Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Olá, professor Carlos Fiolhais.

Olá, João Minhão.

Professor, no passado dia 24 de novembro, celebrou-se o Dia Nacional da Cultura Científica. E há uma razão para esse dia ser nesta data, porque foi no dia 24 de novembro de 1906 que nasceu Rómulo de Carvalho. Foi professor de Física e Química, historiador e divulgador de ciência e deixou obra poética, e não só, com o pseudônimo de António Gedeão. Professor Carlos Fiolhais, conheceu Rómulo de Carvalho?

Sim, conheci pessoalmente. Houve uma homenagem nacional que o primeiro-ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago, lhe fez e eu estive presente na escola dele, o Liceu Pedro Nunes. De fato, é uma pessoa pela qual eu tenho uma grande admiração. Já antes nós tínhamos correspondido, ele tinha me mandado coisas, eu tinha lhe mandado coisas. E eu o conhecia desde a minha adolescência através dos livros. Quer dizer, há pessoas das quais nós podemos estar próximos, mesmo não conhecendo pessoalmente. E é o caso dele. Eu, de algum modo, considero-me aluno dele através dos livros que ele nos proporcionou. De tal modo me senti próximo, que quando ele morreu, eu vim a Lisboa de propósito participar na cerimônia fúnebre. E impressionou-me e emocionou-me, porque o cortejo passou de frente à escola dele e eu nunca tinha visto uma coisa daquelas, com flores a cair das janelas, os alunos e os professores, todos a homenagear aquele que foi um grande mestre pra eles e pra todos nós.

Uau! Qual é o legado de Rómulo de Carvalho, professor Carlos Fiolhais?

Vou procurar usar uma expressão comum do Renascimento. O que isso quer dizer? Quer dizer que ele dirigiu-se a várias áreas e sempre com competência. Portanto, foi um professor de Física e Química, professor do ensino secundário. Formou-se no Porto, foi professor em Coimbra, no Liceu Dom João de Seira, que mais tarde viria a ser o meu, e depois em Lisboa, no Camões e no Pedro Nunes. Mas além disso, ele foi também um pedagogo. Mais do que ser professor, ele tinha ideias bastante próprias sobre o ensino, dirigiu a revista do Liceu e escreveu coisas até sobre a história do ensino em Portugal e tinha ideias pedagógicas muito bem definidas, mas foi historiador da ciência, é o nosso maior historiador da ciência do século XVIII, o tempo pombalino. Depois, foi também divulgador de ciência e foi aí que ele conseguiu inovar fazendo livrinhos que eram de uma coleção, que eu lembro muito bem, "Ciência pra Gente Nova", na altura gente nova era eu. A história do átomo, a história do telefone, a história dos balões. E isso eram histórias que mostravam a ciência como era feita por homens e mulheres. E mais do que nos manuais escolares, eu percebi ali que a ciência era uma construção humana e que estava ainda em desenvolvimento, que havia ainda muito pra fazer e de algum modo me senti tentado a participar nesse grande empreendimento que continua. Portanto, ele comunicou-me o prazer da descoberta. Mas não fica por aí, porque então com o nome de António Gedeão, ele tem uma obra literária de poesia e não apenas de poesia, tem contos. E era um desenhador, e ele desenhava com o nome de António Gedeão e fazia coisas, fazia móveis e era fotógrafo. Quer dizer, não há quase nada que aquele homem não tenha sido.

É um homem completo.

É um homem completo. E eu tenho uma admiração imensa pelo modo como ele conseguiu conjugar várias dimensões humanas. Por exemplo, a questão das duas culturas. Normalmente pensa-se que as ciências estão pra um lado, as letras estão pro outro, e que são mundos à parte. Não, esses dois mundos coabitavam nele e ele defendia que não havia dois mundos. Havia só uma vida, havia só um ser humano e dentro dele conseguiam se conjugar todas essas capacidades humanas.

Muito bem. Rómulo de Carvalho, que começou com 50 anos a publicar poesia com o nome de António Gedeão, parece que escondeu a sua identidade literária da própria mulher, não foi, professor? Era um homem tímido, o Rómulo de Carvalho?

É uma história muito engraçada. Ele já tinha escrito poesia, inclusive aos 10 anos publicou uns versos que ele queria continuar os Lusíadas. Achava que os Lusíadas havia mais coisas pra dizer. Mas teve muito tempo em que escrevia para a gaveta e depois destruía. E um dia concorreu a um concurso de poesias, aos Jogos Florais. E coisa curiosa, quem ganhou foi um nome consagrado, que foi o Miguel Torga. O Miguel Torga prescindiu do prêmio para se publicarem outros nomes que tinham sido distinguidos. E um deles tinha concorrido sob pseudônimo, precisamente António Gedeão. Ele tinha ido buscar o nome de um aluno para criar esse personal. E de fato não disse à mulher. Ele pediu ao editor, em Coimbra, ele estava nessa altura em Coimbra, para mandar um exemplar dirigido à mulher. E ele andava ali a rondar a ver o que ela dizia. E a uma certa altura, a mulher é uma escritora também, uma senhora também de grandes talentos, Natália Nunes é o nome dela. E o que se passa? Ele andou tanto às voltas que a certa altura percebeu que o António Gedeão era ele, era o marido. E ao longo da vida toda ele procurou esconder um bocadinho quem seria o António Gedeão. A certa altura não se podia esconder, as pessoas iam lhe pedir autógrafos. Esquecendo que os livros de poesia não seguem: "Here, aqui não está tal Rómulo de Carvalho." Mas ele e o António Gedeão eram um só.

Muito bem. O poema "Pedra Filosofal" cantado por Manuel Freire é talvez o mais conhecido de António Gedeão, mas há outros. Quer distinguir outra poesia de António Gedeão, professor Carlos Correia?

Sim, eu gosto muito. No segundo livro, que o primeiro chamava-se "Movimento Perpétuo", precisamente em 1956, foi o ano que eu nasci, curiosamente. Portanto, o poeta é da minha idade.

É verdade!

Embora ele depois faleceu o poeta em vida do Rómulo de Carvalho, porque o Rómulo de Carvalho a certa altura disse: "Não tenho mais nada pra dizer." E de algum modo declarou o óbito do António Gedeão, mas depois arrependeu-se. E há uns poemas póstumos e uns novos poemas póstumos de António Gedeão, porque o Rómulo de Carvalho deixou ao final que o António Gedeão ainda tinha coisas pra dizer.

Deu-lhe outra vida.

Deu-lhe outra vida. Isso é extraordinário.

É também poético.

É também poético esse vencer da morte. E o segundo livro, dois anos depois, 58, é o "Teatro do Mundo" e começa de uma maneira teatral, em que o personagem, que é ele próprio, quer dizer, a pessoa que fala. O personagem é o homem, não é ele próprio. No fundo, é o grande personagem da poesia dele. Quem somos nós? Qual é o nosso lugar no mundo? E diz assim: "Com licença, com licença, que a barca se faz ao mar, não há poder que me vença, mesmo morto hei de passar, com licença, com licença, com rumo à Estrela Polar." E tem outro verso: "Quero eu e a natureza, que a natureza sou eu e as forças da natureza nunca ninguém as venceu." Este poema, de algum modo, dá uma ideia de um grande tema dele, que é a relação entre o homem e a natureza. E ele acha que, e muito bem, que o homem tem que conhecer a natureza pra poder viver nela. Não vou usar a palavra vencer. E há outros versos muito interessantes. Por exemplo, há um poema do Homem-Rã. Estou a falar dos menos conhecidos, porque há uns muito conhecidos: "Lágrima de Preta", "Poema para Galileu", etc. Enfim, são muito conhecidos, mas estou a falar de poemas menos conhecidos. O poema do Homem-Rã, em que ele diz a certa altura: "Eu sou o homem, o homem. Desço ao mar e subo aos céus. Não há temores que me domem, é tudo meu, tudo meu." Portanto, há aqui uma afirmação da presença humana no mundo, uma afirmação poética, mas no fundo, que é uma afirmação que reflete aquilo que é verdadeiramente a dimensão científica e tecnológica do homem que conhece a natureza para, por um lado, saber é sempre um bem em si próprio, mas por outro lado, tira daí aplicações pra poder viver melhor no mundo.

Portanto, a ciência está presente na poesia do António Gedeão.

Sim, e não é apenas ir buscar palavras de ciência, como na "Pedra Filosofal": "cisão do átomo, radar, ultrassom, televisão, desembarque envoltão na superfície lunar." Ele tem de vez em quando, e nem é na maior parte dos poemas. Tem termos da ciência e da tecnologia, mas é porque ele vai transmitir ideias que é a ideia da nossa relação com o mundo. E uma das nossas relações com o mundo é precisamente a relação científica, que não é a única. Ele depois tem outras coisas, a dimensão poética, a dimensão social. Eu lembro, por exemplo, de poesias em que ele fala até da mulher, da condição da mulher. "Luísa sobe a calçada, sobe que sobe." Portanto, o esforço do dia a dia. E dos homens que na pedreira batem a pedra. Há ali também uma dimensão social. Mas alguns poemas têm esta dimensão que eu vou lhe chamar cósmica. Dizer quem é aquilo que ele, num dos primeiros versos, chamou esse animal aflito. Somos nós.

Então, mas que poema é esse onde o António Gedeão define o ser humano como animal aflito?

Foi precisamente o primeiro verso dele. É a estreia literária dele. O primeiro livro de poemas, aquele que foi ao concurso, chama-se "Movimento Perpétuo". Não por acaso, o primeiro poema intitula-se "Homem" e o primeiro verso desse poema é: "Inútil definir este animal aflito." E portanto, o que ele procura, de algum modo, como procuramos todos ao fim e ao cabo, é saber quem somos nós, definir o que é o ser humano. Mas também ele diz logo no primeiro verso que não se consegue, porque é um empreendimento impossível, é um empreendimento que continua sempre. Então o poema, eu tenho aqui e vou ler. É muito pequeno, mas é todo um programa, porque ele diz assim: "Inútil definir este animal aflito. Nem palavras, nem cinzéis, nem acordes, nem pinceis são gargantas deste grito. Universo em expansão, pincelada de zarcão desde mais infinito a menos infinito." Este é um poema que eu acho belíssimo, porque põe o homem, que é um ser naturalmente limitado, é uma parte pequena do universo, mas também é um ser ilimitado, acaba por ser o único ser que é capaz de compreender o universo. E essa tentativa de compreensão tende a ir ao tamanho do universo. Portanto, daí ele, de algum modo, equiparar o infinito do universo com o infinito humano. Somos parte do cosmos, mas temos esta importância até para o cosmos, de sermos a única parte do cosmos que verdadeiramente o pode compreender. Se nós não existíssemos, não haveria ninguém que o compreendesse, pelo menos não conhecemos seres noutros planetas que sejam capazes nem de fazer ciência, nem de fazer poemas.

Só os grandes seres humanos é que conseguem colocar as coisas no seu devido lugar, não é, professor Carlos Filhais?

Exato. E nós quando os lemos, partilhamos essa mensagem de unidade entre nós e o cosmos.

Muito bem. Se nos ouve em formato podcast na aplicação telemóvel, daqui a pouco há uma pergunta à qual pode responder. A pergunta desta semana é: em que ano nasceu Rómulo de Carvalho? 1905, 1906 ou 1916. Professor Carlos Filhais, foi um gosto uma vez mais e até para a semana.

Até para a semana. Fiquem com a poesia de Rómulo de Carvalho, sob o nome de António Gedeão. Leiam os livros dele, porque se os lerem, verificam que ele continua vivo e, portanto, ele representa o que é o melhor da cultura científica entre nós. E se se querem aproximar da cultura científica, recomendo que mergulhem nessa poesia de António Gedeão, que continua hoje com a mesma atualidade do tempo em que foi escrita.

Fantástico recado. Até para a semana, professor.

Até para a semana.