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"Ideias Feitas" na Rádio Observador. Bem-vindo, Alberto Gonçalves. O título da tua crônica é: "Apoiar Seguro é a nova demonstração de virtude."

Olá, Ricardo. É, parece que sim. É uma vaga imensa da demonstração de virtude que anda por aí e que vem de inúmeras pessoas mais ou menos conhecidas, mais ou menos conotadas com partidos à direita do PS. E essa vaga consiste em anunciar em público que vão votar no doutor Seguro. É um frenesim que tem alguma graça. Sobretudo, tem graça notar que algumas dessas pessoas nem sequer anunciaram o apoio a candidato nenhum da primeira volta, nem sequer ao candidato do seu partido, mas agora apoiam o doutor Seguro. Mais uma vez, com isto tudo, se comprova que uma certa direita, e estou a colocar direita entre aspas para não haver equívocos, pode ser direita, pode não ser exatamente isso, mas uma certa direita não resiste a mostrar que está ao lado da esquerda contra uns fantasmas que a própria esquerda inventou e obrigou essa direita a aceitar. E essa direita, como sempre, aceitou, porque como de costume, resigna-se com facilidade e muitas vezes até com algum gosto às diretivas da esquerda. Antes que me enviem mensagens com a conversa de costume, eu esclareço que não estou a dizer que os eleitores do doutor Marques Mendes, ou doutor Cotrim de Figueiredo, ou do almirante Gouveia e Melo deviam automaticamente votar em André Ventura na segunda volta. Eu percebo perfeitamente que não gostem do André Ventura, não gostem do estilo, não gostem do conteúdo. Eu nunca votei no doutor Ventura, nem no Chega e não é isso que está em causa. O que está em causa é a urgência e o empenho, não só no voto do doutor Seguro, que presumo que no recato da urna o cometam, mas eles fazem questão de proclamar esse voto aos quatro ventos. É isso que é mais notável em toda esta história. Porque se calhar não vá alguém desconfiar que fulano ou cicrano até podem desobedecer àquilo que a esquerda ordena e depois arriscam-se a ser excluídos do convívio social com as pessoas de bem. Muita gente não quer correr esse risco e, portanto, faz questão de vir aí, seja por que meio for, anunciar o voto do doutor Seguro. E isto atinge o cúmulo do ridículo quando se vê pessoas a condenar o doutor Montenegro, que é primeiro-ministro e é líder do PSD, por se ter abstido de endossar um candidato e não ter aconselhado o voto num socialista. Porque nenhuma dessas criaturas, que eu me lembro, e algumas delas, muito pelo contrário, criticou o doutor Costa quando há 10 anos ele desprezou por completo todas as tentativas, na altura de Pedro Passos Coelho, de conciliação, um esforço de conciliação que foi oferecido pelo PSD ao doutor Costa, e o doutor Costa rejeitou esse esforço e aliou-se a dois partidos comunistas para deitar um governo abaixo. E na altura, o argumento era de que havia uma maioria parlamentar à esquerda, é verdade, mas hoje não há. Hoje, praticamente cerca de dois terços do Parlamento estão ocupados por representantes de partidos que são partidos à direita do PS. Não sei se isto já deu uma cambalhota assim tão grande, mas acho que não. E mesmo assim, uma boa parte dessa imensa maioria, que a chamada direita nunca tinha tido, continua a cumprir as ordens da esquerda, a exata esquerda que nunca cumpriria quaisquer sugestões da direita, seja a direita de fato, ou a direita mais dura, ou esta direita entre aspas. Porque por subserviência da direita, as famosas linhas vermelhas não se aplicam à esquerda, como sabemos. E esta alegada direita sente uma necessidade quase física de não antagonizar a esquerda. E o sentimento, estranhamente ou não estranhamente, mas factualmente, nunca é recíproco. Nos dias em que se achou possível que Cotrim de Figueiredo fosse à segunda volta, houve ali um momento antes daquela história do assédio, não sei o quê, houve ali um momento em que se tornou relativamente plausível, provável ou possível que o Cotrim de Figueiredo fosse à segunda volta. O que não faltava aí nas redes sociais de pessoas que são ligadas ao PS ou que sabemos que votam PS ou votam outros partidos mais à esquerda ainda do PS, o que não faltava aí eram textos de que o doutor Cotrim, afinal, é mais um fascista. E isso não é novo. Qualquer pessoa que a esquerda não aprecie e que possa constituir uma ameaça, é um fascista. E agora temos, por exemplo, ex-eleitores do doutor Cotrim a afirmar, cheios de orgulho, que vão votar no doutor Seguro. OK, estão no seu direito. E essas pessoas, além de estarem no seu direito, explicam-nos, e é um direito também que lhes assiste, a gente é que não é obrigado a engolir a história, que os conceitos da esquerda e da direita estão ultrapassados, e é por isso que votam no doutor Seguro, porque essas divisões já não existem. Agora, a esquerda discorda. A esquerda continua a achar que essas divisões existem e faz questão de as vincar. A esquerda serve-se até da divisão da sociedade para poder mandar no que puder e conta com uma certa direita que eu não sei se é ingênua, se é suicida, se é masoquista ou o que é, mas conta com essa direita para lhe obedecer. E essa direita deixa-se constantemente seduzir por uma esquerda que a detesta. É um caso terminal de amor não correspondido e a ilusão de que a eleição do doutor Seguro será só mais um подробão mesmo para terminar, Ricardo. Aquela ideia de que a eleição do doutor Seguro será uma afronta a alguns setores da esquerda e em parte a algum PS, acho que é só uma ilusão, é só uma ideia, e acho que vai passar num instante após o doutor Seguro ser naturalmente eleito. Vai passar a ilusão, mas não vai servir de lição, porque esta direita, entre aspas, não há maneira de aprender.

Obrigado, Alberto, e até amanhã.

Até amanhã, Ricardo.

Alberto Gonçalves e as Ideias Feitas.

O Ideias Feitas conta com o apoio do Azeite Talismã.