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Começa agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Hoje com análise de Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Bom dia, Francisco. Bem-vindo.

Muito bom dia.

Muito bom dia. Começamos pelo número dois dos Estados Unidos, que está em Israel, supostamente a preparar a segunda fase do acordo. Francisco, J.D. Vance, que no processo de paz esteve mais na retaguarda, disse ontem que não há prazo para desarmar o Hamas. Isto não vai contra os ultimatos que Trump tem feito?

Mais ou menos. Porque Trump tem dito uma coisa na segunda-feira, outra à terça, outra à quinta. Não sabemos exatamente qual será a posição. Aliás, ele foi sempre muito compreensivo com o Hamas numa primeira fase, dizendo inclusivamente que eles poderiam usar a força para manter a ordem, mas depois quando se percebeu o que isso significava, com execuções sumárias um pouco por toda a Faixa de Gaza, veio dizer que iria atacar o Hamas se as mortes civis continuassem. E, portanto, Vance vai a Gaza, e eu creio que o próprio Kushner, o genro e o grande amigo Whitcomb também estarão, justamente para tentar perceber como é que se conseguirá manter a paz numa situação muitíssimo precária, que já sabíamos que era assim. Agora, o interessante é Trump não aparecer. Trump está lá para as fotografias, para os grandes acordos e depois a parte difícil deixa com outras pessoas, o que evidentemente é um problema. E realmente é extraordinário. Ele mudou completamente para a questão ucraniana, que também falaremos, e deixou a questão de Gaza em segundo plano, quando seria importante levar a questão até ao fim e conseguir a tal paz de 3000 anos que ele anunciou.

Francisco, além desta questão sobre desarmar o Hamas, J.D. Vance também descartou o destacamento de tropas dos Estados Unidos para a Faixa de Gaza, mas depois temos Trump há poucas horas a dizer que prefere, claro, evitar uma intervenção militar, mas que está preparado para agir se for necessário. Conseguimos perceber em que ficamos ou isto leva-nos à pergunta inicial? Trump num dia diz uma coisa, no outro dia diz outra.

O estilo de diplomacia do Trump é este. Ele abre sempre todas as possibilidades, justamente para deixar toda a gente na dúvida sobre aquilo que os Estados Unidos podem fazer. Ora, nós sabemos que algumas coisas que Trump diz são um bluff, provavelmente bluff, e essa é uma delas, porque uma das bases do trumpismo, e J.D. Vance é o delfim, alguém que criticava muito Trump, aliás, há notícias de coisas que ele dizia sobre Trump absolutamente horríveis, mas que se converteu completamente ao trumpismo. E uma das questões fundamentais do movimento MAGA é justamente esta: não metemos os Estados Unidos em guerras estúpidas. Aquilo que Vance diz é: tropas americanas em Gaza não vai acontecer, como não vai acontecer na Ucrânia. Mas Trump abre sempre essa possibilidade, mesmo todos sabendo que isso é completamente contra tudo aquilo que eles sempre defenderam, que não queriam que os Estados Unidos se envolvessem diretamente. Portanto, eu acreditaria mais em Vance do que posso, neste momento, em Trump, mas Trump é um negociante e portanto ele não gosta de mostrar que não tem cartas e portanto tenta no fundo dizer que tem o baralho todo, justamente para tentar conseguir ganhos negociais.

Sobre a guerra na Ucrânia, antes do encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin, em Budapeste, houve uma reunião preparatória entre Marco Rubio e Sergei Lavrov, que dizem que terá sido positiva, construtiva. Sabemos mais, Francisco, sobre esta reunião?

Não. O que nós sabemos é que não há reunião marcada entre Trump e Putin.

Exatamente, não há data.

Não há data. E também que não há data para uma reunião presencial entre Lavrov e Rubio. E portanto, há aqui informação que não é muito clara neste momento sobre se avançará ou não para uma reunião entre os presidentes, porque isso dependerá sempre de se perceber se haverá aqui alguma luz no fundo do túnel, pelo menos para um cessar-fogo, que é aquilo que Trump quer a todo o custo. Ora, os russos continuam a fazer exigências que Trump procurou obter dos ucranianos e aparentemente terá sido uma reunião com muitos gritos, porque os ucranianos dizem que não aceitam, como não aceitavam há dois meses, ceder território. E portanto, é muito difícil que se avance para uma reunião entre presidentes se não houver perspectivas de os russos eventualmente aceitarem cessar as hostilidades, mesmo que de forma provisória. E eu creio que nesse aspecto Rubio é muito mais prudente do que o próprio Whitcomb e portanto não dirá a Trump para avançar para uma reunião se não existirem perspectivas de apresentar alguma coisa ao mundo. Trump é o presidente da paz e quer o Nobel e portanto se for mais uma cimeira como aquela do Alasca, verá a sua reputação muito afetada.

Mas Francisco, Trump alguma vez deixou de verdadeiramente estar mais do lado da Rússia? E os mísseis Tomahawks não serviram só para chamar a atenção de Putin.

Eu acho que Trump é um comerciante e portanto quando percebeu que podia vender armas à Ucrânia, que seriam pagas por nós, os europeus, não hesitou. E portanto, neste momento os americanos já terão vendido 2000 milhões de armas que são usadas contra a Rússia. Portanto, eu não acho que Trump seja um ativo russo, aqui parafraseando o nosso presidente da República, porque se fosse não venderia armas à Ucrânia. Agora, também não é um ativo ucraniano, no sentido em que ajuda a Ucrânia se lhe for benéfico, se vender armas. Portanto, eu creio que no final do dia, ele procura tomar as decisões que ele considera que tragam mais benefício aos Estados Unidos, ainda que isso não traga benefício nenhum nem aos seus aliados europeus, nem aos seus aliados ucranianos, nem aos seus adversários russos. Portanto, a perspectiva de Trump é verdadeiramente transacional e portanto, é claro que é muito frustrante quando não é favorável aos nossos interesses, especialmente porque supostamente é nosso aliado e fazemos imensas coisas com os Estados Unidos que não resultam da circunstância de termos um ganho a curto prazo, mas Trump funciona exclusivamente a curto prazo. Tudo o que vai além para as futuras gerações, para ele nem entra na sua equação. Pelo menos é assim que eu acho que devemos olhar para Donald Trump e talvez nós estejamos errados.

Entretanto, Emmanuel Macron anunciou ontem uma reunião entre aliados esta sexta-feira. O que é expectável que saia de mais um encontro?

Eu acho que é muito importante. Temos aqui uma espécie de ação e reação. Putin liga a Trump, Trump muda de ideias e imediatamente os europeus reagem a uma só voz, em grupo, para pressionar Trump. No fundo, para mostrar a Trump que a decisão de se aproximar da Federação Russa terá consequências para os Estados Unidos, resultantes da circunstância de nós sermos os aliados e ter muito mais a ganhar conosco do que com os russos. E por isso é que Macron e a coligação das vontades se vai reunir a um plano de paz, também para apresentar a Trump, mostrando que temos aqui iniciativa, que temos agência e que temos que ser chamados para a mesa negocial, porque isto é uma questão que interessa não apenas à Ucrânia, mas essencialmente à Europa. Macron já disse várias vezes que isto é uma guerra existencial para a Europa. Portanto, eu creio que ele acredita mesmo nisso. E para esse efeito, isso significa que não pode haver uma paz na Ucrânia que seja contrária aos interesses europeus. E pressionar os Estados Unidos, eu creio que esse é o ponto essencial. Basta lembrar que a seguir à cimeira do Alasca, vários líderes europeus viajam para Washington para ter uma reunião com Trump, uma reunião simples, simplesmente para estar com Trump. Eu creio que é esta dança à volta de Trump que explica estas movimentações destas semanas.

Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela sua análise. É mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia.

Bom dia. Obrigada.

Obrigada, Francisco.