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Este é o Som do Gabinete Guerra das Manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise de hoje é do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia. Obrigado.
Bom dia. Começamos pela aprovação do plano dos Estados Unidos pra criação de uma força internacional de estabilização em Gaza, plano aprovado esta noite pelo Conselho de Segurança da ONU, que autoriza, assim, a entrada da força internacional no território. Bruno, e agora, o que segue, quando se sabe que o Hamas se opõe à entrada desta força internacional?
Bem, em si é uma boa notícia, mas realmente há essa oposição declarada do Hamas. Vamos ver se isso não tem impacto no passo crucial seguinte, que é a constituição da Força Internacional de Paz, uma força mandatada pelas Nações Unidas, geralmente aquilo que nós chamamos os capacetes azuis. Porque realmente os capacetes azuis são tropas das Nações Unidas no sentido em que têm esse mandato e até por isso muitas vezes têm os famosos capacetes azuis, mas não são apenas tropas nacionais, têm um mandato internacional multilateral. Mas a verdade é que é preciso os países, de facto, fornecerem essas tropas, porque as Nações Unidas em si não têm um exército. Para já, aparentemente, o embaixador dos Estados Unidos na ONU veio dizer que a Indonésia e o Azerbaijão já tinham confirmado essa disponibilidade, mas ainda assim será curto e serão precisos mais países e ver realmente se isso avança rapidamente, porque à partida uma das missões-chave será realmente garantir a desmilitarização, como é dito, do território, ou seja, a questão das armas. E depois também há a oposição do lado de Israel, como também ficou claro. Israel, realmente, por causa desta referência a uma negociação política que leve depois à criação de um Estado da Palestina, de facto, o atual governo israelita também deixou claro que não está de acordo com isso e que, portanto, de alguma forma, não se considera vinculado a essa parte da resolução que é aprovada. Enfim, eu diria que à partida, apesar de tudo, é um bom sinal que a aprovação tenha acontecido, mas é preocupante que partes que são cruciais, os dois grandes beligerantes, realmente não se mostrem completamente alinhados com o objetivo desta resolução.
Bruno, apenas dois países se abstiveram na votação, China e Rússia. Que mensagem passam ao mundo? O embaixador russo na ONU disse que esta medida faz lembrar as práticas coloniais britânicas durante a administração da Palestina.
Apesar de tudo, mostra que, de facto, não há um completo bloqueio no Conselho de Segurança, embora esta década de 2020, que ainda mal começou, já ameace ser recordista no número de vetos no Conselho de Segurança. É realmente um conselho tendencialmente bloqueado por estas rivalidades entre grandes potências. Apesar de tudo, realmente mostra que há limites a isso, ou seja, de facto, aqui é uma crise com um impacto global muito grande e, no fundo, os Estados Unidos conseguiram com sucesso dizer: "Bem, ninguém tem outra alternativa". Quem não deixar isto avançar, no fundo, está a assumir a responsabilidade de continuar a perpetuar-se esta situação. A própria Rússia tentou, aparentemente, avançar com uma resolução alternativa, mas realmente não avançou de todo. No fundo, é que estas duas grandes potências rivais dos Estados Unidos não levaram as críticas ao ponto de realmente bloquear o processo, mas também, obviamente, não levaram a dificuldade em impedir o progresso ao ponto de aprovar, portanto, mostrar aqui um apoio real ao processo. Não deixam de manifestar sempre algum tipo de reservas. Em relação a esse tipo de conversa sobre colonialismo e imperialismo. Se há potências neoimperiais, atualmente são a China e sobretudo a Rússia. São verdadeiramente impérios disfarçados de Estados-nação. Desde logo, têm muitas minorias étnicas também oprimidas no seu interior. Basta lembrar os tibetanos na China ou os chechenos, por exemplo, na Rússia. No caso, a Rússia obviamente é realmente uma grande potência que pela primeira vez, desde 1945, parece querer recuperar aquilo que era a base dos antigos impérios, que é as guerras de conquista, a ideia de uma espécie de direito de conquista. Uma grande potência, basicamente, pela força, toma conta do que quer e fica com o que entender. Portanto, esse tipo de críticas realmente são completamente disparatadas vindas desses dois países. Além de que aqui há diferenças fundamentais, desde logo, isto parte de um mandato internacional e, portanto, não da ação de conquista de um país. Tem a ver com uma situação de crise que os próprios atores locais não conseguem resolver por si. Portanto, são os próprios atores locais que apelam a um envolvimento mais amplo e essa ideia, desse ponto de vista, não faz nenhum sentido.
Sobre a Ucrânia, destaque pro acordo histórico entre Zelensky e Emmanuel Macron, um acordo pra compra de 100 aviões de combate Rafale. Bruno, este é um sinal importante pra Rússia sobre aquilo que pode revolucionar a futura defesa da Ucrânia.
Eu acho que é um acordo importante, embora me pareça que neste momento era preciso gestos mais concretos e mais de curto prazo. Ou seja, isto é um projeto para o futuro Que tem também grandes implicações financeiras. Desde logo, não se percebe muito bem exactamente como é que vai ser pago, à parte também da compra de Gripens, que também foi anunciada. Isso aponta logo para um dos tais gestos concretos cruciais que temos estado aqui eternamente a discutir e que nunca mais concretizam, a questão dos tais 150 mil milhões de bens russos congelados na Europa. Se isso avançar, sim, este tipo de coisa até pode acontecer e sobretudo outras compras de armamento que sejam mais imediatamente necessárias e que possam contribuir realmente para o combate em curso. Mas sobretudo, parece-me que realmente aquilo que fazia falta neste momento era menos deste tipo de gestos que temos tido ao longo dos últimos três anos, muitos exemplos, e realmente apoio concreto, por exemplo, em questões como estes bens congelados ou questões como tudo o que tem a ver com o estrangular da exportação de petróleo russo, que tem sido crucial para alimentar o esforço de guerra, financiar o orçamento de guerra russo. Por exemplo, em torno da questão desta frota fantasma de navios que permitem exportar o petróleo russo. Há toda uma discussão em torno de multiplicar as inspeções, as interseções desses navios que, por várias razões, estão ilegais, geralmente, não cumprem muitas vezes condições mínimas de segurança na navegação, etc. Tudo isso podia levar facilmente a que esses navios fossem interceptados e parados. Acho que isso seria eventualmente mais importante que este tipo de gestos que já vimos muitos exemplos e não têm um impacto imediato. Mas em termos de perspectiva de futuro, realmente, nesse aspecto é positivo, ou seja, aponta para um avião de quarta geração e meia, vamos dizer assim, mas que permitiria à Ucrânia estar próxima daquilo que são aviões de última geração e, desse ponto de vista, ter um poder aéreo a um nível mais próximo daquilo que a Rússia está a desenvolver.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Boa semana.
Obrigado. Bom dia.
Obrigada, Bruno. Bom dia.