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Porta aberta para o gabinete de guerra da Rádio Observador. Eu sou o Miguel Cordeiro e vou estar à conversa com Tiago André Lopes, coordenador da licenciatura em Relações Internacionais da Universidade Portucalense. Começamos pelo conflito na Ucrânia e começamos com a informação de que Zelensky afinal já não visita Portugal, já não vai visitar também outros países que tinha na agenda, como Espanha, e cancela esta visita por causa da situação em Kharkiv. Professor Tiago André Lopes, o que sabemos do que se passa no terreno? Sabemos desde já que há combates intensos e que há soldados ucranianos a fazerem a retirada em alguns pontos de Kharkiv. Uma situação muito complicada nesta altura, nesta região ucraniana.
Sabemos que há as duas coisas a acontecer. Antes de mais, obrigado pelo convite para estar na Rádio Observador. Por um lado, temos a questão do campo de batalha. O facto de a Rússia estar de facto a avançar em Kharkiv é obviamente preocupante para a Ucrânia, porque está cada vez mais próximo o tal objetivo inicial de Vladimir Putin de conseguir controlar territorialmente todo o Donbass. Isso obviamente para Zelensky é preocupante, porque daí pra frente poderá haver uma nova ofensiva diplomática da Rússia de tentar dizer que está disponível pra negociar numa altura em que obviamente a Ucrânia não tem nem intenção, nem vontade para negociar. Essa é uma dimensão, mas há também uma outra questão que pode ter levado Zelensky a cancelar a visita, que é as reconfigurações no governo da Ucrânia também, a saída do ministro das Infraestruturas, a demissão do ministro da Agricultura, neste segundo caso, por suspeitas de corrupção, ou a própria demissão do chefe de segurança da equipa de Zelensky por mais uma tentativa de assassinato, que quase chegou a bom porto, de acordo com o gabinete do presidente. Há aqui uma série de indicadores de que ao nível, quer da frente militar, quer da própria frente política, e nós também sabemos, o Kiev Independent e o Kiev Post têm reportado sobre isso, que há alguma fadiga dos parlamentares, porque o mandato já era suposto ter terminado e ainda não terminou e de acordo com a lei marcial, só terminará quando a lei marcial deixar de estar em vigor. Obrigam a que Zelensky não se possa dar ao luxo de viajar no momento em que a política interna está mais fragilizada.
Com a situação interna complicada, é preciso adiar também estas visitas ao estrangeiro. Fica sem efeito essa visita que já estava a ser preparada pelo governo português e pelas autoridades portuguesas a acontecer na próxima semana. Entretanto, hoje temos declarações de Maria Zakharova, sempre polêmica, sempre com declarações também dirigidas ao Ocidente, hoje dirigidas a Portugal. A porta-voz da diplomacia russa criticou a posição hostil de Portugal contra Moscovo por causa da invasão da Ucrânia. Estima que, lamentavelmente, as relações luso-russas vivem a crise mais profunda de toda a história. Como é que podemos ler estas declarações de Maria Zakharova sobre aquilo que é a relação entre Portugal e a Rússia?
Obviamente, por um lado, e nós sabemos o que a Rússia costuma fazer tradicionalmente, há aqui alguma dramatização do lado de Moscovo. Mas a verdade é que o atual Ministério dos Negócios Estrangeiros é um pouco mais contundente nas suas opiniões. Em particular, o atual ministro dos Negócios Estrangeiros é mais vocal com relação aos assuntos com os quais ele tem alguma ligação direta e nós sabemos que ele é um apoiante acérrimo da Ucrânia, que defende até a noção de um aumento da ajuda à Ucrânia, que não é avesso a pelo menos uma discussão mais alargada sobre outro tipo de ajuda que se possa dar à Ucrânia. E o Ministério dos Negócios Estrangeiros anterior, o seu antecessor, não era tão vocal, era um pouco mais tácito, era um pouco mais cuidadoso na ideia de apoiar a Ucrânia, mas manter uma via para o diálogo com a Rússia, porque a médio e longo prazo será sempre necessária. O atual Ministério dos Negócios Estrangeiros parece não estar tão disponível pra isso, da mesma forma que se posiciona noutros conflitos, a questão do Oriente Médio, ainda recentemente vimos declarações que incendiaram até um pouco as redes sociais. É esta nova voz que o Ministério dos Negócios Estrangeiros quer procurar ter, que parece estar a causar, acima de tudo, surpresa na Rússia. Isto tem, contudo, um perigo, e o perigo é este: nós só temos alguma capacidade afirmativa se tivermos depois, de facto, capacidade efetiva de materializar o tipo de coisas que estamos a dizer. Eu acho que talvez um pouco mais de cautela seria de esperar, porque a verdade é que o peso e a força diplomática de Portugal dependeriam do peso e da força militar que Portugal deixou ter, porque nas últimas duas décadas desinvestiu.
É óbvio que há essa posição mais forte de Paulo Rangel, mas Zakharova diz que pela posição hostil assumida por Portugal desde o início da operação especial militar, chegamos a esta situação, mas a deixar também a referência que este momento atual é o pior nesta relação entre Lisboa e Moscovo, vamos dizer assim.
Exatamente.
Entretanto, temos ainda os Estados Unidos da América e essa relação com a Ucrânia. Tivemos uma visita de Blinken a Kiev, um compromisso, sinais dados à Ucrânia de que os Estados Unidos estão comprometidos com a defesa da Ucrânia. E hoje temos informação de que há mais 2000 milhões de dólares para financiamento militar para a Ucrânia. Os Estados Unidos nesta semana estão a deixar mais força neste posicionamento geopolítico também deste conflito, que é o conflito entre Ucrânia e Rússia.
Esta visita do Blinken é interessante e Pelo reforço do apoio à Ucrânia. É muito interessante pelo timing que acontece. Pode levantar contigo dois problemas e eu acho que Blinken tem que ter algum cuidado. Por um lado, parece estar a ser feita para limpar um pouco a face diplomática e política de Blinken, numa altura em que as suas sete visitas ao Médio Oriente redundaram quase todas em nada. E, portanto, pouca força de Blinken no Médio Oriente parece depois ser recalibrada com a sua maior capacidade de auxiliar o seu aliado ucraniano. Essa é uma dimensão. Mas o problema é que esta nova linha de ajuda financeira, que se vem somar à anterior, recentemente aprovada, que ainda não está totalmente implementada, vai voltar a galvanizar o debate dos republicanos contra os democratas em sede de Capitólio, de que a questão da Ucrânia é uma espécie de um saco sem fundo, onde o dinheiro apenas continua a aparecer. E a verdade é que, de momento, e nós sabemos que o equipamento militar ainda não chegou na totalidade, é verdade, mas de momento não há vitórias militares para justificar politicamente o reforço do investimento. Portanto, é uma jogada arriscada. Ainda para mais, e termino com isto, quando Blinken sabe que se lhe salva a face diplomática, ele também sabe que ao nível eleitoral, o eleitor norte-americano está muito pouco preocupado com as questões internacionais, está muito preocupado com as questões internas. E uma das questões internas preocupantes é o aumento rápido da dívida externa norte-americana e, portanto, os republicanos poderão tentar politizar este assunto para ganhar votos e para eventualmente ganhar a Casa Branca em novembro deste ano.
Estamos em ano eleitoral para os Estados Unidos da América, como em muitos pontos do globo, aliás. Entretanto, no conflito em Gaza, o conflito do Médio Oriente, hoje mais declarações de Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, diz nesta altura que falar sobre o dia seguinte à guerra, falar sobre o pós-guerra, enquanto a Hamas ainda existe, é algo que é inútil, até porque Israel tem esse objetivo e é o objetivo também de estar a avançar neste conflito, de acordo com Netanyahu, exterminar, vamos dizer assim, colocar um ponto final naquilo que é a existência do Hamas. É isto que quer dizer Netanyahu, que não vale a pena discutir o dia de amanhã se ainda há uma missão para cumprir no dia de hoje.
Não vale a pena discutir o dia de amanhã porque a carreira política e eventualmente até a liberdade de Netanyahu dependem da manutenção desta guerra. Não podemos esquecer que por um lado, Netanyahu enfrentaria em meados de outubro casos judiciais por suspeitas de corrupção que estão obviamente suspensos por causa da guerra em vigor. E por outro lado, Netanyahu sabe, tal como nós sabemos também, que há já um clamor de uma parte significativa da sociedade israelita a pedir por eleições. Portanto, no momento em que o confronto cessar, seja por cessar-fogo, seja por conclusão de objetivos militares que não são viáveis, e já lá irei, a verdade é que Netanyahu enfrenta o risco do governo colapsar logo a seguir, ir a votos, perder a eleição e depois ter que se ver a braços com a justiça. Portanto, para ele interessa a manutenção permanente do conflito e foi por causa dele também, não foi só, mas também, que ainda a semana passada o primeiro-ministro do Qatar falava em desistir do papel de mediador porque uma das partes queria apenas ganhos políticos pessoais e não resolver a questão humanitária. Depois, obviamente, neste jogo de Netanyahu há uma peça que nos falta, que a eliminação total do Hamas implicava conseguir eliminar também ou deter a liderança política. E nós sabemos que a liderança política do Hamas está no Qatar, estará eventualmente também, às vezes especula-se que haverá também alguns destes líderes a viver nos Emirados Árabes Unidos e portanto eles não estão na Palestina, estão longe do braço de Israel e portanto essa eliminação não é possível e vai acontecer, parece-me o contrário. Por causa do grau de mortalidade, da desproporcionalidade e da violência desnecessária que está a ser exercida sobre as populações, o Hamas vai conseguir recrutar com muita facilidade nos próximos 20, 30 anos.
De qualquer forma, com o conflito a decorrer hoje, o exército israelita diz que foram lançados cerca de 60 foguetes do Líbano para Israel, ataques que tiveram resposta dos equipamentos de defesa, mas mostra isto que, apesar de Israel estar a avançar no terreno, a bombardear vários pontos de Gaza e a preparar-se para avançar de forma mais forte em Rafah, a resposta também não para.
A resposta não para e vai escalar daqui para a frente. Por um lado, a ideia de que Israel está a avançar é um pouco dúbia, porque a verdade é que nós estamos a ver Israel avançar sobre Rafah, mas também a reavançar sobre o campo de refugiados de Jabalia, a voltar a atacar Khan Yunis, que por vezes diz que já controla, depois, semanas depois, diz que afinal não controla assim tanto. Essa é uma dimensão. A dimensão do aumento de ataques tem uma outra peça-chave que não está na região e que eu acho que é importante chamarmos a atenção. As eleições parlamentares iranianas já terminaram. Terminaram no dia 10 de maio, o Parlamento já está constituído e o Parlamento que saiu, para nós termos noção, tem 233 de 290 deputados possíveis que são da linha ultraconservadora. Ou seja, nós vamos provavelmente ter daqui para a frente uma nova escalada de uma violência mais contínua, mais permanente. Eu não ficaria surpreso se, entretanto, as Brigadas Al-Qassam ou até o movimento da resistência islâmica no Iraque começasse a entrar no jogo com uma periodicidade cada vez maior. Eu não ficaria surpreso se, entretanto, víssemos o próprio presidente do Irão e o ministro dos Negócios Estrangeiros voltarem a uma retórica diplomática mais agressiva e mais aguerrida. Portanto, eu acho que aquilo que nós vimos do Hezbollah esta semana pode ser apenas o começo de uma nova fase um pouco mais violenta, porque no lado diplomático, os Estados Árabes também já fizeram saber aos Estados Unidos uma coisa: estão disponíveis alguns Estados Árabes, entre os quais a Arábia Saudita, para reconhecer Israel, desde que haja um plano concreto para o estabelecimento efetivo da Palestina. E portanto, essa linha vermelha daquilo que era uma ambição antiga dos Estados Unidos e até de Israel, agora está na mesa, que é: "Sim, senhor, nós vamos a jogo, mas os senhores primeiro têm que nos dar uma linha que vai aparecer enquanto discutimos". É: "Dêem-nos uma data, dêem-nos um tipo de território e nós ponderaremos ou não reconhecer Israel".
Tiago André Lopes, coordenador da Licenciatura em Relações Internacionais da Universidade Porto Calense. Muito obrigado por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra.
Obrigado eu.