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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E vamos começar pelo acontecimento que está a marcar o dia, pelo menos no campo geopolítico, os encontros na Casa Branca. E começando pelo primeiro, Volodymyr Zelensky e Donald Trump estiveram reunidos. Em cima da mesa esteve a produção de mísseis Patriot e os esforços diplomáticos para alcançar a paz. Pergunto-lhe que progressos reais é que podem sair deste encontro?
Olá, muito boa noite e obrigado pelo convite. Bem, em primeiro lugar, há que destacar que esta reunião ocorre num bom momento para as relações entre Donald Trump e a Ucrânia, entre o líder Zelensky, e de facto, isso tem-se percebido nas últimas semanas com uma aproximação até crescente de republicanos que no passado foram adversos à Ucrânia e muito próximos de Donald Trump, aliás. E, portanto, pode-se esperar que desta reunião, pelo menos, surja a indicação que os Estados Unidos vão continuar a apoiar a Ucrânia. A notícia, que já foi dada no passado, que irão permitir à Ucrânia construir o sistema Patriot, obviamente é positiva, obviamente não chega, porque essa construção irá demorar algum tempo e não vai a favor do que a Ucrânia necessita para o momento, que é continuar a ter fornecimento de armamento e de apoio militar americano, mesmo que seja através da compra desse armamento por parte dos aliados europeus. Por outro lado, neste momento parece-me que Donald Trump está muito mais sensibilizado para a questão ucraniana e para os interesses ucranianos do que estava no início do seu mandato e tudo aquilo que aconteceu nos primeiros meses. Portanto, parece-me que, até porque já sabemos de como correu a reunião, foi uma reunião positiva para a Ucrânia e parece-me que a Ucrânia neste momento poderá continuar a ter o apoio americano e aquilo que Zelensky disse, que também espera que Donald Trump ajude a obter um acordo de paz com a Rússia e talvez agora, mediante este novo contexto em que vivemos, Donald Trump vá pressionar o Vladimir Putin a fazer um acordo. Porque o que aconteceu nestes primeiros meses, até diria neste primeiro ano e pouco da administração Trump, foi que a administração Trump, como sabemos, apenas pressionava o lado ucraniano para alcançar a paz, no fundo, defendendo sempre teses muito próximas de Vladimir Putin e o que aconteceu nestes últimos meses tem sido precisamente o inverso e parece-me que esta reunião acontece na senda desse novo espírito de entendimento entre os dois países.
Horas antes do encontro com o primeiro-ministro israelita, Donald Trump deu uma entrevista onde deixou claro que tem ignorado a pressão de Netanyahu, dizendo também que o líder israelita quer que os Estados Unidos continuem envolvidos no conflito com o Irão. Isto não foi um mau pontapé de saída para esta reunião?
Bem, isso no fundo vem no seguimento do que já tinha acontecido nas últimas semanas, se calhar até desde aquele primeiro cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão, onde claramente se percebe que os interesses americanos divergem de Israel e do primeiro-ministro israelita. Nós sabemos que o objetivo de Israel sempre foi a mudança de regime e a liquidação do programa iraniano através desta intervenção. Os Estados Unidos nunca foram muito claros nesta intervenção. Foi-se percebendo logo nos primeiros dias deste conflito que o que eles queriam era terminar rapidamente esta guerra. Não têm feito. Desde o último cessar-fogo, percebeu-se que o Donald Trump deixou de ouvir e de atender aos interesses israelitas e no fundo, estas declarações de Donald Trump evidenciam mesmo isso, que os interesses neste momento são diferentes. Donald Trump precisa e quer terminar esta intervenção no Irão, obviamente em moldes positivos para os Estados Unidos, algo que não tem sido possível devido à intransigência iraniana. E Benjamin Netanyahu, que também é preciso dizer, está em muito maus lençóis internamente porque vai ter eleições em outubro e a sua situação nas sondagens está má e obviamente ele precisa do apoio americano para esta guerra com o Irão e neste momento esse apoio, pelo menos, já não é tão evidente e já não vai em favor do entendimento de Israel.
Faço-lhe também a mesma questão que fiz relativamente ao presidente ucraniano. Que efeitos práticos pode ter tido este encontro com Benjamin Netanyahu?
Bem, nós ainda não sabemos o que poderá acontecer. Agora, o que sabemos é que de facto Donald Trump tem demonstrado interesse em terminar a guerra. A intransigência iraniana está, se calhar, a testar os limites de Donald Trump e nós nos últimos dias temos percebido que Donald Trump tem dito, e alguns dos seus conselheiros têm dito, que não coloca de parte o regresso àqueles ataques devastadores do início da intervenção, e isso iria em favor dos interesses israelitas. Agora parece-me que os próprios militares americanos também estão muito reticentes que esse escalar da guerra poderia terminar com a resistência iraniana e, portanto, parece-me que Donald Trump continuará até mais não poder a tentar alcançar um acordo de paz com o Irão e que seja minimamente vantajoso ou pelo menos que não apresente os Estados Unidos como um grande derrotado desta intervenção, o que de facto, até porque se tem que se visto os acordos que foram ensaiados entre os Estados Unidos e o Irão, era o que iria suceder se esse fosse o desfecho final da intervenção.
A Casa Branca disse, entretanto, que as duas reuniões, tanto com o presidente ucraniano como com o primeiro-ministro israelita, correram muito bem. Eu pergunto-lhe que mensagem é que estes encontros, ainda para mais os dois no mesmo dia, que mensagem é que isto passa? Ia lhe perguntar se Donald Trump quer de facto terminar os conflitos, já me disse que sim, mas pergunto-lhe também se não é uma tentativa de o presidente norte-americano tentar aqui definir o rumo destes conflitos.
Donald Trump precisa, até mais no caso iraniano, de terminar esse conflito, pois os americanos neste momento são extremamente contra esta intervenção. Aliás, estava a haver uma sondagem desde o início dessa intervenção que o conflito é extremamente impopular, mas estamos precisamente no período mais impopular dessa intervenção. Donald Trump e vamos ter eleições intercalares em novembro e obviamente o seu partido precisa de terminar com uma guerra impopular. Por outro lado, na Ucrânia, Donald Trump, antes de assumir a presidência neste segundo mandato, disse que iria terminar essa guerra em 24 horas. Facilmente percebeu-se que isso não era possível. Ao longo deste último ano e meio, a sua posição, como explicava há pouco, tem evoluído. Uma coisa muito importante que me parece que fez com que Donald Trump nunca tivesse deixado cair totalmente a Ucrânia foi que a opinião pública americana sempre se demonstrou muito a favor da Ucrânia e contra a Rússia. Nestes últimos meses, como estava também a explicar, esse aumento dentro do seu partido de apoio à Ucrânia tem crescido bastante e, portanto, obviamente, Donald Trump tem algo a ganhar ao colocar-se ao lado da Ucrânia e mostrar ao povo americano que está, no fundo, a tentar ajudar a Ucrânia a resistir e a derrotar a Rússia. Portanto, eu acho que Donald Trump aqui tem dois objetivos distintos, mas de facto são importantes para reforçar a sua posição interna, visto que vamos ter eleições e está numa posição também fragilizada.
Um grupo bipartidário de senadores norte-americanos anunciou hoje um acordo sobre um projeto de lei que permitirá a Donald Trump impor novas restrições aos principais compradores de energia da Rússia, alargando também sanções ao Irão. Pergunto-lhe que importância é que pode vir a ter esta lei se for aprovada.
Essa lei, na verdade, que agora irá chamar-se Lei Lindsey Graham, e também é pelo motivo do funeral que esses dois líderes estão em Washington, e de facto foi um grande apoiante quer da Ucrânia, quer do ataque ao Irão. Mas de facto, já havia um consenso bipartidário desde o ano passado em aprovar uma lei nestes termos. O que aconteceu foi que os republicanos nunca avançaram para a sua votação no Senado, porque diziam que estavam à espera do acordo de Donald Trump. O anúncio, obviamente, hoje tem simbolismo por ser o dia do funeral do Lindsey Graham, um senador republicano que de facto nunca deixou cair a Ucrânia e se calhar também foi um dos motivos porque Donald Trump, de facto, nunca deixou cair a Ucrânia. E a ser aprovado, porque me parece que se vai a votação é porque Donald Trump já terá dado o OK aos republicanos para colocar essa lei em votação. No fundo, será importante para a Ucrânia, pois era um pacote de sanções que já há muito tempo vinha sendo exigido, não diria, mas pelo menos pedido pela Ucrânia e pelos seus aliados dentro dos Estados Unidos. Portanto, não deixará de ser uma muito boa notícia para Zelenskyy se esse pacote for votado e aprovado. Agora, como eu disse, não é novidade, porque já havia acordo desde o ano passado nos dois partidos para aprovar um pacote de sanções deste género.
Muito obrigada pela sua análise, Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Fica por aqui. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.