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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Major-General Isidro Morais Pereira, bem-vindo. O governo do Líbano pediu ao grupo extremista do país, o Hezbollah, para não retaliar o assassinato do vice-presidente do Hamas pelas tropas israelitas. O líder do Hezbollah está a falar nesta altura, ainda é preciso esperarmos um pouco pela tradução para perceber aquilo que está a dizer, mas de qualquer modo, o que prevê que vá acontecer? Este episódio pode fazer escalar a guerra com Israel, pode fazer entrar esta guerra numa nova fase?

Antes de mais, muito boa tarde. De facto, este episódio tem potencial para fazer escalar a guerra, fundamentalmente, no norte de Israel, no sul do Líbano, na fronteira entre Israel e o Líbano. É evidente que nada disto é algo de novo, nem sequer é uma grande admiração, porque o Executivo israelita e até o seu próprio ministro da Defesa e alguns chefes militares já declararam, de forma explícita, que o combate ao Hamas não se resumia apenas ao seu braço armado na Faixa de Gaza. Também iria incidir sobre o seu braço político e, curiosamente, Saleh al-Arouri é o número dois do braço político do Hamas. Ele e mais seis elementos com alguma relevância nesta direção política acabaram por ser eliminados ontem num ataque levado a cabo. Tudo leva a crer que por um drone equipado com mísseis e que naturalmente nos arredores da cidade de Beirute, havia a indicação que Israel teve conhecimento da localização destes destacados membros da direção política do Hamas e encarregou-se de os eliminar. É evidente que ao Líbano como um todo, ao governo libanês, não interessa, de forma alguma, que envolvesse numa guerra contra Israel, porque o Líbano, como nós sabemos, neste momento, é um Estado falhado que nem capacidade tem para controlar o seu território, porque se tivesse capacidade para controlar o seu território, não existiriam movimentos terroristas como o Hezbollah, no sul do Líbano, que têm praticamente o controle dessa faixa de terreno. Aliás, disso ecoam as declarações do governo libanês pedindo ao Hezbollah para não reagir a quente e para ter alguma contenção, para que isto não se traduza naturalmente numa guerra aberta, em bombardeamentos sobre o Líbano, que naturalmente terão prejuízo para as populações libanesas e para o país. Por outro lado, temos ouvido declarações, quer dos dirigentes do Hamas, como Haniyeh, que é o número um do braço político do Hamas, já hoje se manifestou e também dirigentes do Hezbollah a dizer que este tipo de ataque não ficará sem resposta. Portanto, vamos ver em que isso se traduz. Naturalmente que no meio disto tudo e na forma como isto poderá decorrer nos próximos dias, terá naturalmente influência das orientações vindas de quem tem vindo a apoiar militarmente e financeiramente este tipo de movimentos terroristas, que é o Irão, como sabemos.

E era isso mesmo que lhe ia perguntar, porque não podemos tirar o Irão desta equação, que enviou um navio de guerra para o Mar Vermelho, uma das rotas comerciais mais movimentadas do mundo, e esta decisão está a fazer soar os alarmes.

Está a fazer soar os alarmes. É naturalmente um desafio, que é colocado à coligação. Neste momento, penso que a coligação, com a finalidade de assegurar a liberdade de navegação através do Estreito de Bab-el-Mandeb e do Mar Vermelho, em direção ao Suez, já inclui cerca de 20 países capitaneados pelos Estados Unidos da América. Portanto, tudo farão para que a liberdade de navegação seja assegurada. É evidente que um navio, uma fragata enviada pelo Irão para estas águas, em termos militares, pouca ou nenhuma importância terá. No fundo, tem uma importância simbólica de se opor a este tipo de coligação, mas na prática, em termos militares, o significado é praticamente zero. Para além da mensagem que o Irão quer passar. E de facto, o Irão tem persistido em apoiar os Houthis do Iémen, fundamentalmente fornecendo-lhe meios. E que meios são esses? Fundamentalmente, meios de dois tipos: drones com alcances significativos e até mísseis como o Fateh, que já foi utilizado e eventualmente como o Zolfaghar, porque só com mísseis como o Zolfaghar, com alcances dessa natureza, é que os Houthis do Iémen conseguem alcançar a fronteira sul do Líbano, de Israel, desculpem o deslize. Portanto, o Irão é uma peça-chave e é o perturbador nesta região do globo, no Médio Oriente. É o Irão que tem financiado todos estes movimentos anti-Israel e, no fundo, também antiocidental. E também, por sua vez, por seu turno, se fizermos uma leitura mais abrangente dos acontecimentos O próprio Irão também está na alçada do Kremlin, porque têm sido amiúdas as visitas que altos responsáveis do governo iraniano têm feito a Moscovo. De facto, a quem é que interessou fundamentalmente que eclodisse um conflito desta natureza no Médio Oriente? Em primeira instância, isto interessou fundamentalmente à Rússia, que pouco falta para fazerem dois anos que se encontra envolvida num conflito de grande atrição na Ucrânia e que parece não ter fim à vista, como nós sabemos. Tudo isto está encadeado, não há aqui acasos. As coisas estão encadeadas e, aliás, ainda hoje fazem quatro anos da morte do major-general Qassem Suleimani, que era um dirigente da Guarda Revolucionária do Irão, acabou por ser, tanto quanto sei e me recordo, foi neutralizado por ação dos Estados Unidos.

Há quatro anos.

Há quatro anos e estavam a decorrer cerimónias dos quatro anos passados sobre a morte deste destacado militar do Irão, que foi morto pelos Estados Unidos porque os serviços de informações norte-americanos tinham chegado à conclusão que este homem era a origem do planeamento de ações contra quer diplomatas, quer destacados militares norte-americanos, e os Estados Unidos anteciparam-se e acabaram por pôr termo à vida deste major-general. Curiosamente, nesta efeméride acabaram por deflagrar duas bombas com cerca de 10 minutos de diferença, próximos do cemitério onde se encontram os restos deste major-general. Isto só para terminar. Prontamente o Irão resolveu colocar as culpas em Israel, só que nós sabemos que no Irão, a sociedade iraniana é tudo menos pacífica. Temos ali uma parte significativa do Irão, mas suficientemente distante. Temos o Curdistão iraniano, onde há uma forte oposição ao regime dos aiatolás, e ainda temos também outros movimentos oposicionistas ao regime dos aiatolás que podem muito bem ter sido responsáveis por este atentado. Não é líquido que o Irão tire conclusões imediatas que Israel está por trás deste atentado. Não me parece que seja algo que possamos neste momento levar por verdadeiro.

Entretanto, a tradução sobre o primeiro ponto na nossa ordem de trabalhos, esse discurso que está a ser feito pelo chefe do Hezbollah, está a chegar-nos aqui mesmo a conta-gotas. Para já, o destaque aqui, major-general, é apenas ele apelidar de flagrante agressão israelita essa morte do vice-comandante do Hamas. Para já é só isto, mas também já é neste tom duro, portanto, prevê-se essa retaliação de que fala.

É num tom duro que vem na sequência também de declarações de altos responsáveis do Hezbollah e que tudo indica que prometem vingança. É esta a leitura que fazemos aqui antes destes discursos. Vamos ver o que é que irá acontecer. Neste momento, aquilo que me parece é que Israel se está a preparar para essa eventualidade, até porque está a reforçar o dispositivo militar junto à fronteira com o Líbano, porque é bem possível que na sequência desta intervenção em Beirute possam naturalmente incrementar-se as ações violentas do Hezbollah contra Israel. Portanto, nessa eventualidade, Israel está a tomar medidas preventivas para poder fazer face a uma eventual escalada do conflito. Vamos ver o que é que acontece e seguir com atenção os acontecimentos, mas tudo indica que dentro das possibilidades, não apenas o Hamas, o Hamas está neste momento fragilizado, como nós sabemos, embora tenha alguma capacidade, porque ainda há bem pouco tempo lançou uma chuva de rockets sobre Israel, continua a ter alguma capacidade dentro da Faixa de Gaza, alguma capacidade para destabilizar porções significativas de território na Cisjordânia, mas de qualquer maneira, encontra-se fragilizado. Quer dizer, aquilo que poderá preocupar mais Israel não é uma atitude retaliatória por parte do Hamas, porque a capacidade militar do Hamas é conhecida. Agora, aquilo que o Hezbollah é capaz de fazer é que poderá trazer alguma dimensão diferente ao conflito. Vamos ver. De qualquer maneira, de sublinhar que alguns líderes europeus, como o presidente Emmanuel Macron, pediram alguma contenção por parte de Israel e também por parte do Hezbollah e do Líbano, mas vamos ver no que é que isso vai dar. Agora, eu não creio que este tipo de incidente seja único, porque nós sabemos que o braço armado do Hamas é dirigido por Yahya Sinwar, que Israel tenta neutralizar já há algum tempo a esta parte, ainda não o conseguiu, mas sobre o braço político, nós sabemos que Israel tudo fará para eliminar a cúpula política do Hamas, inclusivamente o seu principal líder, Haniyeh, que neste momento estará em paradeiro desconhecido, porque nós sabíamos que ele estaria no Qatar, mas o Qatar há uns tempos a esta parte declarou que não queria no seu território dirigentes do Hamas. É evidente que o Qatar tinha a noção que operações como esta, tudo leva a crer, embora Israel não tenha assumido a responsabilidade pela execução desta ação, mas tudo leva a crer que isto tem, naturalmente, o envolvimento da Mossad e das forças de defesa israelitas.

A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde, está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.