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Bem-vindos à Última Chamada. Desafiamos os líderes partidários a fazer a última conversa do dia com os jornalistas do Observador que estão a acompanhar as caravanas eleitorais. Entrevistas sobre o atual momento político e também mais pessoais. Rui Tavares tenta repetir o feito de 2019 e procura eleger um ou dois deputados pelo LIVRE. A conversa com a jornalista Alexandra Machado foi gravada na terça-feira, perto das 11 da noite, e Rui Tavares insiste na ideia de unir toda a esquerda para governar nos próximos quatro anos.

Estou, sim?

Estou. Rui?

Sim.

Sim, boa noite. É a Alexandra, do Observador. Cá estamos para a Última Chamada do dia. Depois da vacina, como é que se sente?

Sinto-me bem, praticamente nem me lembro que levei a vacina. Espero que amanhã também seja assim fácil, porque a segunda dose, na altura deitou-me bastante abaixo e não convinha nada com os últimos dias de campanha, ficar como fiquei com a segunda dose. A certa altura fiquei até afônico. É mais ou menos a pior coisa que me pode acontecer em fim de campanha eleitoral, mas mesmo assim valeu a pena levar a terceira dose da vacina.

Mas foi por autoagendamento, portanto, foi propositadamente na altura da campanha, que foi levar a vacina. Qual é a mensagem?

Até devia ter sido mais cedo. Quer dizer, eu autoagendei quando pude, só que depois recebi a mensagem a confirmar uma noite à 01h30, e portanto, já tinha adormecido depois de um dia de campanha no norte, em Braga, e depois era impossível estar no cartaz para onde me agendaram naquele dia. Portanto, tive que adiar uns dias e na primeira oportunidade ir levar a vacina de reforço. Não passa nenhuma mensagem em particular, quer dizer, que as pessoas em Portugal não saibam já, que é a importância de nos vacinarmos. Na verdade, esta vacina não é exatamente um reforço. Cada vez mais se percebe que estas três doses são as três doses necessárias para estarmos mais protegidos, nomeadamente com uma variante como a Ômicron, mesmo não sendo perfeito, faz uma enorme diferença em termos das consequências que a infecção pode ter. Mas felizmente esta é uma mensagem que a maior parte dos portugueses já conhece e, portanto, só podemos reforçar essa mensagem sobre o reforço.

De qualquer forma, o dia foi dedicado à saúde. De manhã teve com o antigo diretor-geral de saúde, Francisco George. Foi um apoio importante para a campanha do LIVRE?

Foi um apoio muito bem-vindo, até porque chegou de uma forma muito espontânea. Nós no LIVRE não temos andado à procura de apoios da maneira tradicional. As pessoas que nos querem apoiar entram em contato conosco e foi assim que aconteceu. Na verdade, eu não sei sequer como é que o doutor Francisco George obteve o meu número de telefone, ligou-me depois dos debates, escreveu-me primeiro e depois ligou-me, falámos e ele manifestou vontade de termos uma conversa sobre saúde. Disse que tinha lido o programa do LIVRE sobre saúde e que era globalmente coincidente com as suas próprias ideias para o Sistema Nacional de Saúde e o Serviço Nacional de Saúde, em particular. Portanto, a necessidade de deixar de suborçamentar o Serviço Nacional de Saúde, mas também de gastar melhor no Serviço Nacional de Saúde e em certos aspectos, racionalizar até custos. E esse foi um dos temas principais da nossa conversa com não só o doutor Francisco George hoje, mas também a ex-bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Maria Augusta Sousa. Também nos apoiou.

De qualquer forma, estima-se, estão neste momento, segundo as estimativas, 1 milhão de pessoas em isolamento. Que efeitos é que isto pode ter no dia da votação?

Isso deveria ter sido previsto pela Assembleia da República antes de dissolvida. E não era difícil de ter previsto. Não era preciso uma enorme capacidade de antecipação. A Assembleia da República, antes de dissolvida, poderia ter revisto a lei eleitoral cirurgicamente, se posso usar este termo.

Vai propor, se chegar a deputado, vai propor a alteração da lei?

Eu creio que nós podemos pensar em várias coisas. Uma delas é que o voto antecipado não careça de inscrição. Simplificar o acesso ao voto antecipado. E só isso já seria uma enorme diferença. E também vamos propor que as pessoas que trabalham nas mesas de voto e que fazem um trabalho que cada vez está a ficar mais complexo, é importante que estas pessoas sejam, digamos, que sejam repostos os pagamentos que foram cortados no tempo da Troika, porque a democracia custa dinheiro. É importante que tenhamos consciência disso. Não é muito dinheiro que ela custa, é das coisas mais baratas que fazemos no quadro dos gastos do Estado, mas tem que ser suficientemente valorizada pelos poderes públicos para que as pessoas a quem estamos a pedir neste momento um esforço suplementar sejam devidamente pagas.

Hoje o dia voltou a ser marcado pela questão da governação e das coligações e das convergências, como o Rui gosta de dizer. Viu o programa do Ricardo Araújo Pereira, já que estamos agora em fim de dia? Teve a oportunidade de ver? Não.

Não, não vi, porque hoje tive a sorte de poder deitar os meus miúdos e, portanto, não vi televisão.

Foi uma pena não ter visto uma simulação do WhatsApp do Costa com o Bloco e com a Catarina Martins e com o Jerónimo de Sousa e na qual depois no final o PAN entrou para a dita coligação, mas o LIVRE não entrou. Vê alguma leitura nisto?

Eu creio que o Livre é o partido que desde sempre tem proposto estas convergências e portanto, a partir do dia 31 estará lá. E aliás, é o único partido que em vez de dizer que quer reunir com o PS, quer reunir com todos. Eu acho curioso que, por exemplo, o Bloco de Esquerda e o PS andaram de cadeias às avessas durante toda esta campanha e até antes, todo este processo de colapso de negociações orçamentais. E agora, de repente, uns dias antes das eleições, diz o Bloco que quer reunir no dia 31 apenas e só com o PS. Repare-se numa coisa, se a ideia é ter força negocial para trazer o PS para a esquerda, o que faria sentido é que o Bloco, o PCP, o Livre, o PAN, todos os partidos que não sejam o maior partido de uma maioria à esquerda, reunam previamente para encontrar os seus pontos de acordo em matéria, por exemplo, de proteção ambiental, proteção laboral e por aí afora, que é para depois terem mais força na altura de negociar com o partido maior à esquerda, que nesse caso lideraria o governo. Nós não nos podemos esquecer que chegamos a umas eleições, também porque houve uma falta a um dever de responsabilidade perante os portugueses ao falhar-se nestas negociações orçamentais. Houve uma falta de visão de futuro. E agora chegados às eleições, é muito importante que com o nosso voto, não se esteja a premiar quem teve essa falta ao dever de responsabilidade. Isto nós não andamos a brincar com a vida das pessoas, porque senão nada nos garante que daqui a uma semana, o Bloco de Esquerda e PS não tenham decidido mudar de novo de ideias, desiludindo e desmobilizando o eleitorado à esquerda, que eles agora perceberam que estava a ficar desmobilizado e tentaram recuperar, voltando a uma atitude de diálogo. Eu acho que só o Livre oferece essa opção.

Rui, vamos esperar que não perca a voz desta vez. Obrigada por o telefonema de fim do dia e voltamos a falar amanhã.

Amanhã veremos se a voz ainda cá está.

Exato. Obrigada. Boa noite.

Ok, boa noite. Bom descanso.

Obrigada.

Rui Tavares atende a segunda chamada de Alexandra Machado na noite de quinta-feira, já depois da festa de encerramento da campanha, em Lisboa. A ocasião permite-lhe fazer um balanço positivo dos últimos 15 dias e reafirmar a crença numa ecogeringonça.

Estou sim?

Estou, Rui, boa noite. É a Alexandra, do Observador.

Olá, boa noite, Alexandra.

Então, já saiu da festa de encerramento do Livre?

Já, de regresso a casa. Foi bonito, foi a única ocasião em que fizemos um comício, porque estamos em pandemia. Parece que praticamente todos os partidos, mas acima de tudo os grandes, se esqueceram disso. Eu hoje vi imagens de arruadas do PS e do PSD que basicamente eram como se não estivéssemos em plena crise pandémica.

E foi uma preocupação vossa sempre ao longo da campanha, não é?

Foi uma preocupação nossa, mesmo hoje toda a gente entrou com certificado, mantivemos o distanciamento social possível, a utilização de máscaras e de fato foi uma festa de encerramento muito bonita do ponto de vista cultural, musical e com discursos dos nossos candidatos de Aveiro, Setúbal, Porto, Jorge Pinto, que uma sondagem hoje nos diz que está em jogo a eleição dele, Israel Mendes Lopes.

E a sua. Quanto tempo é que levou a preparar o discurso? Prepara o discurso, normalmente?

Nenhum tempo a preparar o discurso, porque no início desta campanha, eu fiz uma série de fichas, pensando principalmente nos debates, fichas essas que tinham argumentos, algumas tinham parágrafos escritos à mão e portanto isso ajudava a memorizar-me. Outras eram temáticas sobre determinados assuntos, que poderiam ir desde a agricultura de precisão até aquilo que precisamos de fazer para dignificar a carreira de professor de escola secundária. Alguns foram utilizados nos debates, outros foram utilizados em outras intervenções minhas, outros nunca chegaram a ser utilizados. E quando as pessoas às vezes me viam nos debates com umas fichinhas muito pequeninas, que pareciam cartas de jogar, e que eu ia trocando, afastando umas porque já tinha usado determinados argumentos ou porque havia coisas que ainda queria falar, eram essas ditas fichas.

Hoje também se socorreu delas umas quantas vezes, não foi?

Hoje foi muito fácil, porque basicamente da minha coleção de algumas dezenas de coisas, recolhi algumas, algumas que não tinham sido usadas ainda, e levei-as para o palco, mas mal olhei para elas, porque quando chega a este ponto, as coisas estão bastante mecanizadas.

Olhe, hoje saíram várias sondagens, uma até dá 1,8% ao Livre. A ecogeringonça está mais perto ou acha que, pelo contrário, e por causa de outras sondagens que dão uma esquerda mais frágil, está mais longe?

Olha, essa dos 1.8 não vi, há sondagens um pouquinho para todos os gostos, até mais altas do que isso e mais baixas também. Aquilo que nós estamos a dizer a toda a gente nos últimos dias é que o Livre está numa situação em que meio ponto acima ou meio ponto abaixo faz toda a diferença. Meio ponto acima e elegemos um grupo parlamentar, meio ponto abaixo corremos o risco de não entrar. Portanto, não se pode desperdiçar votos de pessoas que gostam do Livre e querem ver o Livre na Assembleia da República e que tencionam não votar. Para responder à sua pergunta, eu creio que Podemos e devemos conquistar uma maioria de esquerda no próximo dia 30. Isso é essencial porque a direita, neste momento, fruto da ambiguidade dos líderes da direita tradicional, se deixou enquistar em boa medida pela extrema-direita. E portanto, teremos uma crise de regime democrático e uma crise do Estado de Direito e dos direitos fundamentais, caso a direita governe encostada à extrema-direita. Teremos também uma grave crise de regime, mais ao retardador, mas teremos, se houver um bloco central ou um acordo de cavalheiros entre o PS e o PSD, porque vão ser os interesses dos dois maiores partidos a tomar em conta de tudo em plena execução do PRR e numa legislatura, ninguém falou disso durante esta campanha, que é de revisão constitucional, e os dois partidos terão, se estiverem entendidos, os votos suficientes para mudar a Constituição e até as leis eleitorais. Portanto, a alternativa a estas duas encruzilhadas é haver uma maioria de esquerda, mas essa maioria de esquerda não pode ser na mesma como a mesma, para usar esta expressão um bocado coloquial. O voto na esquerda que não deixa tudo na mesma é o voto no LIVRE e permite, apesar de tudo, introduzir uma maneira de fazer política diferente e temáticas novas no Parlamento.

E vê-se nalguma pasta ministerial se a Eco Gerigosa for para a frente?

Não me vejo forçosamente em nenhuma pasta ministerial e certamente nós não vamos negociar com base em cargos. Isso não significa enjeitar responsabilidades, mas significa que vamos pôr o programa à frente. Portanto, vamos falar do frio nas casas e daquilo que é possível fazer, já foi feito em todos os países da Europa Ocidental para resolver um problema sério no nosso país. Vamos falar de salário mínimo, vamos falar dos trabalhadores independentes e da maneira como é possível ajudá-los a ter mais remunerações e, acima de tudo, a trabalhar naquilo em que eles são bons, em vez de estarem o tempo todo afogados em custos administrativos e burocracia. Vamos falar de ensino, vamos falar do novo pacto verde para combater a crise ecológica e a crise social ao mesmo tempo.

Uma última pergunta e uma resposta muito rápida, se puder ser. Numa frase, que balanço é que faz da campanha do LIVRE? Embora amanhã ainda tenham algumas ações. Amanhã, que já é hoje. Ainda vão ter algumas ações, mas oficialmente fecharam hoje a campanha.

Amanhã, até à última hora, vamos continuar a tentar convencer gente. Numa frase, eu creio que aquilo que dissemos mais vezes é que Portugal precisa de um novo modelo de desenvolvimento. E isso é um debate, um caminho que se vai fazer ao longo do tempo, mas pelo menos houve um partido que em todos os debates, em todas as intervenções, todas as perguntas fizeram, disse que Portugal precisa de um novo modelo de desenvolvimento e até respondeu à pergunta de qual ele deve ser. É a economia do conhecimento e da descarbonização de alto valor acrescentado, que permite subir salários, reforçar a segurança social, alargar a coleta de impostos, diminuindo os impostos da família mediana e financiar excelentes serviços públicos.

15 dias de campanha, Rui. Vou deixá-lo descansar agora. Muito obrigada por mais esta última chamada do dia.

Obrigado, Alexandra.

E domingo saberá os resultados, não é?

Bom descanso. Até domingo, todos os votos contam e a partir de segunda-feira é preciso construir uma política diferente no nosso país.

Muito bem. Muito obrigada, Rui. Muito boa noite.

Obrigado, Alexandra. Bom descanso. Boa noite.

Obrigada, igualmente.

Rui Tavares à conversa com Alexandra Machado. "A Última Chamada" está disponível em podcast e pode ser também lida no site do Observador. Eu sou a Maria João Simões. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.