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Todos os dias, de segunda a sexta, aqui na Rádio Observador, depois do Jornal das Quatro, falamos dos conflitos em curso. Abrimos o gabinete de guerra para falar tanto do conflito na Ucrânia como do conflito no Médio Oriente. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou estar nos próximos minutos à conversa com o major general João Vieira Borges. Muito boa tarde. Obrigado por estar conosco. Vamos começar com a situação na Ucrânia, até porque hoje estão a decorrer negociações na Arábia Saudita, em Riade, entre uma delegação dos Estados Unidos da América e uma delegação russa. Este encontro serve para discutir a Ucrânia, mas não só. Há outros temas em cima da mesa, como a situação no Mar Negro e também a relação diplomática entre os Estados Unidos e a Rússia. Quanto a este encontro, Peskov, o porta-voz do Kremlin, já veio dizer que Estados Unidos e Rússia estão, de facto, a trabalhar numa situação de paz para a Ucrânia, mas que ainda há muito trabalho por fazer e que não é de esperar um acordo tão cedo. Eu gostaria de perceber consigo o que é que, de facto, podemos esperar desta reunião entre Estados Unidos e Rússia e se concorda com Peskov que estamos ainda muito longe e com muito trabalho por fazer para chegar a um entendimento.

Muito boa tarde. Temos que concordar com Peskov, porque a Rússia, neste aspecto, tem a potência maior que está a fazer imposições aos Estados Unidos da América ou, através dos Estados Unidos da América, à Ucrânia e, portanto, tem o tempo a seu favor. O tempo é estratégico para a Ucrânia, no sentido em que necessita rapidamente do cessar-fogo, mas para a Rússia o tempo é favorável porque obviamente está numa posição vantajosa em termos militares. A Maria Zakharova dizia ontem, e já hoje também, que não havia expectativas de um avanço em Riade. Só havia expectativas de negociar os detalhes. E eles demonstram isso claramente. A Rússia demonstra que o fator tempo é lhe favorável, ao contrário da Ucrânia, mas também ao contrário daquilo que é Trump. Trump tem pressa em chegar a um acordo de paz. E portanto, eles fazem propositadamente estas declarações, fazem propositadamente a agenda circunscrita às infraestruturas energéticas e à questão que referiu muito bem da iniciativa do Mar Negro. E portanto, são questões que não impedem que continue a mortandade, que era aquilo que Trump queria terminar e que diz isso sistematicamente. Ainda ontem estava particularmente incomodado e vai continuar incomodado, porque a Rússia vai continuar com os seus objetivos militares no sentido de ocupar as quatro regiões na sua totalidade. Pelo menos isso, eu já nem digo outras áreas, pelo menos essas, para depois ter um poder negocial ainda maior do que já tem neste momento, até porque sistematicamente tem sido beneficiado por declarações dos próprios moderadores dos Estados Unidos, designadamente por Steve Witkoff, que diz coisas que não devia, na minha perspetiva, pouco antes das próprias negociações.

De facto, estas negociações estão a acontecer. A última vez que tivemos esse encontro entre Estados Unidos e Rússia, e depois, logo a seguir, Estados Unidos e Ucrânia. Aliás, foi ao contrário, foi primeiro Estados Unidos e Ucrânia, Estados Unidos e Rússia, e deu aquele acordo de parar os ataques a infraestruturas energéticas, troca de prisioneiros. Isso aconteceu, só que no que toca aos ataques, eles repetem-se. Ainda hoje veio um ministro ucraniano, Andrii Sybiha, o ministro dos Negócios Estrangeiros, dizer que a Rússia deve parar com os ataques em vez de fazer declarações vazias sobre a paz. É que, de facto, as negociações vão continuando entre Estados Unidos e Rússia, Estados Unidos e Ucrânia, vão fazendo de mediador estas reuniões a acontecerem na Arábia Saudita, mas os ataques de facto continuam. Como é que se tem uma discussão para um cenário de paz a atacar ainda infraestruturas importantes, sendo até esse um dos pontos que tinha sido acordado inicialmente para parar durante estes dias?

Relativamente ao primeiro cessar-fogo temporário e circunscrito às infraestruturas energéticas, houve acusações mútuas de que não estavam a respeitar o acordo.

Exato.

Hoje vão discutir pormenores, porque há acusações da própria Rússia que não teve resposta da parte da Ucrânia. A única resposta da Ucrânia foi que estavam a atacar infraestruturas civis e não energéticas. Mas pode ter sido da parte da Rússia, obviamente, e já percebemos também que certamente não andará muito longe disso, que esses ataques sirvam para mostrar que a Ucrânia não é de confiança, que não está a respeitar o acordo parcial. Aliás, isso está subjacente às declarações do porta-voz da Rússia. E portanto, o que pretendem é que, pelo menos relativamente àquele primeiro acordo, que haja mecanismos controladores e depois que se estenda também àquilo que era a questão do Mar Negro. A questão do Mar Negro e a questão das infraestruturas energéticas, obviamente, tem vantagens para as duas partes, mas nesta fase, porventura, terá maior vantagem para a Rússia. Tendo em conta que já não estamos no inverno, tendo em conta que a rota do Mar Negro foi substituída por uma outra rota junto aos territórios que tem sido protegida, e obviamente a Turquia tem permitido isso Mas aquilo que estava inicialmente no acordo de 2022, que depois foi cancelado em 2023, era que isso implicava o controle dos próprios navios, se tinham armamentos, se não tinham, que implicava o fim de determinado tipo de sanções. Não sei se é a isso que querem voltar. A Rússia quer sempre voltar a situações que colocam ainda em situação pior a Ucrânia do que a situação crítica em que já se encontra, o que é muito difícil com um mediador como os Estados Unidos, que faz declarações e entrevistas pouco antes das reuniões, em que diz que Putin é um homem de confiança, que inclusivamente lhe oferece quadros, que tem um ótimo relacionamento com Trump. Portanto, só fazia elogios à Rússia, faz parte, sobretudo, de uma estratégia, obviamente. Mas, por outro lado, diz coisas perfeitamente indescritíveis, como por exemplo, que a Rússia estava a tentar recuperar as províncias. Quer dizer, quem está ocupado é em destruí-las. Tentar recuperar. Não é um erro de tradução. Aliás, foi chamado a atenção, deu uma outra entrevista, mas realmente é muito estranho este posicionamento dos Estados Unidos, independentemente do discurso agora mais diplomático da parte da Ucrânia, o que vemos é que as imposições da Rússia são aquelas que são discutidas nas agendas, ponto final. E não sai dali. Trump bem quer a paz, Trump bem quer um safe total, a Rússia diz que não, é não. Enquanto que quando aconteceu isso com Zelenskyy, nós sabemos o que é que aconteceu.

Falemos da China. A China veio desmentir rumores de que estaria pronta para enviar forças de manutenção de paz para a Ucrânia. Reafirma assim uma posição de neutralidade neste conflito. Pequim quis expressar interesse em atuar como mediador para se alcançar a paz. Diz que continua a ser acusada pelo Ocidente de fornecer apoio militar à Rússia, acusações que não têm sido confirmadas ao longo destes anos de guerra, isto é o que diz Pequim. Como é que podemos ver, de facto, este papel da China e se seria de estranhar se a China estivesse disposta a enviar forças de paz, uma vez que se tem tentado manter à margem deste conflito, no que toca a armamento, à presença no conflito. Certo é que a China, no que toca a relações comerciais, no que toca a sanções, nunca cortou relações, nem nunca aplicou sanções à Rússia durante este conflito, como fizeram muitos outros países.

Sim, mas a China tem sido coerente naquilo que são os valores, naquilo que foi um plano de paz, naquilo que foi votar não ao lado dos Estados Unidos e da Rússia contra a Ucrânia, na última Assembleia Geral das Nações Unidas, relativamente à proposta que foi apresentada pela Ucrânia e pela Europa. A China tem tido a postura, que é tradicional, de não ingerência nos assuntos internos dos outros países, de não ingerência nos conflitos, de tentar participar sempre em prol da paz. Portanto, isso faz parte da postura da China, independentemente de termos consciência que com esta aproximação de Trump a Putin, isso poderá ter incomodado a China, naquilo que foi a visão de alguns analistas de que seria exatamente essa aproximação, mais no sentido de fazer um corte de relações ou afastar mais a China da Rússia naquilo que é a luta por uma nova era. Nós quando ouvimos o Aleksandr Dugin, o ideólogo e sobretudo o geopolítico russo, dizer que obviamente Trump está mais próximo de Putin do que os aliados do Ocidente, por ser conservador, por ser defensor de valores tradicionais, por ser defensor do patriotismo e mais perigoso, em resposta à sua questão, por ser defensor de uma nova ordem, se não me engano da tradução, das grandes potências. Ora bem, isto incomoda particularmente a China, a não ser que ele esteja a incluir a China nessa nova ordem das grandes potências ao lado da Rússia e dos Estados Unidos. Mas seja como for, em resposta à sua questão, eu penso que era esperado este desmentido da China. Eu estava a achar muito estranho a China ter-se oferecido para algo com que a própria Rússia não concorda, e portanto será sempre, pelo menos numa resolução de conselho de segurança, nunca teria lugar para forças no terreno. A própria França e o Reino Unido estão com posturas diferentes depois daquelas reuniões iniciais preparatórias para 30 mil homens em determinados pontos da linha de contacto ou próximo da linha de contacto. Há países que também, como a Polónia ou a Itália, se afastaram. Portanto, essa é uma questão que será discutida certamente mais tarde. Mas entretanto, como disse há pouco e bem, a guerra vai continuando com grandes vantagens, naturalmente, para a Rússia e com a desgraça para as duas partes, seja russos, seja ucranianos que estão nesta guerra a morrer e a sofrer.

Falar aqui um pouco também do conflito do Médio Oriente, até porque Israel hoje confirmou a morte do homem que tinha sido nomeado pelo Hamas para chefiar Gaza, Ismail Barhoum, membro do Hamas nomeado para chefiar o governo da Faixa de Gaza. Dizem os serviços de segurança interna israelitas que conseguiram matar este homem, que pertencia ao comitê executivo do Movimento de Resistência Islâmica. De facto, Israel, quando avançou outra vez com esta ofensiva nos últimos dias, disse que queria voltar a atacar a liderança do Hamas. Parece ser o que está a fazer e a aproveitar este fim do cessar-fogo até retomarem as negociações.

Sim, isto é uma estratégia que vem de longe, foi muito criticada pelo professor Boaz Ganor, foi meu professor no curso de luta antiterrorista, portanto é o homem mais conhecedor da luta antiterrorista, e ele diz que isto não resulta, muito menos com o Hamas Da mesma maneira, grandes dirigentes do Likud estão a criticar esta estratégia, estão a criticar simultaneamente o facto de Netanyahu continuar com as questões da demissão do chefe do Shin Bet, da Procuradora-Geral, com linguagem muito perigosa relativamente a golpes de Estado, do Estado profundo. Há aqui questões que, se os nossos ouvintes forem ver os órgãos de comunicação social israelitas, felizmente ainda um país livre e democrata, percebem perfeitamente que as questões internas são questões que estão muito para além daquilo que era imaginável neste momento. A questão dos reféns obviamente é fundamental para grande parte daquelas pessoas que se manifestam, mas há outras questões estruturantes que têm a ver com a própria democracia e têm a ver com a tentativa de Netanyahu fugir àquilo que é o seu julgamento, aproveitando a guerra e quando ela estava num bom caminho de negociação, independentemente daquilo que foram as propostas que houve recentemente do Egito, que eram propostas aceites por todos os países árabes, ter fugido exactamente a uma solução, a uma continuidade para a segunda fase do acordo, infelizmente para todos nós.

Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado connosco aqui na Rádio Observador, edição do Gabinete de Guerra. Estamos de regresso para analisar o conflito amanhã de manhã, na edição matinal do Gabinete de Guerra.