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Boa tarde. Neste Gabinete de Guerra temos de novo conosco o Bruno Cardoso Reis, mas também Pedro Sampaio Nunes, especialista em nuclear, para uma conversa aqui na Rádio Observador, com a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz.

Voltamos ao tema do nuclear, porque é notícia hoje que a União Europeia enviou pra Ucrânia quase três milhões de comprimidos de iodo, comprimidos que protegem dos efeitos da radiação. Queria chamar já o nosso convidado, Pedro Sampaio Nunes. Bem-vindo.

Olá, boa tarde.

Bem-vindo ao Gabinete de Guerra. Esta é uma ação meramente preventiva ou porque se acredita mesmo numa guerra nuclear? É uma ameaça cada vez mais real?

Não, isto é uma atitude meramente preventiva. Eu recordo que em todos os reatores nucleares franceses, em seu redor, as populações têm pastilhas de iodo, porque quando há um acidente nuclear ou quando há uma deflagração nuclear, a nuvem radioativa que se liberta contém iodo 131, que é absorvido pela tireoide e que pode criar câncer de tireoide infantil, em miúdos em crescimento. E essa foi a lição que se retirou de Chernobyl e que está comprovada. Por isso, é uma atitude meramente preventiva para dois cenários: ou uma eventual deflagração de uma bomba tática por parte dos russos, se isso acontecesse, coisa que eu acho que é extremamente improvável, ou se houvesse destes confrontos que ocorrem, como ocorreram em Chernobyl e em Zaporizhzhia, poder, por qualquer razão, desencadear uma libertação de substâncias radioativas pra atmosfera. O que há a fazer nessa altura, e só nessa altura, é tomar uma pastilha de iodo que satura a tireoide e que já não deixa que o iodo 131 possa ter qualquer efeito.

Bruno Cardoso Reis, a União Europeia está nesta altura a compor aquilo que se designa por reservas estratégicas destes comprimidos de iodo. Como é que olhas para esta iniciativa? Também consideras que é aqui uma ação meramente preventiva?

Sim, é uma ação preventiva num contexto em que coisas que eram completamente impensáveis se tornaram um pouco mais, quase obrigatoriamente, objeto de pensamento. E portanto, eu concordo muito com a avaliação que foi feita, ou seja, acho que o uso de armas nucleares táticas seria aqui uma escalada que, à partida, logicamente não faria sentido, porque há outras armas, inclusive armas químicas, que poderiam ser utilizadas antes de isso acontecer. Seria a primeira vez na história que era usada uma arma nuclear de qualquer tipo. Porque mesmo quando falamos em táticas, obviamente não há propriamente armas nucleares pequenas, ou com um pequeno efeito. Terão, no mínimo, um impacto parecido ao de Hiroshima. Isso nunca aconteceu desde 1945, e portanto seria realmente aqui uma escalada enorme. Agora, há a questão das centrais nucleares. Obviamente, temos aqui um especialista que saberá muito mais disso, mas a qualquer pessoa sensata, normal, parece má ideia estar a ter combates, no fundo, a haver explosões, a haver todo tipo de atividades explosivas e não habituais numa zona como uma central nuclear. Portanto, isso colocará alguns riscos. E depois há todos os outros riscos que foram referidos, de problemas com o próprio pessoal que opera as centrais, está a haver rotação ou não, estão a garantir a sua segurança ou não. Portanto, tudo isso obrigou a esse esforço. E eu acho também que a própria experiência da pandemia já levou a União Europeia a investir muito mais nesta questão da chamada resiliência. É até uma das prioridades que é apontada neste novo documento de segurança e defesa europeia, a chamada bússola estratégica, é esta questão da resiliência e aí, nomeadamente, a questão das reservas estratégicas de vários tipos, e inclusive também de medicamentos que possam ser especialmente importantes. E portanto, acho que isso também corresponde a essa experiência da recente pandemia, que alertou pra maior importância deste tipo de reservas. Bruno, nós nos últimos dias temos falado a propósito da estratégia do Ocidente de não entrar, evitar a todo custo um confronto com a Rússia. Temos falado muito do artigo quinto da NATO. Haverá alguma possibilidade de haver um confronto caso a Rússia utilize na Ucrânia, não em território da NATO, mas na Ucrânia, armas nucleares? Seria uma resposta expectável por parte do Ocidente?

O presidente Biden já disse que havendo um ataque com armas químicas, haverá algum tipo de resposta do Ocidente. O problema desse tipo de retórica é que nós já vimos que isso na Síria, por exemplo, em 2013, com o então presidente Obama e com o Biden como vice-presidente, muitas vezes não quer dizer nada. Portanto, temos aí um problema da retórica do Ocidente muitas vezes não ter muito a ver com as suas ações e isso cria problemas de credibilidade. Parece lógico que se é dito isso em relação ao uso de armas químicas, com muito maior razão, se aplicaria também a armas nucleares. Agora, aí a questão que se coloca é sempre a mesma, que é: vai se arriscar um confronto direto com a Rússia? Ou seja, isso significará retaliação militar, retaliação militar localizada e que esteja claramente sinalizada?

Eu não sou capaz de dizer e acho que ninguém sabe dizer. E o meu temor até é que os próprios decisores, nomeadamente o presidente americano, também não tenham bem a certeza. Espero que sim, que estejam a trabalhar nisso e espero também que estejam a pensar em como transmitir à Rússia isso, e eu começaria desde logo pela questão do uso de armas químicas, de uma forma que seja mais credível, ou seja, se calhar com ameaças mais localizadas e mais concretas, que no fundo não sejam tão vagas e não se prestem tanto a estes problemas de credibilidade, sem ao mesmo tempo também cair aqui no risco de depois se ir para uma escalada descontrolada que possa terminar numa Terceira Guerra Mundial, numa guerra nuclear total, que seria o fim não é só dos Estados Unidos ou da Rússia, seria o fim também da Ucrânia e da humanidade toda.

Pedro Sampaio Nunes, para si uma pergunta sobre a Agência Internacional de Energia Atómica. Soubemos há cerca de cinco, seis dias, que o diretor-geral da agência esteve lá no sentido de disponibilizar assistência técnica urgente para garantir a segurança nas instalações nucleares do país. Apoio de segurança e proteção foi aquilo que saiu cá para fora, sendo que a agência sabe quais são os locais prioritários. Que tipo de trabalho se pode fazer numa circunstância destas pela Agência Internacional de Energia Atómica?

A Agência Internacional de Energia Atómica mantém, relativamente a todos os países que fazem parte dessa organização, enfim, são todos os que têm instalações militares e civis de natureza nuclear, uma monitorização permanente de todas as matérias fíceis, tudo o que são matérias que são utilizadas no processo de produção de energia civil, para, por um lado, verificar a segurança da sua operação, mas por outro, fazer sempre a contabilização que não há desvios para efeitos de proliferação de armas nucleares. Por isso, a Agência Internacional de Energia Atómica tem esta dupla função, que é por um lado assegurar a segurança física dos reatores e, por outro lado, assegurar que não há um risco de proliferação de novas armas nucleares. Daí manter protocolos extremamente estritos, tem uma vigilância permanente, mede em permanência todas as quantidades físicas de materiais que circulam dentro de uma instalação e por isso têm um papel insubstituível para o fazer. A União Europeia duplica, tem uma redundância dessa inspeção através da Agência Euratom, que faz a mesma coisa em colaboração com a Agência Internacional de Energia Atómica. Deixe-me só chamar a atenção do seguinte: no sábado à noite, a BBC passou na SIC Notícias um programa extraordinário feito pela BBC chamado "Putin e a Ameaça Nuclear". Eu recomendo a todos os ouvintes que vejam esse programa. Extremamente didático sobre aquilo que estamos aqui a discutir. Por um lado, o risco de haver uma confrontação nuclear, devido à personagem sempre imprevisível de Putin e, por outro lado, quais as consequências que poderiam advir de uma situação dessas, nomeadamente a nível da exposição às radiações. Extremamente interessante. E aí é abordada a questão também das partículas.

Uma recomendação a fechar este gabinete de guerra com Pedro Sampaio Nunes, especialista em energia nuclear e também o historiador Bruno Cardoso Reis. Obrigada aos dois.

Obrigado.

Muito obrigado.