de todos os miúdos, e naquela altura havia muitos miúdos na aldeia, ao final do dia, com bolas que não existiam como são hoje. Havia uma bola em que a gente enchia uma bola de, vou dizer uma palavra que não se sabe o que é, que é tonas do milho, que era o milho quando era tirada aquela parte de fora, nós enchíamos meias e coisas do gênero. Era com uma pinha, era com uma bola de borracha rebentada e que fazíamos todo o trabalho de técnico e depois as balizas era com umas pedras, eram uns paus, mas todos os dias, ao final do dia, a malta encontrava-se no final da tarde para jogar. E depois tenho a sorte de quando estou numas férias na aldeia e tenho um tio que trabalhava União de Coimbra. Eu estava a estudar na Pombalosa, estamos a falar já com 13, 14 anos e diz: “Em Coimbra há uma equipa feminina e tu tinhas lá lugar”. E eu já não larguei esse nó tio enquanto não vim para Coimbra.

Não pensou em mais nada.

A minha determinação desde que soube que havia futebol era só uma coisa: eu queria jogar futebol, ponto. E ia fazer tudo o que fosse possível e estivesse ao meu alcance para jogar futebol. O selecionador nacional, que na altura era um selecionador e treinador também, foi ver um jogo a França e quando veio eu não tinha ido a uma convocatória porque não me tinha sido chegado. Era aquilo que estávamos a falar, não era como hoje, não era diretamente, só quando ias ao treino. Perguntou porque é que eu não fui, se eu estava doente. Eu disse: “Não, mas não me convocaram”. Ele disse: “Mas eu quero-te lá no próximo treino”. Isto para dizer que nós íamos treinar, íamos de Coimbra ao Bessa para fazer os treinos da seleção na altura, onde o nosso diretor fazia aqueles quilómetros todos. E não era por autoestrada, era uma estrada secundária até chegar quase ao Porto.

Era isso que eu ia perguntar agora. Agora é mais fácil, não é? A cidade do futebol, as jogadoras são todas lá.

Não vamos fazer nem comparação.

Claro. Na altura, que sacrifícios é que uma jogadora tinha de fazer para estar presente no estágio? Porque eu acredito que até talvez coisas tenham sido vocês próprias a pagar.

Tocou num ponto essencial, que é: que sacrifícios? Eu acho que sacrifícios nós não fazíamos. Era como lhe disse há pouco. Nós jogávamos futebol, queríamos jogar futebol, a paixão pelo jogo era imensa. Tu não tinhas a oportunidade de fazer só, ou como hoje, jogar só futebol, tu tinhas que trabalhar. E depois havia aqui um inconveniente muito grande.

O que é que a Maria Adelaide fazia na altura?

Os patrões não te permitiam libertar para ires treinar. Eu, por acaso, tive sempre a felicidade, ou azar, ou sorte, aquilo que se quiser chamar. Eu chamo de felicidade. Trabalhei sempre em sítios onde toda a gente sabia que eu tinha uma coisa em vista, que era tudo aquilo que eu fizesse, eu queria jogar futebol. Portanto, ia trabalhar, ia estudar, ia fazer aquilo que fosse para ser feito, mas jogar era uma coisa que estava na minha mente, porque isso é quase desde que eu nasci, que não me lembro quando é que eu comecei a gostar de futebol. Não havia nem televisão, ouvíamos os relatórios. Por isso é que às vezes tu perguntas onde é que foste buscar a paixão pelo jogo. Eu acho que tem a ver com isto que estamos a falar. Eu acho que tem a ver com o ser solidário, a partilha, a alegria, a paixão, as risadas, o compromisso, o estar sempre focado naquilo que é: o que vem a seguir, porque distrair já foste.

E era esse o ambiente na altura dessa primeira seleção?

Era este o ambiente na altura. Nós tínhamos isto em mente, esta mentalidade existia e eu às vezes até dizia que não estávamos a olhar para as coisas da melhor maneira, porque nós olhávamos, tínhamos que ganhar, e não era só ganhar. Nós tínhamos que olhar para os outros que já andavam há mais tempo, mas nós pensávamos em ganhar, mas em fazer pelo menos as coisas bem feitas. Ou seja, elas para nos ganharem iam ter que ser melhores, porque nós na altura já o Boavista tinha ido ao estrangeiro e tinha ganho alguns torneios, o União de Coimbra foi a França e também tinha ganho o torneio em França. Ou seja, nós não tínhamos um conhecimento muito alargado das jogadoras e dos clubes, mas tínhamos um conhecimento que aquilo que nós estávamos a fazer era o melhor que estava a ser feito na altura e havia uma qualidade imensa de jogadoras com um nível muito elevado. Deixe-me só contar aqui uma história que eu gosto de contar. O Boavista tinha na altura uma jogadora que era a Silvia e que os nossos sócios no União de Coimbra, quando elas jogavam conosco, diziam: “Esta miúda entrava de caras na nossa equipa sénior”.

Na equipa masculina?

Masculina. Eles diziam, porque já estava na segunda divisão. Quando eles dizem isto de uma jogadora, tu já aportas aqui alguns valores, que é tu não tens comparações no feminino. Mas tens comparações naquilo que as pessoas que veem o futebol aportam em relação a algumas jogadoras. Então espera aí, se há aqui algumas jogadoras que já têm isto e tu estás mais ou menos ao nível delas, é porque já tens muita qualidade, porque não havia grandes termos de comparação.

Maria Adelaide, deixe-me avançar, até porque tenho aqui ainda várias perguntas para lhe fazer e só temos cinco minutos até ao final. Mas gostava de lhe perguntar sobre o dia decisivo, dia 10 de outubro de 1982, Suíça-Portugal. Estamos a falar da fase de qualificação para o Euro 84, um jogo fora, na cidade suíça de Solothurn. Conseguiu dormir na noite anterior à sua estreia na seleção?

Sim, sabe uma coisa que eu sempre falei, e ainda é isto que eu hoje passo a esta malta mais jovem. É assim, se tu estás a fazer uma coisa, seja aquilo que tu fizeres, e eu estou a falar de futebol, e o futebol pra mim era uma coisa que toda a gente sabe que eu não vou dizer a palavra sagrada, mas é uma coisa que pra mim é muito importante, é muito séria, tens que trabalhar sério, tens que te aplicar sério, tens que dar tudo de ti. Então se tu estiveres a fazer uma coisa que tu gostas, estiveres ou nervoso, ou estiveres com ansiedade, tu já não tens as faculdades todas ativas. Eu ainda digo isto hoje. Então tu tens que estar melhor. Eu lembro-me desse primeiro dia, recordo-me muitas vezes, não é todas as vezes assim porque já lá vai muito tempo mas lembro-me de dizer isto. Eles mediram-nos a tensão e a pulsação. E a médica vira-se para mim e diz-me assim: “Como é que tu consegues estar tão Tão serena. E eu disse: "Doutora, eu vou fazer aquilo que eu mais gosto, que é jogar futebol".

Claro.

"Mas como é que tu fazes?" "Eu canto". Eu andava sempre a cantar e ainda hoje canto muito. Então eu estava sempre a dizer: "Espera aí, então se eu vou fazer aquilo que eu mais gosto, eu só tenho é que estar bem".

Claro, desfrutar.

Há uma coisa que eu digo ainda hoje, que é: os outros para levarem a melhor sobre mim, têm que ser melhores do que eu. Se tu estiveres bem, eles têm que levar contigo, entre aspas. Agora, se tu lhes dás bandalhos ou se achas que não estás bem, então estás a dar trunfos. O mais é que tu para fazer aquilo que quiseres na vida, tem que ser com paixão e alegria. Isto tem que ser. E depois é estar bem.

Claro. Maria Adelaide, temos apenas três minutos até o final e tinha aqui ainda três perguntas para lhe fazer. Temos de ser rápidos. Mas gostava de lhe perguntar, em primeiro lugar: na altura, em 1983, acaba por haver um hiato, a seleção feminina acaba interrompida, a federação interrompe o projeto feminino, só é retomado 10 anos depois, em 1993. Que justificação é que na altura vos deram para a seleção ter acabado naquele momento?

Nenhuma. Esse é o maior murro, deixa passar a palavra, a expressão, a maior traição que podes fazer a alguém. Porque tu tens que analisar aqui uma série de coisas. Tu vens de um pós-25 de Abril, fechado 50 anos, dando-te uma liberdade de fazeres coisas que tu gostas, criando-te uma seleção, criando-te campeonatos distritais, estão a pensar nos nacionais e de repente acabam com a tua seleção quando tu vais ao primeiro apuramento para o primeiro Europeu feminino, com três seleções de nomeada, onde tu nem sequer foste nunca, não fizeste maus resultados, empatas com a França, empatas com a Suíça. E depois acabam-a de propósito. Mas alguém dava explicações de alguma coisa? Não, pura e simplesmente fecharam durante 12 anos. Ou seja, aquela malta toda que está envolvida, a trabalhar, a querer fazer, a dar de si, a achar que era o mundo que estava, entre aspas, aos seus pés, levas um murro muito grande. E não há explicações. Não acabou porque acabou, pronto. Tu sabes mais tarde, com a falta de comunicação. Tudo o que chegava à federação ia para, não vou dizer a palavra que é o saco do lixo, vou dizer a reciclagem. Porque sabemos mais tarde que era assim, porque sabemos mais tarde que depois a pessoa que ainda lá estava, com a agravante, que vai para o comitê da FIFA ou da UEFA na altura. A pessoa que era responsável na altura pelo futebol em Portugal. E se você recuar uns tempos, é mais ou menos na altura de Saltilho. Portanto, percebemos aqui que a mulher não é para jogar futebol, a mulher não tem esse talento.

Sentiu essa discriminação na altura?

Na altura eu não senti essa discriminação porque não há espaço para nós pensarmos nisso, porque nós queríamos era jogar. Mas se nós olharmos mais à frente, então o que é senão isso? Nós não pensamos dessa maneira. Nós pensamos: "Acabaram, acabaram. Não há dinheiro". Esta nossa conversa dava para mais.

Só este tema dava para uma entrevista inteira, não é?

Era exatamente isso. O que eu lhe ia dizer.

Isso enquadra então na última pergunta que lhe quero fazer, Maria Adelaide, para fecharmos a nossa belíssima conversa. Gostava de lhe perguntar, até porque tem conhecimento de causa neste momento, na atualidade que vivemos. Em 2025, uma mulher já pode ser livre para crescer e sonhar em ser jogadora de futebol?

Não precisa ser em 2025, isto já há muitos anos. Uma mulher em 2020, se calhar já mais atrás. Ou seja, você tem qualidade, tem compromisso, quer estar. Se for buscar algumas coisas, já tem muitas mulheres a ter ido para o estrangeiro jogar futebol e porque queriam jogar futebol e porque foram profissionais. Se me disser assim: "Vão ganhar aqueles valores que os homens ganham?" Obviamente que não, mas para ser profissional, para ser uma pessoa digna, para querer fazer aquilo que é a paixão do jogo, aquilo que é a sua vida, aquilo que você quer como trabalho, eu acho que em 2025, você tendo essa arte do jogo, esse querer, esse saber estar, esse trabalho, aquilo que eu há pouquinho dizia que é esse trabalho sério, não tenho nenhuma dúvida. Até lhe vou arrumar desta maneira: eu se fosse eu hoje, em 2025, estivesse naquela altura, pode ter a certeza que eu ia ser profissional de futebol. Não tenho nenhuma dúvida.

Claro que sim.

Não tenho nenhuma dúvida, porque se eu vim para Lisboa e voltei para Coimbra e voltei para Lisboa, foi sempre a arranjarem-me trabalho para os clubes onde eu ia. Portanto, isto como moeda, digamos assim, de troca. Tu arranjas-me trabalho, eu vou. Portanto, nesta altura eu de certeza que ia ser profissional de futebol.

Maria Adelaide.

Uma paixão do jogo.

Maria Adelaide Almeida, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite para estar aqui, para ser a primeira das primeiras aqui no programa em que vamos conhecer as histórias daquelas que foram as primeiras jogadoras da primeira seleção nacional feminina de sempre. Obrigado e até à próxima.