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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta quinta-feira, com análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Olá, Bruno. Começamos pelas negociações entre Washington e Teerão. Marco Rubio diz que o Irão não pode cobrar portagens no Estreito de Ormuz. Bruno, este braço de ferro pelas portagens não se pode transformar no rastilho que vai fazer colapsar os 60 dias de negociações?

Vamos ver. Realmente, em relação à questão do nuclear do Líbano, têm surgido notícias contraditórias, embora é importante dizer que no caso do estreito, aparentemente, no terreno, em termos dos factos, dos navios, se quisermos, tem vindo a haver uma retomada importante da navegação. Já estamos a falar de 70 navios por dia, de acordo com a informação do secretário de Energia americano, isso é mais ou menos metade do que era o volume normal. Os seguros também caíram mais ou menos para metade, os prêmios dos seguros, o que parece indicar que a indústria dos seguros, que acompanha de perto também estas informações, terá a informação de que tem sido possível a navegação sem riscos. Mas, de facto, temos informações contraditórias. Como dizias, o Marco Rubio, que tem andado pela região, o responsável da diplomacia americana, voltou a dizer aquilo que também dissemos aqui muitas vezes e que é bastante claro e não há controvérsia em torno disso, que em termos de direito internacional, é claro que o estreito Ormuz é um estreito internacional e, portanto, deve haver liberdade de navegação sem constrangimentos, sem taxas para a navegação civil, para o trânsito de navios civis. Mas, por outro lado, o Irão, nomeadamente a Guarda Revolucionária, por exemplo, veio dizer que tinha ouvido falar numa nova rota mais para sul, que é aparentemente também onde os navios estão a passar mais, mais junto, se quisermos, à costa do Omã e não tanto do Irão ou pela rota habitual, mais pelo meio do estreito, e que essa rota era perigosa e complicada, portanto, no fundo, voltando um pouco a ameaçar, aparentemente, a navegação de que isso poderia estar em questão. Acho que nessas, como noutras questões, temos de ver realmente como é a implementação, ou seja, como é que os dados no terreno vão ou não acompanhando aquilo que uma e outra parte vai dizendo. Mas esta é realmente a questão-chave para este cessar-fogo, este acordo de cessar-fogo, ser, apesar de tudo, um mal menor, que resolve aqui um mal maior, que era a interrupção da navegação no estreito, com todos os impactos negativos que se verificaram na economia global, ou se realmente, enfim, mesmo aí não consegue cumprir as promessas que vieram, sobretudo do lado americano.

Trump e J.D. Vance garantem que o Irão aceitou inspeções nucleares da ONU às instalações bombardeadas, mas Teerão desmentiu, diz que não há visitas planeadas e que o seu programa de mísseis balísticos não é sequer negociável. Bruno, outra vez, perante estas contradições tão profundas sobre urânio e os mísseis, neste caso, este memorando não corre o risco de cair ao primeiro teste no terreno?

Esta é realmente a outra questão fundamental. Era, na verdade, a grande questão original que originou o conflito. E realmente temos essas informações contraditórias. O Rafael Grossi, o responsável da Agência Internacional de Energia Atômica, que foi responsável pelo anterior regime de inspeções, que é quem em nível global tem essa experiência. Aliás, vale a pena voltar a sublinhar essa ironia, que é, de repente, os Estados Unidos de Donald Trump vieram a descobrir, foram obrigados a reconhecer que afinal, parece que para certas coisas, o sistema das Nações Unidas, ao qual pertence esta agência, no fundo, as chamadas organizações internacionais multilaterais, realmente têm alguma utilidade. Mas a verdade é que temos novamente informações completamente contraditórias. Donald Trump vem dizer que o Irão se tinha comprometido em inspeções até o infinito, que enfim, claramente é um exemplo daquela retórica hiperbólica de Donald Trump, e do outro lado, o Irão diz que se recusou sequer a falar com Rafael Grossi e com a Agência Internacional de Energia Atômica. Portanto, se calhar, a verdade está aqui algo no meio, não sei, é uma possibilidade. Sabemos que os dois, quer o governo iraniano há muito tempo, quer o governo dos Estados Unidos com Donald Trump, realmente apostam muito na propaganda e isso muitas vezes tem pouco a ver com a realidade, com os factos. O problema é que isso torna realmente muito complicado fazer aqui interpretação, análise com a mínima segurança. Portanto, temos de ir aguardando, ver o que realmente acontece e sobretudo, voltando à questão, também perceber até onde é que irá o regime iraniano, no fundo, aqui a esticar um bocadinho a corda e a tentar interpretar o acordo no sentido que lhe seja mais favorável, e também até onde é que irá Donald Trump, no sentido de que retomar a guerra, se calhar, também não é muito o interesse de Donald Trump, nomeadamente o seu interesse político e económico, tendo em conta que a guerra é muito impopular desde o início nos Estados Unidos.

Na outra guerra, a Ucrânia conseguiu paralisar a refinaria de Moscou por pelo menos seis meses. Isto, claro, vai resultar na escassez de combustíveis na Rússia. Com o Kremlin a admitir o regresso a curto prazo às negociações em Abu Dhabi com os enviados de Trump, este ataque cirúrgico da infraestrutura energética russa é a alavanca que Kiev tem para impedir que Trump e Putin imponham um acordo de paz injusto para a Ucrânia?

Realmente, para já está a ser o grande sucesso da Ucrânia nestes últimos meses, ou seja, tem sido um uso muito eficaz em termos táticos, mas também em termos estratégicos, desta aposta da Ucrânia nos drones. Tenho referido aqui este número que eu acho que vale a pena sublinhar, que é realmente uma Ucrânia em guerra, com grande parte do seu território constantemente a ser atacado, conseguiu transformar-se numa superpotência dos drones. Criou todo um ramo de Forças Armadas, está a produzir à volta de 800 mil drones por mês, mas além disso, aumentou muito a sua eficácia e o seu alcance e escolheu muito bem os alvos, porque muitas vezes nos conflitos armados também isso, é saber como utilizar com o máximo de eficácia algum tipo de armamento. Realmente, aquilo que os ucranianos perceberam é que estas infraestruturas energéticas que os russos estão a atacar desde o início da guerra, no caso da Ucrânia, são realmente muito vulneráveis, facilmente explodem, refinarias, por exemplo. E isso depois tem um impacto realmente estratégico em termos de dificuldades para a população. A Rússia já está a ter de racionar combustível, teve de suspender aparentemente as exportações de produtos refinados. Fala-se em ter de eventualmente importar produtos refinados, e isso tem um impacto terrível, de facto, na população civil, na vida quotidiana, além de que obviamente também tem um impacto no esforço de guerra, porque enfim, toda a máquina de guerra moderna também funciona com base em combustíveis fósseis.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Bom final de semana, Bruno.

Obrigado, bom dia.

Obrigada, bom dia.