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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Se quiser entrar em direto para nos dar a sua opinião, só tem que ligar para nós 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp 91 002 41 85. Carla. Ontem foi uma terça-feira negra nos mercados bolsistas, com os índices a caírem em quase todo o mundo. O que alarma os investidores parece ser, antes de tudo mais, o encerramento ao tráfego do Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo mundial e de que dependem sobretudo os mercados da Ásia. Também por isso o preço do petróleo está a subir rapidamente e o do gás ainda mais depressa, fazendo recear a repetição de uma crise como a de 2022, aquando da invasão da Ucrânia e do fecho da torneira do gás russo. Será isto só um solavanco ou um sinal de que podemos ter pela frente um disparar da inflação e uma nova crise económica? É isso que queremos debater no Contracorrente de hoje. Há mesmo razões para alarmes, José Manuel? Bom dia.

Bom dia. Há razões, pelo menos, para estarmos atentos. Por enquanto, há uma expectativa. Os bancos centrais, por exemplo, têm reuniões marcadas e, para já, não vão aumentar os juros. Era algo que eles fariam se percebessem que a inflação estava à porta. Portanto, ficam na expectativa e acho que estamos todos, de alguma forma, na expectativa. Vamos lá ver, guerras naquela região já ocorreram muitas e, na verdade, o Golfo completamente fechado nunca aconteceu. E se formos falar de forma objetiva, ele não foi fechado agora porque apenas a guarda revolucionária ameaçou que afundaria todos os barcos que passavam por lá. Basicamente, ele fechou porque as seguradoras, que são a maior parte delas baseadas em Londres, designadamente a Lloyd's, triplicaram, quadriplicaram, quintuplicaram o preço dos seguros e com esses preços, o risco é muito grande, a operação deixou de bater certo em termos de contas e, portanto, os barcos estão parados, uns antes, outros depois do Golfo, para ver o que se passa. Em conflitos anteriores, não estavam os Estados Unidos envolvidos diretamente. Estou a recordar, por exemplo, a guerra Irão-Iraque, que foi em 79, 80, portanto já há muitos anos. Foi praticamente no início da revolução iraniana, do tempo de Khomeini. Nessa altura, a Marinha americana garantiu que o tráfico ali se mantinha, nomeadamente escoltando navios. Agora a situação é diferente, como é óbvio, primeiro porque a Marinha americana está envolvida na guerra, depois porque o confronto é entre a Marinha americana e a Marinha iraniana e não uma operação lateral, porque na altura o risco vinha do Iraque de Saddam Hussein. Mas nós não sabemos quanto tempo é que isto vai durar. Isto será uma coisa, se durar 15 dias, três semanas, no limite um mês, se se transformar numa guerra prolongada, eu creio que é quase inevitável que haverá impacto, porque temos que ter em consideração que 20% do petróleo que abastece a economia mundial passa pelo Estreito de Ormuz. É a Ásia que é dependente desses abastecimentos e, na Ásia, a China. Trata-se também de uma dependência que não é facilmente substituível de um dia para outro, apesar de ser uma dependência que eu creio que é bastante menor do que a do tempo das guerras do choque petrolífero. Esse já tem mais de 50 anos, 73, 74. Portanto, não é uma dependência tão grande, mas é uma dependência muito grande na mesma. O mesmo se passa com o gás liquefeito. O gás liquefeito vem sobretudo do Qatar e é o gás liquefeito que abastece também a Ásia. Na Europa temos outras fontes de abastecimento, mas a partir do momento que os preços aumentam, afeta tudo. E ontem os preços tinham aumentado 50% no gás e aí está o risco de uma repetição do cenário de 2022. Quando com o corte no fornecimento russo, foi necessário recorrer ao gás e o gás também aumentou imenso. O preço do gás hoje ainda não está nos valores que esteve em 2022 e não sabemos quanto tempo é que isso durará, porque em 2022, no início, também se pensou que poderia ser uma guerra rápida. Pensou-se que seria desgraciosamente uma guerra rápida, porque a Ucrânia cairia depressa. Verificou-se que não foi assim, foi um erro de cálculo russo. As indicações que chegam da forma como está a ocorrer esta guerra são diferentes, mas vamos apenas no quarto ou quinto dia, portanto, ainda é muito cedo para perceber o que possa vir a suceder. Até que ponto, por exemplo, há indicações de que praticamente toda a Marinha com alguma dimensão iraniana terá sido já destruída, mas como há pouco o Bruno Cardoso Reis no noticiário assinalava, para colocar minas naquela região não são precisos grandes navios, e as minas são muito perigosas. É evidente que é muito suicidário para o Irão colocar ali minas, porque aquele também é o canal de que depende a economia iraniana. Uma coisa é fechar temporariamente com a ameaça de tiros, outra coisa é fechar com minas que depois levarão muito tempo a limpar aquilo que é a principal veia económica do país, mas nunca se sabe o que um regime como aquele pode fazer. Portanto, temos aqui muitas indefinições. Os riscos maiores têm a ver com o choque energético e com aquilo que o choque energético pode provocar na inflação. E desse ponto de vista, nós já vamos ter alguns sinais nos próximos tempos. Vamos ter sinais na bomba de gasolina, porventura já na próxima segunda-feira. Vamos ter talvez sinais nos spreads bancários mais tarde ou mais cedo. E, portanto, tudo isso não são boas notícias.

Não são boas notícias.

Não são boas notícias. Falaremos melhor disso e das reais perspetivas depois das 10h, até porque vamos ter quem saiba disso. E Helena Garrido, que é hoje quem vai estar comigo também.

E tem um artigo já a dar conta disso.

E já tem um artigo também publicado ontem sobre essa matéria.

Até já, José Manuel.