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Estamos a transmitir a partir da Nova SBE, palco hoje e amanhã das conferências do Estoril. Uma das oradoras deste evento é a Carolina Duarte, atleta paralímpica de atletismo, multimedalhada, detentora de vários recordes e muito speed. A especialidade da Carolina é a velocidade. Carolina, boa tarde.
Boa tarde.
Correu bem a conferência há pouco?
Correu bastante bem. Esqueci-me um bocadinho da entrada, mas consegui dar a volta à situação.
Deu uma branca.
Total.
Como se diz na rádio: antes uma branca que uma bronca.
Antes. Começar branca.
Eu fui ver o teu palmarés e perdi-me nas contas das medalhas. Vamos lá ver. Quantas medalhas já ganhaste até agora?
Olhe, sinceramente, eu não contei. Mas felizmente foram algumas, porque eu treino para isso. Mas foram algumas, sim. Não sei precisar.
E qual foi o resultado que a deixou mais satisfeita? O normal seria dizer quando conquistou a medalha mais importante, mas por vezes para os atletas há resultados que significam mais do que uma medalha.
Sim, e de facto essa medalha e o resultado foi precisamente deste ano, há dois meses, que eu estive presente nos Mundiais de Atletismo, em Paris.
Conquistou a medalha de prata.
Fiquei em prata, mas aquilo foi um ouro, um diamante.
Por quê?
Foi espetacular, porque eu fui mãe há dois anos e foi o primeiro ano de vida da Carlota. Foi o caos total. Se não estava ela doente, estava eu. Depois faltar aos treinos. Enfim, foi muito duro.
Já de si o processo de voltar à atividade física de alta intensidade depois de um processo de gravidez, já por si só, é um grande desafio, não é?
Sim, estive seis meses parada, porque eu só descobri que estava grávida ao fim de três. Portanto, foram só seis meses. Depois tentei logo começar a correr, mas foi muito difícil porque eu não estava num processo constante de assiduidade ao treino e estava sempre a voltar para trás cada vez que voltava. E este ano já consegui não faltar aos treinos e quase não estive doente. No início deste ano, a perspetiva era tentar chegar à final e assim que se começou a aproximar o verão, começámos a perceber que poderia ser um pouco mais ambicioso.
O corpo respondeu mais rápido do que a Carolina esperava.
Exatamente.
Ainda bem.
Fiquei superfeliz.
Carolina, fale-nos um pouco da rotina diária de um atleta de alta competição. Os portugueses são muito exigentes quando há grandes competições, nomeadamente Jogos Olímpicos e Paralímpicos, com os seus atletas, mas muitas vezes não têm ideia do que o atleta tem de fazer no dia a dia para alcançar esses resultados.
Certo. Vou dizer a rotina de um atleta que não é pai nem mãe. Normalmente, os atletas treinam de manhã. Atletismo, estou a falar do meu círculo. Temos que ter atenção ao pequeno-almoço, antes já temos que ter dormido X horas.
Não se pode comer tudo o que se quer, não é?
Sim, nem tudo o que se quer, nem tudo o que apetece. Não podemos ir para as festas com os amigos, para as almoçaradas, jantaradas, ficar até tarde. Existe todo um leque de restrições gigantes e que depois as pessoas também não compreendem. "Anda lá, lá estás tu a cortar." Não me convidam sequer.
Para não ter que dizer que não.
Exato. Eu já quase não sou convidada para nada. Depois, temos que dormir bem.
Dormir bem é quantas horas por noite?
Eu preciso de nove.
Nove horas.
Mas há quem precise de oito, sete. Depois também depende dos atletas, mas dormir bem, sim. E depois temos que ter atenção à alimentação toda: pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar. Não podemos andar a comer chocolates e Coca-Cola. Todas as refeições têm que contemplar os alimentos, a proteína, os hidratos de carbono, a fruta, as fibras. Temos que estar sempre com atenção ao que comemos. E depois do treino, ainda temos que fazer a recuperação.
O treino é de quantas horas?
O meu é três. E eu não faço bi diários. Portanto, treino só uma vez.
À tarde.
De manhã.
De manhã.
E depois do treino, temos ainda que fazer a recuperação, portanto, alongamentos, depois massagem uma a duas vezes por semana, fazer os banhos de gelo depois dos treinos de série. É excessivo.
Quanto tempo é que dura um mergulho de banho gelado?
Eu tenho feito sete minutos mais sete, com intervalo. Mas cinco no mínimo. E depois também temos que ir à fisio.
Já estou com os cabelos em pé.
É duro. É um trabalho de concentração brutal.
E quanto aos apoios, patrocínios, os atletas de todas as modalidades, das ditas modalidades amadoras, queixam-se muito da dificuldade que têm para conseguir patrocínios, como é no caso da Carolina. Tem esses apoios? Ajudam bastante um atleta?
Os apoios que eu tenho vêm do Comitê Paralímpico, porque eu estou no projeto paralímpico, portanto fiz mínimos. É como nos mínimos olímpicos, entra-se no projeto e tem-se dinheiro, um plafond, para se gastar em material desportivo, em estágios e essas coisas todas. E depois ainda recebemos uma bolsa, igual à dos olímpicos, é tudo igual, consoante o nível em que estamos, ou seja, se é medalhado, se é do quarto ao sexto, se é finalista.
No seu caso, é suficiente para viver para o atletismo?
Agora é, porque eu subi de nível Posso dizer quanto eu recebo. Eu estava no nível mais baixo. É o nível em que fazemos mínimos olímpicos, paralímpicos, e são € 800 por mês. Não é suficiente para viver, mas já é bom. Tem que ser um part-time e alto rendimento não é compatível com part-time. E o nível de medalhado, neste momento, é € 1.700.
E apoios privados, de empresas privadas, existem?
Para os atletas paralímpicos é nulo. Em Portugal, não existe um atleta paralímpico com patrocínios compatíveis com os dos atletas olímpicos. Estou a falar de marcas desportivas, bancos, não sei. Marcas que normalmente patrocinam atletas olímpicos, mesmo não sendo medalhados, são atletas que fizeram mínimos olímpicos e que se destacam na sua disciplina.
Por que acha que isso acontece, Carolina?
Existe um pouco de culpa também do movimento paralímpico português, que agora é que se está a desenvolver e a mostrar também que o desporto para pessoas com deficiência não é só coitadinhos e miserabilismo. Existe um lado cool que temos que mostrar aos outros. "Eu vejo mal, mas faço tudo, é na boa." E só com esse mindset diferente é que as empresas também vão começar a querer agregar-se ao movimento paralímpico português, porque já existe noutros países, basta ir à Espanha para ver imensos atletas que têm altos patrocínios. Em Inglaterra. Porque lá é muito fixo ser paralímpica. Os miúdos dizem: "Quem me dera ter uma prótese na perna." Acham incrível aquilo. Só que aqui em Portugal nem sequer temos um atleta com prótese. Então eles não podem achar fixo.
Isso nota-se quando se compara um atleta português paralímpico a um atleta paralímpico de uma seleção que dá dinheiro.
Claro, exato. Nós temos este plafond, estas bolsas mensais, que são espetaculares, eu estou no nível um, nem sequer me queixo. Mas eu sei que para um atleta que está a tentar entrar no projeto, porque não são todos que conseguem fazer mínimos, não há apoios. Cada um tem que conseguir suportar os seus treinos, mas tem que trabalhar também ao mesmo tempo. Aí já se torna um pouco mais complicado.
Carolina, para o ano há Jogos Paralímpicos em Paris. Serão os seus terceiros Jogos.
Certo.
Quais são os seus objetivos para esses-
Não. Peço desculpa, são os segundos, porque eu falhei Tóquio que estava grávida.
Tinha participado no Rio em 2016.
Exatamente, foram os meus primeiros.
Quais são os seus objetivos? E pergunto-lhe se os Jogos Paralímpicos são, de facto, o ponto alto da carreira de qualquer atleta.
São, sem dúvida. A minha carreira no desporto adaptado começou em 2016. Eu fiz um Europeu e dois meses a seguir estava nos Jogos. Aquilo foi um choque gigante. "O que se está a passar aqui?" Porque eram todas as modalidades e foi mesmo brutal. E eu saí de lá, ainda por cima a correr mal. Fiquei triste por não conseguir correr bem, mas fiquei supermotivada para poder futuramente conseguir mostrar: "Eu consigo ganhar ou estar aqui no meio das melhores e quero mesmo continuar a treinar". Falhei Tóquio, estava grávida, não consegui ir lá. E agora estou superansiosa para estes jogos em Paris.
Sobretudo agora depois da medalha de prata nos Mundiais.
Claro, agora estou aqui: "Uhul, vamos lá!" Mas estou muito contente, porque os treinos, de facto, começaram a correr muito bem e agora só tenho que correr ainda melhor.
Quer dizer que já tens entrada direta para os Jogos Olímpicos ou ainda é preciso passar por um processo de qualificação?
Não, eu estou qualificada já, só que os Paralímpicos têm uma questão que não existe nos Olímpicos, quer dizer, existe mais ou menos, que é uma questão de cotas. Só podem ir, por exemplo, 4 mil atletas. E eles distribuem a cota, as vagas, pelos diferentes países, consoante o resultado que vão apresentar. Portanto, atletas, tipo Brasil, que tem muito mais atletas e muito melhores resultados, metem muito mais atletas do que nós. Então nós conseguimos abrir poucas cotas. Só vai o atleta. Nós agora já abrimos quatro cotas, penso eu. Para o atletismo, vão quatro atletas, dois masculinos e dois femininos. E eu fui uma das que abriu cota porque fiquei até ao quarto lugar nos Mundiais. Mas se para o ano eu não tiver a correr nada, não vou eu. Vai outra atleta portuguesa, porque existe uma vaga para alguém.
Portanto, a Carolina conquistou uma vaga para Portugal.
Isso, para as mulheres portuguesas. Claro que espero que seja eu.
Claro que sim. Quando é a próxima corrida?
Já comecei a fazer umas corridas, mas vou ter na pista coberta, que é no inverno, em janeiro, são umas corridas só para o clube, os campeonatos de Portugal, não tem assim nada de muito importante, relevante. Mas eu vou ter os Mundiais em maio, no Japão, e vou ter os Jogos no fim de agosto. São as duas grandes competições.
Carolina, boa sorte.
Boa sorte, Carolina, obrigado.
Muita velocidade nessas corridas.
Vou tentar.
E até à próxima. Obrigado.
Obrigada, boa tarde.