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Está aberto o Gabinete de Guerra da Rádio Observador, programa em que falamos dos conflitos em curso. Claro destaque para Ucrânia e Médio Oriente. Hoje a análise é com Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas. Eu sou Miguel Cordeiro e antes de irmos ao terreno e ao que se passa no terreno nestes principais conflitos, falar um pouco também das eleições dos Estados Unidos da América. Jorge Rodrigues, que impacto podem ter essas eleições para estes conflitos, tanto na Ucrânia como no Médio Oriente, sendo que os Estados Unidos têm um papel muito mais importante nesse conflito do Médio Oriente?

Boa tarde, Miguel. Naturalmente que o mundo está em suspense. O mundo está parado à espera dos resultados que vão sair agora das eleições norte-americanas. E naturalmente que apesar de haver umas tendências e fatores que se vão manter a longo prazo e a orientação dos Estados Unidos para a Ásia-Pacífico será algo que irá sempre resultar, independentemente de quem for eleito como presidente nos Estados Unidos. Mas a verdade é que relativamente aos dois conflitos, há diferenças, e há diferenças bastante significativas, que acabam por vir um pouco em linha com o passado, com o que têm vindo a defender, etc. No caso concreto do conflito em Israel, em Gaza, e acaba por também demonstrar-se que a internacionalidade da competição global, portanto, a influência que o conflito acaba por sofrer da globalidade da competição a nível do sistema político internacional, a verdade é que um e outro irão ter uma influência direta no resultado. Israel é um parceiro dos Estados Unidos na região e isso é incontornável. A comunidade judaica nos Estados Unidos tem influência, de facto, e portanto, logo à partida, Israel irá manter sempre um apoio relativamente à parte existencial dos Estados Unidos. Isso é indubitável. No entanto, se por um lado Trump é mais direto e até pelo seu passado acaba por estar ligado à mudança da embaixada e ao reconhecimento de Jerusalém como capital israelita, acaba por com isso conseguir uma mudança dos votantes judeus para a sua candidatura. Relembro que Biden chegou a ter 70% e os democratas chegaram a ter 70%, mas agora realmente há um esforço maior de apoio a Trump. Isto porque, de alguma forma, Trump irá definitivamente apoiar Netanyahu e a ação israelita, pedindo, no entanto, alguma rapidez para a resolução ser rápida e para ter um resultado imediato, que é exatamente o que Trump gosta sempre de apresentar. Por outro lado, Harris, que quer de alguma forma agradar a todos, aos dois lados, acaba por ficar um pouco na terra de ninguém. Naturalmente que irá apoiar, como eu disse há pouco, Israel na sua luta existencial, se assim a identificarmos, mas defende muito mais uma solução de dois Estados negociada, um cessar-fogo, a questão com os reféns, tudo a curto prazo, e é essa orientação que pretende. Portanto, de alguma forma, Trump será mais efetivo do lado de Israel, enquanto que Harris será um pouco mais moderada e procurando sempre uma solução negociada. Já no conflito da Ucrânia, e Trump já o disse várias vezes, que resolve a questão num dia e que é um problema da Europa, em boa verdade, ele não se compromete com qualquer apoio à Ucrânia. Isso poderá deixar a Ucrânia numa posição bastante mais fragilizada e tem levado inclusivamente a Rússia a procurar uma posição no terreno, mesmo com elevados custos, uma posição mais efetiva com capacidade de numa posição negocial vir a ter o terreno ocupado dentro da região, não só do Donbass, mas também de outras áreas que está a desenvolver neste momento ataques no sentido de ocupar maior território. Harris, por seu lado, irá apoiar as longas 76, como foi uma expressão usada há uns dias, o apoio e os esforços defensivos da Ucrânia, porque considera que há uma ameaça efetiva à Europa e a todo o sistema liberal ocidental. Portanto, de alguma forma irá procurar manter algum equilíbrio e evitar uma vitória direta, uma vitória que se possa referenciar para o lado da Rússia. Nesse sentido, as posições são também elas bastante diferentes.

Olhando aqui para o que se passa no terreno, hoje há a informação de que um porta-voz do governo de Netanyahu é suspeito de fugas de informação. A notícia já está na imprensa israelita também. Um tribunal de Israel levantou parcialmente o segredo de justiça num caso que envolve suspeitas de fuga de informação confidenciais envolvendo Benjamin Netanyahu. O principal suspeito é um dos assessores do governo, estaria a transmitir essas informações por meios de comunicação social europeus. Estamos a falar de um caso de suspeitas de fugas ao mais alto nível, de um assessor, um porta-voz do governo e com problemas para Israel logo nessa cadeia de topo.

Pouco se sabe ainda em relação a esta situação, Miguel. De qualquer maneira, o já designado Bibleaks referencia que sim, que Shlomo Bernstein, um funcionário de topo da equipa de Netanyahu, será um dos quatro responsáveis que já foram detidos Por estas fugas de informação de material confidencial, curiosamente direcionada apenas para a imprensa internacional. E quais seriam os objetivos se realmente estivermos a falar da informação que tem vindo a público? De alguma forma, impedir a paz, impedir um acordo de paz, impedir a retirada de Israel ou que fossem criadas condições para uma retirada de Israel de Gaza e de alguma forma caminharmos demasiado rápido, na perspectiva de Netanyahu, naturalmente, para o fim do conflito. Para Netanyahu é demasiado cedo porque ainda não foram alcançados todos os objetivos de segurança a longo prazo. Estaríamos aqui a falar basicamente na guerra das percepções, nas chamadas info-ope, operações de informação, que de alguma forma utiliza a informação que é veiculada como arma para poder tirar proveito. E é exatamente o que nos parece aqui alguma ação pré-planeada, uma estratégia pré-definida, em que diminuída a influência e o esforço internacional para que se caminhe rapidamente para a paz, que o governo israelita consiga controlar o processo e manter alguma capacidade de prosseguir com as missões militares no terreno.

Olhemos para aquilo que será a resposta do Irão. O Irão adverte para uma resposta forte contra Israel, isto tem sido discutido ao longo dos últimos dias. Andamos sempre em resposta, contra-resposta, contra-ataque. De facto, que resposta podemos ter do Irão, tendo em conta estes avisos que têm vindo a ser feitos durante os últimos dias?

Realmente parece um concurso de quem ataca por último. Uma triste analogia, mas é a verdade. Mas sobre isso eu queria deixar três pontos. Um primeiro é o sucesso que a ação de Israel teve, foi pouco veiculada, foi uma chamada resposta moderada porque não atacou áreas nucleares ou instalações nucleares ou instalações ligadas aos hidrocarbonetos, a pedido também dos Estados Unidos e de alguma forma foi uma concessão e também uma forma de evitar uma escalada. Mas a verdade é que conseguiu, seja por ataques aos sites de mísseis balísticos, seja para ataques às defesas aéreas do Irão, fragilizou, de facto, as posições iranianas e a possibilidade de desenvolver algum tipo de ataque mais forte, a chamada resposta forte. Os Estados Unidos, por outro lado, têm deixado bem claro e têm avisado o Irão que não irá permitir uma ação demasiado forte por parte do Irão, inclusivamente tendo já deslocado forças para sinalizar as forças pra região, seja os bombardeiros estratégicos B-52, sejam mesmo esquadras que realmente vieram dar algum reforço operacional de meios na região. O Irão em última análise não quer um confronto direto, não é esse o seu objetivo. Portanto, poderá responder através dos proxies, principalmente do Iraque e na Síria, mas também por algumas ações e o Irão tem tentado de alguma forma promover a reorganização dos seus vários proxies do chamado eixo de resistência e portanto poderá passar por aí um pouco, mas também poderá vir a desenvolver algumas ações limitadas e como naquele primeiro ataque nós vimos algo que de alguma forma estava quase que, eu diria com muito exagero é certo, que quase que negociado o ataque que iria sendo desenvolvido, tanto a nível de meios como a nível de alvos a atingir. Por isso, não estou neste momento com os dados que temos, a contar que seja um ataque realmente em força. No entanto, naturalmente que a dialética também é relevante e naturalmente que haverá algum tipo de ação. Esperemos que não motive de qualquer forma um grau de escalada elevado.

Mas tendo em conta este tipo de retórica e tendo em conta também o que acontece no terreno, bombardeamentos constantes de Israel a posições do Hezbollah, do Hamas, em Gaza, no Líbano e respostas também dessas forças, não está sequer, para os próximos tempos, possibilidade de vislumbrar um cessar-fogo ou vê de outra forma?

Não, infelizmente não vejo de outra forma. Não vejo ainda condições para esse efeito. E por quê? Apesar da diplomacia ter estado sempre presente, os mediadores têm sido realmente incansáveis, alguns deles com ações extraordinárias e no sentido de promover algum tipo de proximidade. Mas a verdade é que para além de se aguardar as eleições, que neste momento está tudo em suspensa as eleições nos Estados Unidos, ainda não foi alcançado, eu tenho que falar várias vezes isto, o equilíbrio operacional. Por um lado, o Hamas neste momento não tem nada a perder, portanto está numa posição que realmente não lhe permite sequer entrar em negociações, por isso impõe uma retirada total de Israel. Isso nunca será aceitável para Israel. O Hezbollah, pelo seu lado, procura reorganizar-se, sofreu uma humilhação, mas ainda tem muita capacidade operacional, portanto também não lhe interessa neste momento desenvolver ações concretas de proximidade. Só o Irão poderia liderar esse processo desse lado, só o Irão poderia impor, mas verdadeiramente também não lhe interessa neste momento, dada a conjuntura global, e aí já estaremos voltando à questão de competição global, portanto não é também ainda o momento para o Irão. Israel está com a iniciativa, procura alcançar os tais objetivos que tinha definido De início e que apesar dos militares acharem que já está próximo de serem alcançados os objetivos militares, os objetivos políticos já ficou bem claro que ainda não estão alcançados e que ainda não estamos lá. O que poderemos esperar, no entanto, pós-eleições, é eventualmente nós termos algum tipo de capacidade dos Estados Unidos de imporem uma pressão tal que obrigue as duas partes a sentarem-se à mesa de negociações e de alguma forma conseguir, nem que não seja uma paz totalmente duradoura, mas pelo menos um cessar-fogo imediato, para depois podermos caminhar numa outra direção. Seja como for, e respondendo diretamente, ainda não me parece que estejam reunidas essas condições a curto prazo.

Jorge Rodrigues, falemos um pouco também da situação na Ucrânia, até porque hoje há aqui um encontro de alto nível na Rússia. Putin encontrou-se com a ministra dos Negócios Estrangeiros norte-coreana em Moscovo, quis enviar votos de sucesso a Kim Jong-un. Já tinha existido uma reunião na Rússia com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo e a ministra dos Negócios Estrangeiros norte-coreana. Agora encontro com Putin. Estão a estreitar as relações os dois países. Hoje foi também noticiado que a Coreia do Norte estará a receber dinheiro, alimentos e tecnologia espacial da Rússia para enviar os soldados que lutam contra a Ucrânia. Temos um estreitar de relações e temos tropas norte-coreanas prontas a combater contra a Ucrânia. O que podemos tirar desta ligação Rússia-Coreia do Norte?

Podemos retirar que são dois países numa situação complexa. Só aí se entende esta proximidade. Se por um lado nós temos uma Rússia que tem estado a desenvolver desde o início do conflito, tudo que lhe é possível para demonstrar que não está isolada e procura todo e qualquer parceiro que de alguma forma ligado ao Global South ou tudo que possa ser uma ação oposta ao sistema liberal ocidental. Portanto, de alguma forma procura esses diversos atores. Uns são maiores, como é o caso da China, e que já demonstrou alguma proximidade em alguns interesses conjunturais, mas depois procura também aproveitar outros atores de outra dimensão. A Rússia vem de um momento particularmente feliz. A convenção dos BRICS, em que estiveram 32 delegações, conseguiu passar essa mesma imagem de não estar isolada. Dessas 32 delegações, salvo erro, 26 eram de países e teve momentos altos, como foi exatamente a fotografia com o Xi, em que demonstraram interesses comuns, mas também a presença e alguns momentos com o secretário-geral das Nações Unidas, Guterres, que acabou por ser utilizado como propaganda. Naturalmente que neste caso concreto, a Coreia do Norte, que também precisa de reconhecimento internacional, está completamente isolada, acabou sempre por vir a apoiar o esforço russo através de armamento, através de envio de tropas. É consequência de um acordo de junho em que serve para demonstrar essa proximidade, mas também serve para algo particularmente importante para a Rússia, que é transportar a tensão para outras regiões. Algo que não tem conseguido fazer até agora e que de alguma forma isso lhe permite. Transporta a tensão para o Pacífico, transporta a tensão para uma área onde será mais relevante para o seu parceiro China, transporta ao ponto de obrigar a Coreia do Sul a uma resposta, a uma reação, que já tem sido obviamente aproveitada por vários atores, inclusivamente para Zelenskyy para reavivar a importância de apoiar as tropas ucranianas neste contexto. E já louvou, por exemplo, por elas promoverem a visita à Coreia do Sul. De alguma forma, vemos aqui uma intenção comum, conjuntural é certo também, mas é verdade, uma intenção comum de demonstrar que não estão isolados e que conseguem promover apenas os dois ou com outros atores, conseguem promover uma resposta ao sistema internacional liberal liderado pelos Estados Unidos.

Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas, muito obrigado por ter estado conosco nesta edição de Gabinete de Guerra.