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Hoje trago-lhe teatro e com um tema que não é fácil: a violência sobre as mulheres. Vou conversar com Miguel Falcão, professor, investigador e dramaturgo, galardoado há dois anos com o Prêmio Nacional das Artes do Espetáculo Maria João Fontainhas pela peça "As Ressuscitadas". Uma peça dura, cuja estreia absoluta acontece esta quinta-feira, dia 28, na Casa do Teatro de Sintra, centrada no encontro entre duas mulheres vítimas de vários tipos de violência, abuso e opressão masculina. Curiosamente, a interpretação está a cargo dos seus três encenadores: Susana Seixas Parr, Paula Pedral e Nuno Correia Pinto. É a primeira vez que os três diretores artísticos do Chão de Oliva trabalham simultaneamente na criação e interpretação da Companhia de Teatro de Sintra. Olá, Miguel, e bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, João Paulo, muito obrigado pelo convite. É um prazer estar aqui na Rádio Observador.

O prazer é todo meu, Miguel. Ainda agora tinha perguntado, vens do Conselho de Vila Franca do Xira, moras em Alhandra. No próximo verão celebras as bodas de prata? É uma festa, vai ser festa.

Bodas de prata do casamento, não é? É verdade.

Com duas filhas e dois filhos.

É verdade.

Muita gente para quem passar a arte, que é muito bom. Há uma coisa que eu gostei, que tu mandaste na tua biografia, que é: "Eu gosto de cozinhar." Tens algum prato que seja assim preferido teu, de fazer?

Gosto muito de cozinhar comida de inspiração tradicional portuguesa.

Ok.

Na minha família sempre se cozinhou muito, houve várias cozinheiras na minha família e penso que isso me influenciou bastante. Gosto muito de cozinhar.

Jantaradas para amigos.

Jantaradas.

Adoras isso.

Para a família. Somos sempre, no mínimo, seis à mesa.

É? Tão bom.

Exatamente.

Mesa farta é tão bom, isso, tão bonito. E há uma coisa que tu dizias: "Gosto muito de falar com os outros e gosto muito de falar sozinho." Falas muito sozinho? Esse estilo travesso do fala só. Vais na rua e falas sozinho ou de vez em quando estás sentado, estás concentrado em casa e pôs-te a falar sozinho, a dizer coisas?

Olha, se me distrair na rua, sou capaz. Mas sobretudo em casa e quando estou sozinho, falo onde estiver, falo muito sozinho. Gosto de pensar em voz alta. Isso ajuda-me a esclarecer o pensamento e a tornar o meu pensamento mais claro, talvez. Aliás, acontece-me o mesmo com a leitura.

Lês alto.

Se puder, leio sempre em voz alta.

Eu vou falar contigo sobre isso, tu tens uma série de coisas sobre isso, o ler em voz alta é muito engraçado e é muito importante ver nas escolas, e não só, mas pronto, faz isso e é muito engraçado. Agora estava a pensar que como dramaturgo, também deve ser engraçado quando estás a escrever uma coisa ou com um tema de uma peça na cabeça, e se calhar também te ajuda a sonoridade das palavras, como é que elas soam ditas.

Sim.

É diferente de estares ao computador a escrever só um texto, não é? E ouvires uma resposta, uma mulher a responder à outra e este tanto de coisas.

Sim, sim.

Se calhar falar alto ajuda.

Falar e ler. Portanto, eu quando estou a escrever, muito regularmente, leio em voz alta aquilo que estou a escrever. Leio, movimento-me pelo espaço, tudo isso faz parte do meu processo de escrita, mas preciso de ouvir, de facto.

Muito bem. Tu viveste até os 31 anos em Alhandra e a terra do cenário destes Sesteiros, claro, obviamente, do Soares Pereira Gomes. Estamos a falar do neorrealismo desta vila operária, das lutas antirregime. A tua própria família é muito politizada, certo?

Exatamente.

Aliás, houve vários presos políticos na tua família, nos quais te inspiraste até para uma ou duas peças que já escreveste.

Sim, é verdade. Alhandra, todo o Conselho de Vila Franca de Xira e Alhandra, em particular, eram localidades, por um lado, com movimento associativo muito forte, cultural, artístico, ao nível amador, e também com células políticas, sobretudo do Partido Comunista, embora não se soubesse, mas com pessoas que de facto eram muito ativas.

Na clandestinidade, ainda por cima.

Ainda durante a clandestinidade, durante o Estado Novo. E vários dos meus familiares tiveram muito envolvidos nessas células políticas, nessa atividade política partidária, muito diretamente. E portanto, alguns deles acabaram por partir para a clandestinidade, primeiramente, homens e uma mulher, vários, mas sobretudo um casal de tios, o meu tio Severiano e minha tia Beatriz, e acabaram por ser presos políticos.

Nos quais te inspiraste, então. Só este ano estrearam, além dessas ressuscitadas, que nós vamos falar hoje, os 23 Segundos e As Sombras. São duas peças que tu escreveste inspiradas, muito levadas à cena, portanto baseadas num fato histórico, que foi uma tentativa de fuga de Peniche, se não me engano.

Exatamente. Trata-se de um díptico. A primeira peça que foi levada à cena pela Comuna este ano é a peça 23 Segundos e inspira-se num episódio real que aconteceu no início dos anos 50. Um desses meus tios participou, ele já estava preso político no Forte de Peniche. E houve um grupo de presos políticos, naquela altura ainda não tinham sido feitas as obras que vieram a tornar aquele forte uma prisão de alta segurança, e portanto os presos ainda estavam em casernas com o chão em madeira, em soalho, e isso permitiu várias vezes um determinado tipo de fuga, que era através da criação de túneis no chão de sobrado. E essa foi a tentativa de fuga que eles tiveram, um grupo de cerca de 12 a 14 homens. O grupo mudou ligeiramente. Houve um ou dois que foram libertados no processo e um ou dois que entraram para a caserna. E portanto, eles tentaram essa fuga durante meses. Fizeram um túnel, é impressionante pensar que fizeram um túnel de 10-

Tentaram, quer dizer, que prepararam.

Eles fizeram o túnel mesmo, construíram o túnel de 10 a 12 metros, que era a distância que distava dessa caserna até à muralha.

Para fora da muralha?

Para fora da muralha. Portanto, já estavam praticamente a poder dar o salto quando estava-se na altura do Natal, um deles tinha sido libertado. Era preciso substituí-lo porque cada um tinha a sua função Uns de vigia, outros eram os chamados mineiros e o meu tio era um desses. Era preciso muito sangue frio para ir no túnel tentar escavar com as colheres e com pouco mais que eles tinham. E fazendo-se valer das suas várias competências, porque havia um mineiro de fato, havia um eletricista, havia um carpinteiro. Fazendo-se valer dessas várias competências.

E o que aconteceu?

Foi preciso escurar terras, essas coisas todas. O túnel quando já ia em 10 ou 12 metros, eles foram descobertos, e a tentativa foi abortada. A peça chama-se "23 Segundos" porque eles perceberam que o guarda mais rápido a chegar à cela, desde que punha a chave no portão de ferro, demorava 23 segundos a chegar à cela.

Tinham mesmo de fazer isso, porque se mandassem esse, tinha que ser esse o tempo, e cortavam exatamente, nem mais um segundo.

Portanto, em 23 segundos, o mineiro que estivesse lá a nove, 10 metros na profundidade, tinha de vir às arrecuas. Os outros que estavam preparados tinham de limpar as terras, pôr no chão do sobrado, fechar com a tampa de madeira, disfarçar, deitarem-se, tudo passar despercebido. E a peça retrata isso. E eles estavam a ser apoiados a partir do exterior por uma mulher. A única pessoa que no exterior sabia era uma mulher, a companheira de um deles, também politicamente afiliada. E a segunda peça que referiste, "Sombras", que foi levada à cena no Teatro da Trindade até há 15 dias atrás, retrata a história dessa mulher.

Com a filha.

Essa mulher que volta pra casa da mãe.

Sem dar spoiler, há uma questão com uma criança, tem que largar uma filha.

É uma jovem mulher que nasce e cresce, é educada no seio de uma família absolutamente tradicional, mas isto é ficcionado. Enquanto que a primeira é inspirada num episódio real, eu não conhecia a história desta mulher, não a investiguei, portanto é totalmente ficcionada. Interessava-me olhar para o regime e para a oposição ao regime, mas a partir de um olhar feminino, a partir de duas mulheres, que neste caso são mãe e filha. Então ela é uma jovem, educada numa família tradicional, muito ligada ao regime e muito católica. O pai já falecido, portanto a mãe viúva, ela regressa pra casa da mãe quando já tem uma criança. E ela julga que a mãe não sabe do que se tem passado com ela. Ela foi mandando cartas à mãe, tentando dizer que estava no estrangeiro com o marido, trabalhando, etc. Mas na realidade andou na clandestinidade e o marido acabou por ser preso. E é nesse período, quando ela já tem uma filha bebê, que ela vai pra casa da mãe, no sentido de passar mais despercebida e ao mesmo tempo ter apoio familiar para poder continuar a apoiar o marido.

Ao mesmo tempo, há ali uns choques com a mãe, obviamente, com os valores diferentes de uma e de outra.

Exatamente. É isso que a peça vai retratar. E no fundo, a mãe vai acabar por, de certa maneira, denunciá-la e ela ser presa.

Tu tens mesmo jeito para contar histórias, porque tu, Miguel, depois as pessoas ficam com vontade de ver estas coisas. Estamos a falar destes 23 segundos, como tu disseste, na Comuna Teatro de Pesquisa, menção honrosa do João Mota, que aliás foi teu professor.

Exatamente, meu professor e é um grande amigo.

E que acompanha estes cinco presos políticos durante a fuga no Estado Novo, e o tal membro de um partido, o mineiro, cá está, aqui seria o teu tio. Um preso por ter lido poesia, isto é incrível. Outro por ter ouvido uma estação de rádio proibida, podia ser esta se fosse outros tempos. E outro que depois de enviuvar, fez parte de uma greve. Eu lembro-me que tu falas da descrição disto, onde havia uns cartazes a dizer: "Temos fome" e coisas assim, umas coisas chocantes. Há dois guardas e uma narradora, a neta de um dos presos, que vai recordando o que ouviu o avô contar sobre o tempo da prisão no início dos anos 50, que no fundo essas três pessoas completam este elenco. E é uma ideia muito interessante que tu tiveste aqui, porque a história é contada por sucessivos flashbacks, é muito giro. A narradora vai se lembrando das coisas e as coisas depois acontecem na cena ao lado. É extraordinário, acho uma ideia extraordinária. De fato, não é só a história, que é muito importante, com mais valor quanto a mim, porque foi vivida pela tua família, mas a maneira de contar é muito importante. E tu aí és um dramaturgo de mão cheia, porque de fato, tens uma maneira de contar muito curiosa estas coisas. Exploraste um bocadinho depois a luta das mulheres, os sofrimentos dos familiares dos presos políticos, e aí se calhar estamos a falar já nas sombras. Teve na sala estúdio do Trindade, menção honrosa da Ana Nave, que acabou há pouco tempo, em novembro já. E esta mulher com o filho recém-nascido. Como autor, Miguel, como dramaturgo, o que é que sentes quando vês uma peça tua? E este ano foram três. Fartura. Não há duas sem três. O que é que sentes quando vês uma peça tua levada à cena? Qual é a sensação? É assim um filho teu que está a brilhar lá fora, numa profissão qualquer, por exemplo?

Olha, usaste mesmo o termo que eu tenho usado, que é fartura. É uma fartura que não sei se volta a repetir, três peças levadas à cena no mesmo ano, por três companhias profissionais que eu muito admiro e com encenadores que eu muito admiro e que acompanho há muitos anos. E nada foi previsto, nada foi planeado, aconteceu. Eu fico muito contente por elas serem levadas à cena este ano em particular, em que se comemora o cinquentenário do 25 de Abril. Essas duas peças, quando as escrevi há três ou quatro anos, as outras, "Sombras" e "23 Segundos", eu tinha esse desejo de que elas fossem representadas no 25 de Abril.

Tu escreveste quando?

Há três, quatro anos, essas peças foram escritas há três, quatro anos.

Está bem.

E eu pensei: "Isto devia ser representado no ano dos 50 anos do 25 de Abril", que era uma grande homenagem, por um lado, aos meus familiares, aos que estiveram presos, mas também aos que não estiveram e ficaram na retaguarda, que isso também é muito importante.

Geralmente são os esquecidos.

São muito esquecidos e a peça também quer lembrar esses. Quer lembrar que os que partiam pra clandestinidade e muitas vezes eram presos, tinham na retaguarda os pais, os avós, os irmãos, os tios, que depois ficavam a cuidar dos filhos, dos netos, que ficavam muitas vezes a substituir os cabeças de casal até no sustento da família, isso é muito importante. E esta peça "Ressuscitadas" também vem nessa linha, vem na linha de um conjunto de peças, que se insere até num ciclo de peças sobre a resistência lá no Chão de Oliva, e é uma peça também interessante sobre essa temática. Respondendo à tua pergunta Impressionado. É uma sensação extraordinária.

Deve ser gratificante.

Que é, ao mesmo tempo, ver as minhas palavras postas em cena, porque elas estão lá, mas ver que outros criadores conseguem olhar para aquele texto e pensá-lo cenicamente de outra forma. Já me tem acontecido, e em geral está a acontecer-me, conseguir um certo distanciamento, a ponto de, por vezes, perguntar-me: "Mas eu é que escrevi aquilo?" Por um lado, e por outro lado, inusitadamente, emocionar-me com aquilo que eu próprio escrevi, o que não sabia que me ia acontecer e de facto me tem acontecido.

Dás ideias, assistes aos ensaios, interferes ou não?

Não, porque não me têm chamado. Por acaso, no caso das "Ressuscitadas", na Companhia de Teatro de Sintra, participei em alguns ensaios de leitura, inicialmente, discussão do texto, mas eu penso que os criadores do espetáculo têm de ter total liberdade. E eu, mesmo que me convidassem para participar nos ensaios e na montagem do espetáculo, a não ser que se tratasse da criação de um texto durante o processo. Aí seria diferente. Mas havendo já, à partida, um texto feito, eu não quereria. Eu quero que os criadores do espetáculo sintam a liberdade total para mobilizarem o texto, como mobilizam outro elemento qualquer do espetáculo, da luz aos figurinos, à cenografia, etc.

Muito bem. Os teus pais e os teus tios estão muito ligados também ao movimento associativo. Os teus tios, inclusive, a tocar numa banda filarmónica. Tu também cantavas, aos sete, oito anos estavas num coro infantil, depois chegaste a ter espetáculos onde cantavas a solo.

Sim.

E tens uma pena de não ter sido cantor lírico. Tu cantas no duche, é o que isso quer dizer?

Só canto no duche. Mais ninguém me quer ouvir.

Tens um gosto muito eclético e tens alma de fadista, como já uma vez te disseram isso?

Não, eu é que sinto isso. Eu digo isso muitas vezes, as pessoas riem-se, mas é verdade. E desde miúdo. Eu oiço fado, não é qualquer fadista. Gosto especialmente de vozes femininas. Enquanto jovem, eu dizia que só gostava de ouvir, em vozes masculinas, o Carlos do Carmo. Hoje gosto de ouvir outros fadistas, o Camané, outros.

Já é geração mais recente.

Sim, o Moutinho, o Ricardo Ribeiro, etc. Há uma série de fadistas que eu também gosto, mas sobretudo vozes femininas. E sempre gostei. Desde a Argentina Santos, da Maria da Nazaré, a Beatriz da Conceição, aquelas mais antigas, mas também das recentes. Gosto muito de ouvir a Raquel Tavares, gosto muito de ouvir a Carminho. Enfim, e outras.

Incrível, tens bom gosto. O apelo do teatro vem de quando? Tu aos 11 anos já estavas neste grupo de teatro, os Teiros, tu viste, persegue-te, é a tua vida toda.

É mesmo.

Fizeram esta peça de homenagem ao Soeiro Pereira Gomes, obviamente. Aos 11 anos precisaram de uma criança e entraste no casting, foste o escolhido.

Eu já andava a cantar e era conhecido lá no concelho, fazia muitos espetáculos a cantar em vários coros. E quando o grupo de teatro Teiros precisou de um miúdo para fazer o Gaitinhas, que era uma das personagens do romance. Em 1981, esse grupo de teatro Teiros, que aliás este ano comemora 50 anos de atividade ininterrupta, foi convidado pela Câmara Municipal para levar à cena uma adaptação do romance, porque em 1981 se comemorariam os 40 anos da publicação do romance, desse escritor que era da terra. Não era da terra, mas viveu muitos anos na terra. E então precisaram do miúdo e chamaram-me. E eu ia para fazer esse espetáculo, que depois percorreu todo o concelho e até fez muitas apresentações fora do concelho, e fiquei agarrado pelo teatro e nunca mais saí. Estive nesse grupo durante 20 anos. E foram 20 anos muito especiais, porque isto foi em 1980, atravessou toda a década de 80 e toda a década de 90. E estas décadas foram décadas muito importantes e sobretudo aí na década de 80. Eu cresci, estava na puberdade, a iniciar a adolescência. Passei toda a adolescência, início da idade adulta, a primeira década da idade adulta, a fazer teatro. Fazia muito teatro, muitos espetáculos.

Chegaram a ir à França e tudo?

Chegámos a ir ao estrangeiro também. Andávamos por todo o país, ganhámos muitos prémios, muitos festivais. Eu próprio cheguei a ganhar uns prémios. Mas isto para dizer que nós fizemos muita formação também. Era um grupo com características muito especiais, porque muitos dos seus fundadores eram pessoas de facto ligadas ao teatro ainda de antes do 25 de Abril. Acompanharam muito a criação do teatro independente, viam muitos espetáculos, tinham importantes bibliotecas de teatro e portanto tinham também um gosto muito grande por ensinar os mais novos. E ao mesmo tempo tinham uma ligação muito grande a companhias profissionais de teatro. Eu próprio comecei a fazer muita formação, enquanto formando, em várias companhias. E era assim que naquele tempo, tirando alguns que iam para o conservatório.

O Almeida Garrett, o Futuro Mal Aposta.

Exatamente. Eu andei por esses sítios como formando, era jovem.

Igualmente, o Maria João Luís, o Albano Jerónimo, há vários nomes.

Eles começaram lá no grupo. Era assim que começavam os atores profissionais. E esse grupo, houve um momento em que se equacionou, foi uma discussão interna muito grande sobre se ele se deveria profissionalizar, porque tinha todas as condições: técnicas, de espaço, de repertório, de experiência, de formação. Por lá passaram muitos atores profissionais, já depois de serem profissionais e voltavam ao grupo para representar.

Então houve essa dúvida: "Vão ficar profissionais ou não?" E o que é que decidiram?

Ficar amador. A maior parte dos elementos sempre quis ficar amador.

Para virar aquela chama. Eu percebo isso, ao mesmo tempo.

E muitos tinham outras profissões que não queriam deixar de exercer e viram sempre o teatro como uma atividade que teria paralela. Exatamente, como amador. Embora se fizesse sempre um teatro muito a sério, de muita exigência.

Era um teatro muito exigente e questionador.

Exatamente.

O vosso teatro, a vossa companhia pautava por isso, é incrível. Tu, pelo menos, nunca pensaste seguir o teatro profissionalmente como ator, mas acabaste depois por seguir o apelo da escrita e então como dramaturgo, como formador, como investigador, no fundo, é o que tu tens sido e continuas a ser. Miguel Falcão, nós temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.

Até já.

Estamos a conversar com Miguel Falcão, ele é um dramaturgo galardoado com o Prêmio Nacional de Arte do Espetáculo Maria João Fontainhas em 2022, pela peça "As Ressuscitadas", que estreia esta quinta, dia 28, na Casa de Teatro de Sintra, centrada no encontro entre duas mulheres vítimas de vários tipos de violência, de abuso e de opressão masculina. Já vamos a esta peça, ainda quero falar um pouquinho sobre a tua inspiração, sobre este teu apelo pela escrita, porque um dia pôs-se este apelo da escrita. Tu não nasceste a escrever teatro. Quando é que te apareceu este, se calhar, também pelo repertório que tu tinhas no grupo, nos Esteios, contactaste com muita literatura de teatro e por isso isso te levou a andar sempre com livro de peças atrás. E aqui entra a homenagem, vais fazer homenagem ao Augusto Boal, faz favor. Porque tem a ver com isso, não tem? Com este teu apelo, com esta descoberta.

Olha, foi uma experiência mesmo na minha vida que talvez eu não estivesse a contar com ela, que foi de repente entrar pra um grupo de teatro e começar a contactar com muitos textos e com muitos espetáculos. Eu com a minha família ia ver revistas à portuguesa, a Lisboa ou alguma alta comédia. E de repente, com estes colegas deste grupo, eu criança, jovenzinho, e eles adultos e muito habituados a serem espectadores de teatro, comecei a ver espetáculos do chamado teatro independente desde muito cedo, a partir do início dos anos 80. Portanto, eu tenho memórias muito fortes de espetáculos da Comuna, da Cornucópia, do Teatro da Graça, do Teatro Aberto, ainda Grupo 4 nessa altura.

Era a peça de Espanha, mas do outro lado.

Exatamente, o Teatro Experimental de Cascais, tantas companhias que eu acompanhei. O grupo Teatro de Campo Lido, que era um grupo muito amigo do grupo Esteios e que depois se profissionalizou e se tornou a Companhia de Teatro de Almada, que era também um grupo, aliás, com quem nós fazíamos formação. Eu não diretamente, já foi um pouco antes da minha entrada. Portanto, todas essas experiências foram muito marcantes no meu percurso. E comecei desde muito miúdo a ler peças que se calhar não se esperava que um miúdo aos 12, 13 anos começasse a ler. Os existencialistas, mesmo algum teatro português que talvez fosse menos conhecido, do Luís Francisco Rebelo, do Bernardo Santareno, etc. Eu comecei a andar com essas peças e a ler esses textos e a ver esses textos em cena e tudo isso me começou a marcar. Poderei, eventualmente, na adolescência, ter pensado em ser ator, mas nunca pensei, de facto, nisso. Escrever, talvez menos ainda. Nessa altura não pensava, eu estava muito entusiasmado em ler, etc, mas nessa altura não pensava. Foi mais tarde, mas no grupo Esteios, que tive uma ou duas primeiras experiências, que aliás, foram levadas à cena, mas espetáculos mais de café teatro, de performance, etc. E depois nunca mais pensei nisso.

E depois por aí foste, experimentaste, começaste a pegar no gosto.

Mas tu falaste do Boal e eu gostava de dizer isso, porque a certa altura, quando eu já tinha 16, 17 anos, toda gente pensou que eu ia seguir teatro, porque eu estava muito lançado no teatro e tinha feito já muita formação e fazia muitos espetáculos. E portanto, os meus amigos, a minha família, toda gente pensava que eu ia querer ir pro conservatório. Acontece que exatamente por causa do Boal, falaste do Boal.

Ficou sempre marcado pra ti.

Foi. Tinham-me proposto leitura de um ou dois livros do Boal, nomeadamente o Teatro do Oprimido. E eu gostei muito daquilo, achei aquilo muito interessante e comentei lá com os meus colegas e eles iam me levando uns livros de vez em quando. O próprio grupo de teatro também tinha uma pequena biblioteca e de vez em quando eu próprio ia lá buscar. E, por exemplo, um destes livros do Boal fazia parte dessa biblioteca. E então uma colega minha, eu lembro perfeitamente dela me dizer: "Olha, se tu gostas tanto do Teatro do Oprimido do Boal, também tens que ler o Paulo Freire, tens que ler a Pedagogia do Oprimido", porque foi inspirado, no fundo, a base ideológica, digamos assim, está ali na obra do Paulo Freire.

E foi uma epifania.

Foi uma epifania. Eu fui ler o Paulo Freire, eu era um miúdo, eu tinha 16, 17 anos. E aquilo foi uma epifania, de tal maneira que eu pensei: "Não, eu quero ser professor primário." Fiquei apanhado por aquilo. Portanto, eu aos 16, 17 anos decidi que queria ser professor primário e quando cheguei aos 18, apesar de ter tido vários desafios para fazer formação, até do Mário Barradas, quando estive em Évora, estive lá um verão inteiro a fazer formação. Ele dizia: "Tens que vir pra cá fazer o nosso curso de teatro", que era um curso médio de dois anos, e eu disse: "Não, eu quero ser professor primário."

Engraçado esta tua coisa do professor primário. Acabaste por não ser professor primário por uma questão pragmática, como tu dizes. Mas de facto, fizeste este bacharel, entretanto o curso do ministério primário passou pra ensino superior, apanhaste toda essa transição.

Exato.

Acabaste por licenciar-te depois em ensino de português e francês. E onde fizeste Erasmus, deve ter sido dos primeiros Erasmus que houve, foste fazer em França, na François Rabelais, na Universidade, em Tours.

Exato.

Depois especializaste em teatro e educação, doutoraste em estudos de teatro, isto já mais recentemente, com esta tese sobre o espelho de ver por dentro, o percurso teatral de Alves Redol, uma coisa que depois a Imprensa Nacional publicou. Com esta bolsa que tu conseguiste dedicar-te a este doutoramento, foste o primeiro, aliás, o primeiríssimo. Houve um colega que foi uma semana antes.

Fui dos primeiros.

Pronto, exatamente. Tudo sobre o neorrealismo, também era a área que tu gostavas. E começaste na docência, de facto, além de teres sido professor de português e francês, dar formação de teatro era uma coisa que tu fazias muito e com muito gosto, vê-se. Há uma coisa curiosa, que fizeste uma comissão de serviço na Câmara Municipal de Lisboa para criar esta coisa das oficinas de teatro, que é muito importante. Essa tua dedicação e também a parte da educação artística, tens um livro sobre isso, com a Teresa Leite e com a Teresa Pereira, o ensino do teatro nas escolas, a questão do ler alto, cá está, falámos isto há bocadinho, o clube de leitura em voz alta de Alcochete, por exemplo, que eu não sabia que existia, acho extraordinário. Isto é muito importante e tu dedicaste desde miúdo do primeiro ciclo, que tinhas estudado, mas também pra infância. Estudaste isto. É importante, de facto, incutir o teatro já em criancinhas pequenas? Desde muito cedo?

Eu penso que o contato das crianças com a arte, em geral, é muito importante, porque a arte e o teatro ajudam a olhar para o mundo e para os outros de forma diferente, de uma forma talvez mais crítica, mais criativa, com outro olhar. Portanto, essa experiência da arte vivida desde muito cedo, desde criança, torna também essa leitura do mundo mais abrangente.

E é formadora para o caráter.

Muito formadora, mais abrangente, com mais capacidade de aceitar a diferença, de aceitar a diversidade de que o mundo é feito. E o teatro também traz isso, a arte em geral traz, e o teatro traz, porque o teatro inquieta, o teatro interpela.

Ia perguntar isso. Entre todas as artes, por que o teatro é tão especial pra ti?

A mim aconteceu. Eu sou muito sensível a outras artes também e não acho que o teatro seja mais do que as outras artes. A mim aconteceu-me e fiquei agarrado por ele, como te disse. Mas eu penso que o teatro, porque é multidisciplinar e porque convoca todas as outras artes, é possível, de algum modo, captar a atenção e o gosto dos espectadores, seja pelo lado da palavra, seja pelo lado do movimento, seja pelo lado da imagem, tudo está convocado no teatro. E quando nós dizemos o teatro, talvez fosse mais justo dizermos os teatros, porque não há um teatro, há muitos teatros. E há teatros mais próximos de um sentido mais literal de diversão, de entretenimento, que também têm o seu lugar. E há talvez um teatro mais próximo de uma vontade de inquietar, de interpelar, de levar o espectador a questionar-se sobre o seu lugar no mundo e esse também tem o seu lugar. Eu penso que é, sobretudo, deste que eu estou mais próximo.

"As Ressuscitadas", eu tenho aqui três ou quatro assuntos para perguntar ainda, mas vai acabar o nosso tempo, que é bom falar contigo. E não falamos da peça que temos que falar. Portanto, "As Ressuscitadas", estamos aqui então, Casa Teatro de Sintra, já nesta quinta, dia 28, até dia 8 de dezembro, vai estar em cena, às quintas, sextas e sábados, às 21h30, depois domingos às 16h. O elenco são os três encenadores, que também são os intérpretes, a Susana Gaspar, a Paula Pedregal, o Nuno Correia Pinto. É muito curioso. Já os três passaram por aqui também, pronto, tu estás. O Nuno Correia Pinto veio dos dias, aliás, por causa do Festival das Periferias. A Paula Pedregal veio em abril do ano passado com o Hugo Sequeira, por causa daquele texto da Cruzada das Crianças, um texto do Afonso Cruz. E a Susana Gaspar, que veio já no verão passado, em julho, por causa das Troianas, que trouxeram cá. E esta peça então tem a ver com o encontro dessas duas mulheres, que são vítimas de vários tipos de violência. É muito curioso este ser ganho prêmio, merecidíssimo, o Prêmio Maria João Fontinhas, prêmio que já existe há 16 anos e que a Câmara de Sintra atribui em homenagem a esta atriz e encenadora, que se dedicou ao teatro no Conselho de Sintra também. E este texto, por que ainda quiseste pegar concretamente neste texto sobre abuso e a violência feminina, que infelizmente ainda é um texto tão tabu? O que te moveu a escrever sobre isto?

Olha, eu lembro-me de quando escrevi este texto, também talvez há uns três anos, de ter ficado especialmente chocado. Todos os anos e com muita frequência, nós ouvimos através das notícias estes números, mas naquele momento, não sei, fui particularmente sensível a um número chocante de mortes de mulheres num só ano no nosso país. E de repente começaram a surgir-me imagens, que aliás, isso acontece muito quando estou num processo de escrita de uma peça ou antes de iniciar muito tempo a trabalhá-la na minha cabeça. E há imagens que se apoderam de mim, que se tornam tão fortes, que se me impõem. E neste caso, era a imagem de uma sepultura. Isto perturbou-me imenso, esta ideia que ao mesmo tempo eu associava àquela ideia que também não me largava, da violência sobre as mulheres, da morte de mulheres por violência doméstica e, ao mesmo tempo, este número elevadíssimo de mortes. Então foi a partir daí que comecei.

Já explica muita coisa nesta peça.

Pois, e portanto é lugar ao mesmo tempo de fuga, de esconderijo. Mas ao mesmo tempo é lugar na terra e nas raízes, onde aquelas mulheres também conseguem transformar-se e renascer, ressuscitar, de certa maneira.

Há uma coisa que eu gosto, Miguel, vou dizer já, e achei muito inteligente, a sabedoria de não teres caído no grafismo fácil da violência física. Muito bonito como isso é mostrado e como isso é dado, e com estes flashs e essas coisas, é muito curioso. Toda aquela atmosfera, a encenação, aquele tom muito sombrio, aquele escuro. A música tem um papel importantíssimo também, a música que escolheram para esta encenação. E este buraco, claro, que faz parte desta peça, está muito bem conseguido e mostrado, como é aqui uma sepultura que é usada para esconder destes abusos. Isso está muito bem mostrado, porque podias mostrar de 50 maneiras e escolheste uma maneira muito inteligente de o mostrar.

Eu penso que às vezes tem mais impacto, mais força, o que não é mostrado explicitamente do que o que fica implícito. Em todo caso, as opções, também é preciso dizê-lo, João Paulo, que aquilo a que assististe no ensaio são sobretudo opções dos encenadores, da equipa técnica. Os encenadores são também os atores, como acabaste de referir.

E são os três encenadores aqui? Os três deram inputs.

São coencenadores e são os três intérpretes.

É a primeira vez que isso acontece, é muito engraçado.

É a primeira vez que eles estão juntos como intérpretes, mas tem também a encenação da Susana Arrais. Como estão os três em cena, convidaram a Susana Arrais, a atriz encenadora, para ver de fora e fazer a direção de atores. Tem uma cenografia e figurinos que eu acho extraordinários do Luís Santos, tem também a sonoplastia do Pedro Branco, com música dele, e o desenho de luz do Rui Seabra. Eu penso que o desenho de luz também é muito importante para dar outra dimensão à própria cenografia.

E de facto essas opções foram muito bem escolhidas e passa essa imagem. Ao mesmo tempo, como eu te explico, o texto não é muito pesado, tu consegues fazer isso. Pões as pessoas a pensar, Miguel, e é um problema grave, é um problema sério, é um problema atual. Vi uma vez umas estatísticas que diziam que há muito mais assassínios no Brasil, por exemplo, mas comparativamente, nós temos mais violência doméstica do que no Brasil, em Portugal, o que é uma coisa completamente estranha e assustadora.

E é assustador.

Uma psicóloga forense contou-me isso uma vez aqui numa entrevista.

Por curiosidade, nós hoje estamos a gravar esta conversa, é dia 25 de novembro, e é o Dia Internacional Para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Não podia ser mais oportuno. Eu ouvi nas notícias hoje um representante da APAV que dizia que a cada 10 minutos morre uma mulher em todo o mundo vítima de violência doméstica.

É impressionante.

E em Portugal, até setembro passado, portanto, em três quartos do ano, ainda faltavam três meses pro final, já tinham morrido 15 mulheres assassinadas pelos maridos ou pelos companheiros.

Uma, duas, três que fosse já era um escândalo.

Já era um escândalo. E portanto, isto continua a existir, e é chocante.

Não é uma coisa medieval em que a pessoa pensa: "Isto é aquilo da Inquisição". Não, não tem nada a ver. São fatos dos nossos dias e isto ainda é muito escondido, Miguel. É bom que isso seja falado, que seja visto e que seja comentado. As pessoas vão ver, comentam e conversam sobre isto, porque ainda há muita coisa desta escondida.

Exatamente.

Transversal, todas as classes, todas as idades.

Exatamente, transversal a todas as classes, a todas as idades. E como o assunto é tão absurdo, eu achei que só com uma estética próxima do teatro do absurdo, como naquela designação de Martin Esslin, só mesmo nessa estética é que talvez eu conseguisse trabalhar o tema, porque de facto tinha de ser trabalhada muito próxima do tragicômico, do nonsense. E eu penso que o texto e o espetáculo têm isso. O espectador anda a saltar entre momentos que são trágicos, pelo que está a ser mostrado ou sobretudo pelo que está implícito e pelo que está a ser dito. E ao mesmo tempo, momentos que suscitam o sorriso, que têm algum sentido de humor e que também afasta o espectador de uma ligação muito emocional ao assunto, que é tão sério.

Eu gosto disso e eu achei isso muito inteligente, porque não caíste nas soluções fáceis, poderiam pensar em soluções fáceis para aquilo. As pessoas não saem de lá deprimidas, é isso que eu quero dizer, mas saem de lá preocupadas. Neste sentido, de facto, isto existe, isto acontece. O diálogo está muito bem conseguido, muito bem construído entre elas duas, belíssimas atrizes.

Belíssimas.

A Paula e a Susana. E de facto, faz pensar. E é isso que pra mim é um bocadinho a ideia do que deve ser o teatro. Nessas alturas, há teatros pra tudo e pra todos os gostos e todos os públicos, mas este teatro tem uma função muito específica e tu consegues levar isto a muito bom porto. Isso é muito importante, Miguel. O texto, ao longo do tempo, tu vais acertando pormenores quando vês a primeira encenação? Há pormenores que tu vais acertando?

Não.

Ou quando entregas o texto é tudo?

Quando entrego está fechado. Não quer dizer que não possa eventualmente vir a alterar o texto futuramente. Por exemplo, o texto, esse tal do 23 segundos da Comuna, teve uma versão anterior antes do texto ser entregue à Comuna, mas eles não chegaram a ter conhecimento dessa versão anterior.

Agora vou te fazer duas perguntas que estão fora.

Olha, deixa-me só dizer, João Paulo, desculpe, é porque nós falámos das atrizes que são belíssimas, mas também não gostava, no plano da interpretação, de deixar de dar uma palavra sobre o Nuno Correia Pinto, porque ele tem um papel bastante ingrato nesta peça.

Pois tem.

Só aparece.

É o homem.

É o homem, é o agressor. Ele só aparece muito pontualmente.

Exatamente.

E é um papel que não é simples Quer pela sua natureza, não é simples de representar, quer pelo fato também de ter de dar tudo, que é muito naquele perfil de personagem, em tão pouco tempo. E penso que também é uma interpretação que deve ser reconhecida, porque de fato também é bastante ingrata.

Vou agora saltar para outro assunto, estamos quase a terminar, mas tu tens um livro sobre o Arquimedes da Silva Santos, "Um homem fora do seu tempo". Quem foi Arquimedes da Silva Santos? Como é que tu definirias em três frases?

Olha, o Arquimedes da Silva Santos foi uma personagem extraordinária, é uma figura do neorrealismo português, foi poeta, foi neuropediatra, é um dos primeiros neuropediatras do Colégio Português da Medicina.

Sim.

E foi uma figura muito importante.

Mas que escreveu peças?

Ele não escreveu peças, ele é poeta. Comemorou-se em 2021 o centenário do seu nascimento. Foi um homem muito ligado ao teatro durante o Estado Novo, como promotor, como ator e como grande dinamizador, quer no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, quer também no Grupo Cénico do Ateneu de Coimbra. Aliás, ele criou um grupo amador, à semelhança um pouco da barraca do Lorca, e aí fez itinerâncias com um teatro de feição social, que era muito contra aquilo que se fazia no âmbito do regime.

Há uma última história que eu quero que tu fales como docente, que também foste em outras escolas, não só cá na Escola de Teatro, onde aliás és responsável por um mestrado em Educação Artística, um pós-graduação em Animação de Histórias, pós-graduação em Marionetas e Formas Animadas, também o Nuno falou muito das marionetes quando cá esteve. Tu foste docente, por exemplo, na Escola Superior de Dança e foste docente na Universidade Cátia Vale Boila, estamos a falar aqui em Benguela, em Angola, onde leccionaste o primeiro mestrado em Educação Pré-Escolar daquele país. Mas aí viveste uma experiência extraordinária. E com esta história eu queria que acabasses.

Olha, uma experiência extraordinária e que me marcou imenso do ponto de vista humano. Eu fui lecionar, foi em 2013, no polo do Sumbe, da Universidade Cátia Vale Boila, de Benguela, mas no Sumbe, uma cidade muito destruída ainda nessa altura pela guerra civil. E quando os estudantes universitários souberam que ia lá estar um professor de teatro que ia de Portugal, pediram à reitora para interceder no sentido de eu lhes dar umas aulas. Ou seja, eu durante o dia dava aulas no mestrado, duas turmas, todo o dia das 9h até às 18h, e depois à noite, aceitei esse desafio de ir trabalhar com o grupo de teatro universitário dessa universidade.

Eles faziam teatro e nunca tinham visto um espetáculo de teatro ao vivo.

Exatamente. Eles faziam teatro, nunca tinham visto um espetáculo de teatro ao vivo e queriam formação.

Ia-lo buscar de mota, lá ias tu com o teu colega.

Eu e uma colega minha, a minha amiga Catarina Tomás, íamos juntos, ela como porta fotográfica, nas motas, por aqueles buracos durante uns quilómetros naquela das estradas. Eu ia fazer a formação e ela fotografava.

Porque é que ainda não fizeste um livro sobre isto?

Olha, era muito bonito, tenho imagens lindas.

Tens as histórias ótimas e tens as imagens fabulosas. Miguel, nós queremos ver esse livro, deve ser muito interessante.

Vou pensar nisso. Eu e a minha amiga Catarina Tomás vamos fazer esse livro.

Acho que valia muito a pena. Muito bem, Miguel, nós não temos mais tempo. Quero agradecer muito a tua disponibilidade aqui em vir à Rádio Observador. A si que nos ouve, eu deixo então este convite feito por este convidado tão talentoso. A peça "As Ressuscitadas" é um premiado texto do Miguel Falcão, que está em cena na Casa do Teatro de Sintra, desta quinta dia 28, até domingo, 08 de dezembro. Quinta, sexta e sábado às 21h30 e no domingo repete às 16h. Interpretada pelos seus três encenadores, a Susana Gaspar, a Paula Pedregal, Nuno Correia Pinto. Bem-hajas, Miguel, e até breve. Muito obrigado por teres vindo.

Muito obrigado, João Paulo. E até breve.