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Gabinete de Guerra da Rádio Observador hoje com o Major General João Vieira Borges e num momento particularmente sensível, com as últimas informações que nos chegam do Golfo Pérsico. Irão ameaça romper com o cessar-fogo anunciado ontem às últimas horas da noite, um cessar-fogo de 15 dias. Ameaça romper este cessar-fogo se os ataques de Israel contra o Líbano continuarem. Há também a indicação de que o Irão encerrou outra vez o Estreito de Ormuz. Várias embarcações no Golfo Pérsico, de acordo com a agência de notícias Reuters, estão a receber mensagens de que o Estreito está encerrado. As embarcações que aguardam por autorização para atravessar o Estreito estão a receber ameaças de que serão atacadas e destruídas caso prossigam a viagem sem autorização das autoridades iranianas. Também há pouco, o mediador paquistanês do acordo de cessar-fogo confirma que há violações de tréguas e pede restrição a todas as partes. Major General João Vieira Borges, boa tarde, bem-vindo. Estamos num momento particularmente difícil. É frágil este acordo ontem anunciado por Donald Trump?
Muito boa tarde. É muito frágil. Não é frágil, é muito frágil, tendo em conta os atores envolvidos, designadamente o caso de Israel. Israel assumiu de imediato que a questão do Líbano não fazia parte do acordo, pressionando os Estados Unidos da América, que certamente terá que dar uma resposta em breve. A partir do momento em que o Irão não aceita relativamente a questão separada do Líbano, vai ser muito complicado gerir. Entretanto, Israel resolveu fazer o maior ataque sempre sobre Beirute, em particular, como que a resolver alguns problemas que tinha na sua base de dados em termos de objetivos militares, no sentido, porventura, de depois deixar que os Estados Unidos, passado um dia ou dois, então deem a resposta que todos nós esperamos, de que efetivamente estes 15 dias serão de verdadeiro cessar-fogo. Por outro lado, também é estranho porque os países do Golfo foram atacados já depois do acordo, muito embora aí a parte das comunicações do Irão relativamente a todas as forças dispersas no território, depois de terem sido atacados centros de comando e controle, podem não ter recebido as ordens no devido tempo. Vamos ver a evolução da situação, mas neste momento a bola está do lado dos Estados Unidos novamente, ou seja, vai ter que negociar com Israel e não vai ser fácil, porque esta guerra foi uma guerra de Israel.
Mas antecipa dificuldades para que os Estados Unidos consigam fazer prevalecer a vontade de cessar as hostilidades junto de Benjamin Netanyahu?
Já não é a primeira vez que Trump, a determinada altura, tem um discurso duro para com Netanyahu. Nós todos percebemos que Israel pretendia que a guerra continuasse até à destruição, pelo menos da componente militar da parte do Irão. Também percebemos que Israel, ao fim de uma guerra com esta dimensão, está fragilizado em termos militares, designadamente em termos de mísseis antiaéreos, dá para perceber facilmente, e precisa do apoio dos Estados Unidos nesta fase. Não pode ficar isolado numa guerra diretamente com o Irão. Neste momento, um grande problema está em, mais uma vez, Trump controlar Netanyahu. Se é Netanyahu que controla Trump ou se é Trump que controla Netanyahu. Neste caso ou nesta situação, é diferente de outras já vividas, já com esta administração o ano passado, julgo que neste momento Trump tem mais autoridade e até legitimidade, se é que podemos dizer isso neste caso, relativamente a Netanyahu. A pressão internacional é no sentido da paz. Os Estados Unidos, ao aceitarem o cessar-fogo, vão ter que o resolver com Israel.
Uhum! Senhor Major-General, aquele plano de 10 pontos apresentado pelo Irão é aceitável por parte dos Estados Unidos?
Foi aceitável a partir do momento em que uma hora e meia antes da decisão da catástrofe, Trump aceitou como um ponto de partida. É pelo menos isso que está a ser negociado, não os 15 pontos dos Estados Unidos, mas estes 10 pontos, dos quais certamente os Estados Unidos não aceitarão todos eles. Aliás, há aqui alguns que serão negociados por ambas as partes, mas é isso que faz parte da diplomacia tradicional e não da diplomacia que vinha sendo usada por Trump, se é que podemos dizer que era diplomacia. Aquilo que eu vejo nestes 10 pontos de mais crítico, segundo já alguns comentários feitos por Trump, tem a ver com o enriquecimento do urânio, da questão nuclear do Irão. Tem a ver com a questão nuclear. Até porque isso era um dos objetivos e certamente que não vai aceitar, os Estados Unidos não vão aceitar. Vão arranjar uma solução em que entra certamente a Agência Internacional de Energia Atômica, em que entra o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Vai se arranjar aqui uma solução com o apoio até da China e até mesmo da Rússia. A questão crítica também da retirada das forças de combate americanas, todas as bases da região, cria aqui um problema enorme para todos aqueles países do Golfo Esta é uma situação que em termos geopolíticos transforma a região. Havia ali divisões que grande parte do público não se apercebeu. Há grandes divisões, a começar nos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, há grandes divisões que não têm a ver só com a questão religiosa entre aqueles países, que foram alvos de ataques da parte do Irão, designadamente sobre as bases norte-americanas, que os uniu naquilo que é fazer face a uma ameaça comum, neste caso, o Irão. Mas, por outro lado, eles têm divisões. Eles agora também ficarão numa situação muito complicada, designadamente na relação com os Estados Unidos e naquilo que são as garantias de segurança. Portanto, vamos ver como é que funciona esta questão da retirada de forças de combate americanas. Certamente que os Estados Unidos não vão aceitar todas, poderão aceitar uma ou outra, que estrategicamente contribua para depois fazer face a qualquer outra ameaça do Irão. Mas vamos ver, há aqui questões nestes 10 pontos que terão que ser mesmo trabalhadas e não vão ficar estes 10 pontos, vão ficar ou 12, vão ficar 13, vão ficar alterados alguns destes pontos, mas é isso que é o processo negocial. Espero que vá a bom porto durante as próximas duas semanas.
Há uma condição imposta pelo Irão, o fim de todos os combates regionais contra os aliados iranianos. Isto implica alguma mudança relativamente àquilo que tem sido a intervenção militar de Israel em Gaza?
Sim, claramente. Aliás, já deu para ver, até pela sua introdução. Há pouco, quer relativamente ao Líbano, quer relativamente a Gaza. Eu acho que é importante não esquecermos Gaza, não esquecermos a Cisjordânia. Esse processo era um processo que foi estandarte de Trump, de vitória, nesse caso também negocial, mas o processo parou. Parou, mas não parou a guerra, não pararam os ataques, não parou a mortandade, não pararam as questões humanitárias. Esta guerra fez esquecer, apesar de ser uma guerra regional, mas que tem consequências globais para o bolso de todo o mundo, desde o agricultor até quem usa o seu automóvel. E portanto, fez esquecer todos os outros conflitos, não só a questão da Ucrânia, mas também, e sobretudo, a questão de Gaza, e ainda bem que falou nela, para além da questão do Líbano, que é bem visível diariamente. Portanto, este acordo tem consequências, na minha perspetiva, e por isso estou esperançado que se trate efetivamente de um acordo com bases de continuidade, com alguma sustentabilidade, para que depois continue o processo de Gaza. Agora, quem não tem interesse nisso, todos nós já percebemos quem é. E Trump, julgo, também já percebeu nesta guerra quem é que não tem interesse em que haja paz na região até que haja destruição total do Hamas ou do Hezbollah ou do Irão. Portanto, há aqui limites e os limites ou linhas vermelhas, conforme queiram, estão a ser ultrapassadas na relação entre Israel e os Estados Unidos, na minha perspetiva, e portanto, neste caso, a potência maior vai ter que pôr um travão a Israel, certamente, independentemente de Israel ter sempre a sua legitimidade de que está a defender o seu país perante ameaças, neste caso dos tais satélites. Vai ter que ser trabalhado, mas os Estados Unidos também vão ter que dar garantias de segurança a Israel. É um processo que não é muito fácil, certamente.
O senhor Major-General há pouco falava sobre a capacidade militar de Israel. Sugeria agora que nos centrássemos na capacidade militar do Irão. Pete Hegseth, o ministro da Guerra dos Estados Unidos, deu há pouco uma conferência de imprensa transmitindo uma imagem de que o Irão está nesta altura, sob o ponto de vista militar, bastante debilitado, sem capacidades para lançar mísseis balísticos, sem capacidades de defesa antiaérea. Este retrato corresponde à realidade? Está de facto numa situação de grande debilidade o regime iraniano sob o ponto de vista militar?
Eu julgo que sim. A dimensão na sua totalidade não a teremos nos próximos dias, mas daquilo que deu para perceber ao longo destas semanas, não foram dois, nem foram três dias. Ataques, daquilo que fui acompanhando diariamente, da parte dos Estados Unidos e de Israel em termos de ataques a infraestruturas, designadamente militares, e em particular as que tinham a ver com mísseis balísticos, as que tinham a ver depois com as Forças Armadas no seu conjunto e com a Guarda Revolucionária, eu julgo que estará muito enfraquecido o Irão. Essa é uma situação que levou, inclusivamente, à apresentação destes 10 pontos, independentemente dos Estados Unidos não virem a aceitar a grande maioria deles. Mas eles precisavam, e tiveram o apoio certamente da China, já assumido, precisavam de parar a guerra, precisam, em termos militares, de tempo para recuperar aquilo que é considerado mínimo pra sua defesa, não só neste âmbito da guerra com Israel ou com os Estados Unidos, mas até com os seus amigos tradicionais, entre aspas, como é o caso do Iraque e outras situações que nós nunca sabemos. Portanto, a resposta à sua questão, certamente ficou muito fragilizado. No entanto, na minha perspetiva, continua a ter capacidade, designadamente em termos de drones, em termos de mísseis, designadamente os mísseis balísticos, o que constitui ainda um dissuasor, quer se queira quer não, para aqueles países do Golfo e até mesmo para Israel. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, eu acho que aqui ficou muito limitado, mas, e o "mas" tem a ver, ainda é dissuasor, na minha perspetiva.
Assim sendo, será também do interesse do regime iraniano de fato levar por diante esta trégua face a esse estado de debilidade?
Claro. Claramente. Nós vimos que havia interesse não só dos Estados Unidos, deu para perceber, mas também do Irão. Portanto, esta é uma guerra em que não há interesse de Israel até à destruição total do inimigo, mas há interesse dos Estados Unidos e um grande interesse do Irão, sobretudo a partir do momento em que a ameaça ultrapassava a dimensão militar e os ataques seriam também sobre o povo iraniano e sobre infraestruturas de cariz civil. E isso, para o regime que assumisse isso, tendo tido a oportunidade de um cessar-fogo, iria ser muito complicado. Portanto, esta foi a medida mais adequada, na minha perspetiva, para o Irão, e agora vamos ver as próximas duas semanas.
O senhor Major-General há pouco fazia referência ao ataque de Israel contra o Líbano. Ora, há instantes, o ministro da Saúde libanês deu conta de que os ataques israelitas provocaram centenas de mortos e de feridos. É isso que diz o ministro da Saúde libanês. Senhor Major-General João Vieira Borges, muito obrigado pela sua presença neste gabinete de guerra, num momento particularmente precilitante relativamente ao cumprimento do cessar-fogo anunciado ontem à noite por Donald Trump, uma trégua de duas semanas entre os Estados Unidos e o Irão. A verdade é que as notícias que chegam do terreno não são animadoras.
Eu paro.