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Bem-vindos ao "Ciência Pop". Olá, professor Carlos Chilões.
Olá, João Miguel.
Professor, esta semana vamos falar com mais propriedade de uma cientista sobre a qual já se falou aqui no "Ciência Pop", Maria Salomea Skłodowska-Curie, que o mundo conhece como Marie Curie ou Madame Curie. Foi a primeira mulher a conquistar um Prêmio Nobel e a primeira pessoa, e até agora única mulher, a conquistar dois Nobel. Nasceu aqui em Varsóvia, na Polônia, onde estamos a gravar. Estamos no Centro de Ciência Copérnico. Já visitamos a casa onde nasceu e viveu Marie Curie. Professor, o que nos pode dizer sobre as origens desta cientista, que talvez muitos ouvintes julguem ter sido francesa, mas não.
Não é francesa.
Não é francesa.
É polaca. Skłodowska-Curie é do marido. Ela nasce em 1867, em Polônia. Nós estivemos lá agora na casa onde ela nasceu, precisamente numa casa do centro histórico de Varsóvia e é muito interessante. Hoje em dia é uma casa-museu, pode-se ver qual é a origem da família. A família média burguesia, o pai era professor de Física e Matemática e diretor de um liceu, e a mãe também dirigia uma escola para meninas. Portanto, ela nasce num sítio onde se cultivava o estudo, pessoas de escola, e ela própria foi bem acompanhada. Tinha irmãos, irmãs. Foi acompanhada desde cedo na sua educação e sempre foi uma pessoa que revelou dotes excepcionais desde muito pequena. Claro que nessa altura, estamos a falar do final do século XIX, as mulheres não tinham lugar no ensino superior. Eram muito poucas as exceções. Ela chegou a frequentar uma espécie de ensino superior ainda na Polônia, porque ela depois aos 24 anos vai para a França, onde aliás uma irmã já estava, mas era uma universidade chamada volante, que era uma espécie de universidade clandestina em que aí as mulheres podiam entrar. Portanto, ela fez estudos secundários e estudos universitários ainda de uma forma que podemos chamar clandestina. Mas depois vai para a França, 1891, e aí vai entrar no Sorbonne como aluna extremamente dedicada ao estudo e vem a conhecer o seu futuro marido, um físico extraordinário, Pierre Curie, daí o nome Curie. Pierre Curie, o pai era médico, uma família de médicos, mas é um físico que já na altura era bem conhecido e dá-se ali uma paixão. E é muito interessante porque eles casam e vão receber os dois, em conjunto, o tal primeiro Prêmio Nobel de Física.
Já vamos falar disso. Deixe-me só perguntar, para perceber qual foi a importância da Marie Curie para a ciência. A esta cientista se deve a descoberta de dois novos elementos, que é o polônio e o rádio.
Sim.
O que é o polônio e o rádio?
São elementos químicos da tabela periódica que não eram conhecidos, têm dois nomes novos. O primeiro, polônio, refere-se à origem do país natal, à origem de Madame Curie, e o outro, rádio, vem do latim. Rádio significa raio. Por quê? Porque esse novo elemento emitia raios muito intensamente. Daí o nome de radioatividade. Foi uma expressão de um fenômeno físico, então descoberto no final do século XIX, que foi um professor francês, Henri Becquerel, que descobriu em 1896 e ele vai dividir o Prêmio Nobel com o casal Curie. Um dos primeiros prêmios Nobel, em 1903, para estes três cientistas. E eles, de uma montanha de mineral de urânio que tinha vindo da Boêmia, estou falando mais de uma tonelada, conseguiram por processos químicos e medindo a radioatividade, sabia-se que aquilo emitia radiações, hoje sabemos que eram radiações, na altura estava-se a descobrir, e conseguiram isolar uma parte extremamente radioativa. O polônio também, mas o rádio é extremamente radioativo. E eles conseguiram fazer 1 mg, uma coisa pequeníssima, tiveram quase que peneirar dentro de um barracão, sem condições praticamente nenhumas, em condições muito primitivas. É um trabalho estoico, um trabalho prolongado, e eles conseguiram isso, e o Prêmio Nobel reconhece esses primeiros estudos de física nuclear, embora o núcleo na altura ainda não tivesse sido descoberto. Hoje sabemos que a origem da radioatividade é o núcleo atômico.
Muito bem, o que me leva à pergunta: o que é radioatividade?
Sim, a atividade do rádio levando à letra, mas é a atividade de muitos outros elementos, em particular os mais pesados O urânio também é radioativo, são elementos que emitem radiações. Radiações podem ser de vários tipos, pode ser radiação alfa, são partículas de hélio, núcleos de hélio. Pode ser radiação beta, são eletrões. Eletrões que vêm lá dentro do núcleo, a gente sabe que há eletrões à volta, mas estes vêm com grande velocidade lá de dentro, e são raios de gama, que é uma forma de luz muito energética. Essas radiações foram sendo descobertas principalmente nessa altura, final do século XIX, início do século XX, quando, não se sabendo ainda que existia o núcleo, o núcleo manifestou-se antes de ser identificado, através dessa radiação que emitia. E hoje sabemos que os elementos pesados são todos radioativos, de uma maneira ou de outra. Acaba a tabela periódica, porque os núcleos são instáveis. Os núcleos têm de emitir, porque têm demasiada carga e não conseguem manter-se em equilíbrio. Núcleos mais leves também, de algum modo, todos os núcleos, desde que haja uma desproporção entre protões e neutrões, que são os constituintes dos núcleos, são radioativos. Quer dizer, protões a mais ou protões a menos, até o primeiro hidrogénio, há dois isótopos, nós chamamos isótopos às variedades em que tem o mesmo número de protões e diferentes números de neutrões. Se desequilibrar muito o número de neutrões torna-se radioativo, é o caso do trítio, que é instável, só aparece durante um certo tempo, que é usado, por exemplo, pra fusão nuclear. E qualquer outro, pense no carbono. Carbono 14 é radioativo, o oxigénio tem isótopo radioativo. Todos os elementos têm formas radioativas.
Radioatividade. Dizia há pouco que a Marie Curie descobriu ou isolou a radioatividade no polónio e também no rádio.
Sim.
Portanto, dois elementos que existem novos, mas que são elementos naturais.
São elementos naturais, sim.
A Marie Curie isolou a chamada radioatividade natural. Significa que há radioatividade artificial?
Sim. Curiosamente, a Madame Curie e o Pierre Curie tiveram duas filhas. A mais velha, Irène, adotou depois o nome de marido, Joliot-Curie, foi também física, casou com um físico, Frédéric Joliot-Curie, e eles são os descobridores da radioatividade artificial. Portanto, all in the family, tudo dentro da mesma família. Já aqui temos quatro Prêmios Nobis, vai haver um quinto, porque a segunda filha casa com um francês que foi diretor da UNICEF, organismo da UNESCO pra infância, que recebe o Prêmio Nobel, nos anos 60, da Paz. E portanto, só naquela família temos ali cinco Prêmios Nobel, o que é extremamente raro.
Parece um complô.
No ano de 1935. Um ano depois dela ter falecido. A Madame Curie morre em 1934. E o marido tinha morrido muito antes, no início do século, de acidente, infelizmente, numa rua de Paris, é atropelado por um carro de cavalos. E ela ficou viúva. O Prêmio Nobel da filha e do marido deve-se ao fato de ter, por reações nucleares, transformado elementos naturais noutros que são instáveis e, portanto, a criação destes isótopos, os elementos que têm um desequilíbrio entre protões e neutrões, são os elementos químicos, mas instáveis e não existem na natureza, foram criados por uma reação nuclear. E hoje sabemos fazer isso, e fazemos isso muitas vezes até em instalações hospitalares, para fazer os chamados radioisótopos, para fazer diagnósticos ou tratamentos, etc. A radioatividade hoje tem múltiplas aplicações. A medicina é uma das mais conhecidas. A radioatividade é muito usada hoje nos hospitais, mas tem aplicações em muitos outros casos da nossa vida.
De resto, Marie Curie utilizou o seu saber ao serviço da medicina ao longo da sua vida.
Sim, percebeu-se logo que a radioatividade tinha aplicações médicas, foi desde muito cedo, podia tratar certas coisas. E há outro tipo de radiações que já se sabia que tinham aplicações médicas, o caso do raio-X. E ela, na Primeira Guerra Mundial, andou com umas ambulâncias. Ela própria guiava a ambulância para uma unidade móvel de raio-X. Naquelas batalhas enormes, como na França e na Bélgica, ela recolheu feridos e examinou-os ao raio-X. Mas o próprio rádio, aquela emissão pode servir e serve para matar, vamos usar palavras simples, células que estão a prejudicar organismos, células, por exemplo, cancerosas que estão a começar um tumor. Tem é de se apontar muito bem àquele sítio para não estragar o tecido que está à volta. Curiosamente, aqui há um lado dramático, ela morre, hoje sabe-se, na altura não se conhecia bem os malefícios da radioatividade, porque pode ter benefícios, como eu disse, mas também tem malefícios, é preciso a dose certa no sítio certo. E ela morre por ter trabalhado sem precaução, muito tempo com as mãos em elementos radioativos. Ela, de algum modo, é uma vítima também da radioatividade que ela ajudou a descobrir.
Estamos a falar de uma cientista ao serviço verdadeiramente da humanidade. Onde é que podemos encontrar o legado do trabalho científico de Marie Curie, professor Carlos Filias?
O legado está em muitos sítios de uma forma efetiva, como eu já disse. Por exemplo, a radioatividade hoje é de uma utilidade extrema. Sei lá, análise de materiais. Olhe, datação radioativa, sabemos a idade da Terra por causa de medidas da radioatividade É uma coisa extremamente fácil medir. Sabemos a idade do Tutancâmon ou a idade de muitos outros fósseis por causa da radioatividade, usando o carbono. Tantas coisas que devemos à radioatividade, até para conhecer a hidrogeologia. Na realidade, é muito fácil medir uma pequena amostra radioativa, que não vai fazer mal nenhum à natureza, posta num lado, a gente vai poder saber por onde é que andou aquela água subterrânea. Portanto, isso é um legado de utilidade prática, mas do ponto de vista simbólico, ela é um exemplo para todos nós. É o exemplo que foi reconhecido com os dois Prêmios Nobis. A única, como o João Miguel disse e bem, a receber dois em duas disciplinas distintas da ciência, porque há quem tenha recebido, por exemplo, da química e da paz, Linus Pauling. Há quem tenha recebido dois da física, dois da química, mas não um na física e um na química, em 1913 e 1911, o da física primeiro e o da química depois. Mas o legado é o exemplo que ela inspira. É uma mulher pioneira, a primeira mulher a ascender à cata da Sorbonne, professora da Sorbonne, a primeira mulher mais tarde a ser sepultada no Panteão de Paris dos heróis franceses, neste caso, uma heroína da ciência. E ainda hoje temos tanta coisa. Há um elemento químico com o nome de Curie, há bolsas na União Europeia com o nome de Marie Curie. Na própria Polônia, nós fizemos agora esta visita à Polônia, o reator nuclear polaco chama-se Maria, precisamente em homenagem. É um reator experimental, um reator apenas para investigação, que emite noutras uma fonte de neutrões, mas chama-se Maria, que é o primeiro nome em polaco de Marie. Portanto, é um exemplo extraordinário, um exemplo de abnegação, um exemplo de trabalho, um exemplo também de humildade, alguém que recusa honrarias. O Einstein dizia: "É das poucas pessoas que nunca poderá ser corrompida". E isso é uma inspiração, devia continuar a ser um exemplo para todos nós.
É sim, senhor. E os nossos ouvintes estão a questionar: uma mulher tão extraordinária terá alguma relação com Portugal?
Sim.
Tem?
Sim, ela não visitou Portugal, mas, por exemplo, no mesmo ano do Prêmio Nobel de Química, em 1911, ela recebeu o convite, que ela aceitou, para entrar na Academia das Ciências de Lisboa, embora como membro correspondente. E depois ela teve alunos portugueses. Doutorou dois portugueses e uma portuguesa. Um grande físico de Coimbra, Mário Silva, Branca Edmée Marques, uma mulher portuguesa, uma física pioneira em Portugal, e Manuel Valadares, um outro físico de Lisboa, que infelizmente foi, tal como Mário Silva, posto fora do seu emprego. Não foi permitido que ele trabalhasse em Portugal, mas trabalhou depois com a filha de Madame Curie, com Irène Joliot-Curie. Foi um professor que depois se jubilou em Paris. Portanto, foi, infelizmente, um dos isolados do Estado Novo. E portanto, há três doutores portugueses formados por Madame Curie. Ela tinha carinho por Portugal e ajudou a ciência portuguesa.
Fantástico. Muito inspiradora esta polaca, Marie Curie. Professor Carlos Filha, vamos só lembrar o e-mail para onde os nossos ouvintes podem enviar sugestões, perguntas, dúvidas: ouvinte@observador.pt. Até para a semana, professor Carlos Filha.
Até para a semana. Já não me lembro como é que se diz em polaco.