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Viva, professor Carlos Filhais.

Olá, João Miguel.

Professor, na semana passada tive de ir fazer uma radiografia ao joelho, nada de grave. Dei por mim a pensar: como é que uma máquina consegue ver, entre aspas, o interior do meu corpo, no caso, os ossos do meu joelho? E pensei: o professor Carlos Filhais deve saber. Sabe, não sabe, professor, como é que uma máquina consegue ver o interior do meu corpo?

Como é que o raio-X consegue ver o interior dos corpos? Sim, sei.

Como?

Os raios-X são uma forma de radiação com comprimento de onda muito curto. Está entre o nanômetro e o picômetro, portanto 10^-9, 10^-12. Quanto mais pequeno é o comprimento de onda, mais energética é essa radiação, porque maior é a frequência, mais energia tem e consegue entrar dentro de corpos sólidos e penetrar. Depois há um fenômeno que nós chamamos de infração, que nos dá uma imagem dos obstáculos que encontra. Quando vai fazer uma radiografia, está apenas a ver o resultado da interação entre essa radiação muito poderosa e os tecidos ósseos, que deixam as marcas mais fortes e depois também tecidos moles deixam alguma marca. Portanto, nós vemos, de facto, o interior do nosso corpo de uma maneira fácil com essa radiação.

Radiação que é o raio-X, não é?

O raio-x.

Quem é que descobriu que havia raios que atravessavam os corpos opacos e por que razão se chama raio-X, professor?

O descobridor do raio-X é um dos físicos famosos, é um alemão, Wilhelm Röntgen, e fez essa descoberta um pouco por acaso. Estava a trabalhar com descargas elétricas num tubo, mas não estava à espera de encontrar aquilo que encontrou. Trabalhava na cidade da Baviera, de Würzburg, era lá professor de Física. Esse cientista estava a examinar, é um assunto muito na moda, descargas elétricas numa ampola de gás, mas tapou a ampola com papel de modo a proteger, a ficar escuro, não se ver o que se passava lá dentro. E ele tinha umas chapas fotográficas mais longe. Ele estava atento e reparou que a chapa fotográfica ficava impressionada, mesmo não havendo luz visível, não havia meio de comunicar com a chapa fotográfica que fosse conhecido. E então ele começou a observar melhor e viu que havia ali qualquer radiação desconhecida e ele próprio ficou impressionado. A chapa fotográfica ficou impressionada, e ele próprio ficou impressionado. E, portanto, ele descobriu esses raios, aos quais ele próprio deu o nome de X, porque X é a incógnita que aparece na Matemática. X é o desconhecido, aquilo que se quer determinar. E o X eram esses novos raios desconhecidos.

Isso foi em que ano, professor?

1895. Ele anuncia a descoberta logo a seguir ao Natal de 1895, 6 de dezembro de 1895, estava a trabalhar no Natal. E, portanto, foi a prenda de Natal da Física à Medicina e ao mundo, do ano de 1895, final do século XIX. E o que faz um físico quando fica impressionado com uma coisa nova, espetacular, nunca se tinha visto? Não sei se o João Miguel sabe o que é que faz um físico.

Grita "Eureka"? Não.

Não. Chama a mulher.

Chama a mulher.

Chama a mulher. E o que ele pediu à mulher? Pediu à mulher para pôr a mão ali na frente a ver o que acontecia à imagem. E então a primeira radiografia, até que eu vi o seu anel, foi da mão da mulher. E, portanto, foi aquele, esse eu brinco um bocadinho, antigo desejo masculino de ver o interior da mulher. E ele, de facto.

Conseguiu.

Ainda que de uma forma limitada, só a mão, conseguiu ver o interior, cumprir essa pequena parte de saber essa coisa misteriosa.

Portanto, ficou logo claro no início.

Ela ficou assustada, porque viu os ossos dela. Ela até disse: "Confrontei-me com a minha própria morte", porque ela estava a ver os ossos dela. E a certa altura, de facto, viu-se que se podia fazer isso de uma maneira fácil, fácil de replicar e começou toda a gente a fazer. Esse foi o primeiro raio-X da história, foi feito pela mulher do Röntgen, ou antes, com a mão da mulher do Röntgen. Não há nada como ter uma mãozinha da nossa esposa para ajudar. Portanto, há uma mão feminina nesta criação.

Muito bem. Portanto, ficou claro para o Röntgen que havia uma aplicação com estes novos raios-X, que era possível ver por dentro do interior do corpo.

Sim, ele percebeu logo que aquilo era uma coisa não só espetacular como útil. E até escreveu a várias pessoas, sábios de vários sítios do mundo, mandando cópias da fotografia e fez uma comunicação entre o Natal e o Ano Novo, fez uma comunicação e espalhou o mais que pôde e toda a gente começou a imitar e era fácil de imitar aquela coisa. E chegou aos hospitais também rapidamente. Por exemplo, a imitação em Portugal. Imitação significa replicação da mesma experiência em Portugal, fez de um modo relativamente rápido. Há coisas que às vezes demoram muito a chegar cá. Ali foi só as notícias na altura. Na altura havia o telégrafo, mas as notícias da altura, jornais portugueses em poucas semanas já noticiavam aquilo, e aquilo veio nos jornais de todo o mundo, viu-se logo. E em Portugal houve um professor de Física, Henrique Teixeira BastosHospital da Universidade de Coimbra, que tinha todo o equipamento para repetir a experiência. E como é normal na ciência, em particular na física, é preciso que alguém repita as experiências para serem comprovadas, e ele fez também isso. Não acredita só por acreditar, tinha o material disponível e fez. Tinha lá uma bobine, fazia uma descarga dentro de um tubo, e o que ele fez? Usou o dedo, não da mulher, mas de um aluno do quarto ano médio. E fez o dedo à mão.

Também há a notícia do espanto desse aluno, tal como a mulher de Röntgen.

Aquilo correu logo o país. E há um jornal. Isto foi no Carnaval, portanto, em final de fevereiro de 1896, não demorou dois meses.

Rapidíssimo.

Rapidíssimo pra aquela época. Não tínhamos os meios de comunicação que hoje temos. E o que é curioso é que já tinha havido notícias na imprensa portuguesa da descoberta alemã, mas o jornal "O Século" dedicou praticamente toda a primeira página, de 1 de março de 1896, a esta sensação: descoberta de raios que atravessam os corpos opacos. Com imagens sugestivas, incluindo não apenas de membros humanos, mas de animais e até de uma carteira com umas moedas lá dentro. Quer dizer, conseguia-se ver o dinheiro que lá tínhamos sem abrir a bolsa, coisa que acho que as pessoas do fisco conseguem nos tirar tudo o que está lá dentro.

Não têm visão raio-X.

Mas hoje o raio-X, as aplicações na medicina foram imediatas, começou-se em todo o mundo. Quer dizer, foi das transferências de tecnologia mais rápidas que já foram feitas. Em Portugal, tal como no resto do mundo, nos Estados Unidos, em todo lado, começou-se imediatamente em Portugal, no Hospital da Universidade de Coimbra, começou-se imediatamente a criar um gabinete de radiologia. Por quê? Porque podíamos ver ossos partidos, podíamos ver tudo. E hoje temos essa tecnologia desenvolvida ao máximo através do TAC, que no fundo não é mais que raio-X, mas de uma maneira sistemática, a ver seções para podermos construir camadas para poder construir tridimensionalmente o interior do nosso corpo.

Professor, por que não se devem realizar exames raio-X com metais junto ao corpo, como pulseiras, fios e brincos?

Muito simples, porque esses metais são mais opacos que os nossos ossos, quer dizer, absorvem mais o raio-X do que os nossos ossos. O que significa que vão falsear as radiografias. Se tiver qualquer coisa por trás de um relógio metálico ou de um fio, etc, a imagem vai ficar prejudicada. E é apenas para ter boa qualidade do interior do nosso corpo, que não é mais nada, que se pede para tirarem brincos, braceletes, essas coisas, é apenas isso. Já agora, acrescentar que no ano de 1912 foi também feita uma descoberta notável por um inglês e o filho era australiano, nasceu na Austrália, os Bragg. O Röntgen foi o primeiro de todos a receber o Prêmio Nobel de Física, em 1901, e estes haviam de receber em 1915, muito rapidamente, por trabalhos já usados poucos anos antes. E o pai e filho, o que fizeram? Mostraram que com raio-X atirados por cima de um corpo sólido, no caso um metal ou qualquer corpo, qualquer cristal, um corpo em que os átomos estão ordenados, podia-se, recolhendo a imagem, recolhendo a radiação que vinha de lá, conseguia-se saber qual era a ordem que lá estava, que significa a chamada cristalografia. Era um meio de ver o mais íntimo da matéria. Não serve apenas para ver de que nós somos feitos, mas serve também, de algum modo, para ver a construção atômica e molecular. E hoje, por exemplo, se queremos saber a estrutura das proteínas, que são as moléculas que estão dentro das células, o que se faz é impactar as proteínas para fazer sólidos e há sítios com raio-X poderosos, que são aceleradores de elétrons, e o elétron andará roda, liberta radiação sob forma de raio-X, põe-se lá esses preparados das proteínas e nós sabemos a estrutura da proteína. Não é apenas na medicina, é na física e química, é na biologia. O raio-X é das descobertas mais úteis que já se fizeram na ciência. Para não falar dos aviões, que uma pessoa vê o interior das malas quando vai entrar.

É verdade.

E tantas outras coisas que se podem fazer com raio-X.

É uma tecnologia já banalizada, mas fazer exames radiológicos faz mal à saúde, não é, professor?

Sim.

E que não se pode abusar.

Não se pode abusar, mas para isso é que é uma coisa muito bem regulada. Nós sabemos já bastante sobre isso, sobre a segurança radiológica e portanto os técnicos, os profissionais, os radiologistas, os médicos que trabalham nessa área, sabem muito bem o tempo de exposição e regulam o tempo de exposição, sabem muito bem onde é que uma pessoa se pode pôr, onde é que uma pessoa não põe, reduzir ao mínimo o tempo de exposição só para obter a imagem. E os profissionais asseguram isso, que sejam tidos todos os cuidados, porque, de fato, a acumulação de radiação no nosso corpo é prejudicial, porque essa radiação de raio-X, se por um lado pode ser útil em diagnóstico e até em tratamento, para destruir células, mas ela tem esta capacidade de ionizar as nossas moléculas e átomos. O que isso quer dizer? Retirar elétrons. Isso se retire elétrons, chama radiação ionizante, se retire elétrons, as nossas moléculas já não fazem o trabalho que têm que fazer e prejudicam a vida, são prejudiciais para a vida e têm que se limitar ao máximo, mas quando tem que ser, tem que ser, mas não é uma coisa que se faça só por fazer, tem que ser feito sob indicação médica e de forma controlada e com a devida segurança.

O professor anda sempre aí a fazer radiografia à história da ciência. Tem alguma história incrível com raio-X, professor Carlos Silveira?

Por acaso até tenho! Não me diga que conseguiu com a sua visão raio-X.

Consegui.

Saber as histórias que eu tenho. Há poucos anos, saiu nos jornais, na internet, a notícia que havia uma No Algarve, acho que no sentido do Algarve, que havia alguém que tinha tentado fazer mamografias por satélite. Mamografia é um exame de raio-X. E houve alguém, parece que uma voz feminina que telefonava e dizia que ia passar um satélite, que ia examinar as mamas, porque é o nome das senhoras, e elas só tinham que estar àquela hora, que ia passar o satélite com a exposição adequada e não sei se estava alguém a olhar com binóculos ou quê. O que eu sei é que houve várias pessoas que depois se queixaram que nunca mais vinha a mamografia. Fizeram o exame, não vinha o resultado. E de algum modo foram vítimas da sua própria ignorância, porque deviam saber, e se não sabem, eu repito aqui, que o raio-X, que até existem em raios cósmicos, existem até de explosões de estrelas, etc., quando chegam a atravessar a atmosfera, eles são absorvidos e portanto, é impossível fazer mamografias por satélite, os raios X não atravessam toda a atmosfera, porque se atravessassem, a vida não se podia ter desenvolvido aqui. E portanto, foram de algum modo vítimas da sua própria falta de cultura científica.

Muito bem. Se nos ouve na aplicação Spotify do telemóvel, daqui a pouco há uma pergunta para testar os seus conhecimentos adquiridos no programa de hoje. Em que ano foi feita a primeira radiografia? 1893, 1885 ou 1895? Professor Carlos Filhais, não se esqueça de partilhar o programa com os seus milhões de seguidores.

Milhões é um exagero.

É? Quantos tem? Muitos.

Uns milhares.

Uns milhares. Até para a semana, professor.

Até.