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Depois do ataque de ontem no Centro Ismaelita em Lisboa, protagonizado por um frequentador do próprio espaço e que resultou na morte de duas mulheres, também em ferimentos num professor, contamos hoje no direto ao assunto com Riyaz Issa, do Centro Ismaelita de Lisboa, aqui para uma entrevista com a Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
Bem-vindo à Rádio Observador. Começo por perguntar, falando das declarações do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou o importante trabalho social que é feito pelo Centro Ismaelita em Lisboa, que de resto logo ontem se prontificou a acompanhar os três filhos menores do atacante. Estão para já numa instituição, mas estão também a manter as rotinas de frequentar este centro que já frequentavam. Como é que estão estas crianças? Para começar.
Muito boa tarde, em primeiro lugar, e obrigado pelo convite. São detalhes que eu confesso que, sendo membro da comunidade, mas não estou dentro do projeto e desconheço. Mas o que eu posso pelo menos dizer, porque essa é a característica da comunidade, é que sendo o pai e a família partes da comunidade, ela irá unir-se no sentido de, juntamente com as entidades, procurar aquela que é a melhor solução, aquilo que melhor serve os interesses das crianças, que neste momento, sei por aquilo que acabo de ouvir, estão à guarda, obviamente, do Estado, e penso que irão articular com a comunidade, com a equipa que neste momento perdeu a sua líder, mas que instituições estão presentes e irão procurar uma solução para estas crianças.
O Presidente da República ainda hoje já levantou a possibilidade de o atacante do Centro Ismaili ter agido na sequência de uma possível intervenção da comunidade face à guarda dos filhos menores deste homem. Está a par dessa intenção?
Não, mas neste caso, o que é preciso separar no sentido de dizer, há instituições, havia e há, um programa específico de acolhimento e integração dos refugiados. E é nesse âmbito deste programa, que era liderado pela Farana e acompanhada pela outra vítima, infelizmente. Eram eles que tinham a responsabilidade, os detalhes desta questão eu confesso que não conheço e elas seriam as melhores pessoas para poder dizer. Será no âmbito deste programa e agora, claro, com a presença das outras instituições da comunidade, que irão procurar saber e detalhar todas as questões.
Estas crianças não estavam sinalizadas pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco. Terá havido alguma situação que tenha alertado a comunidade para que estas crianças eventualmente estivessem em perigo?
Olhe, eu repito aquilo que disse, não é querer fugir à questão. Sou membro da comunidade. Estas questões eram questões específicas do programa.
Que não eram partilhadas.
Nós frequentamos e convivemos com todos os membros da comunidade, igualmente com esta família, mas desconhecemos os detalhes destas famílias que foram acolhidas. Esta questão, obviamente, seria e será do conhecimento da equipa. Nós, enquanto membros da comunidade, não sabemos os detalhes.
E em relação ao agressor, ele era frequentador do centro, frequentador regular, e do que tem sido divulgado, não haveria nenhum indício que pudesse antecipar aquilo que aconteceu. Como é que era esta pessoa, qual era o comportamento, em geral, no centro?
Das poucas vezes que me cruzei com o senhor, que fazia parte da comunidade e que frequentava e que inclusive participava nas cerimônias religiosas, nada que indicasse que pudesse ter em algum momento um desfecho desta natureza. Absolutamente. Se caso, no mínimo, houvesse algum sinal de que havia este perigo, teriam sido...
Não tinha havido queixas, algum comportamento mais...
Eu estou a falar como membro da comunidade e novamente, eu desconheço os detalhes. Se, de fato, isso tivesse ocorrido. É preciso também considerar o seguinte: são várias as famílias acolhidas e que estas famílias vêm de condições e de situações muito traumáticas. E portanto, por vezes, e agora falo não especificando o caso, porque desconheço. Mas são situações que temos que saber, a equipa teria que saber e lidava com estas situações. São situações, por vezes, de tensão, mas que foram sendo geridas. Neste caso em particular, desconheço se efetivamente já tivesse sido sinalizado, mas acredito, e porque conhecia pessoalmente a Farana, tive o privilégio de trabalhar com ela durante alguns anos e a existir um perigo, ela teria alertado imediatamente. Penso que ninguém, nenhum de nós imaginaria uma situação tão trágica como a que acabou por acontecer.
Mas já agora, pelo que sabemos, este homem estava em Portugal há mais de um ano. Houve algum atraso no processo de naturalização que estava a cargo dessa funcionária ou algum problema?
Lamentavelmente, é mais ou menos a questão que eu não estou a querer fugir, mas eu não conheço os detalhes do processo em si. Portanto, todas as questões específicas relativamente ao processo da pessoa, da integração das crianças, provavelmente não serei a melhor pessoa para responder.
E sobre o que aconteceu ontem, depois do choque inicial, e sei que a comunidade está ainda naturalmente de luto, mas já passaram 24 horas depois do que aconteceu, depois do ataque, das informações que recolheu, imagino que tenha recolhido, e também do que conversou com a comunidade, consegue descrever-nos o que se passou, a sequência dos acontecimentos?
Não, porque não sei. Em detalhe, confesso honestamente, não sei.
Mas do que sabe, o que pode dizer-nos?
Sei que houve este ataque, vou repetir aquilo que ouvi na comunicação social. O homem estava na sala de aulas, supostamente terá havido, não sei que evento ou que momento que terá levado a pessoa a perder a cabeça, atacar o professor e em seguida dirigir-se provavelmente ao local onde estava a Farana e a Mariana. E atacar ambas. Foi o que eu vi.
Há normalmente algum tipo de segurança no centro?
Há.
Uma segurança apertada, há detetores de metais, como é que funciona?
Não. Digamos que o centro é, e tem sido sempre, um centro de refúgio, de paz, de convivência, onde não só a comunidade se reúne, como é um centro de portas abertas para várias outras entidades que aí desenvolvem atividades e eventos. E isto tem acontecido ao longo dos seus 25, vamos celebrar 25 anos da sua existência. E nunca tivemos nenhuma situação, nem no mínimo de violência, muito menos uma situação desta natureza. Logo, desse tipo de segurança, imagino que agora, por aquilo que aconteceu, alguma coisa será introduzida, mas é um local de encontro, de paz e de convivência.
Há uma crítica feita pelo fundador da Associação da Comunidade Afegã, que diz que o Centro Ismaili não se abriu muito à comunidade afegã. Tem essa perceção?
Não.
Das pessoas que são acolhida na comunidade. Há muitos afegãos, não há?
Digamos que a composição da comunidade tem vindo a alterar-se nos últimos pelo menos cinco anos, não só com o acolhimento dos refugiados afegãos, mas temos recebido membros da comunidade da Índia, do Paquistão, do Tajiquistão. São várias as nacionalidades, irmãos e irmãs que vêm de diferentes locais e que têm decidido por estabelecer-se em Portugal.
Portanto, é uma crítica que não faz sentido.
Pelo menos que eu conheça, que me tenha apercebido, não. E desconheço o contexto também.
Portugal é considerado um exemplo positivo no que diz respeito ao diálogo inter-religioso. Receia que este episódio possa ter consequências nefastas para essa relação e também para a perceção que a sociedade portuguesa tem no que toca à comunidade ismaelita?
Não, em primeiro lugar, não, taxativamente. E digo por quê? Porque nós estamos há 50 anos. A sociedade portuguesa conhece-nos muito bem. Tenho lido alguma coisa sobre algum eventualmente aproveitamento político que se possa fazer numa situação tão dramática, mas de todo não existe. Obviamente que em momentos como este, é como digo, há diferentes abordagens, diferentes pensamentos, pessoas que dão a sua opinião. Mas ainda hoje tive o prazer de ler um artigo, e desde já aproveito para agradecer ao senhor Daniel Oliveira, do "Expresso", um artigo curto, mas profundamente humano. E eu penso que aquilo que ele diz espelha muito bem aquilo que é um pouco o sentimento da comunidade. Nós estamos há 50 anos, como lhe digo, vamos continuar a fazer o que sempre fizemos, uma comunidade unida, preocupada com a qualidade de vida dos seus membros, dos membros mais vulneráveis e que participa ativamente na sociedade, em construir uma melhor sociedade com mais qualidade para todos os intervenientes.
E em relação às consequências para as relações entre muçulmanos, entre comunidades muçulmanas em Portugal, poderá isto ter algum efeito negativo, este incidente?
Não, não acredito. Acredito que neste momento, obviamente, dentro da própria comunidade, o que nós vamos ter que fazer, neste momento, o mais importante, e a comunidade está unida em torno da família, porque, de facto, é uma perda irreparável. E vamos ter que encontrar nos princípios éticos e sob a liderança sábia de Sua Alteza, que é o líder da comunidade, encontrar nos princípios éticos da compaixão e do perdão. Com isto não quer dizer que a Justiça não tenha que fazer o seu trabalho, mas são estes os princípios islâmicos que terão de estar na vanguarda, de forma que possamos ultrapassar esta situação e não acredito que isso possa vir a acontecer. É um ato isolado, é preciso que se considere um ato isolado, isto não tem nada de qualquer outro contorno que se possa atribuir. Pelo menos neste momento, é o que eu sinto e que tenho ouvido.
Mas julga que pode haver algum receio agora das pessoas que vão ao centro? Acha que isso pode acontecer?
Olhe, vamos retomar as nossas idas regulares e de cerimônias religiosas, penso que não. Naturalmente que situações destas, no imediato, provocam sempre algum desconforto, mas penso que não.
E até entre os próprios funcionários? Tendo em conta que as vítimas foram funcionários, entre os próprios funcionários há esse sentimento de maior receio?
Eu penso que mais do que receio, existe é um trauma neste momento, uma dor e uma tristeza imensa, mais do que receio.
Pelo que sabemos, há hoje uma cerimónia por volta das 19h30, se não estou em erro, mas corrija-me se for outra hora. Será um culto regular ou é uma homenagem às vítimas?
Não, é um culto regular. Todos os dias nos reunimos às 19h30. As cerimónias fúnebres seguirão os procedimentos normais, religiosos, e irão decorrer, salvo erro, na sexta-feira.
Mas depois desta fase, haverá alguma homenagem? Não sei se isso está a ser pensado.
Interiormente, dentro da comunidade, certamente. Por aquilo que ambas representavam e pelos muitos anos que a Farana dedicou sempre na causa do próximo. Sempre, desde que a conheço.
E já agora, esse trabalho social que fazem traduz-se em várias vertentes: na educação, no ensino do português, também em apoio alimentar, é isso? Pode descrever-nos só rapidamente?
Há a preocupação das necessidades imediatas, porque são refugiados que são acolhidos e, nesse sentido, as necessidades prementes são as de qualquer outra família que chega sem recurso. E, portanto, a parte da habitação, a parte da alimentação, a parte da saúde, toda a parte legal. E depois há aquele aspecto muito importante que é procurar olhar para o futuro. E quando se olha para o futuro, o que é que se pretende? Pretende-se a integração destes membros na sociedade portuguesa, no mercado de trabalho, desde logo, aprendizagem da língua portuguesa, e olhar ainda mais à frente para as crianças. Portanto, a integração nas escolas, o acompanhamento da parte da educação, porque só assim é que se consegue, gradualmente, por um lado, que as famílias tenham autonomia porque estão no mercado de trabalho e que as crianças cresçam nesta sociedade, sejam educadas, consigam ter a sua formação e sejam participantes ativos da sociedade portuguesa. Portanto, é esse o trabalho.
Muito obrigada, Riaz.
Obrigado eu pelo convite, e peço desculpa por não ter conseguido responder a algumas questões que levantaram.
Tínhamos de as fazer e fizemo-las, mas agradeço-lhe imenso, agradecemos a todos aqui na Rádio Observador por ter vindo aos nossos estúdios. Muito obrigada. Estivemos aqui a olhar para este ataque ontem no Centro Ismaelita, em Lisboa.