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Alô, está lá?
Alô?
Professor Carlos Filhais?
Sim, sou eu. Quem fala?
É o João Miguel do Ciência Pop, Rádio Observador.
Sou eu mesmo. Onde é que está?
Estou no estúdio e o professor?
Eu estou em casa.
Estamos aqui a teatralizar um diálogo que durante uma boa parte do século XX se repetiu na vida de milhões de pessoas no telefone fixo. Primeiro, os números eram marcados através de um disco e mais tarde, no final dos anos 70, passaram a ser digitados num teclado numérico. Professor, ainda sabe números de telefone fixo de cor?
Não.
Não sabe?
Não.
Apagou esse tempo da sua vida.
Apaguei esse tempo da minha vida. A memória é muito útil, mas quando não é usada, naturalmente, a memória esvai-se. Claro, há alguns números que eu sei de cor, mas dos telefones fixos, eu já não tenho telefone fixo.
Já não tem?
Não. Esse diálogo que estamos a fazer, de facto, lembra-me o tempo da minha infância e juventude. Eu quando fui pra Alemanha aprendi uma coisa que em Portugal não se usava: é quando a pessoa atende o telefone, diz imediatamente quem é.
Pois, essa é uma prática que não existe em Portugal.
Ainda hoje faço isso. Quando alguém me liga, eu digo o meu nome. Por quê? Porque evitamos aquela conversa: "Está lá. Quem fala?" E o outro pode perguntar: "Mas o senhor é que me está a chamar, quem é?" E não diz nem quem recebe, nem quem é, "mas com quem eu estou a falar?" E perdem três minutos de conversa, estou a exagerar, antes de saber se vale a pena continuar a conversa. E eu, quando atendo o telefone, não uso agora praticamente o fixo, digo: "Sou fulano". E a pessoa fica logo a saber, quando não é pra mim, enfim, pedem desculpa.
Muito bem.
Mas, infelizmente, muitas vezes é pra mim. Quer dizer, infelizmente, porque recebo muitas chamadas.
É uma pessoa muito solicitada. Ainda bem.
Não, eu gosto, mas uma das razões porque eu tirei o telefone fixo foi porque havia chamadas não desejadas com uma abundância terrível. No telemóvel ainda há, mas é menos.
Muito bem. Vamos falar do telefone fixo. A invenção do telefone está envolta em alguma controvérsia. Afinal, professor Carlos Filhais, quem é que inventou este aparelho que nos pôs a comunicar à distância?
Bem, essa é uma pergunta que eu não tenho uma resposta simples. Se há uma resposta simples, eu também não a posso dar. Eu aprendi na escola que foi um senhor escocês, ou de origem escocesa, que depois emigrou primeiro pro Canadá e depois pros Estados Unidos, Alexander Graham Bell. E, de facto, pode ser dada a primazia de um certo ponto de vista. Ele foi o primeiro a fazer uma patente válida, quer dizer, uma patente que se tornou definitiva, de um aparelho pra falar à distância. E fez isso no ano da graça de 1876, um grande ano pra tecnologia, porque é o mesmo ano do motor de combustão interna e, portanto, foi um ano muito produtivo do ponto de vista de invenções.
Motores e telefones foi tudo inventado no mesmo ano.
Isso. Está vendo? Uma pessoa chega ao fim do ano: "Épa, fizemos alguma coisa". "Vou falar deste ano." O que é que aconteceu? Ele já andava há algum tempo a trabalhar nisso, mas não era o único que andava a trabalhar nisso. É muito conhecida a frase que ele no ano anterior disse, de uma divisão pra outra da casa: "Senhor Watson, venha aqui, preciso de si". Era ele a falar pro ajudante. O ajudante chamava-se Watson e foi, aparentemente, segundo o próprio, a primeira frase que foi dita ao telefone. Ele mais tarde, em 1915, haveria de repetir esta frase numa chamada de Nova York pra São Francisco pra o mesmo Watson. E disse-lhe: "Senhor Watson, preciso de si, mas sei que está a seis dias de distância". Ainda não havia voos.
Pois, porque no telefoniema original, o Bell estava no sótão, não era?
Sim, em níveis diferentes da casa. E ele, de facto, já fazia experiências disso há algum tempo, interessava-se por som. O pai tava ligado a questões de fonética, etc. E ele é um grande inventor, inventou outras coisas. Mas agora está a questão: seria simples se fosse só isto, mas havia várias outras pessoas atrás da mesma coisa. Já havia o telégrafo na altura, quer dizer, era possível transmitir sinais elétricos à distância, portanto, mandar uma mensagem, por exemplo, usando o código Morse. Mas a questão é transmitir a voz. Pra transmitir a voz, o meio da física é simples: o som é uma onda, a onda faz abanar o ar e põe-se uma membrana muito fina, uma placa muito fina. Se a placa for metálica e for magnética, temos o ímã perto de um circuito e nós já sabemos, até falamos disso, a indução do Faraday, já se sabia desde bastante antes do século XIX que o movimento do ímã fazia uma corrente. E o que é preciso agora é transmitir essa corrente à distância e, do outro lado, fazer o processo inverso. De um lado, está o microfone, do outro lado, está o alto-falante, conseguir mudar o sinal elétrico pra um sinal sonoro. E foi isso que o Alexander Graham Bell fez, mas não foi o único. Bastantes anos antes, pelos vistos desde 1860, havia um italiano que tinha emigrado Tinha emigrado de Itália, primeiro para Cuba e depois para os Estados Unidos, chamado Antonio Meucci. E este fulano fez várias demonstrações. Construiu um aparelho, aliás, segundo o mesmo princípio. Basicamente, a física era a mesma, embora a tecnologia podia variar um pouco, mas fez uma coisa: ele não tinha muito dinheiro, registou uma patente provisória e a patente provisória não se tornou definitiva. E depois na própria patente também não explicava bem como era. E, portanto, o que é que acontece? Quando sai a patente do Graham Bell, ele soube e ficou extremamente incomodado. Aliás, entrou numa batalha legal, porque dizia: "A prioridade é minha". Ele tinha razão no seguinte ponto: é que ele já trabalhava há muito tempo nisso e tinha conseguido resultados. Não tinha razão no sentido em que o outro tinha mais dinheiro para isso, obteve logo apoios e foi o primeiro a registrar a patente definitivamente e a fazer a patente bem, explicando para que era a proteção intelectual. Agora, isto seria simples se só houvesse estes dois. Há mais.
Pois, porque o professor há pouco disse que eram vários, não é?
Mas antes de ir a outros, há um episódio engraçado que se passou na política americana relacionado com Antonio Meucci. No ano de 2002, o Congresso Americano fez uma aprovação de uma determinação em que dizia que o inventor não tinha sido o Bell, mas tinha sido o Meucci. Do inventor do telefone. Por que eles fizeram isso? Com certeza, movido por pessoas de origem italiana nos Estados Unidos. Este trabalhava em Nova York e o outro trabalhava em Boston. Houve ali uma questão política que fizeram. O Senado americano nunca tratou do assunto. E aquilo ficou apenas como uma decisão política, como se fizesse algum sentido um parlamento dizer quem é que tem a originalidade de uma invenção. Mas o parlamento do Canadá, para onde tinha andado o Graham Bell, não custou nada e disse: "Não, senhor, foi o Bell". E, portanto, quase que transformou numa batalha política entre dois países vizinhos e amigos. Mas falando de outros, há um outro no estado de Illinois, um outro americano, Elisha Gray, que, veja lá, João Miguel, o azar que ele teve. Foi exatamente no mesmo dia registrar uma patente muito parecida com a do Alexander Graham Bell, mas chegou umas horas mais tarde.
Coitado.
O negócio ficou todo para o Bell. Aliás, o Bell havia de fazer a grande companhia de telefones, a Bell Telephone Company, que deu origem depois à grande empresa, a AT&T. Aliás, foi nos laboratórios Bell que se fizeram grandes invenções que depois haviam de encher o nosso século XX de coisas novas.
Muito bem.
Mas não é o único.
Depois, na corrida ao telefone, não haverá por aí um português? Porque diz que há sempre um português envolvido em qualquer área.
Mas há um descendente de portugueses. Há um alemão judeu, que tem o apelido Reis, Johannes Philip Reis. E o Reis, isso mesmo em português, Reis, não é Rice. Rice em alemão é arroz. É mesmo Reis, porque a avó era portuguesa, era um judeu sefardita. E a avó tinha problemas de surdez, ele inventou um dispositivo para ajudar a avó, inventou um dispositivo até que muito curioso, que tem uma tecnologia luso-germânica. Eu explico luso-germânica, porque ele usou um bocado de cortiça, que essa parte é a parte lusa, e usou para a membrana vibratória uma salsicha de porco, que é uma coisa germânica.
Deixa-me assim sintetizar isto: com um bocadinho de cortiça e uma salsicha.
Fez uma espécie de um microfone. E depois a questão está em que o movimento da membrana tem de algum modo de fazer andar eletricidade num fio elétrico. E ele tentou isso, até mandou para um professor alemão de Física, mas não encontrou muito eco. Era um amador. Não encontrou eco na comunidade de físicos e também já havia algum antissemitismo na Alemanha, portanto, aquilo não teve grande êxito. Mas isto era ao mesmo tempo que o Antonio Meucci fazia as suas experiências nos Estados Unidos. Há aqui um engenho luso metido nisso. Não é bem português, mas é um descendente de um português. Alguns alemães reclamam a prioridade no telefone. E já temos aqui um, dois, três, quatro nomes à procura de prioridade na questão do telefone.
Muito bem. Sendo que os dois nomes principais são então o Alexander Graham Bell e o Antonio Meucci. Como é que funcionava o telefone do Bell? E era muito diferente do que inventou o tal italiano que depois foi viver para os Estados Unidos? Eram muito iguais?
O princípio físico era basicamente o mesmo. Eles trabalharam separados e, portanto, a tecnologia do ponto de vista prático, diferia. Era um trabalho independente. Aliás, o Meucci podemos dizer que começou primeiro, terá começado primeiro, mas o Meucci ficou mesmo bastante zangado quando viu que lhe estavam a tirar. Ele pensou que era um roubo, que lhe estavam a tirar a prioridade. Isto pode funcionar como aviso aos inventores: apressam-se e registem as patentes. Hoje é, mas na altura já era cara uma patente. Era preciso, ao câmbio atual, à conversão para a atualidade, uns oito ou nove mil dólares para conseguir registar a patente. E foi o dinheiro que lhe faltou. Não era o engenho, não eram os conhecimentos, foi o dinheiro que lhe faltou para registar aquilo e o Bell havia de ficar rico. E ele não.
Muito bem. Estamos a falar do final do século XIX. Quando é que o telefone se começa a popularizar, professor Carlos Filhais, e a entrar no quotidiano da humanidade?
A aplicação foi muito rápida, quer dizer, as chamadas começaram a ser feitas, mas havia um processo quase que artesanal de estabelecer as ligações, porque a questão é: como é que eu escolho o meu interlocutor? Ou há uma ligação direta, ou se tenho uma escolha a fazer, tem de haver alguém que pegue nas cavilhas e faça a ligação para o sítio certo. Havia todo esse processo manual de início, mas pessoas ficaram impressionadas. O Imperador do Brasil, Dom Pedro II, passou pela feira de Filadélfia, viu e quis logo, isso passado pouco tempo. Mesmo em Portugal, o Rei Dom Luís fez uma chamada entre o Observatório Dom Luís e a Tapada da Ajuda e viu logo, passados poucos anos. A aplicação na vida prática apareceu imediatamente, primeiro para as pessoas mais poderosas e depois para toda a gente. Simplesmente havia o problema prático de tornar ágil a escolha do interlocutor e as automatizações só começaram a ser feitas nos anos 20, 30. Foi nessa altura que surgiu o tal telefone com os buraquinhos, com o disco a rodar. Porque tinha o próprio de marcar o número, que depois havia um processo automático daquele número corresponder a um certo interlocutor. Isso foi automatizado nos anos 20 e 30. E depois, recentemente, tivemos, como toda a gente sabe e se lembra, mas é relativamente recente, a questão dos telefones móveis, telefones sem fios. E para dar uma data, há um engenheiro da Motorola, uma empresa de telecomunicações, Martin Cooper, que é considerado o pai do telemóvel, porque em 1973 fez a primeira conversa. Curiosamente, foi um engenheiro da Bell Labs, que era rival da Motorola. E depois demorou mais algum tempo, mas a própria Motorola em 1973 já tinha telemóveis comerciais. Mas eram muito pesados, eram tijolos e caros. Eu lembro-me de ver os primeiros, isso foi no nosso tempo, João Miguel. Eu lembro-me de ver os primeiros e de facto, aquilo trazia-se no automóvel, era uma coisa enorme e não era de facto prático.
Como se costuma dizer, custava para cima de um dinheirão, não era?
Aquilo era uma coisa. Mas depois a tecnologia foi-se aperfeiçoando e começaram a aparecer no final do século telemóveis inteligentes, os smartphones. Toda a gente se lembra, por exemplo, de um telemóvel, essa marca já não há, que o Obama usava, que é o BlackBerry, que chegou a ser muito popular. O Nokia foi imensamente popular antes do BlackBerry. Mas de facto, se quisermos um marco tecnológico já neste século XX, foi em 2007 o aparecimento do primeiro iPhone, o iPhone 1. E hoje já vai no 15, quase todos os anos. Já passaram mais de 15 anos. Já passaram exatos 15. Sete. E, portanto, todos os anos há um novo e de algum modo, a Apple tornou-se um potentado nesta área e tem o seu próprio sistema operativo, tem o seu próprio design, tem a sua própria tecnologia e hoje em dia passa publicidade, porque também há os rivais baseados no Android e que também se vendem muito, aliás, até se vendem mais.
O telemóvel é beneficiário da Lei de Moore, que já falámos aqui, não é, professor?
Sim, com certeza, que é aquela coisa de empacotar transístores num espaço cada vez mais pequeno. Estamos a falar destes smartphones, já são totalmente digitais, portanto exigem os transístores e a possibilidade de se ter evoluído na Lei de Moore fez com que os telemóveis não apenas ficassem ao nosso alcance mas a colocação de inteligência enorme dentro deles.
É verdade.
Um telemóvel é um computador de bolso. E hoje temos aqui não apenas um meio de comunicação, mas é um verdadeiro computador que faz, ligado aos outros, mas pode fazer a pergunta aos outros e ter a resposta imediatamente, mas é um meio tecnológico avançadíssimo. E o que é curioso é que se divulgou por todo o mundo de uma maneira, ainda agora nós vemos povos do terceiro mundo, que não têm nada, mas têm o telemóvel.
Pois é. Porque é uma máquina poderosíssima, não é? Permite-nos contactar o mundo todo.
E os portugueses, coisa que eu nunca percebi, feita a média, têm mais de dois telemóveis cada português. Atendendo a que as crianças não têm, acho eu que não têm. Acho que não faz muito bem, por várias razões de saúde física e mental, usar telemóvel em pequenino. Mas deve haver pessoas até que têm três e quatro. Eu só tenho um.
Pois, eu também. E já me basta.
E já me dá muito que fazer.
Exato. E já chega.
Mas dá muito jeito, às vezes.
Dá, sim senhor. Fazer é o verbo.
O problema, João Miguel, é quando os portugueses usam o telemóvel para esta coisa que é muito comum, que é desmarcar coisas.
Bom, o telemóvel permite fazer tudo, inclusive permite ouvir o "Ciência Pop" em formato podcast e dá para partilhar também nas redes sociais. Bom, se nos ouve no telemóvel, na aplicação Spotify, há uma pergunta para responder no final do programa. Vamos ver se os ouvintes estiveram de orelhas bem coladas à coluna do seu telemóvel. A pergunta que colocamos é hoje: a primeira patente de telefone foi registada por Graham Bell em que ano? 1875, 1876 ou 1880? Professor Carlos Filhais, alô, alô, ainda está por aqui ou não?
Alô, sou eu.
Até para a semana, professor.
Adeus.