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E na Alemanha, no norte da Europa, muitas vezes apanhámos chuva com a grande surpresa de termos um público que não só não ia embora. E nesse dia foi particularmente interessante, porque as pessoas começam a bater os pés no chão e nós a decidir, porque havia de facto muita água, o espetáculo tinha um risco razoável, tinha algum circo e dança também, e o público não nos deixou não fazer. E nós viajámos tanto para estar aqui.

Muita gente abriu o guarda-chuva.

Fecharam os guarda-chuvas.

E as pessoas atrás disseram: "Fechem que a gente quer ver". Então ficaram ali à chuva torrencial.

Connosco.

A ver.

Uma multidão.

Quando falamos de Sines, evocamos Vasco da Gama e refinarias. Quando falamos de Sines e artes de rua, é inevitável falar da minha convidada de hoje, Julieta Aurora Santos, criadora, encenadora e dramaturga, é fundadora e diretora artística do Teatro do Mar e é diretora e programadora do Mar, Mostra de Artes de Rua, que desde 2016 tem afirmado a cidade de Sines como um polo de referência nas artes performativas contemporâneas para a rua. A sétima edição decorreu em setembro passado, quando em três dias, as ruas do centro histórico e da zona portuária da cidade alentejana foram tomadas por mais de 20 espetáculos de circo, dança, performance, música, instalação e jogos interativos de artistas oriundos de nove países. Julieta encara a rua como um palco de liberdade, experimentação e encontro. Com estas mostras, a ideia é aproximar as pessoas do seu território, estimular um novo olhar sobre a cidade e provocar também o encontro e a partilha através das artes, incluindo os artistas e a comunidade local. O amor desta Julieta não é Romeu, é rua, meu. Olá, Julieta.

Olá, boa tarde.

Muito prazer e obrigado por ter aceitado este meu convite.

Belo trocadilho.

Que já devem ter feito imensas vezes contigo, não?

Outros com o Romeu, sempre.

Sim, claro. Muito bem, tu então nasceste em Sines e nunca viveste noutro lugar. Tu dizes mesmo: "A cidade alentejana é a minha casa, é onde eu regresso sempre". É a tua base.

É verdade. Claro que há sempre uma história associada ao facto de nós nos mantermos no mesmo sítio desde que nascemos. Obviamente, quando se nasce num sítio pequenino e é uma cidade pequena, temos sempre a vontade, ainda por cima uma cidade marítima, um horizonte aberto, o que também não nos permitiu, ou pelo menos a mim não me permitiu, fechar o olhar e ambicionar sair dali.

Tens horizontes largos, não é?

Exatamente. Mas fui mãe muito jovem e estava mesmo prestes a vir para Lisboa trabalhar. Estava à janela da minha casa e o meu filho, na altura com 11 anos de idade, diz-me: "Mãe, vou até à praia com os meus amigos". E vi-o partir a descer a rua nas bicicletas com as toalhas de praia. E pensei que se calhar não era uma boa ideia eu roubar-lhe aquela infância e aquele lugar. Mas isso não me impediu de poder fazer nascer uma série de coisas, se calhar.

E viajar muito, viajaste muito, até com a tua companhia. É impressionante. Mas é engraçado, tu dizes: "Eu tenho o privilégio de viver na proximidade do mar". De facto, é tão importante isso.

Então não é? Sobretudo por aquilo que acabei de dizer.

Dos horizontes largos.

Sim, há uma coisa que eu digo habitualmente e que hoje em dia já é uma das frases associadas à Mostra de Artes de Rua, que é: povos de mar, gentes de rua.

Ah, que giro.

E de facto, é verdade, vive-se bastante no exterior.

É tão gira a tua Mostra de Artes do Mar. Este mar, M-A-R e M de gi, porque toda a linguagem associada, eu vou amar. É muito bonito isto, porque lembra amor também. Eu vou amar. Este ano amar foi ótimo. Amar foi ótimo, isto é muito bom.

Amar é ótimo.

Amar é ótimo. Sim, é extraordinário, isso é tão giro. Mas também disseste um dia: se eu mudasse para outro lugar para viver, era Barcelona.

Sim.

Gostarias também, porque é uma cidade muito diferente, não tem nada a ver. Também é costeira, mas de facto, estou a pensar nos vibrantes, nos La Fura dels Baus, aliás, com quem já trabalhaste, já conheces bem. Estou a pensar nesta loucura catalã das artes e este movimento, e esta onda também é supercriativa.

Sim, é um povo também muito reivindicativo, com uma grande consciência política também, e defensores absolutos dos seus direitos. Eu admiro essa capacidade. E depois Barcelona em si, porque é uma cidade muito aberta.

E bonita.

Muito artística. Com uma vida cultural incrível. E depois tenho lá também alguns amigos, tenho uma família de coração. E a história como fui lá parar também é curiosa.

Como é que foste lá parar, então? Desde o primeiro dia.

É que eu vivi um ano em-

Ah, não sabia. Em Barcelona.

Muito perto de Barcelona, sim.

Ok. Naquela costa.

Sim. Fiz um mestrado em Artes de Rua.

Isso eu sei, na Universidade de Lleida.

Exatamente.

Catalã.

E isso fazia com que eu estivesse de segunda a sexta no mestrado e ao fim de semana-

Tu conheces aquilo tudo, o Crec os e Cadaqués.

Sim.

Tão bonito. É tão bonito.

É lindíssimo.

A ideia que eu tenho, Julieta, para explicar a pessoa que tu és. Tu tens tanta coisa que eu gosto muito. As tuas cruzadas, és a mulher de armas, as tuas cruzadas, o democratizar a arte, o trazer a arte para a rua, o ter as coisas acessíveis e gratuitas, as pessoas poderem comungar disto, mas também levar lá fora o que é bom e depois envolver a comunidade local. Tudo isso são coisas que tu tens na tua arte, que não se limita a: "Eu sou atriz e faço umas peças de vez em quando no Dona Maria" e pronto. Não, tu tens muitas valências associadas, que são todas maravilhosas e são muito boas. Tu és uma pessoa extraordinária. Mas é engraçado que vem da tua nascença, vem da tua família. Tu nasceste rodeada de artes, respirava-se artes em tua casa. A tua avó materna tem uma história linda de morrer.

Eu acabei por me perguntar muitas vezes de onde é que vinha esta necessidade de criar acima de tudo e de ver acontecer. E perguntava-me muitas vezes de onde é que isto tudo vem. Então comecei a observar a minha família de outra maneira. E claro, há muitas histórias associadas à minha avó. Esta história hoje conto-a e ela tem piada contada com a distância do tempo, obviamente.

Mas na altura foi um drama? Ela fugir com um circo. Apaixonou-se por um palhaço e foi trabalhar com o circo. Era a parte de merdo do ilusionista.

Ela abandonou a minha mãe. A minha mãe tinha quatro anos de idade. Ficou com o pai, portanto ela foge com o palhaço do circo que estava na cidade e viveu muitos anos no circo.

Quantos ouvintes aqui é que podem dizer que a minha avó foi serrada várias vezes no palco?

É verdade, porque ela era assistente do ilusionista.

É extraordinário.

E mulher do palhaço.

Sim, mas na altura foi complicado. Tu também, entretanto, entraste neste colégio de freiras, neste orfanato.

Exatamente. Aos nove anos morre-lhe o pai e ela é metida num orfanato e a atividade principal que a minha mãe gostava mais de ter era o teatro que fazia no orfanato.

É fantástico. E o avô também, agora do lado do pai, também era ensaiador das marchas?

Era. O meu avô ensaiava as marchas populares em Sines, mas o que é mais engraçado é que não deixava as filhas participar.

Se calhar as bailarinas tinham fama das coristas e ele sabia que aquilo era...

Mas ele fazia isso. Há sim alguns sinais, uma tia-avó que aprendeu a ler e a escrever basicamente sozinha, só sabia as vogais, aprendeu as consoantes.

Com a Crónica Feminina.

Com a Crónica Feminina.

É extraordinário. A minha mãe tinha, eu lembro-me disso também.

Só via o canal dois e a rádio estava sempre na ópera.

Estava de música erudita?

Sim.

E era analfabeta, aprendeu, é extraordinário isso.

Fazia renda com várias agulhas e lembro-me da figura daquela velhota tradicional a fazer renda com uma janela aberta por onde saía a ópera. Portanto, tudo isto acaba. São pequenas coisas, pequenas grandes coisas.

A tia Rosa, que escrevia poesia.

Sim, a minha tia Rosa escrevia poesia.

Era extraordinário. Tu quiseste ser bailarina também, no fundo, era bailarina que tu gostavas de ser, de precocidade. Ao mesmo tempo, isto é uma coisa que se calhar na escola ostracizou-te um bocadinho. Sofrias bullying, mas também fazias teatrinhos quando a professora saía, subias para o estrado e imitavas a nota, fazias a nota, encenavas. Muito engraçado isso. E na escola, depois?

Sim, eu acho que o bullying veio principalmente porque eu era muito magra e era uma das razões, mas não era só, era uma energia que eu tinha e uma forma de estar e de me relacionar e de falar e as coisas que eu criava e que inventava, que faziam com que eu fosse uma espécie de elemento estranho. E então essa estranheza, quando somos crianças, muitas vezes acaba por se transformar não necessariamente numa coisa positiva.

Exatamente.

E eu cresci com uma baixa autoestima.

Mas crianças não têm filtros, portanto, dizem tudo. É complicado.

Sim, e extremamente insegura. Ainda hoje me considero uma pessoa insegura. A vida é que te vai de alguma maneira moldando. Mas há sempre uma razão.

Expressar-te, sempre expressar-te, fez sempre parte da tua natureza.

Sim.

Teatrinhos em miúda. Engraçado contares essas histórias com as espiritinhas de Sines, a dona Conceição, de manhã iam apanhar batatas e à tarde iam fazer teatrinhos e recitais de poesia. Mas é tão bonito isso. É uma coisa que na altura se calhar era difícil, mas hoje visto para trás, penso o que tu lutaste, o que tiveste que passar para chegar onde chegaste e trazer tanta felicidade e tanta alegria e comunhão às ruas de Sines todos os anos. É extraordinário. Aos 12 anos ganhaste uma viagem para Praga, estiveste lá um mês.

É verdade.

Incrível. E aqui, um mês com crianças de teatro e de dança, deve ter sido fantástico, todos escolhidos.

Fazia parte de um grupo completamente informal de teatro infantil. Não era teatro para a infância, era mesmo teatro infantil, porque éramos muito pequeninos. E na altura, pronto, surgiu o convite e eu fui representar Portugal e estive um mês em Praga, é verdade. Voltei lá 30 anos depois com a minha companhia, o que é interessante.

Tu dizes isso, vi uma coisa que tu falaste nisso: ainda tenho amigos de lá e dessa altura. É extraordinário guardar essa pessoa, de facto, especial. O teu trabalho artístico é reconhecido por esta fusão das disciplinas do teatro físico, do circo, da dança, da música, das artes visuais, concebidos para o espaço público.

Sim.

Porque isto é muito importante. De todas estas coisas, teatro físico, circo, dança, de que eu falei, alguma é a tua preferida? Do que tu gostas mais é quê? Encenar, por exemplo, é a coisa que mais gostas? Criar, moldar um espetáculo?

Moldar o espetáculo.

Adoras isso, não adoras?

Como?

Adoras isso, essa parte do encenar, fazer as coisas acontecer?

Eu gosto muito do trabalho de investigação, quando defino o conceito, quando começo a desenvolvê-lo e todo o trabalho de investigação, de pesquisa, de escrita. Portanto, o meu trabalho, na prática, não tem o recurso da palavra nos espetáculos, mas o texto de uma forma implícita está lá. Por tudo aquilo que tenho que escrever, faço um trabalho dramatúrgico o mais profundo que consigo fazer. E não sei se consigo dizer o que é que mais gosto, que eu de facto sou encenadora. Passei pelo teatro com matrizes, mas rapidamente percebi que não era o meu lugar.

Gostavas mais dessa faceta.

Porque eu não me via no espetáculo, eu via o espetáculo. Eu saía de um ensaio a pensar como é que o espetáculo se podia desenrolar e como é que se podia fazer.

Estava lá o bichinho.

E não me via lá. E depois eu acho que sou comunicativa, mas sou tímida e reservada ao mesmo tempo, então não gosto assim tanto da exposição. Então sinto-me muito mais resguardada quando estou no escuro da sala.

Muito bem. Tiraste então o Mestrado de Artes de Rua: Criação para o Espaço Público, muito bonito, esta Universidade Catalã. O que é que têm as artes de rua tão especial em comparação com as outras artes? Até o país está a perceber disso, um bocado. Finalmente, a DGA abriu concurso de lugar para esta especialização, não tinha. E é uma coisa que eu sei que tu desejas um reconhecimento maior deste valor transformador, social, político e simbólico destas artes. Mas o que as artes de rua são assim tão especiais, que não é o cinema, nem o teatro, nem a literatura?

Eu acho que todas, dentro da sua especificidade, são obviamente importantes.

E esta, porque é que te escolheste esta? Que te apaixona tanto?

Por várias razões. Curiosamente, estou nas artes de rua hoje, não pela mesma razão.

Com que entraste.

Porque comecei nelas. E isso é curioso. Há 40 anos, a minha companhia nasceu numa época em que nem sequer existia a rede de teatros municipais que existem actualmente. E quando começámos a fazer turnês, rapidamente percebi que não havia condições na maior parte dos sítios onde chegávamos. Então nós munimo-nos dessas condições, desde o palco aos equipamentos técnicos.

Porque se não tinha, faziam nas cantinas das escolas e nos salões de festas.

Nos salões de festa, principalmente.

E chovia dentro dos armazéns, o teatro fábrica.

Imagina chegares em junho a um salão de festas, ainda tinhas os enfeites do Natal anterior e nós ainda tínhamos de estar a ter os enfeites de Natal.

O chapéu da Misericórdia, por exemplo, estava em ruínas e todas as obras a continuarem, vocês a representar.

Exatamente.

Ao mesmo tempo, isso empurrou-te para a rua, se calhar.

E isso empurrou-nos para a rua. Ou seja, acabámos por nos munir de todos os equipamentos necessários para poder fazer o espetáculo e percebemos que o podíamos fazer sempre da mesma maneira ou com a mesma dignidade, independentemente do lugar onde se apresentava. Portanto, ao longo do tempo, obviamente, fomos apurando uma linguagem, abandonando a palavra, porque a palavra na rua não tem.

Porque o teatro na rua é mais o corpo que tem que transmitir o texto.

Sim, claro.

Do que propriamente a palavra. É diferente de um teatro, um palco, claro.

Claro, muito diferente, até porque a atenção do espectador é outra.

Mas depois contam o Goethe, contam o Fausto, por exemplo, que aconteceu de um dai mani, naquela vossa primeira grande turnê que fizeram, quase três meses pela Europa fora.

Pois foi.

E os alemães convidaram-vos para ir lá.

Sim.

Porque exatamente: "Quem é este português que fizeram uma coisa com o Fausto e não têm o texto?"

Exatamente.

"O que é isto?" É incrível.

E correu a Alemanha toda, de sul a norte da Alemanha. Depois atravessámos a fronteira e ainda fizemos uns quantos festivais na Polónia.

Tem aquela história extraordinária de a chover torrencialmente.

A chover torrencialmente.

Porque também têm que lutar com as condições climatéricas. Às vezes é um problema, pode ser.

E na Alemanha, quer dizer, no norte da Europa, muitas vezes apanhámos chuva com a grande surpresa de termos um público que não só não ia embora, e nesse dia foi particularmente interessante, porque as pessoas começam a bater os pés no chão e nós a decidir, porque havia de facto muita água, o espetáculo tinha um risco razoável, tinha algum circo e dança também, e o público não nos deixou não fazer. E nós: "Viajámos tanto para estar aqui".

Muita gente abriu o guarda-chuva.

Fecharam os guarda-chuvas.

E as pessoas atrás disseram: "Fechem, que a gente quer ver".

Exatamente.

Então ficaram ali à chuva torrencial.

Connosco.

A ver-vos.

Uma multidão.

Isso é extraordinário. Sentiste uma comoção grande?

Senti uma comoção enorme.

Isto quer dizer qualquer coisa.

Sim.

Impressionante. Eu acho isso impressionante, essa história é linda.

E esse é o último espetáculo que fazemos nessa turnê na Alemanha e atravessámos depois para a Polónia.

Artes de rua não é bem o espetáculo ao ar livre, são coisas diferentes. Não é só fazer uma peça numa praça, não tem nada a ver. Tem uma linguagem própria, tem uma mensagem própria.

Tem uma gramática própria.

Isso é importante.

Completamente.

Não confundir com: "Não temos teatro". Há duas pessoas muito importantes no teu percurso, o Alberto, por exemplo, a pessoa com quem ele mais gostava de dançar era contigo, no Frágil. Imagino vocês felizes. O Alberto e Maria Teresa Palmela também. Este Centro Cultural Emérico Nunes, onde trabalhaste com ele. Ele era uma pessoa superexigente, não era?

E sou cofundadora também do Centro Cultural Emérico Nunes.

Estamos em 86 também, na altura em que fundaste.

O Alberto. Falamos do Alberto, o poeta, é de quem estamos a falar. Ele apesar de ter nascido acidentalmente em Coimbra, porque o pai estava na altura a trabalhar e a mãe acabou por tê-lo em Coimbra, mas a família dele é e ele viveu toda a vida em Sines. Sim, era onde ele tinha, de facto, a sua casa. Ele tinha casa em Lisboa.

Foi estudar em Bruxelas, na Bélgica, depois veio, por causa da tropa.

Mas viveu praticamente a vida toda em Sines. E ele também foi um dos cofundadores do Centro Cultural Emérico Nunes.

Perfeitamente.

E trabalhei com ele muitos anos, além de que ele fazia parte do meu grupo de amigos íntimos.

Com quem tu dançavas. Ouvi dizer que a pessoa com quem ele preferia dançar era com a Julieta. Onde é que está a Julieta?

Sempre.

É extraordinário. Porque ele era amigo do teu pai, lembras-te da figura dele, muito magrinho, com os brincos e cabelo comprido. Não era nada vulgar naquele tempo.

Não. E foi a primeira vez que eu vi um homem de cabelo comprido e de brincos. Ele tinha recém-chegado da Bélgica.

Da Bélgica.

E trazia outros mundos com ele.

Claro. Julieta Aurora Santos. Temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Julieta Aurora Santos. Ela é criadora, encenadora, dramaturga, fundadora e diretora artística do Teatro do Mar e também é diretora e programadora da MAR, Mostra de Artes de Rua, um evento que tem afirmado Sines como um polo de referência nas artes performativas contemporâneas que são concebidas para a rua.

Já devo dizer, e tem um bocadinho a ver com a conversa que estávamos a ter na primeira parte sobre o facto de eu sofrer bullying na escola e ter a sensação de que era diferente das outras crianças, mas não perceber porquê, e disso ter interpretado com a minha autoestima. Estávamos a falar disso. Então é só depois dos 20, quando eu Embora eu já conhecesse o Alberto, a diferença de idades e as circunstâncias fizeram com que eu me aproximasse mais na casa dos 20 anos. E foi como se tivesse, de repente, encontrado os meus pares. Afinal, estas pessoas-

Existem.

Percebi o que eu dizia.

Não sou tão exótica como isso.

Não, nem sei se eu me considerava exótica. O que eu percebi foi que eu, de facto, se calhar, teria uma sensibilidade particular e encontrava isso em outras pessoas.

Comungavam disso.

Sim, o Alberto e o Vladimiro Franklin foram, de facto, duas pessoas fundamentais na minha vida.

Dois mentores, extraordinário.

Sim. Mentores, amigos, companheiros.

Como encenadora, começaste com os "Imagens à Solta", tua primeira criação, digamos assim, mais oficial. Aliás, que foi premiada no Clube Português de Artes e Ideias, no final dos anos 80. E depois, agora estou me a lembrar também que falámos isso da Capela da Misericórdia, este "O Tempo da Lenda das Amendoeiras", do Ary dos Santos, um grande texto, que vocês fizeram na capela em obras e em ruínas.

Em ruína, literalmente. Mas pouco caso ficava bem.

Exato. Vocês começaram no teatro amador e chegaram à internacionalização. É extraordinário. Já passaste por todos os países e mais algum a levar estas vossas artes. O Teatro do Mar também tem um apoio de deficientes, também faz coisas com pessoas com deficiência, não faz?

Fazemos, sim. Nós temos um serviço educativo, onde promovemos oficinas de teatro e um dos projetos, que foi um projeto dinamizado pela Tânia de Brito, que envolve crianças com deficiência intelectual. Jovens e jovens adultos. A diferença aqui é que é um projeto verdadeiramente inclusivo, no sentido em que nós não fazemos a oficina só com eles. Eles trabalham com o grupo de adolescentes que nós já tínhamos como alunos no serviço educativo, e a oficina é conjunta.

Isso é bom. Para não ser aquela coisa do ensino especial, que é completamente à parte. Assim, não. Todos ganham com a presença uns dos outros.

E o que é mais curioso é que os jovens com deficiência intelectual chegaram e aquilo já era tudo deles. Um à vontade, uma espontaneidade e a vontade de abraçar.

Não têm esse filtro.

Não têm esses filtros. É lindo, é maravilhoso.

Então, estas artes, que são artes de teatro físicas, é muito importante isso.

E desarmou os jovens que não-

As resistências dos pretensamente normais, digamos assim.

Sim, desarmou-os completamente e acho que a aprendizagem foi comum. Eu acho que foi uma aprendizagem enorme para todos, e tem sido e continua a ser.

Uma frase tua muito bonita: "O fato de termos nascido e desenvolvido um projeto num sítio pequeno, não significa que tenhamos de pensar pequeno". Isto redefine-se, porque é verdade. Vocês pensaram sempre alto e depois já apresentaram os vossos trabalhos. Este ano, o festival Mostra de Artes teve o contributo do Japão, por exemplo, vem de nove países que vieram mostrar as suas coisas.

É verdade.

O que é extraordinário. E depois vais a muito lado representar a companhia isso nos seminários, encontros, palestras, vais falar disto. A MAR, a Mostra de Artes de Rua é tão bom, que afirma-se, de facto, como eu já disse na introdução, um espaço de encontro entre criadores, públicos, território. A rua, de facto, é este ponto de encontro onde podem experimentar e podem encontrar-se, podem sair da sua bolha, como tu dizes, é muito importante. Tu viste muitos espetáculos lá fora antes de começar cá, antes de fundar isto. E vais de vez em quando conhecer coisas lá fora.

A MAR ou a companhia?

A companhia em si, portanto, a base da MAR é como o Teatro do Mar, não é?

Não, a companhia teve um crescimento natural desde a história que contei, que começámos por fazer teatro na rua.

Exatamente.

E fomos gradualmente evoluindo para um conceito muito mais amplo, que é teatro de rua, digamos assim. Hoje em dia, já nem chamo teatro, apesar de o manter no nome, porque é a nossa base de trabalho. E dramaturgicamente, o teatro está lá muito presente, mas o nosso trabalho é híbrido e multidisciplinar. E rapidamente começámos a trabalhar mais com as linguagens do corpo e isto se foi ampliando à dança, ao circo e a novas tecnologias, nomeadamente o vídeo.

Os videojogos interativos, esta forma.

Sim, e o resultado. E trabalhamos com estruturas de média e grande dimensão, que são dispositivos cênicos sempre muito particulares.

Este ano tiveram no castelo, um piano pendurado. Uns catalães também, um piano pendurado lá de cima, que é extraordinário, com tudo que aquilo implica de espanto, é incrível. Programar uma coisa dessas, um festival desses, e um número destes, tem muitos desafios. O espaço, tem que ser que não é um espaço convencional. Este ano, aliás, foram pelos espaços da zona portuária, novos, que nunca tinham sido. E as condições meteorológicas, tudo isso são variáveis que podem acontecer. Não é fácil.

Muitas variáveis. Um festival de música, normalmente é um palco que está ali fixo.

Faz-se uma tenda.

Exato.

Isto não.

Isto não.

Em vários sítios, na praia, aconteceu em todo lado.

O trabalho de produção e produção técnica é enorme. E como nós estamos a fazê-lo crescer só neste sentido, num sentido cuidado, porque eu não tenho ambições de ter um mega festival.

Quero que seja um crescimento sustentável. Não é de multidões. Não é preciso. Crescer em profundidade, como tu dizes, não em quantidade. É tão bonito isso.

Exatamente.

Ter essa visão é importante, porque há gente que é apaixonada. Se apresentar mais 100 mil pessoas, apresentas, recebe muito mais dinheiro.

Isso é muito mais difícil em termos de financiamento.

Claro. Dá mais desafios.

Claro. Queremos manter uma mostra que se dirige principalmente à cidade, não só, porque tem muitos visitantes já. E temos a hotelaria e restauração cheias, etc. Já tem bastante público. E é este bastante público que de algum modo nos encaminha para um crescimento natural. Mas eu quero ainda assim que seja orgânico e sustentado e sem pretensão de fazer um mega evento e se transforme numa mega feira para massas. Não é nada isso. Nós procuramos mesmo dialogar e estar perto das artes de rua.

A proximidade é muito importante, tu falas muito nisso. Proximidade.

Sim.

E a comunidade local consegue envolvê-la sempre?

Sim, quase sempre. O quase refere-se a termos algumas criações que envolvem a comunidade, direcionadas para a mostra, mas sempre no sentido em que a comunidade sai, de facto, à rua. E é muito bonito ver as pessoas a saírem.

De um ano para o outro já dizem: "Conta-nos o que nos vais trazer para o ano." Metem-se contigo e sugerem coisas. Tens esse feedback?

Já começo a ter opinião, o que é ótimo.

Estou a brincar. Claro que sim.

O programa, para a cidade que tem.

Isto da tua mostra é importante. Esta mostra é um percurso pela cidade.

É um percurso.

E pode variar e daqui para lá.

A escala é muito importante neste sentido, em que caminhamos de um lado para o outro. Saímos de uma marina de barcos com um espetáculo com uns mastros, incrível. Entramos na praia e de repente temos um espetáculo que vem de Itália, na areia.

Meio enterrados na areia.

E que dançavam mesmo dentro da água, utilizavam as próprias ondas do mar.

Com aquelas roupas todas das cores. É muito bonito.

Há sempre, obviamente, um critério de qualidade. Acima de tudo, um critério de qualidade. E ao mesmo tempo, introduzindo também alguns espetáculos que são mais fora da caixa ou que tenham linguagens ainda mais contemporâneas. E temos muita sorte, temos um público incrível, que vê tudo, consome, no bom sentido da palavra, que opina e que é bastante solidário com os artistas. O que é ótimo, porque não há um espetáculo que termine, que o público não fique.

Sim, gostam de os ver depois também, porque eles estão ali à frente deles, à mão.

E isso é uma das coisas nas artes de rua que eu gosto.

Que os outros não têm. Vão para os bastidores, acabou, camarins, desaparecem.

Exatamente.

E ali as pessoas falam, devem abordá-los. É muito giro. "Tive imenso medo quando o senhor subiu lá acima." Estou mesmo a ver as conversas.

E pedem quando há sonografia, se podem ver, se podem subir, se podem experimentar. Isso é muito giro.

Isso é único nas artes de rua. Que critérios tens tu para selecionar isto? Porque tens sempre que escolher coisas que sejam de qualidade, inovadoras, que envolvam as pessoas e a comunidade, que também reflita questões atuais, ambientais, de gênero, do que for, identitárias. Alguma novidade, a imaginação, o humor. Tens que passar isso tudo em revista para escolher. Não deve ser fácil escolher e convidar um grupo a vir cá apresentar uma coisa extra.

Sim, e fazê-lo todos os anos. Isso implica que eu viaje também.

É um bocado isso. Vais ver muita coisa cá e aí a acontecer.

No caso de algum espetáculo me desperte curiosidade. Eu tenho muitos programadores no estrangeiro que eu também conheço pessoalmente. E há alguns que eu confio absolutamente. Tenho uma rede de pessoas e: "Olha, não consigo ir à Coreia ver este espetáculo. Podes-me dizer?"

Dá-me uma ideia.

Exato. E depois aí peço vídeos integrais e consigo ver do que se trata. Mas principalmente viajo, vou a festivais, sou muitas vezes convidada para grupos de programadores, e que são grupos internacionais. Vou todos os anos ao Seminário Internacional de Artes de Rua, que se chama Fresh Street e que acontece todos os anos numa cidade diferente da Europa. O ano passado foi em Irlanda, há dois anos Paris. O que é ótimo, porque acabamos por estar com programadores e com profissionais do setor do mundo inteiro.

Tens ali toda a gente reunida.

O que é extraordinário. E depois também nos proporciona a possibilidade de ver espetáculos.

Fazer novos contatos.

Em Paris, um convite muito especial, porque a Circo Estrada fazia anos, que é a organização do Fresh Street, e alugaram um barco e fizemos um passeio no rio Sena, os programadores todos dentro do barco e acabou por ser um momento mais informal e que as pessoas puderam estar umas com as outras e isso também acaba por criar relações, ligações e trabalhamos todos em rede e em conjunto, o que acontece pouco em Portugal.

É uma pena. A arte salva de facto o mundo, Julieta. Tu dizes que neste mundo às avessas estamos todos fechados nas nossas bolhas, nas nossas redes sociais e esta mostra faz-nos sair, ir à rua, partilhar coisas bonitas e dar esperança. Nós precisamos disso.

Precisamos disso. Comparando com Espanha, que tem uma cultura de rua extraordinária, as pessoas saem do trabalho e não vão imediatamente para casa, criam um separador. E esse separador é estarem nas esplanadas a petiscar, a beber, a conversar e a encontrarem-se com os amigos que não conseguem ver durante a semana. E em Portugal nós somos bastante mais reservados, somos mais fechados, mas eu tenho a sorte de ter crescido numa cidade que sempre teve muito turismo e que é uma cidade que vive à rua, mas que se fechou muito nos últimos anos. E depois também um conflito identitário gigante que Sines vive. Aliás, isto em paralelo com muitas outras cidades da Europa e do mundo, devido à industrialização e ao crescimento de todo o complexo industrial do concelho, que transformou uma vila que era pescatória e de turismo e de repente nós temos uma cidade com características urbanas, cada vez mais multicultural.

Sim. Completamente industrializada. Com as siderúrgicas, os dados digitais, estas coisas.

E está a crescer brutalmente. Isto fez com que as pessoas também se isolassem mais e a MAR vem um bocadinho voltar a olhar para o nosso território e aproximarmo-nos dele como ele é agora.

Exato, não adianta sonhar.

Ou viver de saudosismos. É aprendermos a viver.

Agora é assim, o que é que podemos fazer com isto? Tu, interessante, sofreste alguns reveses também. Que força é que tu tens, Julieta? Por exemplo, houve o incêndio que destruiu grande parte do vosso património e arquivo histórico. Isso foi há quanto tempo?

Foi em 97.

E que de facto deu cabo do vosso passado. Estavam ali coisas reservadas, guardadas.

De toda a primeira fase da companhia. O incêndio foi precisamente no nosso escritório, num tempo em que há arquivos de fotografia, arquivos com as cassetes vídeo VHS, com aquelas coisas todas que tinham os registos do nosso trabalho e 90% ardeu.

Faz lembrar o incêndio também do Palácio do Alberto. Ele nem quer saber, a biblioteca dele também.

Foi uns anos depois, mas foi, sim. Curiosamente, eu não tive coragem.

De voltar lá e ver o palácio outra vez.

Eu tenho muitas histórias ligadas a Santa Catarina e claro, receio não conseguir ver ela destruída.

Esta luta contra a doença. A tua mãe tu perdeste depois de uma luta contra um cancro, depois de meses que ela esteve em paliativos. Seis meses depois, tiveste tu. Um ano e meio depois, tiveste outra vez. Onde é que tu encontras a tua força, Julieta?

Não faço ideia.

Mas tens. Boa.

Mas agradeço ter esta natureza. Não tenho nenhuma espécie de disciplina pessoal, no sentido de estar muito preparada. Eu acho que talvez porque a vida nunca foi para mim propriamente fácil. E nós começamos a relativizar cada vez mais os problemas e obviamente que a vontade de viver era muita também e não me foquei tanto, só me foquei na doença o suficiente para me tratar e para me cuidar, mas nunca foi o meu foco. E então convivi com a coisa da melhor maneira.

E aliás, logo depois foste tirar o mestrado.

Exatamente. O meu ano sabático foi tirar o mestrado em Artes de Rua em Barcelona.

Na Catalunha. Muito bem. Entre estes números que foram este ano, queres destacar algum? Além destes, os Flotados, que tinham um piano pendurado, mas com video mapping. Eu gosto imenso de video mapping. Com video mapping e tudo, que foi de facto um número extraordinário. Que género mais de números vocês tiveram? O japonês com os diabos, aquelas coisas, que foi super divertido. Se calhar que mais coisas variadas podem acontecer nos vossos espetáculos?

Tantas que é difícil escolher. Quando pensamos, por exemplo, num artista como a Companhia Pia, é extraordinária. São colegas, são amigos, são portugueses, têm uma história muito parecida à nossa enquanto estrutura de rua e também internacional, que eles também viajam bastante a nível internacional e têm agora este último espetáculo que é o Caricature, que é um espetáculo político.

É aquele das cabeças grandes? Fantástico.

E são máscaras, é muito divertido.

Aquelas cabeças de crianças, de bebés. Não bebés, crianças grandes, que se metiam contra a gente e metiam-se uns com os outros. Isso é extraordinário.

Depois os espetáculos japoneses. A gente pensa assim, os japoneses trazem uns diálogos.

Tsubasa.

Sim, o Tsubasa. E traz uns diálogos, mas aquilo é muito mais, é um espetáculo muito espiritual, muito emocional.

Cantaram-lhe os parabéns, que ele fez anos.

Muito poético.

Naquele dia?

Sim.

Cantou-lhe os parabéns e ele a vibrar imenso.

Sim. Nós obviamente demos o mote, o público todo cantou-lhe os parabéns e depois fizemos-lhe uma festa surpresa nos bastidores com as outras companhias todas, então foi muito especial.

As artes têm outra coisa, nós temos de terminar também. Julieta, estimula o pensamento crítico e isso é muito importante. Pões as pessoas a discutir, a pensar em temas, a refletir. Artistas. Tu dizes: "Eu também faço este espetáculo." Esta mostra também é para os artistas, não é só para o público, nem é só para a comunidade local. É para toda a gente que vem, mas os artistas também ganham com isto. E isto estimula o pensamento crítico, de facto, e uma participação mais ativa. Eu tenho muito esta ideia que hoje em dia há governos que querem que as pessoas se estupidifiquem, que não pensem muito nas coisas e que aceitem tudo o que lhes dão. E acho que esta tua mostra é uma coisa para empurrar as pessoas, para afirmarem-se e pensarem.

Uma das coisas que acontecia no período da ditadura em Portugal era a proibição de haver ajuntamentos, que era mesmo assim que se chamava. Era proibido haver ajuntamentos e reuniões. Portanto, se vivemos num Estado democrático, devemos insistir nessa democracia. E o encontro, nesse sentido, é fundamental. E se for um encontro provocado pelas artes, que estimulam a vários níveis e que também estimulam o espírito crítico, obviamente, considero que é absolutamente necessário.

Muito bem. Julieta Aurora, queria te agradecer muito esta tua presença aqui. E fica aqui também esta inclusão e este nome, Julieta Aurora Santos. Fica a saber esta mostra de artes de rua, esta AMAR. É importante amar, é muito importante amar. E ela é a prova disso. Muito obrigado pela tua presença, por teres aceitado este convite, por estar aqui conosco e por nos dar esta esperança. Para o ano contamos em ver-te lá em Sines, não há como. Se temos lá, estaremos à espera.

Como convidar as pessoas. No terceiro fim de semana de setembro. São todos bem-vindos e agradeço muito o convite para estar aqui.

Muito obrigado.

Muito especial. Muito obrigada.