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"No melhor interesse do nosso país." Seis palavras, 16 dias depois de Joe Biden ter sido declarado vencedor das eleições e está lançado o processo de transição de poder. Trump deu este primeiro passo, mas sem reconhecer a derrota. E por falar em contradições, Rudy Giuliani também insistiu na ideia de uma fraude desenfreada e descontrolada, já depois de dizer outras cinco palavrinhas: "Estou a exagerar um pouco." Apesar da polêmica, Biden diz que a transição está a correr bem, que a administração Trump tem passado informação de forma sincera e sem relutâncias, e avança a grande velocidade na formação da nova equipa pra Casa Branca. Sem exageros, mas também sem relutâncias, o Café América de hoje tem a Madalena Meyer Resende, o Bruno Cardoso Reis e o João de Almeida Dias, e eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Vamos aos prêmios, primeiro com o Frank Underwood desta semana. João de Almeida Dias, com o primeiro volume do livro do Barack Obama.

É verdade, um verdadeiro calhamaço, 780 páginas, que na verdade só vão até 2011, ou seja, o segundo ano de poder de Barack Obama. Pra ser justo, começa quando ele nasceu em 1961, portanto é preciso dar um desconto. Ora, o meu Frank Underwood tem a ver com o fato de Obama fazer poucas referências nessas muitas páginas a Joe Biden e para cúmulo, muitas vezes quando faz referências ao agora presidente eleito dos Estados Unidos, acaba por juntar sempre uma crítica. Portanto, ele faz várias vezes um elogio, sobretudo do ponto de vista humano, a dizer que ele é uma pessoa muito afável, ser humano decente, leal, mas depois junta sempre uma adversativa, que muitas vezes diz respeito à sua maneira de governar, à sua capacidade de analisar uma situação, às vezes também à sua vontade de falar mais do que aquilo que devia, porque gosta de ouvir a própria voz. Portanto, é uma situação interessante. O livro saiu a 17 de novembro, portanto, umas semanas depois das eleições. É certo que não seria o sítio certo pra fazer um grande elogio a Joe Biden. Não é disso que se trata as memórias políticas de um presidente, não vai elogiar o seu vice-presidente de forma desenfreada, mas ainda assim, foi notório estas menções a Joe Biden e talvez aquela lógica do bromance que existe entre Obama e Biden, pode ter a ver com uma relação pessoal, pode ser também um golpe midiático, mas do ponto de vista político, pelos vistos, não partilham assim tanto.

Tu achas que isto ajuda a explicar o fato do Biden ter dito, acho que foi ontem, que atenção, que isto não é a terceira administração Obama.

Eu acho que isso é uma resposta que é um bocado de algibeira que ele deu naquele momento, na entrevista que deu à NBC. Falaremos sobre isso mais à frente. Eu acho que isto é um terceiro mandato de Obama, no sentido em que as pessoas fizeram parte daquela administração. Joe Biden disse que isto não é um terceiro mandato de Obama, porque a situação não é a mesma. Ora bolas, de qualquer das maneiras, nunca seria a mesma, não é?

Sim, mas de qualquer forma, parece mostrar que eles não têm problemas em distanciar-se um do outro quando é conveniente. Mas realmente as memórias são sempre uma coisa interessante, mas difícil de analisar, porque é a continuação da política por outros mais. E realmente esta relação entre vice-presidente e presidente tem sempre algumas peculiaridades. Portanto, nunca é uma relação completamente fácil. É interessante realmente isso que dizes. Eu também estou a ler as memórias do Obama, que realmente estão muitíssimo bem escritas, como é normal no caso do Obama. Mas eu acho, sobretudo, que reflete muito que são de fato dois tipos de políticos muito diferentes. O Obama muito mais cerebral, o Biden muito mais emotivo e muito mais o homem também das ligações e da velha política de Washington. E portanto, acho que isso também passa, de fato, nas memórias, mas resulta às vezes nisso, o Obama fazer comentários que não são obviamente simpáticos pro Biden.

Bruno, tu também tinhas aqui um Frank Underwood, que tem a ver com Donald Trump, agora. E sobre a sua equipa de juristas, eu não sei se vais falar de tinta pro cabelo ou se estás mais focado em temas menos relevantes.

Eu acho que realmente o presidente Trump teve aqui um problema e que em si é um sinal. Tem sido muito assinalado, por exemplo, o Mitch McConnell ainda não se pronunciou de forma muito clara sobre a questão da transição e do presidente eleito, etc. Embora o Mitch McConnell é uma pessoa que sabe dosir muito bem os seus silêncios, portanto, apesar de tudo não é assim tão anormal.

E os seus silêncios também costumam ser declarações.

E são muito significativos e há poder nesse silêncio. Mas eu acho que, de fato, apesar de tudo, houve aqui um certo afastamento, embora muito receoso, muito prudente, talvez excessivamente prudente e criticável da parte de muitos republicanos com responsabilidades em relação ao presidente Trump, mas apesar de tudo, um sinal importante foi que ele não conseguiu ter nenhum dos grandes advogados, e há muitos Republicanos a defender esta sua causa obviamente perdida, ou que se esperava e desejava que fosse perdida, porque obviamente ele perdeu as eleições de uma forma bastante clara. Mesmo que houvesse pequenos incidentes ou problemas de fraude, obviamente isso não afectava o resultado. E portanto ele nunca conseguiu ter isso. Agora, de facto, isto chegou a um ponto já quase delirante, em que começam a aparecer ditadores sul-americanos a organizar eleições nos Estados Unidos, que é uma coisa que se fosse verdade seria ainda pior do que a Rússia, que apesar de tudo ainda é uma antiga superpotência a interferir nas eleições americanas, alegações de que os próprios responsáveis do Partido Republicano em vários estados estariam envolvidos nessa conspiração e portanto isso chegou a um ponto de delírio. Agora, o que me parece aqui grave é que, apesar de tudo, é verdade que são figuras que estão muito desacreditadas, lideradas por Rudy Giuliani, mas apesar de tudo houve aqui figuras de um partido histórico, respeitável na história americana, que estavam dispostos a ir até onde fosse preciso para tentar deslegitimar um resultado de umas eleições e a pôr em questão o próprio funcionamento da democracia nos Estados Unidos. E embora seja verdade que os democratas, de facto, também não aceitaram bem a eleição de Trump em 2016, provavelmente insistiram demasiado nestas questões do impeachment e tudo isso. Eu sempre fui crítico e sempre achei que deviam realmente concentrar-se era em ganhar eleições, aí é que se resolvem este tipo de problemas, mas de facto nunca foram até este ponto e portanto acho que isso é realmente bastante grave. Felizmente parecem ser figuras de segunda linha e desacreditadas, mas apesar de tudo é grave.

Madalena, nós na semana passada falávamos sobre os bons indicadores de se perceber que Joe Biden ficava ali ao centro e naquela ideia, sobretudo, de não haver pessoas proscritas. Tu, no teu Frank Underwood, escolheste falar de Dianne Feinstein, que foi despromovida por insuficiente zelo ideológico.

Exactamente. Dianne Feinstein é uma senadora com grande pedigree e aparentemente foi alvo de uma cruzada dos progressistas do partido, que levaram a não procurar regressar ao comitê judiciário ao qual ela presidiu. E isto é analisado pelos comentadores como sendo resultado exactamente da ala progressista do Partido Democrata, que ficou furiosa por Dianne Feinstein não se ter alinhado com eles no sentido de promover o chamado court packing pós eleição presidencial, eleição de Biden, ou mesmo ter se juntado ao presidente Lindsey Graham, felicitando a forma como Amy Coney Barrett tinha desempenhado a sua audição no Senado. E, portanto, apesar de ela ter sido muito crítica e se ter juntado aos seus colegas no Senado após a morte da juíza Ginsburg, pedindo que este lugar não fosse ocupado antes da eleição presidencial, isso não foi suficiente. Isto parece-me, de facto, um sinal de que o zelo ideológico dos democratas progressistas desta ala mais à esquerda não é qualquer coisa que possamos ignorar ainda. Ou seja, não podemos ficar contentes com a administração Biden por parecer exactamente ir muito ao centro, mas de facto eles ainda estão vivos e irá haver um impacto com certeza importante.

E isso apesar de o próprio Joe Biden também nunca ter sido exactamente claro em relação ao court packing.

Exactamente. Mas eles aparentemente exigiam de Feinstein exactamente um alinhamento total com as suas posições altamente perigosas de querer ir para uma solução de court packing, que seria obviamente uma solução que poria em causa a estabilidade do Estado de Direito nos Estados Unidos. E portanto, obviamente que isto é muito compreensível do ponto de vista de uma senadora com o perfil de Feinstein e por isso penso que isto é, de facto, um mau sinal para o Partido Democrata.

Estão arrumados os Frank Underwood desta semana, vamos avançar para o donut. Bruno, é também o fim de um bromance republicano.

Entre o Chris Christie e o Donald Trump. O Chris Christie eu acho que realmente merece este donut, porque eu acho que ele foi crucial, no fundo, em acabar com este impasse e em realmente levar o Trump a acabar por aceitar avançar com o processo de transição, mesmo que ele nunca vá na sua narrativa, no seu Twitter, reconhecer que foi realmente e justamente derrotado numas eleições. Mas eu acho que realmente ele teve aqui um papel crucial, o Chris Christie. É uma figura até fisicamente bastante grande, mas tem uma figura com grande peso na elite republicana de Washington. Portanto, ele é essencialmente conhecido por ser governador de Nova Jersey, que é o estado logo a sul de Nova York, no fundo, a outra banda americana, se quiserem. Mas, sobretudo, é uma figura, mesmo quando o governador de Nova York estava muito presente em Washington. Ainda há pouco tempo estive a ler as memórias do embaixador britânico em Washington agora nestes últimos anos, e isso é muito claro. É alguém que está no centro de todas as festas, uma figura bastante divertida, conhece toda a gente e, portanto, tem realmente um grande peso no Partido Republicano. Ele aliou-se ao presidente Trump, embora tenha tido alguns conflitos, ainda assim com ele, mas realmente ele neste fim de semana, nos últimos dias, veio dizer: "Isto tem de acabar. Realmente, esta equipa judicial, esta equipa de advogados do presidente Trump está a ir longe demais." Nomeadamente quando começou a atacar o governador republicano da Geórgia, que é uma figura importante e respeitada no partido. E, portanto, chegou a altura de realmente acabar com esta brincadeira. Isto inclusive prejudica a nossa credibilidade e, portanto, nós temos de, de facto, reconhecer que é preciso iniciar aqui a transição. E eu acho que ele teve aqui realmente um papel fundamental em assumir publicamente essa posição. Acho que é uma posição, apesar de tudo, com algum grau de coragem, porque continua toda a gente com muito receio do peso que o presidente Trump tem no partido e entre os eleitores republicanos. E portanto, acho que é realmente merecido, porque estávamos a chegar a uma fase em que não se percebia até onde é que as coisas podiam ir e onde, apesar de tudo, eu também tenho chamado a atenção que acho que não é assim tão grave a questão da demora na transição propriamente para a qualidade da futura administração Biden, que ainda por cima, como aliás se esperava, vai ser muito preenchida por pessoas extremamente experientes, como veremos depois na segunda parte. Mas eu acho que, sobretudo, era o dano em termos de cultura política, em termos do próprio clima político nos Estados Unidos, que todo este processo estava a provocar, que mais me preocupava. E portanto, eu acho que aqui, realmente, o Chris Christie teve um papel muito importante e muito meritório.

Que se terá somado, aliás, à pressão também de outras pessoas que talvez mais silenciosamente também estiveram a apelar no mesmo sentido. Também terminamos o donut desta semana, porque na lógica do Thanksgiving temos muitos perus no Sara Palin. Muitos perus, João de Almeida Dias, Madalena, querem falar do famoso perdão do peru com Donald Trump, por duas razões. João, primeiro pela falta de sentido de humor.

Pois, eu na semana passada tinha criticado os humoristas que já não fazem humor, que hoje em dia têm comícios políticos nos seus programas. Ora, o momento do perdão do peru acontece todos os anos. Esta é uma instituição que ainda não foi abolida nos Estados Unidos de Donald Trump. Aliás, foi bem mantida até. Só que este ano Donald Trump não demonstrou qualquer sentido de humor naquela situação que do ponto de vista cenográfico, aquilo é completamente ridículo e risível. Está um peru à solta no roseiral da Casa Branca à espera do perdão do presidente. Ora, Donald Trump aproxima-se do pódio e começa a falar do mercado bolsista. E portanto, a partir daqui tem ali uma série de momentos que têm zero de humor, acaba por também não aproveitar o outro lado da moeda, que é ser institucional e falar, por exemplo, do momento que os Estados Unidos atravessam politicamente. E depois fica ali assim a meio-termo, fazendo várias referências ao Iowa. Ora, o Iowa é o primeiro estado a votar numas eleições primárias. Ele fez tantas menções àquele estado que já me parecia que ele estava a lançar a sua campanha para 2024. Portanto, achei um momento mal conseguido, mas forçoso, tanto que o peru se chama Corn, corn quer dizer milho, e milho é o maior produto agrícola do Iowa.

Mas se calhar, João, a piada faz-se por ela própria, Madalena, porque olhaste para aquilo como Trump quase a perdoar-se a si próprio na cerimónia de perdão aos perus.

Sim, havia essa especulação que ele iria perdoar Paul Manafort e a si próprio. E o New York Times faz essa graça, que eu acho que tem essa graça, ou seja, que este, no fundo, é no momento do Thanksgiving e do perdão do peru, é o momento em que Donald Trump finalmente consegue começar a fazer a transição. Parece um momento um bocadinho de redenção. E apesar de não chegarmos àquele potencial cômico que muitas vezes, ou de entretenimento, no qual Donald Trump era realmente um mestre. Em 2018, ele começa a dizer que o peru tinha sido escolhido por um método perfeitamente democrático na website da Casa Branca, mas que um derrotado não tinha sido capaz de conceder, portanto, teve imensa graça. Agora, de facto, ele foi mais sério e tornou-se um bocadinho pesado, apesar da situação ser cômica. Mas falou de dois perus que eram real beauties, que eu acho que também tem que ser notado.

E aliás, esse momento de 2018 foi-nos recordado pelo João Diego Barbosa, que não está aqui conosco hoje, mas que nos lembrou deste vídeo que vamos ouvir.

"The winner of this vote was decided by a fair and open election conducted on the White House website. This was a fair election. Unfortunately, Carrots refused to concede and demanded a recount, and we're still fighting with Carrots. And I will tell you we've come to a conclusion, Carrots, I'm sorry to tell you the result did not change."

O senhoras pediu uma recontagem, mas acabou por perder. Foi uma eleição justa, isto em 2018. Como dizia o João Diego Barbosa: "Pêro que ri por último, é capaz de ser o que ri melhor." Fica aqui a primeira parte, já voltamos pra segunda. Segunda parte do Café América. Nesta segunda parte temos muitos temas pra falar. Se calhar, começávamos pela escolha da equipe de Biden, que vai já a um ritmo muito avançado. Madalena, tu destacavas sobretudo a escolha da equipe de política externa.

Exato, é uma escolha que toda a gente tem saudade, no sentido, em particular na Europa, por ser um time ainda mais centrado exatamente na tradição do liberalismo internacionalista e, portanto, ser, desse ponto de vista, pra Europa, uma benesse, uma vez que na Europa nós também temos uma grande pendente pró-multilateralismo, e também por serem pessoas, de fato, que são mãos experientes. Temos Antony Blinken como secretário de Estado, Avril Haines como Diretora da Inteligência Nacional, portanto, serem, como se diz nos Estados Unidos, "known quantities" para os europeus. Isso é, obviamente, uma tendência que se estava à espera, uma vez que o próprio Joe Biden é considerado, mesmo em relação ao presidente Barack Obama, mais pró-multilateralismo, mais pró-intervencionismo do que Barack Obama, e portanto, estaremos eventualmente numa nova fase. Obviamente que grande entusiasmo não se pode ter nesta fase em que a competição geopolítica, de fato, aumenta e está num ponto muito alto, e não vamos regressar a oito anos atrás, mas de fato, poderemos estar a ver uma Casa Branca com experiência e com vontade de, como diz Joe Biden, "America is back."

Eu confesso que além da escolha da equipe de política externa, achei particularmente interessante a escolha pra o Tesouro, de Janet Yellen. Não é só uma pessoa muito reconhecida entre democratas, é também muito respeitada por republicanos também. E apesar de ser uma tecnocrata, o seu passado, sobretudo na Reserva Federal, deu-lhe ali uma imagem e um reflexo de um trabalho que não olha só pras questões da política monetária. Ela é uma grande defensora da igualdade, nomeadamente da igualdade salarial e da questão dos salários justos, o que até é estranho.

E também das mulheres, não é?

Também isso, que era o meu segundo ponto. Eu tinha a Janet Yellen ali como meu donut, mas depois quis dar espaço a todos os outros que me pareceram mais interessantes. Mas ainda assim, eu não sou propriamente defensora de cotas.

Mas a Janet Yellen é uma mulher. Eu não tinha reparado ainda. Eu só olho pros pericos.

É a primeira mulher a ocupar este cargo, tal como foi a primeira mulher a liderar a Reserva Federal. E na verdade, eu acho sempre que os cargos devem ser ocupados pela melhor pessoa para eles, independentemente de ser homem ou mulher, mas também acho que estes caminhos só se fazem se as pessoas tiverem a oportunidade de os fazer.

Desculpa entrar aí. Não, eu acho que é impossível arranjar alguém mais qualificado pro cargo.

É esse o ponto.

Não só a Janet Yellen já foi, no fundo, a responsável pelo Banco Central, portanto, faz uma espécie de centeno ao contrário. Foi afastada pelo Trump, obviamente. Mas além disso, ela foi também responsável por uma instituição menos visível, mas que é muito importante, que é o equivalente, na parte econômica, do Conselho de Segurança Nacional, o National Security Council, que é o Conselho Econômico Nacional. E, portanto, no fundo, foi a grande articuladora durante a presidência Clinton, entre o presidente e depois o Ministério das Finanças, o Banco Central. Portanto, tem uma enorme experiência também do lado presidencial, do lado executivo, e não só do lado do Banco Central. Eu acho que, de fato, esse é um padrão. Mas desculpa, não sei se já tinhas terminado.

Não, o que eu queria dizer é que ela pode ser particularmente útil num mandato que se imagina que tenha de lidar com grandes problemas econômicos. Acho que o fato dela ser muito respeitada também pelos republicanos também pode ajudar, porque Biden terá de negociar com o Senado. É possível, e até provável, que o Senado se mantenha republicano na sua maioria e, portanto, dar-lhe algum jeito de ter ali alguém na parte das finanças que seja respeitada pelos republicanos. Mas mais que isso, ela também tem essa experiência de articulação, nomeadamente ao nível internacional. Portanto, quem diz que é estranho que ela seja escolhida, porque normalmente pra estes cargos se escolhe sempre alguém com mais experiência internacional e mais experiência política, eu não acho assim tão estranho.

Que isto entronca naquilo que estavas a dizer que tem a ver com o regresso, e que o João de Almeida Dias também tinha referido como uma das suas escolhas, do regresso à escolha dos peritos, dos especialistas, de quem de fato percebe daquilo que está a fazer.

Sim, isso é uma questão que fica evidente, a questão dos especialistas voltarem, de certa forma, aos tecnocratas, que é às vezes uma maneira pejorativa de dizer especialistas, mas é disso que se trata. Nós temos agora pessoas que têm as suas ideias e estão habilitadas para isso, mas que de fato têm um percurso nos temas que vão gerir. Aliás, isso é um exemplo, e acho que podemos agora já começar a tecer comparações com o que foram as primeiras escolhas de Donald Trump há quatro anos. Eu olho, por exemplo, para a nomeação da embaixadora nas Nações Unidas, que é a Linda Thomas-Greenfield, que é uma diplomata com experiência, que neste momento nem estava no ativo, estava no setor privado, em consultoras, mas a verdade é que ela tem uma experiência ampla, já foi aquilo que se pode dizer diretora de política externa dos Estados Unidos no segundo mandato de Barack Obama. Ora, esta pessoa vai agora representar os Estados Unidos nas Nações Unidas e a primeira pessoa que Donald Trump escolheu para este cargo foi Nikki Haley, que tinha sido governadora da Carolina do Sul e que antes disso tinha estado, já não sei se no Senado, se na Câmara dos Representantes Estadual da Carolina do Sul, sem qualquer incumbência de política internacional, para tudo dizer, foi-se da Carolina do Sul, não é a Meca da política internacional. Ou seja, há aqui uma clara ruptura, pelo menos nesse ponto de vista, e acho que isso é totalmente bem-vindo. Ou seja, estamos a ter pessoas que percebem dos temas a tratar desses temas. Não vai haver aquilo que eu acho que podemos olhar como uma das questões mais invulgares, para não dizer outra coisa, da presidência de Donald Trump, que foi a nomeação de pessoas que não têm conhecimento sobre os temas, como por exemplo, o Ben Carson. O Ben Carson é neurocirurgião e foi escolhido para tratar da habitação social, por exemplo. Não faz sentido absolutamente nenhum. Também não fazia sentido absolutamente nenhum delegar tarefas importantíssimas a familiares, apenas porque são familiares de Donald Trump. Portanto, isso, felizmente, está acabado. Agora cada um pensa e poderá fazer.

Mas só telegraficamente, também posso pegar no tema, mas só pegando nisso que estavas a dizer, o colunista bastante influente, até eu conheço o Max Boot, é um daqueles republicanos que depois se viraram contra Trump, muito desta área das questões de segurança e defesa e tudo isso, mas o Max Boot, que tem uma coluna no Washington Post, escrevia: "Eu estou ainda em choque, porque onde é que estão os trolls, os defensores de teorias da conspiração, os familiares do presidente? Quer dizer, eu já não estava habituado a isto ao fim de quatro anos." São realmente pessoas que percebem dos assuntos, que tiveram funções naqueles departamentos do governo. E realmente é um padrão que se verifica. O Anthony Blinken, que foi enviado, no fundo, o chefe da diplomacia norte-americana, já foi o vice-ministro dos nossos estrangeiros, o Deputy Secretary of State. A Avril Haines, que foi nomeada diretora das informações, no fundo, já foi também vice-diretora da CIA. O novo responsável do departamento do que nós chamaríamos o Ministério da Administração Interna, e que tem nomeadamente a questão da imigração, o Mayorkas, que é um hispânico, já foi o vice desse departamento. E, portanto, realmente é um padrão que tem acontecido que eu referi de que de fato há uma enorme opção pela experiência. Eu queria só aqui, só dois pontos muito rápidos, Madalena, porque ainda não tinha tocado nesta questão das nomeações. Um foi um ponto que a Sara também já referiu, que é, apesar de tudo, várias destas nomeações são ainda condicionadas, ou seja, por exemplo, para os cargos de diretor das informações ou o conselheiro de segurança nacional, que é um cargo extremamente importante de coordenação da política externa, da política de defesa com o presidente, o Jake Sullivan, que é considerado, num meio em que abundam os egos, é considerado um dos tipos mais brilhantes desta área, que trabalhou para a Hillary, trabalhou para o Obama, trabalhou para o Biden. Até em termos também de construção de carreira, vê-se que é uma pessoa brilhante e considerado também um homem com uma enorme capacidade de trabalho, a par da enorme inteligência, que foi já, por sua vez, também o responsável do planeamento do Departamento de Estado, portanto, também com experiência. Esses são nomes que são seguros, que dependem apenas do presidente, mas depois a Janet Yellen, o Anthony Blinken, por exemplo, que são ministros, são sujeitos à confirmação pelo Senado. E, portanto, realmente são nomes que teremos de ver se passam. Agora eu concordo com a vossa avaliação, eu acho que também aí o Biden tem estado a fazer uma aposta inteligente. São pessoas de tal forma qualificadas e relativamente moderadas, mesmo que num aspecto ou outro possam ter posições mais à esquerda também, o que também é importante para se legitimar em termos do Partido Democrático. É difícil os republicanos, de fato, criticarem estas pessoas, pelo menos de uma forma, vamos dizer, justa e credível. Portanto, acho que são nomes fortes desse ponto de vista.

Queria só acrescentar, de facto, que o antigo secretário de Estado, John Kerry, foi nomeado como o enviado especial para o ambiente, para a mudança climática. E, portanto, isso demonstra o peso que esta administração está a pôr nesta questão das alterações climáticas, que é obviamente uma causa muito importante Da ala progressista do partido e muitos dizem que vai ser um dos temas fundamentais da política externa americana. Portanto, esta nomeação também demonstra, por um lado, o peso que se põe, por outro também, uma escolha centrista e credível para este posto. Acho que é um dos centrais pelo menos em termos de política externa.

Desse ponto de vista também, este Senado tão empatado ou com uma ligeira maioria republicana, se calhar não é assim tão mau do ponto de vista do Joe Biden conseguir construir o gabinete que queria, que seria tendencialmente mais moderado.

Exatamente.

Apesar das pressões mais à esquerda. Só duas notas muito rápidas. Uma é, eu acho que é interessante, ele sinalizou isso na entrevista que deu ontem ou há poucos dias na NBC, que não estava a pensar nomear pessoas do Senado ou da Câmara dos Representantes. Portanto, no fundo, já vimos, não vai nomear, por exemplo, a Elizabeth Warren para as finanças, que aliás seria complicado também em termos de ser aceite pelos republicanos, mas realmente ele já sinalizou isso, que alguns daqueles rivais que se pensou que ele poderia nomear, como a Bernie Sanders ou a Elizabeth Warren, à partida não irá fazer isso. Eu apesar de tudo, em termos da postura externa do Biden, eu não sei se percebi bem, Madalena, mas eu acho que é verdade que o Anthony Blinken, por exemplo, ou o Jake Sullivan, apesar de terem grande proximidade com o Biden e boas relações com o Biden, no fundo tenderam a tomar posições um pouco mais intervencionistas do que ele, mas eu não veria aqui um sinal claro de que o Biden vai pôr completamente de lado esta tendência para uma certa retração do poder americano.

Não é esse-

Exato. Portanto, eu acho que os sinais que estamos a receber de Washington e do próprio Biden vão muito no sentido de dizer, por exemplo, aos aliados europeus, obviamente o Biden é um atlantista, é alguém que tem ótimas relações na Europa, portanto seria a melhor opção possível neste contexto, mas ele tem deixado muito claro que atenção, os europeus têm de fazer pela vida, têm de continuar a investir em defesa e em crises na proximidade da Europa, os Estados Unidos estarão dispostos a ajudar, a ser parceiros credíveis, mas a Europa tem de liderar e tem de fazer a sua cota.

Que Obama já dizia, não é?

Sim, já dizia, exatamente. Essa não é uma tendência que vai ser alterada. O que poderá ser, de facto, é que em situações concretas onde a questão da intervenção americana esteja em cima da mesa, quando houver as tais famosas red lines, que elas não sejam tão facilmente ignoradas como foram na administração Obama, ou seja, que Biden instintivamente será um pouco mais intervencionista, apesar de isso não querer dizer que no total da sua política externa, ele seja um novo Clinton ou coisa que se lhe pareça. Portanto, não é por aí, mas que em situações concretas talvez seja mais intervencionista.

Em relação a uma postura intervencionista, regressando às memórias de Barack Obama, o livro fecha com o raid contra Bin Laden no Paquistão. E Barack Obama faz questão de dizer aquilo que já se sabia, na verdade, que era que Joe Biden era contra aquela intervenção. E o que Barack Obama escreve ali é que Joe Biden tinha às costas ainda, às costas é expressão minha, mas o significado é esse, às costas a decisão de ter, enquanto senador, apoiado a invasão no Iraque em 2003. Portanto não sei até que ponto é que Joe Biden, com essa cruz, que não é a única a carregá-la, mas ainda assim com essa cruz, não parece que ele agora vá entrar em situações semelhantes. Aliás, nem a política de 2003 é replicável em 2020.

Sim, até porque há uma enorme crise econômica também.

Exatamente.

Vai haver aqui uma grande necessidade de se concentrar naquela ideia da reconstrução, mas reconstrução nos Estados Unidos e não noutros países. Quer dizer, eu também não concordo, ou acho que é preciso ter algum cuidado com aquela visão, que às vezes existe até na literatura e em várias memórias, o Robert Gates é outro exemplo, que o Biden era uma pomba e que esteve sempre contra intervenções militares e esteve sempre contra este tipo de raids. O próprio Obama até nas memórias transmite um pouco a ideia de que achava, e em entrevistas que tem dado, que o Biden, até a pedido às vezes dele, assumia uma postura mais crítica e de maior questionamento até dos militares, porque apesar de tudo era o vice-presidente e tinha alguma autoridade para um senador muito experiente para fazer isso. Mas realmente ele tende a ser visto como alguém que é, ao contrário, por exemplo, da Hillary Clinton, ao contrário da Samantha Power, ao contrário da Susan Rice, naquela equipa do Obama, era até dos com mais reservas em relação sobretudo a intervenções militares em grande escala. Eu acho que ele neste artigo também da Foreign Affairs, que já fomos referindo, ele sinaliza isso. Ele está disposto, não vai virar as costas ao mundo, não vai virar as costas a aliados e a crises, mas quer intervenções muito mais modestas, muito mais limitadas. Só também um outro comentário. Eu acho que este realmente é um dream team, ou seja, são pessoas com currículos completamente exemplares e com muita experiência, portanto, não são só pessoas brilhantes, são pessoas com muita experiência. Eu acho que apesar de tudo, temos que ter algum cuidado com as expectativas, ou seja, o mundo está muito complicado. É verdade que não está para amadores e portanto, desse ponto de vista, é bom que ele tenha escolhido uma equipa tão experiente E com pessoas muito qualificadas, mas não quer dizer que não cometam asneiras ou que não venham a enfrentar dificuldades muito grandes. No fundo, é um bocadinho aquela coisa do Obama, que também transparece nas memórias. Das expectativas completamente descabidas do que o Obama poderia fazer e do que o Biden agora poderá fazer. Eu acho que será certamente melhor do que a experiência com a administração Trump, mas há limites para o que mesmo uma equipa competente consegue fazer.

Um pequeno comentário só de um artigo da Foreign Affairs que mencionava que seria importante que apesar deste tal dream team cheio de experiência, que estivesse aberto de qualquer maneira a influências de fora deste chamado blob. E mesmo a influências vindas da ala mais de esquerda, mais progressista. Isto para que pudesse haver também algum espaço para renovação, novas ideias e também influências que não são daquelas do chamado group thinking, que muitas vezes se desenvolve neste tipo de grupos muito homogêneos. Pessoas relativamente parecidas nos seus percursos e no seu background, apesar da diversidade étnica e de gênero ser grande. E eu acho que isso é um ponto importante quando se vê uma equipa que é tão virada para os especialistas e tão virada para um determinado perfil intelectual. É só uma pequena achega ao que estavas a dizer.

Já soa o sino da bolsa no programa e portanto esta dream team vai arrumar as botas por esta semana. O Café América volta para a semana com mais comentários sobre os Estados Unidos.