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E aqui continuamos na Nova SBE, onde decorrem as conferências do Estoril. Partimos para a conversa com a Maya Gabeira e João Macedo. A Maya é surfista, detentora do recorde mundial da maior onda surfada por uma mulher, 22,4 metros de altitude, o equivalente à altura de um prédio de nove andares. Já tenho as pernas a tremer, Maya. E faz parte da ONG Oceana, cuja missão é influenciar políticos no sentido de tomarem boas decisões a pensar no futuro dos oceanos. Já vamos ter a oportunidade de falar. Está conosco também João Macedo, que é cofundador do movimento mundial de criação de reservas do surf. Tanto a Maya como o João são oradores aqui nas conferências do Estoril. Boa tarde, Maya e boa tarde, João.
Boa tarde.
Boa tarde.
Maya, eu gostava de começar por si. Quão alto é uma onda com 22 metros?
É alto. A gente desce, nem tem essa percepção, porque a onda, no caso, vai subindo à medida que a gente vai descendo também. Mas aí a gente começa a ter a sensação do medo, vai se ampliando. A gente começa a entender que o negócio está grande mesmo e a velocidade vai ficando tanta, eu acho que o medo realmente começa a entitular o tamanho.
E apesar do medo, o que leva um surfista a enfrentar ondas desta dimensão?
Acho que a paixão pelo esporte. Apaixonada por velocidade, adrenalina, o mar em si, a energia dessas ondas gigantescas. É tudo muito especial, você poder estar em contato com a natureza quando ela está no seu ápice, vamos dizer assim, quando essas ondas tão espetaculares. São um show da natureza, você conseguir ser parte disso e ainda surfar uma onda dessa.
É um show, mas é muito perigoso também.
É muito perigoso. Está classificado como esporte de alto risco.
Portanto, nenhuma seguradora quer nada consigo.
Pelo contrário, acho que vem me apoiar, porque eu estou aqui viva até hoje, devo estar fazendo alguma coisa certa no âmbito de seguro.
Gestão de risco, exatamente. A Maya faz parte da administração da ONG Oceana, que faz lobby em defesa da preservação dos oceanos e contra a proliferação dos plásticos. Que vitórias é que já conseguiram com esta ONG?
Com a Oceana, são mais de 20 anos, que a Oceana existe. Eu sou membro do conselho há três anos. Sou também embaixadora da UNESCO pelos oceanos de juventude. Pela Oceana em si, acabei de sair do Planalto, no Brasil, onde a gente apresentou, já são mais de 300 vitórias no âmbito mundial, mas a gente acabou de apresentar uma nova lei, a PL 2524, no Brasil, para começar a fechar a torneira. O Brasil é um grande produtor de plástico, o terceiro maior do mundo, e a nossa intenção é, com essa PL, criar toda uma economia circular em torno do plástico e eliminar, de uma vez por todas, o plástico de uso único quando evitável. Não o plástico no âmbito hospitalar, que já é impossível, porque é necessário, mas todas as outras possibilidades de se eliminar, que são possíveis ainda na indústria de bebidas, de alimento, de cosmética. A gente está batendo nisso e realmente criar uma perspectiva de uma economia circular, que a gente não produza o quanto a gente produz e sabendo já, claro, tendo a ciência ao nosso lado, sabendo que tudo isso vai parar nos oceanos, isso tudo vai viver muito mais do que nós, seres humanos, e a gente simplesmente usa uma vez e joga fora. A gente já entende que não é um material que deve ser usado no âmbito descartável.
João Macedo, boa tarde.
Boa tarde.
O que é uma reserva do surf?
O movimento das reservas mundiais de surf, em que Ericeira foi a segunda no mundo e é um grande orgulho, para a Europa e para Portugal.
A única em Portugal continental, não é?
A única em Portugal, agora North Devon é a segunda na Europa, perto da zona da Cornualha, no sul da Inglaterra. É um pouco esta forma de nós, da comunidade surfista, se juntar e querer se manifestar nestas conversas. Ou seja, nestas conversas em que se quer influenciar as políticas, em que se quer ser ouvidos. Queremos que haja espaços, como muitos outros grupos, para que o mar esteja mais limpo, para que a zona costeira esteja mais limpa, para que haja esse esforço e essa apreciação por aquilo que também tanto amamos e temos tanta paixão.
O estatuto de reserva materializa-se em quê?
Essa que é a questão. Foi um reconhecimento da comunidade de surf internacional. Ou seja, foi baseado em um modelo da UNESCO, que tem uma componente legal, mas em que se junta lugares de surf únicos, lugares de surf de valor acima da média, o outstanding value.
Se distinguem por serem boas para o surf ou porque são locais, do ponto de vista da biodiversidade, únicos e ricos?
É uma combinação de critérios, ou seja, são ondas consistentes, de qualidade, têm características ambientais também únicas, ou seja, traz a comunidade de surf a também perceber, compreender e comunicar com a comunidade científica sobre o que são estas qualidades, o que faz uma onda perfeita, muitas vezes é batimetria. A Nazaré tem esta coisa fenomenal que é, não só a onda, vem de um fenômeno submarino Vem de um fenómeno de um canhão submarino gigantesco. Às vezes são estas narrativas ambientais que também ajudam. O terceiro critério é cultura local, ou seja, uma cultura ancestral de surf, também é um critério que é muito valorizado. E talvez aquele mais importante em termos disso que eu estava a mencionar, de políticas locais, é o apoio da comunidade local. Ou seja, uma comunidade local vibrante, apaixonada pela sua onda, pela sua região costeira, ou seja, os negócios locais. Há ou não há negócios locais que apoiam, que grupos, que associações, ou seja, todo esse tecido, se realmente apoia a candidatura à reserva, isso é realmente um dos critérios muito fortes nas avaliações às reservas mundiais de surf.
Falávamos aqui do caso da Ericeira, que é a única em Portugal continental com este estatuto de reserva, em que é que isso se traduziu? E já agora também perguntar qual o envolvimento da comunidade, que dizia importante também para o reconhecimento enquanto estatuto de reserva.
Como todos os programas, todas as instituições, estamos aqui no Estoril Conferences e as Nações Unidas, que é um monumento, uma instituição global e é tão criticada, o nosso humilde movimento das Reservas Mundiais de Surf, querendo se tornar uma instituição também, obviamente, é alvo também de crítica e não podia deixar de ser, porque o programa tem a sua evolução, tem realmente pontos fracos. O que são, muitas vezes, os pontos fracos? É que realmente há ameaças à qualidade da reserva. Há certas questões que, como não é uma reserva legal, mesmo dentro de um corpo legal, é um passo no caminho para se tornar uma reserva legal, ou seja, que possa ser uma área marinha protegida, que graças a Deus é um movimento que Mafra está a participar com Sintra e com Cascais. Ou seja, já existe e a reserva é um pequeno catalisador exatamente para esse tipo de movimento. Mas, no caso da Ericeira, da Reserva Mundial, há uma questão da ETAR local, que não tem capacidade, está com uma tecnologia antiga, há 10 anos que ainda é a mesma. Há a questão do excesso de escolas de surf que existe, por isso há um movimento para também limitar novas concessões. E este equilíbrio entre turismo que, ao se tornar massificado, estraga aquilo que atrai tantas pessoas para lá.
Porque este estatuto também impõe obrigações.
Impõe.
Por exemplo, eu estava a falar do caso da UNESCO, os locais considerados Patrimônio da Humanidade também têm obrigações. É esse tipo de obrigações que falava, o cuidado ambiental com essas áreas?
Exatamente. Ou seja, há um perigo de perder o estatuto de Reserva Mundial de Surf. Obviamente, digamos, assim mal comparado, mas é um bocadinho uma bomba atômica, é uma coisa muito radical. E o município de Mafra sempre tem sido um grande líder também na proposta e tem havido muitos avanços e muitas vitórias e é um caminhar. Ou seja, há também um terreno a norte Ribeira de Ilhas, que tem sido alvo de uma grande preocupação, se há um desenvolvimento de casas, um desenvolvimento que ameace a integridade natural daquela zona. E enfim, há todas estas mecânicas que põem em perigo, por um lado, a reserva, mas que, dado o orgulho local da reserva, e quando se fala e se faz os surveys.
Os inquéritos.
Os inquéritos, exatamente, da parte da Surf 骑 as, que é a organização internacional que rege o programa, quer dizer, há um apoio local enorme e há nitidamente um antes e depois no turismo local, em todo o desenvolvimento econômico. E agora, cabe transformar isto, que tem tudo para ser uma coisa boa, para que também não entre em excesso, ou até excesso de confiança, que só seja bom.
Estão a proceder à certificação de outros locais em Portugal continental e nas ilhas?
Há um programa diferente, que se chama o Surf Protected Area Network, que está a ser aplicado nos Açores. Ou seja, a Ericeira é uma área muito mais limitada geograficamente e os Açores têm uma vastidão muito grande. Então a própria organização foi vendo que certos locais não conseguem integrar tão bem dentro do programa. Quer dizer, é um título muito único. Há só uma por ano que é aprovada no mundo inteiro. Há candidaturas do mundo inteiro para este título. E então, acho que é difícil haver mais em Portugal continental, mas nunca se diz nunca.
Nunca se sabe. A Maya está a olhar para si e está a pensar: "Tenho que ir à Ericeira". Gosta de surfar em Portugal, Maya?
Eu já tive uma casa em Ericeira, eu moro em Portugal.
Desculpa.
Hoje me perguntaram ali em cima também: "E aí, foi bem de viagem? Chegou bem?" Eu falei: "Nossa, cheguei em casa muito bem". Mas a pessoa estava achando que eu estava vindo de casa. Eu falei: "Não, graças a Deus, eu tenho a noite dormi em casa, eu moro do lado da Nazaré".
Muito bem. E quais são as melhores ondas neste momento em Portugal? Vamos abrir aqui um problema diplomático entre a comunidade surfística.
Não, eu amo surfar Ericeira, mas eu sou fiel à Nazaré, não tem como, é difícil me tirarem de lá. No máximo, eu dou uma escapada até Peniche, mas eu sou fã da costa inteira de Portugal, amo esse país.
Muito bem.
É pequena pra passear ali.
Vou pra todos os lugares.
Maya e João, obrigado por terem vindo à Rádio Observador. Boas conferências. É amanhã, não é?
É hoje.
É hoje! Dois erros seguidos, peço imensa desculpa. Boa conferência aos dois.
Tá ótimo. Obrigada.
Obrigado.
Rádio Observador, 92.6.