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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do antigo professor catedrático de História na Academia Militar, António José Telo. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por abordar o memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irão, o documento que pode levar a um acordo de paz no Médio Oriente. Há muito ainda por detalhar, mas começo por lhe perguntar, António José Telo, se este memorando de entendimento é sólido ou frágil perante toda a situação.
Boa tarde. Diz muito bem, utilizou muito bem a expressão, "pode levar". Eu já ouvi inclusive pessoas dizerem que isto é um acordo de paz. Não é. Independentemente do seu conteúdo, que nós não conhecemos ainda no concreto, mas trata-se de um memorando de entendimento. No fim ao cabo, o que é que ele pretende? Por um lado, levantar o duplo bloqueio do Estreito de Hormuz, quer do lado iraniano, quer do lado americano, e levantar também o bloqueio dos portos. Em segundo lugar, abrir negociações pra haver um entendimento sobre as questões principais, principalmente a questão do nuclear. E em terceiro lugar, prolongar o cessar-fogo. É só isso. É meramente uma janela aberta para começarem as negociações com prazo, que é dado 60 dias, mas que certeza não vão ser 60 dias, não tenho qualquer dúvida, vão se prolongar. É um memorando que tem muitas fragilidades, mas o fato dele entrar em vigor, em si, representa uma importante vitória para os Estados Unidos e uma importante vitória para os moderados do Irão, porque de fato o Irão está extremamente dividido. Há muitas fações lá dentro, há muitas capelas, mas de fato há uma divisão, no essencial, entre moderados e fundamentalistas que querem o jihad do sacrifício e que querem prolongar esta guerra e que consideram que está tudo vencido e que o Irão já venceu a guerra, etc. O fato deste memorando vir a ser assinado e abrir, pelo menos, pra continuação do cessar-fogo, é uma vitória dupla. Agora, temos que entender os objetivos das várias partes, que nenhuma delas corresponde àqueles que são os objetivos sociais. São objetivos bastante mais vastos e mais amplos. Não sei se quero entrar nisso.
É uma questão que podemos entrar, sem dúvida, António José Telo. O que é que lhe parece que há aqui para detalhar com mais intensidade?
Comecemos pelos Estados Unidos. Os Estados Unidos, neste momento, o que querem são mínimo de cinco, seis meses, talvez mais, de continuação do cessar-fogo e sobretudo do Estreito de Hormuz aberto. Está disposto a enormes concessões, que é o que está a fazer neste momento, para conseguir isso. O que representa para os Estados Unidos cinco, seis meses? Representa, por um lado, uma solução em termos do preço do petróleo e da insatisfação interna pelo aumento do preço do petróleo e pela inflação interna nos Estados Unidos. Representa a hipótese de colocar, em termos da opinião pública, que toda a operação até agora terminou com uma vitória e, como tal, conseguir recuperar o terreno pras eleições de novembro e permitir aguentar as eleições de novembro, eventualmente com inclusive uma vitória dos republicanos, porque entretanto serão dados, estou certo disso, várias contrapartidas e rebuçados, perdoada a expressão, mas rebuçados do ponto de vista econômico e financeiro, que irão melhorar bastante a situação em termos dos eleitores do Partido Republicano. Isto para os Estados Unidos é importante. Representa uma outra coisa, que é uma desvantagens desta guerra: obriga os europeus a optarem. Os europeus no Médio Oriente vão ter claramente de optar ou estão do lado americano ou não estão. Sendo que, sem ser o lado americano no Médio Oriente, não há muitos mais. Eventualmente, o lado israelita, que não é exatamente o mesmo que o americano, mas fora isso não há muitos mais. Não há um lado europeu, porque a Europa, pura e simplesmente, é uma ausente desta crise do Médio Oriente. Sem ser o lado americano, só o lado chinês no Médio Oriente, que é também o que poderá vir a ser o lado do Irão. Ou há o caos, que seria uma vitória do Irão, que é a pior coisa possível pra Europa, ou então, de fato, há um Médio Oriente organizado à volta da China, coisa que não me parece que iria favorecer a Europa de nenhuma maneira, antes pelo contrário, ou então o lado americano. Os europeus vão de fato ser obrigados a optarem de vez e ver o que é que os seus interesses ditam, o que eles querem fazer no Médio Oriente, porque até agora, de fato, o que têm feito é pôr-se fora do problema, que significa perder muitas das posições.
António José Telo, falou na Europa, falou nos Estados Unidos, e há aqui ainda uma questão que surge deste memorando de entendimento, é que ao que tudo indica, não prevê a retirada de tropas israelitas do Líbano. Este não pode ser um ponto de discórdia e de conflito no período que se segue? E também onde é que fica Israel no meio deste memorando?
Há três lados diretamente envolvidos nesta guerra. Os Estados Unidos, Israel e o Irão No caso de Israel, também vai ter eleições, a lógica é bastante diferente. A lógica dos Estados Unidos é uma lógica de reorganizar o Médio Oriente como passo para uma reorganização do sistema internacional. Portanto, essa é desde o princípio a lógica. Não é tanto uma questão do nuclear, embora isso seja importante, não é tanto uma questão do estreito, que não afeta muito os Estados Unidos, mas é isso. Do lado de Israel, é uma questão existencial para Israel, porque se trata de consolidar as vitórias que conseguiu. Agora estou a falar da perspectiva do governo de Israel. Que vitórias? A ameaça terrorista em Gaza praticamente desapareceu. Ou seja, o Hamas em Gaza, na parte da organização militar capaz de montar uma nova operação terrorista contra Israel ou até de lançar mísseis ou foguetes como fazia regularmente contra Israel, já não existe. Portanto, foi uma vitória importante de Israel. Depois, aquilo que podemos chamar a direita de Israel, a direita do governo atual de Israel, conseguiu também avançar em termos de novos colonatos, nomeadamente na Cisjordânia, o que vai ser um dos pontos mais polémicos nestas próximas eleições e vai ser um dos pontos à volta do qual nestas próximas eleições em Israel se vão decidir. Há uma coisa que ainda não está completa e é por isso que Netanyahu tem tanta relutância em aceitar este acordo do Irão, que é eliminar o Hezbollah como ameaça terrorista a Israel. Ou seja, o Hezbollah estava mais armado que o Hamas, tinha pelo menos o triplo de foguetes e de mísseis. Teve agora um abalo muito forte que a sua principal via de abastecimento pela Síria foi cortada, mas continuou a mandar sistematicamente, sempre que podia, foguetes, morteiros, mísseis para o norte de Israel. Portanto, esta ocupação daquela faixa do sul do Líbano é o mínimo que Netanyahu precisa neste momento para consolidar minimamente a sua posição nas eleições. Não é ainda a vitória que ele queria no Líbano, porque a vitória que ele queria no Líbano era, em conjunto com o governo do Líbano, em conjunto com o governo da Síria, eliminar o Hezbollah enquanto ameaça terrorista a Israel. Isso ainda não conseguiu, mas aquela faixa do sul do Líbano dá pelo menos uma garantia mínima de que o Hezbollah não vai fazer ataques na escala que fazia anteriormente. Portanto, isto é uma vitória de Netanyahu que o favorece e que o coloca numa posição relativamente favorável nestas eleições. Já agora, nestas eleições, se Netanyahu não as ganhar, quem as ganha é uma coligação à direita. Não é à esquerda, é à direita.
António José Telle, temos ainda um minuto e meio para abordar a questão ucraniana, até porque depois deste memorando de entendimento, Donald Trump aparenta já ter um novo foco: a guerra na Ucrânia, precisamente, diz o presidente norte-americano que é possível fazer alguma coisa. Num minuto e meio, António José Telle, o que é que pode fazer Trump na Ucrânia?
Trump, quando resolver minimamente a questão do Médio Oriente, vai-se virar para a Ucrânia, porque essa faz parte do seu objetivo a seguir. E o seu objetivo a seguir é rever a política em relação à Rússia, não só a americana, mas também a europeia. E para isso necessita de resolver a guerra da Ucrânia. Inclusive, vimos há relativamente pouco tempo o presidente Trump fazer um apelo à China para pressionar a Rússia para aceitar uma paz na Ucrânia, o que é muito significativo. A China tem uma posição fortíssima, quer na Ucrânia, quer no Irão e no Médio Oriente. Portanto, o objetivo de Trump é esse, é conseguir resolver a guerra da Ucrânia minimamente a contento da Ucrânia de Kiev, o que implica, nomeadamente, que a Rússia desista da sua exigência de que a Ucrânia abandone a parte não ocupada do Donbass para, a seguir, poder dar o passo que é o de rever as relações com a Rússia e levar a Europa a rever as suas relações com a Rússia. E tem algumas possibilidades dessa sua política ser bem-sucedida.
Chegamos ao final do nosso tempo. Resta-me apenas agradecer ao António José Telle, antigo professor catedrático de História na Academia Militar. O "Gabinete de Guerra" regressa amanhã. Este e todos os episódios ficam disponíveis em podcast.