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Beatriz Narciso é a vencedora da primeira edição da bolsa anual Women in Art Fellowship. Uma bolsa criada no ano passado para dar espaço, apoio e visibilidade a artistas mulheres em Portugal, corrigindo as desigualdades persistentes no sistema artístico internacional. Uma bolsa, aliás, de que Joana Vasconcelos foi mentora e membro do júri. A jovem pintora, em início de carreira, estreia-se numa exposição individual chamada "Sótão", que vai estar patente até sábado, dia 13, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. É o projeto vencedor desta bolsa, uma pintura instalativa, como ela diz, em forma de tríptico de grande escala, onde homenageia a contribuição das mulheres para o mundo, com destaque para as invenções mais esquecidas. Vamos conhecer melhor esta artista lisboeta, observadora do quotidiano, uma nova e promissora voz nas artes portuguesas que explora como ninguém a luz e a sombra. Beatriz Narciso, olá, bem-vinda. Obrigado por teres aceitado este meu convite aqui na Rádio Observador.
Obrigada.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo depois de te ter conhecido nesta estreia, nesta tua primeira exposição. Não é a primeira, mas oficialmente, digamos assim, é a tua primeira individual. Ia te perguntar por este fascínio das artes que tu tens. Eu sei que a tua mãe tem uma grande importância aqui, não é? Por causa do design e que explorou outras artes. E portanto, tinhas em casa o material todo para experimentar.
Sim, tinha.
Mas desde pequenina que gostavas?
Sim, desde muito pequena. Só os meus pais é que me podem contar as histórias melhor, mas eles já têm registos analógicos de mim a desenhar, a observar e a tentar recriar aquilo que eu observava.
É engraçado o observar que tu dizes isso, porque tu és uma grande observadora. Por acaso falei nisso, ainda bem. E estás no sítio certo para falar disso. Observadora e muito da noite. Eu disse luz e sombra e queria dizer luz e noite, porque é uma coisa que te fascina muito, não é? Tu andas em espaços, primeiro lá nas Caldas da Rainha, onde estudaste, mas depois aqui em Lisboa, na rua Alta, o Castro É. Gostas de ir à noite e ver as casas e as pessoas. Tens muitos quadros noturnos, aquela série que tu fizeste, por exemplo. Fascina-te muito a noite e a sombra, por quê?
Fascina-me. Acho que é algo que aprendi e melhorei com o curso de Realização Plástica do Espetáculo.
É verdade, tiraste António Arroio.
Exatamente. E no teatro e mesmo no cinema, nós podemos contar tantas coisas através do posicionamento da luz, da sombra e das cores. E acho que é uma altura do tempo, do dia, que tem 24 horas, muito interessante. As pessoas podem revelar mais, podem ser mais sinceras, podem estar mais tranquilas. Revela-se muita coisa, eu acho, à noite.
Em contrapartida, na pintura, dá-te imenso trabalho, não é? Porque as telas são brancas ou claras e tu tens que somar camadas e camadas para aquilo ficar com aquele tom sombrio. Tu pareces um Caravaggio. Gosto imenso.
Agradeço.
Porque o Caravaggio pra mim é o grande mestre da luz certa e do sombrio. É fantástico, é um grande exemplo, é um grande mentor, eu acho, nesse aspecto. Fascínio primeiro pelo desenho e depois pela pintura, na tua vida?
É, exatamente, sim. Depois percebi que a pintura também fiz em casa, comecei em casa, os meus pais compraram material e gostei imenso da textura, gosto do treino, gosto da espera também, é uma coisa que precisamos na pintura, ou observar, mais uma vez, tudo isto combina.
A espera é, por exemplo, que os materiais sequem, é uma coisa assim, esse tempo.
É, exatamente.
De respirar.
Do respirar, exatamente.
Ok, giro. Tu quando eras pequenina visitavas museus e assim, os teus pais levavam-te?
Sim, muito. E também a óperas, a teatros.
Também eras. Claro.
Exatamente.
Boa. Também de cenografia. Uma coisa que eu achei piada no teu tríptico gigante, é que fez-me muito lembrar cenários e figurinos. E de facto, e depois, não sei se foi nesse texto depois da apresentação, quando se falou, disse: "Isto tem um bocadinho a ver com a formação dela." Sim, tem, tem a ver com a tua parte da tua formação de António Arroio, esta representação e tudo, tem a ver com isso. Porque parecia muito um palco de um teatro, os adereços postos de lado e tudo ali acumulado.
Exatamente.
Achei muito bonito isso, essa ligação. Giro. E tiveste bons professores de educação visual e desenho, ou não? Influenciaram-te alguma coisa?
Influenciaram. Eu lembro-me que há um professor que estimo imenso, na António Arroio, foi meu professor do décimo ano, de desenho, Paulo Benjamim.
Fica aqui a homenagem. É justa, é merecida.
E ele foi o professor mais duro.
Mais exigente?
Mais exigente, mas isso dava pica pra puxar por mim também. E ele ensinou-me imensa coisa, muita técnica e também gostei muito do professor de desenho também de 12º, professor João Santos. Ele obrigava-me a retirar a técnica e dizer: "Agora desfaz, desconstrói aquilo que tu és."
Ser tu própria.
É, exatamente. Então, tive os dois.
Um grande exercício. Exatamente, grandes influências, grandes apoios. Muito bem, ser artista, tu atualmente moras aqui em Lisboa? E trabalhas aqui na Safra, não é?
É, no Lumiar.
No Lumiar, Estrada da Torre, é ao pé do meu colégio. E é uma espécie de hub de criação artística, um antigo armazém que foi convertido num hub de criação artística. O que é giro é que tem artistas, marceneiros, restauradores, moldureiros, cenógrafos. É giro esse contacto entre vocês, não é?
Sem dúvida. Se eu não tivesse lá, acho que a minha obra também não se tornaria rica a cada dia que passava. Eles ensinam-me muita coisa, até no ponto de vista da longevidade da obra, porque eu quero que elas durem quando são compradas. E eles sabem mais do que eu, muito mais. Eu sou a mais nova de lá também.
É?
Acho que sou.
E é muito engraçado, porque falaste isso, e isso é uma coisa muito gira, que tu disseste uma vez: "A longevidade é uma coisa que me preocupa." Engraçado, o oposto, o bordal que eu aqui recebi, que é: "Não, então, mas eu digo, mas os miúdos passam, estragam e arrancam, ou viles, e este muro a câmara já disse que ia deitar abaixo." E ele assim: "Não preocupa nada. A arte urbana é mesmo street art, é efêmera, faz parte." E eu: "Não tens pena? Vem o musgo, cobriu tudo." "Não faz mal, é assim mesmo." Aqui não, é o contrário, tu tens muito cuidado. Tu dizes: "Agora faço as minhas próprias telas, compro linho, faço." E tem tudo outro custo, claro, por isso é que também estás preocupada e tiveste a tua mentoria também sobre isso, como vender o teu trabalho, quanto pedir por uma pintura, é óbvioQuanto tempo é que uma obra tua dura? Quanto tempo é que consegue estar nas casas, se resiste às temperaturas? O cliente daqui a 10 anos não quer que tenha nenhum problema. É preciso pensares isso. És a primeira pintora que eu ouvi falar nisso. Foi uma das partes desta bolsa que incluiu esta mentoria também sobre isso, não foi? O valor das coisas.
Sim, sem dúvida, o valor das coisas. Que não é uma equação exata.
Sim.
Mas temos sempre que fazer um cálculo daquilo que existe, a oferta de Portugal, e temos que fazer uma introspeção também. Enquanto nós, artistas, queremos continuar, quanto mais longe, mais caro vai ser.
Sim.
E é toda uma logística que temos que saber como gerir. Não é uma resposta certa.
Sim, mas é giro fazeres as tuas próprias. Aprendeste aqui ou tiveste aulas próprias para fazer o teu próprio linho, a tua tela, este tipo de coisas?
Para montar, tive uma aula apenas na universidade, mas não ensinam tanto como eu gostaria.
Na universidade? É ESAD.
Exatamente, ESAD.
Ainda nas Caldas.
Exatamente, nas Caldas da Rainha. Eles estudam mais a parte intelectual e de referências para o artista saber como guiar e como construir a sua linguagem estética e pessoal.
Ok.
Um pouco mais do que a técnica, mas eu não fiquei muito preocupada com essa parte, porque eu já tinha essa parte também vinda da António Arroio.
Sim.
E da minha casa também. Essa parte do autodidata. Pude só preocupar-me com o que me fascinava, os assuntos, os temas que eu gostaria de tratar.
É engraçado, porque os teus temas também têm muito a ver com inspiração social. Falámos já das ruas de Lisboa à noite. É engraçado que tu mostras muito a realidade nalguns quadros teus, mas deixas pontas soltas para as pessoas poderem interpretar o que querem, o que é muito giro também, é uma coisa aberta. Mas é uma pintura muito figurativa. Tu pendes um bocadinho para o lado realista e tu dizes que isso tem a ver com o teu gosto pela fotografia, porque também usas muito o recurso à fotografia.
Uso. Porque é só um registo de um momento que eu não quero que se apague. Alguma coisa ali interessou-me. E depois eu faço outra vez toda a matemática do que é que vai para onde e o que é que fica mais visível, menos visível, mas há ali alguma coisa que chama quando eu tiro.
Incrível. A representação do cotidiano. Luz e sombra. É extraordinário. Tu primeiro pensas num tema, numa coleção, e depois trabalhas a partir disso, inspiras-te no teu dia a dia e vais andando, fotografas, depois voltas. É o caso exemplo desta série noturna que tu fizeste. Que, aliás, começaste estes quadros também meio sombrios, da noite, mas que começaste ainda em pleno Covid, não é? Primeiro, as coisas também estavam muito vazias. Portanto, aí tens muitos ambientes também, porque as pessoas não saíam praticamente, mas de lá tu escapavas, desmistificavas o espaço e como é que as pessoas se comportavam à noite, como é que as pessoas depois, quando passou o confinamento, como é que as pessoas também se divertiam, como é que relaxavam. Gostas muito de ver esse lado.
Gosto.
As pessoas soltam-se. A franqueza.
É, a franqueza, exatamente. É mesmo essa a palavra.
É muito inspirador isso. Quanto às técnicas, tu começaste com o acrílico, era a primeira coisa que tu tinhas e depois, hoje em dia, preferes este óleo. O óleo é melhor para estas coisas do claro e escuro que tu fazes?
Eu acho que sim, porque há um leque de possibilidades de não precisar agora de ser tão rígida e tão fiel à fotografia, como eu acho que era antes nalguns quadros meus. O óleo permite ter transparências, ter momentos de pausa, como eu tinha falado há pouco.
Mais translúcido, se calhar, umas camadas.
Sim, exatamente.
É muito giro. Estas exposições coletivas que fizeste, este Women in Art, por exemplo, com a curadoria da Astrid Sauer. Cá está, esta é do State of the Art. Que, aliás, foi a promotora também desta bolsa. Esta é Women in Art, que foi no Vila do Conde, Porto Fashion Outlet. É o tal que tem os trabalhos das 10 finalistas escolhidas.
Sim. Exatamente.
Já foi então o ano passado. No final do ano passado.
É. E penso que acabou em abril.
Já deste ano.
Sim, exatamente.
Pronto, estava aqui a Bienal dos Jovens Criadores da CPLP, onde também entraste há dois anos. Na oitava edição do Prêmio Infante Dom Luís às Artes. Foste finalista da Mostra de Arte Nacional dos Jovens Criadores, organizado por Gerador, em Vila do Conde. Estas tuas individuais, além desta Só Tam, temos esta "Deixemos que a noite nos abrace e ilumine o nosso olhar". Isto foi cá em Portugal?
Essa última, sim, foi em Marvila.
Ok.
É uma galeria chamada Little Chelsea.
Ok, em Marvila. E Meneses Nostos também, Marvila, também no Marvila Art District, com a Lina de Oliveira, que fez a curadoria. E tens outros projetos muito curiosos, por exemplo, na ilustração. Que aos 17 anos ilustraste este livro infantil, "O Gigante da Floresta", que tem a ver com São Tomé, não é?
Exatamente. É a proteção.
O convite foi um giro.
É. E eu infelizmente não pude visitar a ilha como eu gostaria, mas eu tive a oportunidade de uma aluna de mestrado. Estava na Faculdade de Ciências e ela era colega da minha irmã e disse que precisava de alguém para ilustrar toda uma história que ela queria com o apoio da National Geographic, entre outras.
Que giro.
É, sobre um búzio. E a geração que era preciso ser alertada eram as crianças. E por isso é que me chamaram. E eu ainda nessa altura, eu confesso que como foi meu primeiro projeto, agora olho para trás e há coisas que podiam ter sido melhoradas, mas adorei ter feito parte desse projeto.
Este búzio estava em vias de extinção.
Exatamente.
E alertar as crianças é por quê? Para eles pegarem eles próprios na proteção do ambiente ou era porque este búzio estava muito à mão de semear e os miúdos quando podiam arrancavam e tiravam os bichos?
Não, era mesmo porque eram...
Para sensibilizá-los.
Exatamente, para sensibilizá-los e o resto da populaçãoPor causa também de uma espécie invasora. Portanto, estava a ser atacada por outra espécie de búzios.
Exatamente. Ok, giro. Boa. Eu depois abordei um bocadinho de outras coisas, além da pintura, já vamos falar do sótão. Outras hobbies que tu tenhas e além da música, tu és uma grande fã de festivais, músicas do mundo, imagino, o preço de cor, é fantástico. Observação, uma coisa que tu dizes: "Um hobby que eu tenho é observação". Tem desenho, fotografia, mas observação adorei, estou-te a ver também. A ver calmamente as coisas e ver tudo o que se passa e a captar as imagens. Estou-te mesmo a ver. Cozinha, o que tu fazes? Qual é a tua especialidade na cozinha? Eu quero saber. Tens alguma coisa que faças muito bem, que as pessoas adoram?
Eu gosto muito de fazer caril e as pessoas gostam, pelo menos, do meu caril.
Fantástico! E colecionar o quê?
Colecionar postais. É uma tradição que já vem dos meus pais, quando eles iam a museus, eles colecionavam.
Postais das exposições que viam.
Exatamente. E passou a ser também uma referência para mim. Em vez de tirar fotos, eu depois ia comprar. E é algo mais à mão para depois ter a minha referência também.
Visitar novos espaços, ir ver inaugurações e exposições. Pronto, isso é óbvio. E também tens aqui um lado muito físico, muito curioso da natação sincronizada. Tu fizeste, é extraordinário. Faz-me logo lembrar os Jogos Olímpicos. Pumba, já está. Já estou a ver as imagens todas a mergulhar ao mesmo tempo e as coisas a acontecer. Gosto imenso. Acho que nunca tinha tido ninguém, em 1500 entrevistas, que tinha feito natação sincronizada. Adoro. Voleibol, está bom. Ballet, está bem. E depois estiveste no grupo de dança onde fizeste umas viagens. Mas há competições de dança contemporânea, sapateado, jazz e este tipo de coisas?
Existe.
Foste à Suécia, à Chéquia, foste, não foi? Eras federada e de seleção nacional?
Era uma espécie de seleção através de um festival chamado Eurogym, que era mais de ginástica, mas também havia a parte da dança e nós incorporávamos mais na parte da dança. Eram vários países europeus, de dois em dois anos, iam para um certo espaço.
Faziam saraus e coisas? Mostravam? Havia prémios, ganhavam alguma coisa vocês?
Alguns sim, infelizmente nessas alturas não. Era só uma mostra.
Está bem, mas acho fantástico, sim, senhora.
Mas foi muito bom.
Que giro.
Muito enriquecedor.
E já não tem nada a ver hoje, já não fazes nada disso?
Não. Parei.
Porque não tens tempo?
Foi porque quando fui para as Caldas, parei tudo. Fui para lá. Exatamente. E quando voltei, dediquei-me a tempo inteiro mesmo à pintura.
À pintura. Exatamente. E também te lembras aqui esta viagem a Toulouse, que disseste que foi na pior semana temporal. Por quê? Houve tantas tempestades, estava péssimo o tempo?
Era de um péssimo tempo. Cá estava sol e fui para lá e já estava uma chuva do nada.
Foi no verão?
Foi recentemente.
Agora há pouco tempo. Coitada. Mesmo assim, visitaram jardins, museus, muita coisa, não sei o que mais. E depois, claro, o que é que também fizeste? A observação do quotidiano noturno local.
Exatamente.
E o lado do circo, que não sabia que Toulouse é uma das capitais mundiais do circo, não fazia ideia. Portanto, tem coisas na rua e assim a acontecer?
Sim, tem. Eles costumam ter agendado e a própria cidade apoia muito e tem uma estação de metro e tudo com o sinal e com o símbolo da escola. É muito interessante.
Muito bom. Muito bem, estamos a falar então desta WAF, Women in Art Fellowship, que foi uma exposição, aliás, a tua, do sótão, é desenvolvida no âmbito desta bolsa. Esta bolsa foi criada no ano passado, sim, em 2025. És a primeira premiada, houve 210 candidaturas, se não me engano. Escolheram depois 10 finalistas, tu foste escolhida entre elas para ser a vencedora. Este prémio estreou-se contigo, mas estreou tão bem. Eu vi as tuas obras, de facto, aquilo é extraordinário. Esta bolsa nasce da vontade de criar espaço, apoio, visibilidade a artistas mulheres cá no país, corrigindo as desigualdades que de facto continuam a haver no sistema artístico internacional. Materializa de facto um destes objetivos, criar oportunidades reais de produção, apresentação e visibilidade para mulheres artistas emergentes. É engraçado que vai muito ao encontro de mulheres e artistas que ainda não estejam no circuito comercial, portanto, que não estejam ainda ligadas a galerias. É mesmo para dar este impulso. Houve mais finalistas. Vocês viram muito os trabalhos delas, viste?
Eu cheguei a ver de todas. Eu tenho a sorte de duas das finalistas serem do mesmo espaço que eu trabalho, a Sala. Éramos as três.
E depois havia de tudo, que eu acho engraçado, está à espera de ver pintura, escultura, desenho. Não, há performance, há fotografia, há têxtil, há colagem, há instalação, esta Ana Lessa, Flávia Costa, Joana Dionísio, Joana Paraíso, Vera Fonseca. É engraçado porque há de várias áreas artísticas também. E todas estas 10, como tu, participam nestas mentorias. Como comunicação e redes sociais, gestão e sustentabilidade financeira, identidade artística e apresentação profissional. Tudo isto é, de facto, durante uns meses. De junho até setembro ou qualquer coisa do ano passado.
Sim.
E é para dar estas ferramentas. Isto acho uma ideia extraordinária, para empoderar.
Sem dúvida.
Uma pessoa começa a pintar, tem jeito, faz umas exposições, é convidada da galeria, não sei o quê. Mas de facto, esta técnica também vender a sua brand, como tu dizes, a sua marca, é importante. Saber vender a sua arte, comunicar. Vocês tiveram com jornalistas a dizer como falar. É extraordinário. E eu curiosamente reparei quando fui dar aquela apresentação, pensei: "Isto está tudo muito bem pensado". Marta Duarte, que fez esta comunicação por vocês, é um trabalho muito bem feito e de facto, estas mentorias foram essenciais. E são.
Foram. E são, exatamente.
Há coisas que estou a aprender na escola.
Sem dúvida. E cada vez mais vivemos num mundo em que às vezes o artista quer ser autossustentável e quer fazer a autopromoção, de si próprio. E saber como se tornar o mais independente possível também é mesmoFoi muito útil, foi muito importante e é muito gratificante também saberem que depositam tanta confiança em mim. Mais uma vez, era a mais jovem também das finalistas e não esperava.
Mereces. Muito bem. Beatriz Narciso, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Beatriz Narciso, ela é vencedora da primeira edição da bolsa anual Women in Art Fellowship e por isso, resultante desse prêmio, está a expor aqui na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, até dia 13 de junho, até sábado. Esta exposição, "Sótão", uma exposição grande de pintura instalativa, um tríptico de grande escala que não pode perder, exatamente para homenagear as contribuições das mulheres para o mundo, para várias áreas, com destaque para as invenções, por exemplo, mais esquecidas. Muito bem, estamos a falar então desta bolsa que em boa hora te agarrou, e agarrou muito bem, acho que é super merecido. Eu gostei tanto do teu trabalho que pensei: “O que serão os outros? Também devem ter trabalhos ótimos e áreas diferentes.” E mesmo assim são €27.000 que estão aqui envolvidos, entre mentorias e esta montagem desta exposição, de tudo isto. Como é que tu soubeste desta bolsa? Foste contactada? Agora só para dizer às pintoras e artistas que estão a ouvir e pensarem: “Vou concorrer a isto ou se puder.” Como é que isto se sabe? Houve um call of papers, qualquer coisa?
Houve uma espécie de open call, mais divulgada pelas redes sociais. E deparou-me, mas quem puxou por mim foram os meus pais e disseram: “Olha, se calhar é uma boa oportunidade.”
Hoje estás super grata, claro.
Estou.
Não tinhas dúvida?
Tinha algumas e depois foram amigos a dizer: “Olha, está aqui este open call.”
Aproveita.
Aproveita, exatamente.
E inscreveste. Como é que é o processo de se inscrever numa coisa destas? Tu tens que, concretamente com este projeto, porque vocês concorrem com um projeto, o teu foi este, o “Sótão”.
Exatamente.
Mas não está ainda feito. Fazes um esboço, tens uma sinopse, o que é que tu mostras?
Então, a primeira fase foi apenas mostrar um portfólio das nossas melhores imagens.
Que é aquelas noturnas e aquelas coisas que eu tinha.
Exatamente. E depois passa-se à segunda fase, que é saber quem são as finalistas, normalmente são 10.
E eram 200 e tal a concorrer.
Exatamente, para a primeira edição, foi incrível.
Incrível, ainda bem.
E depois temos um tempo mais ou menos de quatro meses em que temos as mentorias.
As mentorias.
E temos também abertura para falar do nosso projeto e retirar estas dúvidas, portanto, temos mentorias e também temos a formação do projeto.
Depois da mentoria já és tu a escolhida e és tu a única que segue ou todas aproveitam as mentorias.
Todas.
Depois, para concretizar a primeira grande exposição, és só tu.
Exatamente.
Aí há uma altura em que separam e começas tu a trabalhar no teu projeto.
Exatamente.
Foi aprovado. Então mãos à obra, vamos fazer isto.
Exatamente. E apresenta-se com algumas imagens também do que é pressuposto, mas o texto, o fundamento da ideia é que é o mais importante.
Como se fosse a sinopse, então, neste caso.
Exatamente. Uma sinopse e mesmo uma defesa assim um pouco mais consistente, explicar porquê, as nossas motivações, estas coisas todas. E fui selecionada e depois de ser selecionada é que se avança exatamente com o projeto.
Claro, porque é um projeto e pela escala vê-se que é uma coisa grande, de certeza, custosa, portanto, não pode ser assim: “Metem-se aí uns quatro, experimentem.” Não, isto dá um trabalhão gigante. Tu também tiveste muito trabalho, mas montar isto é complicado. É giro, porque este teu lado da noite, destes ambientes, foi também uma das coisas que seduziu muito o júri. Entre tantas outras coisas, era uma delas. Elas falam, ao te escolher pelo teu projeto, como elas dizem, e estou a citar: “Rigoroso e sensível sobre memória e resiliência no feminino, apresentado nesta exposição. A originalidade do universo que a Beatriz escolheu trabalhar, a noite, os ambientes sombrios, as caves e os sótãos, estes espaços onde se acumulam coisas e memórias, a forma como nos faz refletir sobre o que escolhemos guardar e o que deixamos partir.” É muito giro e depois adoraram a tua ideia. É giro, porque podia ser uma coisa, paisagens na Beira Alta, Aldeias do Xisto, aliás, um tríptico que gostaste imenso. Aldeias do Xisto, não sei o quê. Não, tu dizes: “Isto é um projeto, é uma bolsa que vai apoiar, já agora, as mulheres emergentes, que não têm hipótese, sem essa mentoria, sem esse apoio, chegarem à frente e aparecerem a primeira vez.” É um empurrão inicial. É muito giro, porque o teu é sobre as mulheres que foram esquecidas e que não foram apoiadas ou que tardiamente é que foram lembradas. É muito giro, casa muito bem com esta coisa. Mas é uma coincidência. De facto, adoraram. E depois este ambiente também foi incrível. Investir também na tua marca, porque um artista também é empreendedor, foi uma coisa que eu li tua. De facto, aprendeste a escrever um pouquinho sobre o que fazes. Para isso tiveram também aulas com jornalistas?
Eu tive acesso.
Alguma sessão com jornalista?
Tive uma sessão pequenina, mas muito forte com a Alexandra Carita. Ela tem uma vasta experiência.
Exatamente.
E falou-me também da importância de saber como poder falar com jornalistas para fazer a autopromoção também de certas exposições.
É importante, as pessoas não pensam muito nisso. E depois há aquele problema que éPode ser ótima artista, mas não ter jeito nenhum, como há ótimos professores muito bons naquela área, mas comunicar para os alunos às vezes é uma nódoa. Isso aconteceu-me até na faculdade, na engenharia. Às vezes a pessoa pode ser ótima artista e não ter jeito. Mas tu és toda desembaraçada a conversar, por acaso. Eras tímida em pequenina, ou não?
Muito tímida.
Agora fazes um esforço enorme, porque estou na berra, tenho que falar. Mas corre muito bem, tu tens muito jeito, tens uma ótima imagem e apareces.
Agradeço.
Mas também é uma pessoa que se esconde muito. No entanto, tu também entras neste tríptico. É engraçado.
Entro, sim.
Chama-se sótão, mas tu diz que parece uma cave também, podia ser. Onde as pessoas guardam. Eu assumo mais o sótão, guardar as coisas dos avós, coisas escondidas, é mais isto. E é engraçado isso, que está recheado de objetos. Eu fiquei lá a tomar notas do que eu reconheço aqui. Foi ótimo, reconhecer estas caras. Lá estava a Madame Curie, pronto, ok. Beatriz Ângelo, lá vi. Umas coisas que eu fui vendo, e depois fiquei a pensar: "Por que está aqui um limpa para-brisas e uma escada de emergência?" Depois fui vendo que da tua história faz parte. Levantei coisas, invenções, que as pessoas não davam crédito às mulheres que isso tinham inventado. E eu não sabia, desde o balde do lixo com pedal.
É, exatamente.
Foi uma mulher que inventou. As escadas de emergência, aquelas que se apoiam, também é uma invenção de uma mulher, por exemplo.
Sim.
E fiquei a aprender, aprendi imensa coisa sobre as mulheres. O kevlar, por exemplo, aquela fibra contra as balas, que usa nos coletes à prova de balas. Stephanie Kwolek, uma química dos Estados Unidos, aliás, que morreu há uma década. A máquina de lavar louça também está lá. Josephine Cochrane, nos Estados Unidos, que fez 140 anos agora a invenção. É incrível! Jeanne Villepreux-Power, esta bióloga pioneira francesa, 1832, até quase fazia 200 anos, que inventou os aquários.
Os aquários, exatamente.
É lindo isto.
É.
Os teus quadros dá para aprender imensa coisa. Adorei! As escadas de emergência da Anna Connelly, falamos disso. Hedy Lamarr, eu conhecia de filmes, era linda, fabulosa, estrela de Hollywood, década de 30 e 40. Não inventou a net, mas inventou este sistema de salto de frequência, que patenteou em 1942. Meu Deus, isto já foi há 80 e tal anos.
É.
E que está na base do Wi-Fi, do Bluetooth, do GPS. É extraordinário. Eu lembro muito aquele filme do "Hidden Figures", aquelas três matemáticas negras.
Sim, meu pai adora esse filme e eu vejo sempre com ele.
Esse filme é obrigatório. As três mulheres, as três matemáticas norte-americanas negras, que foram quase relegadas da NASA, muito importantes, e o homem chegou à Lua por causa dos cálculos daquelas cabeças extraordinárias. E o filme é muito giro.
Foi. E mostra uma realidade que era um trabalho, era um emprego de mulher, até depois descobrir que dava muito dinheiro. Foi trocado.
Exato. É extraordinário. É engraçado, mas há aqui outras coisas que eu não sabia. A Veuve Clicquot, é a inventora do champagne, esta francesa.
Exatamente. O marido morreu precocemente, então não só a marca dela teve sucesso, como ela fez um novo tipo de fermentação, um novo tipo de sabor de champagne, que se tornou muito famoso.
Pronto. O jogo do Monopoly está lá por quê? O Monopoly foi inventado por uma mulher, o jogo?
Também, a Elizabeth Magie. Antigamente chamava "The Landlord's Game" e era para ensinar-
O jogo dos senhorios.
É, para ensinar.
Que giro!
Exatamente.
Porque de facto é ruas e casas.
Exatamente.
Não sabia! Como é que ela se chamava? Já agora.
Elizabeth Magie. Acho que é assim que se pronuncia.
Olha, e outra coisa, por exemplo, a guitarra elétrica também está lá.
É mais uma homenagem em si à Sister Rosetta, que fez o gênero rock and roll. Costuma-se dar ao Elvis, mas já era desta senhora.
A percussora era ela.
Exatamente.
O rádio antigo, tens muitos esquemas de aparelhos e de máquinas. A torradeira!
A torradeira. Mas a torradeira foi algo muito fora do modelo que nós costumamos ver.
Ok.
Eu quis dar-lhe créditos porque já em 1812 ela tinha uma espécie de placa que aquecia através do vapor do café e do chá, em que torrava.
Aquecia o pão por cima.
Exatamente. Não era como colocamos desta forma.
Da ranhura de meter o pão.
Exatamente. Essa era só em 1892, que foi para o mercado.
Tens lá esta homenagem também à Beatriz Ângelo, que é esta médica da guarda que eu amo perdidamente e que votou em 1911, e foi tão importante que depois impediu-se a mulher de votar, quando descobriram que ela era chefe de família e pôde votar. Então, imediatamente a lei mudou, estávamos em pleno Estado Novo. Estado Novo, não, estávamos na Primeira República, em 1911, e proibiu-se logo votar e depois só voltaram a votar 60 anos depois, em 76, ou 73. É impressionante! A rádio, a vacina, claro, já falámos da Marie Curie. Os cubos de letras também, aqueles jogos miúdos.
Era, os cubos alfabéticos para ensinar as crianças a construir já-
Também uma mulher que inventou esse jogo.
Sim. Ela era professora também.
Se calhar é o início do Scrabble.
Se calhar.
Extraordinário. E o limpa para-brisas, o que é isto? Isso eu tinha ouvido falar já que tinha sido uma mulher, a Mary Anderson.
Sim, Mary Anderson, exatamente.
Inventou este sistema do circuito de ligar e toda a área de ligar. É incrível! E lembro de alguém me dizer: "Estas invenções, depois..." Olha a invenção do limpa para-brisas. Dizias que é uma coisa mais ou menos simples, que se inventou, ou pelo menos é o ovo de Colombo, aquela coisa. E depois todos os carros do mundo vão ter aquele sistema, e portanto a pessoa que inventou aquilo, se patentear aquilo, pode ficar multimilionária. É verdade, a importância de uma invenção. Mas de facto, aprende-se, e depois o rolo da massa, o balde já falámos do pedal, a serra mecânica. É extraordinário, de facto, a contribuição das mulheres e é uma pena naquele sótão, o papel que desempenha. Tu abres aquilo para nós.
E tento abrir para nós, exatamente.
É muito chique, porque obrigaste-me a ir ver o que é que são estas coisas, o que é que estão aqui e por que é importante, o que é que está ligado às mulheres. De facto, eu levei-me a investigar e os teus quadros tiveram esse condão de nos fazer: "Olha, que curioso, é um mistério que vamos resolver depois com o auxílio da net". Cá está, Hedy Lamarr, tem a ver com... E depois retrataste lá também no quadro no meio, na peça central daquele tríptico. Estás lá a olhar para nós como quem diz: "Eu sei que estão aqui, estão-me a seguir, vejam o que eu estou aqui a descobrir".
É um pouco isto.
É extraordinário. Eu gostei tanto das tuas coisas, de facto. Tu tens alguma técnica especial dePintas todos os dias, por exemplo, ou andas muito também a passear e a tirar notas?
Eu tenho uma fase de ermita. Eu gosto muito de estar a pintar e fico lá até às tantas. Mas também tenho uma altura em que gosto, e faz parte do meu cotidiano, observar. E isso para mim está sempre a acontecer, nem que seja no metrô, nem que seja no autocarro, ou esperar pelo meu café. E no Lumiar também é uma zona tão caseira, ainda.
Exato.
E eu gosto muito disso. Isso leva-me também a grandes inspirações. Respondendo à pergunta, sim, tem uma fase ermita e depois há outra em que é preciso sair e fazer também networking para inaugurações.
Sim, e depois, como tu dizes: "Gosto de chegar a um sítio, já há pessoas que sabem de repente quem eu sou". Estão 200 pessoas: "Mas olha, não é que ela não teve uma exposição?" É muito giro ter sido no Nacional. E outra coisa que eu achei giro, é que o Nacional das Belas Artes fez 125 anos.
Exato.
Está a celebrar, desde 1901. Mas de facto, sempre foi um espaço extraordinário de liberdade e de utilá-las de pintura. Quando era miúdo, morava ali perto, os meus pais punham-me lá a aprender a pintar, que é uma coisa também muito engraçada e eu dedico muito este tempo aí. E aquele espaço, penso muito na importância que é aquele espaço para as artes em Portugal, uma casa de liberdade e de inovação, que dava estes cursos. Achei muito giro ser lá. E depois também foste muito louvada a nível de quem te organizou esta exposição, a dizer que tens um grande potencial de internacionalização. Isso interessa-te?
Interessa-me.
E, por exemplo, há alguma coisa já falada para estares em Espanha ou alguma coisa assim?
Ainda não.
Mas supões isso e esperas isso, claro.
Sim, suponho, exatamente.
Porque é importante a pessoa também saber vender-se lá fora.
Sim, sem dúvida. Isso é uma coisa que o meu tipo de trabalho, os temas que eu abordo, também podem ser do cotidiano lá fora. Uma residência artística, por exemplo, em Berlim, adorava.
E irias também à noite.
Sem dúvida.
O que tu fazes? Fotografas com o telemóvel ou andas com bloquinhos?
Tenho a minha máquina e o telefone. Tenho os dois.
Quando dizes a máquina, é o quê? Máquina fotográfica?
É a máquina digital, exatamente.
Está bem. E não andas com bloquinhos e coisa, não fazes aguarelas e este tipo de coisas? Isso não.
Faço mais de dia em vez de ser de noite, por acaso.
E vais a um sítio e sentas-te.
Sim.
Que giro, deve ser fantástico. Uma vez eu li qualquer coisa que falava nesta pintura como sendo pintura instalativa. Isto é o quê? Por ser uma instalação, um grande tríptico, que só funciona assim?
É porque é uma pintura imersiva, por isso é que eu queria dar esta componente instalativa, porque é para imergir mesmo, entrar lá dentro e sentirmo-nos.
Agora, quem é que um dia pode comprar uma coisa dessas? Tem que ser um museu. Quem é que tem uma casa onde cabe três telas com 3,5 metros por 2,70 de altura?
Exatamente.
Tem que ser comprado as três.
Não é necessário. Eu estou aberta, se quiserem, de forma individual. E com sorte, tenho uma pessoa interessada, que é artista também.
É sério?
Sim, adorei.
E que já disse: "Gostava, vou pensar, eu queria isto".
Disse mesmo: "Vou medir a parede da casa".
E é muito engraçado este tríptico monumental, chama-se mesmo "Sótão um", "Sótão dois" e "Sótão três". E tem esta recriação de um sótão. A tua casa dos teus pais tinha sótão?
Nós temos um pequeno sótão, mas é muito pequenino, quase como se fosse o quarto do Harry Potter, mesmo muito pequeno.
O quarto onde vivia escondido. Muito bem. De facto, há aqui todo um apoio que te fizeram. Estas coisas engraçadas que tu pensas, é um processo muito emocional inventar ou melhorar certos objetos que coubessem num sótão. Tiveste que selecionar. Houve muitas coisas que ficaram de fora?
Sim, sem dúvida. Também queria acrescentar a ponte.
A Ponte de Pena? Não.
Não, é uma ponte que está na Grã-Bretanha, também feita pela Sarah Guppy, que fez a troadeira, a espécie de troadeira.
E a ponte é uma ponte mesmo, para passar pessoas em cima do rio?
É, exatamente. Tinha que agora me lembrar do nome.
Inventou esse sistema.
Inventou esse sistema.
Ok.
Exatamente. Ela era engenheira, acima de tudo, e ela patenteou.
Mas aí não tinhas só a hipótese. Podias pôr, como tens lá mecanismos e livros de instruções, digamos assim.
Sim.
Podias pôr também uns desenhos do projeto da ponte.
Eu queria poder exatamente meter a chocolate chip cookie, a receita.
As bolachas com pedaços de chocolate? Estilo Choco Chips, aquelas coisas?
Sim.
Isso é inventado por uma mulher também?
Também foi uma senhora.
E também há 100 anos, para aí, ou 200, não? Nos Estados Unidos, imagino.
Eu acho que sim.
Que incrível. De facto, és muito observadora nestas coisas. E depois há uma pergunta que tu fazes: a que nós fechamos os olhos? A que devíamos ter prestado mais atenção? A que damos demasiada atenção? O que nós damos demasiada atenção? Aos telemóveis, queres dizer?
Sim, aos telefones também. E falo também a nível governamental. Há certas leis que andamos sempre para trás e para frente e já deviam estar definidas da melhor forma para todos, claro.
Sobretudo na parte da cultura também, não é?
Exatamente. E a cultura é sempre a primeira a ir, infelizmente.
É sempre o parente pobre.
É. E quando estive em Toulouse, também descobri isso. A França sofreu um corte de 40% da cultura, e isso é ridículo.
Com a parte de agora ou com o Covid?
Foi com a subida do Macron.
Está sério? Cortaram muito?
Sim, 40%.
Mas França tem outra coisa importante, como a Alemanha, que é ter muito apoio autárquico às artes, e muito mais do que cá, o que é engraçado. Uma vez explicaram-me isso. Tive aqui uma convidada, a Catarina Valença, por causa da Bienal de Arte que ela faz, Portugal e Espanha, de património, e ela falou-me nisso. Os franceses e os ingleses, as próprias "communautés" apoiam muito mais do que o governo central. Não têm muito a ver com isso, mas há muitas vezes que são apoiados pela Câmara tal, ou as Câmaras tais, convidam-nos para fazer trabalhos e projetos, e vem muito dinheiro dos próprios habitantes, dos próprios munícipes, o que é muito curioso. Mas de facto, este apoio da cultura é sempre muito fraco em Portugal.
É, infelizmente é fraco.Precisamos deste tipo de associações e de iniciativas. Contamos com eles para também ser um abanão para o nosso país ser melhor e principalmente para as mulheres. E é por isso que o Sótão convida exatamente a isto: que coisa é que já devia ter saído fora ou aquelas que devíamos ter visto antes.
Já está. O que é que a gente deixou passar, o que a gente tem que pegar e voltar a valorizar.
Exatamente.
Exatamente, ou chamar a atenção.
É uma espécie de Sótão mental, quase.
Exato. Como é que tu te vês no futuro? Bienais, residências artísticas, esse monte de coisas, a participar em tudo o que puderes.
Eu gostava.
Gostava de ver, a ir e vir, a observar, tu gostas, mas depois também a participar e se calhar na Bienal em Veneza, ter obras tuas.
Seria um sonho. Se eu fosse chamada para a Bienal de Veneza, era um sonho. E era um passo igual ao da minha madrinha agora do projeto que eu estava a contar. Ela também partilhou as suas histórias.
É uma pessoa extraordinária. Gostaste de a conhecer ao vivo?
Gostei. Surpreendeu-me, muito.
Era incrível. Mas por quê? Tinhas uma imagem que ela seria mais distante e menos próxima?
Tinha a ideia que como ela chegou a um patamar incrível, é um pouquinho intimidante nesse aspecto, mas ela é muito prática.
Mas ela é muito querida.
Exatamente, e muito querida.
E é apoiar e incentivar mais isto, indo por cima o Women in Art Fellowship. Ela é a pessoa para apoiar este monte de coisas e é a cara dela também. Muito curioso. Muito bem, Beatriz Narciso, não te vou maçar mais. Gostei muito que estivesses vindo aqui. Até sábado fica aqui este convite final a quem nos ouve. Sótão, já sabe, esta exposição de Beatriz Narciso vai estar até sábado, dia 13, na Galeria de Arte Moderna, no primeiro piso da Sociedade Nacional de Belas Artes, ali em Lisboa. Entrada gratuita, segunda a sexta, do meio-dia às 19h, e sábados das 14h às 19h. Portanto, não perca até sábado esta grande exposição. Sótão e Beatriz, queremos ouvir falar mais de ti, queremos ver mais obras tuas. Quando os senhores forem à exposição, vão ver por que vale tanto a pena conhecer as tuas coisas. E depois não resisti, tens um site muito bem feito. Também tem a ver com esta mentoria, não tem?
Sim, exatamente.
Aprendeste também com esta bolsa que ganhaste e que te ensinou a fazer um belo site. O site está muito giro e mostra muito os pequenos vídeos, de tu a falares, tu a pintares e tu a andares no teu safari. Aquilo está giríssimo. E de facto, quero-te ver em mais exposições, porque acho que Portugal inteiro precisa. Parabéns pela tua arte, pela tua inspiração. Continua sempre a observar e se calhar qualquer dia vês-me aí no bairro Alto, aqui sou eu. Um grande beijinho, tudo de bom. Muito obrigado.
Obrigada. Muito obrigada.