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"Gabinete de Guerra", podcast da Rádio Observador, um podcast em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Hoje, Bruno, boa tarde. O Irão diz que alertou a Rússia sobre os ataques em Moscovo. O Kremlin diz que desconhece este aviso. Como é que vês esta declaração do Irão e por que agora?
Boa tarde. Realmente é uma informação com credibilidade, porque vem da Reuters, uma agência noticiosa muito credível, que diz que tem três fontes iranianas que confirmam a mesma informação. Entre a Reuters e três fontes iranianas e um desmentido russo, ainda por cima assim muito genérico, quer dizer que não têm-
Peskov
...se calhar não sabe o Peskov, mas sabem os serviços de informações russos, que seriam aquilo o interlocutor normal dos serviços de informações iranianos. É credível também porquê? Porque o Irão tem uma particular atenção ao que se passa no Afeganistão. O Afeganistão é um país vizinho, tem uma particular relação de conflito também com o Daesh. Este movimento islamista radical é particularmente hostil em relação aos xiitas também, que é uma corrente que eles consideram herética. Há uma população xiita importante também no Afeganistão, os hazaras, que o Irão tradicionalmente considera um pouco protetor. E este movimento também já realizou ataques no interior do próprio Irão, o Daesh. Tudo isso dá alguma credibilidade a essa informação e só vem reforçar que havia aqui muita informação credível de fontes diferentes a apontar no mesmo sentido e inclusive, pode-se dizer, era normal que a Rússia desconfiasse de avisos dos Estados Unidos ou de potências ocidentais, mas tem agora um grande parceiro, um grande aliado, o Irão-
Também avisou
...da região, que aparentemente também avisou e esses avisos foram ignorados. Só vem tornar ainda mais claro que houve aqui realmente uma completa subestimação desta ameaça, provavelmente por razões políticas, porque realmente não correspondia a toda a narrativa do Kremlin, que se quer aproximar muito até de vários movimentos islamistas e do mundo muçulmano contra o Ocidente, e que escolheu ver no Ocidente o seu principal inimigo, a par da Ucrânia, e portanto ignorou, baixou a guarda em relação a estes grupos.
Sendo que o Kremlin mantém essa narrativa de que a Ucrânia é responsável em grande parte por aquilo que se passou. O Kremlin exige mesmo que a Ucrânia extradite o chefe dos serviços secretos ucranianos para a Rússia, diz que encontrou vestígios ucranianos no local do ataque terrorista. Isto surgiu hoje na imprensa russa. E há também um estudo, que está também na imprensa russa, e também alguns órgãos de comunicação social internacionais: mais de metade dos russos acredita que a Ucrânia participou no ataque de concertos em Moscovo. Portanto, esta tentativa russa de colar a Ucrânia aos ataques, podemos dizer que está a funcionar a nível interno?
A nível interno é fácil que funcione. Por um lado, as pessoas sabem a narrativa que devem reproduzir e, portanto, um problema das sondagens, mesmo quando são feitas por fontes credíveis, e esta até é uma organização que trabalha a partir da Polónia, é que não sabemos se as pessoas estão a dizer aquilo que realmente acreditam, se aquilo que acham que é seguro dizer, porque não sabem se estão a ser escutados ou se de alguma forma aquilo é até um truque do regime para perceber quem é que está contra e tudo isso. Portanto, temos sempre de ver aqui com algum cuidado. Mas é normal que sim, porque realmente é um ambiente completamente controlado, altamente repressivo, censurado. As pessoas que não vão ativamente procurar, por exemplo, órgãos de informação ocidentais ou da oposição, que implica todo um esforço, digamos, de VPNs, etc. A informação que têm é toda ela propaganda, é toda ela da televisão oficial, da imprensa controlada pelo regime, que toda ela está a reproduzir isto o tempo todo.
Este estudo, por exemplo, aparece na imprensa independente russa.
Sim, exatamente. Eu não estou a pôr em questão a sondagem. Por isso é que eu disse, é realmente até de um organismo que trabalha a partir da Polónia. Agora, não sei se as pessoas realmente são completamente sinceras nisso. Independentemente disso, acho que aqui o que é extraordinário, seria um caso único na história da guerra, que é um país que está em guerra com outro, que está a invadir outro, exigir a extradição. Vamos imaginar que isto era realmente um ataque ucraniano. Eles estão em guerra. A Rússia passou o tempo a atacar alvos civis na Ucrânia. Exigiram a extradição dos chefes dos serviços de informações do país com o qual ela está em guerra. Isto realmente mostra o nível de arrogância imperial que neste momento é visto como normal na Rússia. A resposta do lado da Ucrânia, aliás, diga-se, foi dizer: "Isto é um mandato russo, que nós naturalmente vamos ignorar, como quase tudo aquilo que vem da Rússia não merece crédito, mas há um mandato internacional, mas não é para os chefes dos serviços de informações ucranianos, é para os chefes de Estado russo". No fundo, dá a entender: "Quando o Putin se entregar ao mandato internacional, respeitar esse mandato internacional, talvez nós pensemos nesse mandato russo sobre os chefes dos nossos serviços de informações".
Vamos falar aqui também um bocadinho do síndrome de Havana, que apareceu nas notícias nos últimos dias. Estamos a falar de um síndrome apontado para fortes enxaquecas, lesões cerebrais, entre forças norte-americanas. Isto afetou diplomatas dos Estados Unidos da América e agora está a ser dito que pode mesmo ter sido obra da Rússia. Primeiro, antes de falarmos da origem de tudo isto, o que é o síndrome de Havana, Bruno?
É uma queixa, vamos dizer assim, porque não há um consenso médico. E aliás, o que os médicos dizem é que não há evidência física muito clara que explique esses sintomas, mas no fundo são sintomas que têm a ver com dor de cabeça muito fortes, tonturas, etc., que começaram a afetar uma quantidade suspeita de diplomatas americanos que estavam a trabalhar na embaixada americana em Havana E depois houve queixas desse tipo também noutras embaixadas americanas. A posição oficial dos Estados Unidos é que depois de fazer uma série de investigações, realmente não encontrou provas, o que também não é dizer com certeza que não foi, mas não encontrou provas de que houvesse aqui algum tipo de ação hostil, portanto, que isto fosse o resultado de algum tipo de ação hostil por parte do regime cubano ou do seu grande aliado histórico, neste caso, a Rússia. Esta nova investigação, por um consórcio jornalístico da CBS, dos "60 Minutes", que é o programa 60 Minutos.
Aponta para uma agência russa de espionagem que estará na origem de tudo isto.
Sim, aponta para os serviços de informações militares russos, para o GRU, que têm também uma unidade de ação direta, como se diz na linguagem mais ομά, ou seja, de assassinato. É a versão um pouco mais realista do James Bond, licença pra matar. Portanto, há aqui uma espécie de cruzamento entre forças especiais e serviços de informações, sobretudo nestas agências de informações militares. E portanto, seria uma espécie de arma experimental desenvolvida por esses serviços. Ainda assim, acho que com a informação que temos, ainda é cedo pra nos pronunciarmos taxativamente. Agora, realmente há aqui qualquer coisa de estranho. Pode ser que um fenômeno psicológico, até de influência mútua das pessoas. Pode ser que seja alguma coisa que até agora o Estado americano não conseguiu detetar, mas que este coletivo de jornalistas, o que às vezes acontece, a investigação jornalística consegue perceber coisas que os Estados não se aperceberam ou eventualmente até não acharam conveniente divulgar.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai pro ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois das notícias das 16h. Está sempre disponível em podcast. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.